D. DEVĠR SÖZLEġMESĠ OLMALI
3. Ġrade ile Beyan Arasında Uygunsuzluk Olmamalı
Só de nós mesmos depende ser de uma maneira ou de outra. Nossos corpos são jardins e nossa vontade é o jardineiro1.
Conforme vimos, as novas categorias sexuais criadas pela ciência, do último terço do século XIX ao primeiro do século XX, demonstram a tentativa de organização e sistematização dos novos padrões de corpo, visões de sexualidade e relações de gênero em uma também recente ordem social. Neste processo, a medicina e as ciências da psique não foram poderes impositivos absolutos, mas forjaram suas novas categorias em diálogos com outros campos sociais, como a religião e, especialmente, os iniciantes movimentos pelos chamados direitos civis, como a primeira onda do feminismo e dos recém-classificados “homossexuais”.
Enquanto o movimento feminista, com forte base e influência na Inglaterra, lutava por uma maior participação social e política, tendo como um dos focos a conquista pelo direito ao voto, os embates dos homossexuais, tendo como epicentro a Alemanha, visavam a descriminalização da troca sexual entre pessoas do mesmo sexo biológico, regulada pelo parágrafo 175 contido no Código Imperial de 18702 da lei alemã. Assim, algumas categorias de práticas como “sadomasoquismo” e seus correspondentes sujeitos como os
1 SHAKESPEARE, William (b), Otelo, o mouro de Veneza, São Paulo, Abril Cultural, 1978, p. 350 2 CASTEL, Pierre-Henri, Algumas reflexões para estabelecer a cronologia do "fenômeno transexual"
(1910-1995), Revista brasileira de História [online], 2001, vol.21, no.41 [citado 30 Março 2006], p.77- 111, disponível em
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882001000200005&lng=pt&nrm=iso. ISSN 0102-0188.
“sadomasoquistas” foram mais exotizados e associados à periculosidade que os “homossexuais”, pois estes contaram desde o início com uma leva de cientistas e pensadores, principalmente nas áreas das ciências da psique - que lhes eram simpáticos e ativamente militantes.
Desta maneira, Havelock Ellis, Karl Heinrich Ulrichs e Magnus Hirschfeld, entre outros, estavam comprometidos em demonstrar que, pessoas que sentiam atração erótico-afetiva por outras do chamado “mesmo sexo”, eram variações humanas inatas e benignas, não sendo passíveis de cura e muito menos discriminação ou punição. Por outro lado, uma segunda linha interpretativa via tais comportamentos e pessoas como claramente “doentes” ou “degeneradas”.
Por exemplo, mesmo se posicionando contra o parágrafo 175 e assinando um manifesto contra a criminalização da homossexualidade, Krafft- Ebing ajuda a formular a idéia de que as sexualidades “pervertidas” são patologias e que, quando não conseguem ser “curadas”, devem, no mínimo, ser vigiadas e evitadas. Conforme este autor, o estudo científico da psico- patologia da vida sexual necessariamente lida com as misérias do homem e o lado escuro da sua existência, a sombra que contorce a sublime imagem da divindade em horrendas caricaturas, desencaminhando o esteticismo e a moralidade. Este é o triste privilégio da medicina, em especial da psiquiatria, para sempre testemunha da fraqueza da natureza humana e do lado oposto da vida3.
Desta tensão, surge a moderna “sexualidade”, a “sexologia” e as “identidades sexuais”, pois estas têm na questão das práticas eróticas ou dos corpos genitalizados o foco central da interpretação da existência4. Com o
avanço do século XX, duas guerras mundiais, ascensões de totalitarismos de direita e esquerda, crises econômicas como a quebra da bolsa de Nova York e seus conseqüentes conflitos, uma visão social mais conservadora foi se estabelecendo na primeira metade deste período.
É desta forma que em 1933, com a ascensão do nazismo, não apenas é destruído, em Berlim, o “Instituto para o Estudo da Sexualidade” de Hirschfeld e queimada sua enorme biblioteca, como as novas gerações de estudiosos vão
3 KRAFFT-EBING, Richard Von, Psychopatia Sexualis, op. cit., 1998, pág. XXII 4 FOUCAULT, Michel , História da Sexualidade I - A Vontade de Saber, op. Cit.
se tornar mais conservadoras e pautar-se por visões normativas e moralizantes de uma “natureza heterossexual original”5. Neste sentido, basta ver a grande maioria dos estudos desta época em diante, em especial os livros de divulgação científica sobre o tema e os incontáveis manuais de educação sexual.
Apesar do diálogo inicial entre militantes e cientistas, durante a primeira metade do século XX, a balança pesou mais para a patologização e malignidade social das ditas “perversões”. O diálogo se manteve, mas tornou- se, sem dúvida, desigual. O foco da pesquisa científica mudou gradualmente, deixando de buscar uma base “natural” e “normal” destas sexualidades, para a prevenção da “anormalidade”, voltando-se a discutir a aceitação social de sujeitos “desviantes sexuais” e sua a não patologização apenas a partir do final dos anos 60 deste século.
Chegamos assim à segunda parte deste trabalho.
Vimos a diferença entre o hermafrodita do universo mágico, próprio à noção de corpo com um único sexo e dois gêneros, e o pseudo-hermafrodita da medicina moderna, fruto da visão de dois sexos distintos e opostos, cada um correspondendo a um gênero. Também apresentamos como esta idéia de um “hermafroditismo” é interiorizada, dando lugar ao “hermafrodita psíquico”, gerador de novos sujeitos sexuais, em especial o “homossexual” e o/ a “travesti”. Como veremos melhor, vamos trabalhar com a lógica da sociedade de controle do século XX6, que não mais busca a compartimentação das sexualidades e isolamento dos desviantes, mas promove a compulsória participação e “inclusão” social, mais próxima da organização do conceito de transexualismo (para a medicina) e transexualidade para a militância política.
A partir deste trecho, assim como os corpos dos seres míticos de Ovídio, o corpus teórico científico sobre sexo e sexualidades “desviantes” ou os corpos de muitas das pessoas envolvidas neste trabalho, o corpo deste texto também vai se alterar. Deste ponto em diante, faço um breve histórico do conceito de transexualidade e suas relações com a política, latu sensu, e o entretenimento,
5 LANTERI-LAURA, Georges, Leitura das Perversões, op. Cit.
6 DELEUZE, Gilles, Post-scriptum sobre as sociedades de controle in Conversações, Rio de Janeiro,
incorporando mais um referencial teórico, o da teoria queer, focado na filósofa americana Judith Butler.