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BÖLÜM II – ÖLÇEK SORULARI

Madde 16 Resmî okullarda yönetim kurulunca;

Mircea Eliade, em suas importantes pesquisas no campo da história das religiões, delineia a experiência religiosa do homem arcaico, em um tempo em que o mito era a expressão cosmogônica da vida.

De acordo com Eliade, no mundo mítico, o homem arcaico elegia um ponto espacial, onde o sagrado se desvelava com força atuante. Esse sagrado era experimentado através de gestos rituais, pelos quais a cosmogonia, fundação do próprio universo, era revivificada. Nesse sentindo, longe de ser mera encenação, tal ritual verdadeiramente atualizava o tempo dos primórdios, fazia-o germinar inteiramente, em completude no momento do rito. Assim, para os povos míticos, o tempo não era irreversível, mas cíclico; ele não era perecível, mas imortal, pois era sempre reanimado no momento dos rituais. Dessa forma, o espaço de tais acontecimentos míticos tornava-se uma verdadeira representação de todo o universo, uma

imago mundi. Tais espaços míticos, diferenciados dos demais, tinham como função desvelar o

sagrado e o tempo das origens.

Com a modernização da vida, com o advento da era da tecnologia, os espaços vão lentamente se tornando indiferenciados, dessacralizados. Perde-se a força representativa, simbólica, capaz de ativar um espaço sacro.

Entretanto, a despeito de toda essa banalização, Bollnow irá nos salientar que ainda é possível encontrar resquícios do espaço sacro em nosso tempo. Tal lugar é onde podemos habitar, ou seja, a casa:

Mesmo em nossos tempos profanos, a casa sempre preserva um certo caráter sacro, que cada um sente, uma vez tornado atento a tais coisas. Mesmo que em sua época tanto se tenha falado de uma “máquina de morar” (Le Corbusier), para expandir também à função do habitar o desejo projetual da era da máquina, sentimos logo o caráter desmedido daquela expressão. A habitação humana não se deixa desintegrar na racionalização

do mundo técnico moderno. Muito mais, permanecem nela certos restos indissolúveis da vida arcaica, que não são mais compreensíveis a partir de um pensamento objetivo, racional. A casa das pessoas é ainda hoje um território santificado. (BOLLNOW, 2008, 149)

A casa do poema de Sophia, portanto, seria o centro do mundo onde o sagrado se desvela. Para tanto, a casa tem de estar no eixo do cosmos, ela necessita demarcar “o território do próximo e do familiar, ao redor do qual, em anel, jaz a distância. A própria casa encontra- se em oposição à distância, como o pertence que mais se caracteriza como nosso” (BOLLNOW, 2008, p.134).

No poema, esses atributos sacros são ainda mais evidentemente realçados, pois nesse lugar uma presença transcendente se encarna. O anjo é a sacralidade feita carne e peso, corpo e pulsação. O inteiramente outro, o incognoscível, delineia-se nessa aparição fantástica e deslumbrante. A alteridade impossível, o Tu inalcançável em sua natureza hermética, o divino, simbolicamente, são apreendidos, corporificados, pela bela epifania do anjo. Como sabemos, o símbolo tem justamente esse caráter, o de comunicar o silêncio, o de expressar conteúdos semânticos nebulosos, imprecisos, fonte do mistério de nossa condição de humanos, de seres estranhamente vivos nesse chão e nesse tempo.

Prosseguindo pelas reflexões de Bollnow, tal filósofo realça, no espaço da casa, o papel da cama como mobília a concentrar o aspecto sacro da moradia. Nesse sentido, tais observações são de grande valia para nossa leitura, visto o poema de Sophia configurar seu foco espacial em torno de um leito. Vejamos o que o autor de O homem e o espaço tem para nos esclarecer a respeito do significado da cama na habitação:

Fogão e mesa eram, dessa forma, símbolos do centro comum da família. Mas ambos perdem sua função de centro uma vez que a vida comum da família se divide e os membros individuais ganham autonomia, e surge a questão: onde na casa, se buscaria um centro correspondente, agora para as pessoas individuais, ao qual todos os caminhos diversos dentro e fora estivessem referidos? Acredito que esse centro esteja caracterizado da melhor maneira pela cama, pois ele é o lugar do qual o homem, pela manhã, se ergue para seu dia de trabalho, e ao qual ele, à tarde, o trabalho feito, retorna. Cada marcha diária começa (normalmente) na cama e termina novamente na cama. E isso ocorre precisamente com a vida humana no todo: inicia na cama e termina (novamente, supostas condições de vida normais) na cama. Na cama, logo, fecha-se o ciclo, do dia como da vida. Aqui o homem chega ao descanso, no sentido mais profundo. Daqui resulta a tarefa de pesquisar o significado que tem a cama para a estrutura da vida humana e, em especial, para o espaço vivido e experimentado pelo homem. (BOLLNOW, 2008, p.176-177)

No poema de Sophia, ressoa essa importância sagrada da cama. Sobre esse leito, desenrola-se todo o drama vivido pelos protagonistas do texto. A cama, assim, funciona como epicentro de onde toda a espacialidade se irradia, ganha forma. Não temos, referidos no poema, outros elementos do espaço: mobílias, paredes, corredores, recantos. Tirando as personagens, nada está visível no texto a não ser o leito. Ele, portanto, conforma a espacialidade e lhe dá sentido, visibilidade. Dessa maneira, no poema da escritora portuguesa, o leito reforça o sentido sacro da vida, onde o existir ganha densidade.

Assim, a cama representa um lugar aberto, em permanente convite para o repouso, o descanso, ou simplesmente o espreguiçar lento e reflexivo. Tal recanto é “um espaço circundante ao abrigo, um espaço vazio, no qual o homem podia se mover livremente” (BOLLNOW, 2008, p. 178). Dentro desse horizonte simbólico, a cama “significa [...] o lugar onde, no sentido verdadeiro, passamos e permanecemos, isto é, onde temos nossa permanência habitual” (BOLLNOW, 2008, p. 178). Bollnow insere-nos na simbologia do leito, pela qual podemos aclarar inúmeros significados do poema de Sophia:

Por toda parte a cama confere, com seu calor e seu caráter protetor, um sentimento de paz e abrigo ao homem. Pois Jó “refletiu: minha cama deve me consolar, meu leito deve aliviar meu pranto”. “É a estadia do abrigo proverbial” [...].

Assim, houve homens fortes que simplesmente se refugiaram na cama quando as dificuldades da vida lhes pareciam cobrir a cabeça e afogar. Assim, enfatiza Frankel, também da perspectiva dos médicos, “que mesmo entre mentalmente normais uma experiência de terror não seja compensada por nada melhor do que um dia de repouso na cama”. Se o homem puxa as cobertas sobre a cabeça, experimenta algo semelhante àquilo que erroneamente se fala do avestruz. Mas é muito fácil burlar tais formas de auto-engano. Relaciona-se com a necessária função vital que tem a cama a cumprir como espaço do abrigo na vida humana. (BOLLNOW, 2008, p. 179-180)

Essa função de abrigo, em que a cama serve de refúgio contra os ataques do mundo, contra os males da vida, é também resgatada no poema, quando o eu lírico, indefeso, fragilizado, recolhe-se em seu leito. Aliás, tal objeto, mais que mero instrumento de proteção, serve como lugar onde a pessoa poética pode se refugiar da morte, ou em outra hipótese, onde ela enfrenta a indesejada das gentes, metaforizada pelo arroubo místico.

Por outro lado, não podemos nos esquecer que, apesar da morte parecer, em um primeiro momento, verdadeiramente concreta, ela é na verdade simbólica. A situação ambígua do eu lírico denota também o oposto da morte, ou seja, a inserção de uma “copla a lo divino”, um transe místico, pontuado metaforicamente pelo erotismo. Assim, a cama torna-se também o espaço da comunhão, da congregação de afetos.

A despeito dessa possibilidade de leitura, a cama também pode ser a enseada onde a voz lírica concentra e resgata suas forças. Se optarmos por uma leitura em que a voz poética está tomada por Tânatos, tal região passa a exercer um verdadeiro papel terapêutico, suavizando o cansaço, o sofrimento desse moribundo extenuado pela luta contra o anjo. Um alento revigorante acolhe esse homem alquebrado pelo peso da condição humana. O ato de embalar, apesar de ser o gesto preparatório da morte, abrasa esse coração contrito, permitindo-lhe o acesso a outra essência ontológica, àquela capaz de abrasar o coração, imantando-lhe na força do sagrado, do estertor místico.

Novamente a ambiguidade das possíveis leituras nos insere em um poema poliédrico, prismático, em que significados opostos se complementam e, ao mesmo tempo, se interagem de forma tensa, em permanente atrito.

A despeito da iminência do fim, da lenta passagem para os umbrais da morte, contraditoriamente, a cama “aqui é sentida da maneira mais íntima, como o lugar em que se adensa a confiável solidez da vida” (BOLLNOW, 2008, p. 180). Essa confiança restitui as forças psíquicas do eu lírico, preenchendo-lhe da energia vital necessária para o derradeiro golpe (seja da morte, seja do amor). Na cama, o eu lírico torna-se demasiado vivo, intensamente existente, para poder viver a grande e heróica morte simbólica, aquela antevista por Rilke, pela qual o homem alcança a glória heróica.