B. SÖZLEġMENĠN DEVRĠNĠN BORÇ ĠLĠġKĠSĠNE ETKĠSĠ
I. TAġINIR VE TAġINMAZ SATIġ SÖZLEġMESĠNĠN DEVRĠ
2. Devrin SatıĢ SözleĢmesinin Hükümlerine Etkisi
A primeira grande aparição em papel de destaque do Coletivo Anonymous em uma mídia de massa aconteceu no dia 26 de julho de 2007, quando a emissora de TV KTTV, afiliada da Fox em Los Angeles, Califórnia, exibiu uma reportagem chamada “Report on Anonymous”43, onde classificava-os como “hackers com esteroides”, “terroristas domésticos”
e, coletivamente, como uma “máquina de ódio da internet”, que “destrói a vida de pessoas inocentes”. Segundo o vídeo, a “gangue hacker” tem como alvo preferido os usuários do site MySpace.com, mas são capazes até de matar e explodir estádios de futebol. Criava-se então uma nova imagem para o estereótipo padrão de jovens hackers e ao mesmo tempo, nascia a imagem do Coletivo Anonymous. Aqueles jovens criminosos que se utilizavam da internet para retirar dinheiro de contas bancárias e perfis de redes de relacionamento, agora estavam demonstrando uma “evolução” para algo muito mais sério e nocivo.
43 Tradução Livre: Relatório sobre o Anonymous. Disponível em
72
Figura 12: Reprodução do documentário Report On Anonymous
Logo na abertura, o locutor do programa John Beard explica: “são hackers turbinados, que tratam a rede como um videogame da vida real (...) assaltam e saqueiam websites, invadem contas de Myspace, atormentam pessoas inocentes (...). E, se você reagir, tome cuidado!” Em tom de ameaça, a reportagem mostra uma entrevista com um jovem chamado de David, que diz ter tido sua senha do MySpace roubada por sete vezes seguidas e sua página da rede de relacionamento trocada por fotos de pornografia homossexual. De acordo com o jovem, isso fez com que sua namorada rompesse o relacionamento e sua vida teria se tornado um inferno.
Além de David, o vídeo apresenta uma dona de casa que explica ter sofrido uma série de ataques por telefone, que foi obrigada a comprar um cão de guarda para garantir a sua segurança e de sua família. Para ilustrar o material, os editores da Fox utilizaram imagens da mesma dona de casa fechando as cortinas de sua casa para expressar o medo com o qual ela é obrigada a viver por causa dos hackers e imagens de uma caminhonete explodindo enquanto ela os chama de terroristas domésticos. Antes de terminar, aparece um possível ex-integrante
73 do Anonymous de costas, vestindo boné e com voz distorcida que afirma ter sofrido ameaças de sequestro e de morte ao tentar se desligar do grupo virtual.
Sabe-se que mídia hegemônica articula o seu discurso e apresenta o Anonymous em seu favor, colocando muitas vezes suas próprias causas como se fossem as do coletivo. Principalmente, a mídia usa a informação como um instrumental de consumo, para vendar mais notícias, para vender esse assunto, nesse caso, assustando as pessoas. Dessa forma, somente quem estiver por dentro do que está acontecendo na internet com os hackers estará protegido. É como se todos precisassem comprar aquela notícia para entender como funcionaria esse grupo criminoso e poder se proteger.
No mesmo dia em que essa reportagem foi ao ar, a mesma já estava disponível para ser visualizada no YouTube. No dia seguinte, o jornalista e blogueiro da revista Wired, Ryan Singel, publicou um texto em seu blog44 explicando que as ações que a Fox associou ao
Coletivo Anonymous mais se pareciam com brincadeiras de um jovem de 15 anos entediado e que aquela notícia era, sem dúvidas, a brincadeira mais engraçada que alguém já retirou do
imageboard 4chan45.
Para os frequentadores do /b/, os /b/astards, aquilo era uma verdadeira consagração, uma conquista sem precedentes: serem considerados perigosos bandidos capazes de cometer as piores atrocidades no mundo off-line e aparecerem em um grande canal de TV. Dessa forma, a reportagem acabou por dar forças ao imageboard e, principalmente, ao Anonymous, que deixaram de ser algo restrito ao mundo underground de um imageboard, conhecido somente pelos poucos participantes ativos e passou a ser algo como uma marca, transmitida em um meio de comunicação de alcance bem mais abrangente, como é o caso da televisão.
Vemos uma hipersimplificação da mídia hegemônica ao tentar criar uma imagem de um grupo de usuários de computador que estava disposto a agir não somente dentro da internet. Não se procurou descobrir o que mais faziam, ou sequer entender de onde vieram. A pauta tratou somente de sensacionalizar o estereótipo hacker e associá-lo ao de terroristas, como se agora tudo tivesse se tornado uma única coisa. Isso não foi uma tarefa muito complexa, já que muito pouco ou quase nada havia sido divulgado antes sobre Anonymous, então para a mídia criar um significado seria uma das tarefas mais simples, poderiam fazer o que bem entendessem.
44 Disponível em <http://www.wired.com/threatlevel//>. Acesso em 30 de julho de 2012.
74 A consequência disso foi a de aguçar a curiosidade de um número maior de usuários que gostariam de ver como tudo aquilo acontecia. O 4chan, o /b/ e assuntos relacionados à Anonymous passam a ser mais buscados por usuários da internet, que, de certa forma, gostariam também de obter aqueles “superpoderes” e fazer parte daquilo.
Como já era de se esperar da atitude de trolls algo como uma provocação deliberada, os frequentadores do 4chan se utilizaram da reportagem da Fox para criar novas formas de humor, gerando diversos memes a partir das frases ditas na reportagem, como, por exemplo, “máquina de ódio da internet” e “hackers com esteróides”. Além disso, a van que aparece explodindo no vídeo passou a ser adotada no 4chan como a “Caminhonete de Festas do 4chan”. O que era para ser algo negativo foi supervalorizado e ironizado.
Figura 13: Hackers On Steriods46
75 Como dito, a reportagem da Fox não levou em consideração as outras ações anteriores que já haviam sido feitas na internet e receberam pouquíssimo destaque nas mídias de massa por não chamarem tanta a atenção. Somente após a construção dessa primeira imagem para o Coletivo Anonymous de que eram hackers perigosos, diversos ataques anteriores a redes sociais e websites sem muita expressão passaram a ter suas organizações atribuídas ao Coletivo Anonymous.
E foi se aproveitando de sua imagem negativa que o coletivo conseguiu entrar no talk- show de maior audiência da história da televisão dos Estados Unidos, o The Oprah Winfrey Show. A apresentadora Oprah acabou caindo em uma trollagem feita por usuários do 4chan, em 2008, que se identificavam como Anonymous. Eles postaram uma mensagem para a apresentadora com um Anonymous Credo adaptado e midiaticamente impactante: “We do not
forgive. We do not forget. We have OVER 9000 penises and they are all raping children”47.
Para quem já havia frequentado o 4chan por algum tempo sabia que se tratava somente de um meme criado a partir do desenho japonês Dragon Ball Z48, porém, para os produtores do programa, esse seria um número capaz de causar medo aos pais que viam seus filhos passando tempo demais na frente de seus computadores, sem saber o que faziam ao certo.
Durante o programa, Oprah leu a mensagem na íntegra, atribuindo a citação a uma “rede conhecida de pedofilia”, que era ao mesmo tempo organizada e sistemática (STRYKER, 2011, p. 98). Enganar uma celebridade e fazer com que ela reconhecesse a existência do Coletivo Anonymous já era uma vitória para os usuários do 4chan, mas fazer isso se utilizando de um meme muito conhecido no imageboard seria considerada uma vitória épica. Em comemoração foi dito que foram feitas mais de 9 mil paródias do vídeo, apenas sendo mais uma trollagem.