moldar todos os homens e mulheres nascidos em seu âmbito de modo que se aproximem de um comportamento ideal inerente apenas a alguns poucos, ou restringir a um sexo um ideal de comportamento que outra cultura logrou limitar ao sexo oposto, não poderemos falar de forma muito compreensiva sobre diferenças sexuais1.
Durante o decorrer do século XX, a questão de onde estão os limites entre homens e mulheres, entre o masculino e o feminino e como reconhecê- los não foi apenas da biomedicina, seja ela focada nos hormônios ou na psique. Este tema também esteve presente nas artes, na religião e nas ciências humanas. Neste período inicial, enquanto os médicos aplicam suas teorias na prática cirúrgica, a jovem antropologia também debate os mesmos temas paralelamente.
Assim, gostaria de citar um dos primeiros estudos nesta área que vai indicar a futura divisão conceitual entre sexo (corpo físico) e gênero (aspecto social): o livro da antropóloga culturalista Margareth Mead. Em 1935, ela publica Sex and temperament in three primitive societies, traduzido no Brasil como Sexo e temperamento. Neste livro, a autora, aluna de Franz Boas, analisa três grupos sociais da Nova-Guiné e suas diferenças entre o sexo e o “temperamento” encontrado em seus membros.
O que é chamado de “temperamento” por esta autora, apesar de uma forte inclinação de base psico-biológica, como os estudos da época chamados
de “psicologia do sexo”, pode muito bem ser compreendido hoje como “gênero”, pois Mead afirma na introdução: nem de leve eu suspeitava que os temperamentos que reputamos naturais a um sexo pudessem, ao invés, ser meras variações do temperamento humano a que os membros de um ou ambos os sexos pudessem, com maior ou menor sucesso, no caso de indivíduos diferentes, ser aproximado através da educação.
O primeiro grupo, chamado “os Arapesh das montanhas”, Mead os considera como essencialmente pacíficos e, afora uma pequena diferença entre os meninos que têm um pouco mais de liberdade para expressar a agressividade que as meninas, tanto homens quanto mulheres possuem poucos motivos de desavenças baseados em uma suposta diferença sexual. Sobre a vida sexual dos Arapesh, afirma: nem homens nem mulheres são considerados como espontaneamente sexuais. (...) Não há o reconhecimento, da parte de um ou outro sexo, de um clímax específico nas mulheres, e o clímax nos homens é definido simplesmente como perda de tumescência. A ênfase na prontidão e desembaraço mútuo é a dominante. (...) É difícil julgar o que nos parece o comportamento mais utópico e fictício, dizer que não há diferença entre homens e mulheres, ou dizer que tanto os homens como as mulheres são naturalmente maternais, dóceis, receptivos e não agressivos.
Entre o segundo grupo, “os Mundugumor habitantes do rio”, tanto homens quanto mulheres mostram-se agressivos e sempre prontos para a guerra. As segundas são vistas como mais um adversário que, apesar de estar em desvantagem, sua estrutura física não é frágil. Conforme a autora, por trás desta diferença de tratamento de meninos e meninas, não existe teoria de que as mulheres diferem dos homens no temperamento. São consideradas igualmente violentas, agressivas e ciumentas2.
Já o último grupo, “os Tchambuli habitantes do lago” mostram-se a princípio como o oposto do que a cultura da antropóloga esperava do ideal de homens e mulheres. Os primeiros devotam sua vida especialmente à arte e aos cuidados de sua apresentação social, incluindo ornamentos corporais e modos de comportamento. Já entre as segundas, a regra é o trabalho eficiente, o companheirismo, a sinceridade nas relações e o maior desejo sexual, sendo
estas as pessoas consideradas com “iniciativa” nesta sociedade. É importante realçar que Mead não considera os homens como “afeminados” ou as mulheres “masculinizadas”, mas que ambos mostram “temperamentos” que, em nossa cultura, seriam considerados “invertidos”.
Neste sentido, a autora conclui: se aquelas atitudes temperamentais que tradicionalmente reputamos femininas – tais como passividade, suscetibilidade e disposição de acalentar crianças – podem tão facilmente ser erigidas como padrão masculino numa tribo, e na outra ser prescrita para a maioria das mulheres, assim como para a maioria dos homens, não nos resta mais a maior base para considerar tais aspectos do comportamento como ligados ao sexo.
E apesar de trabalhar com os conceitos de “invertidos congênitos”, “aberrações sexuais” e “homossexualismo”, a autora analisa brevemente, nos grupos estudados, casos de homens que, pelo seu “temperamento”, são considerados mais próximos das mulheres, adaptando-se às atividades e ao vestuário feminino e observa: por estar distribuído desigualmente pelo mundo, parece claro que o travesti não é apenas uma variação que ocorre quando existem diferentes personalidades decretadas para homens e mulheres, mas que não ocorre, necessariamente, nem mesmo aí. É de fato uma invenção social que se estabeleceu entre os índios americanos e na Sibéria, mas não na Oceania3. Desta forma, desnaturaliza-se esta questão, realçando o quanto o
conceito de “travestismo” criado pela medicina Ocidental pode não se encaixar em outros grupos sociais.
Neste livro, Margaret Mead propõe uma das primeiras análises nas ciências humanas sobre como os “papéis” de gênero organizam relações de poder e hierarquia nas sociedades e, principalmente, o quanto as supostas diferenças entre homens e mulheres podem ser variáveis e mutantes, inclusive os conceitos de “inversão” e as categorias de pessoas que se deslocam de um gênero para outro, independente de sua disposição biológica ou de seu aparato genital.
Esta separação entre “sexo” e “temperamento”, decorrente de uma separação conceitual anterior e maior, a de corpo e mente, já estava presente nas áreas biomédicas, que procuram não apenas o “verdadeiro” sexo na
estrutura fisiológica, mas também na psique. Desta maneira, surge gradualmente a idéia de um sexo na mente e, mais importante, um sexo da mente. Conforme a já citada historiadora Meyerowitz, é este procurado e pressuposto “sexo da mente” que vai originar o conceito de “gênero”4.