2- Sorun Çıkınca Ġlgilenen Aileler : Bu aileler çocuğun eğitimi konusunda tamamıyla
1.5.1. Aile Ġçi ĠliĢkiler
Conforme Gastón Bachelard, em seu livro A terra e os devaneios da vontade, uma imaginação ativa, operante, encontra nos elementos físicos, cósmicos, recursos materiais para a elaboração dos devaneios poéticos. Dentre esses devaneios, o filósofo francês dá destaque para aqueles que se atém ao dinamismo do mole e do duro. A alma sonhadora encontrará nos elementos duros e moles da natureza, na luta entre essas duas condições físicas, a expressão da agressividade, da força, da atuação do homem no mundo. Conforme Bachelard, “a matéria nos revela as nossas forças. Sugere uma colocação das nossas forças em categorias dinâmicas” (1991, p. 19).
Vejamos, com mais detalhes, o que o autor nos especifica a respeito dessa sua dialética8:
8
Para Bachelard, o termo dialética funciona como jogo antitético entre determinados signos. Portanto, não se pode pensar, aqui, em tal termo, pela acepção clássica de Hegel, para quem a dialética compõe-se de uma estrutura mais complexa, com um desenvolvimento lógico pautado na tese, antítese e síntese. Em Bachelard,
A dialética do duro e do mole rege todas as imagens que nós fazemos da matéria íntima das coisas. Essa dialética anima – pois só tem o seu verdadeiro sentido numa animação – todas as imagens mediante as quais participamos ativamente, ardentemente, da intimidade das substâncias. Duro e mole são os primeiros qualificadores recebidos pela resistência da matéria, a primeira existência dinâmica do mundo resistente. No conhecimento dinâmico da matéria – e correlativamente no conhecimento dos valores dinâmicos de nosso ser – nada fica claro se não colocamos de início os dois termos duro e mole. Vêm em seguida experiências mais ricas, mais sutis, um imenso campo de experiências intermediárias. Mas na ordem da matéria, o sim e o não se dizem mole e duro. Não há imagens da matéria sem essa dialética de convite e exclusão, dialética que a imaginação transporá a inumeráveis metáforas, dialética que às vezes se inverterá sob a ação de curiosas ambivalências até definir, por exemplo, uma hostilidade hipócrita da moleza ou um convite provocador da dureza. Mas as bases da imaginação material residem nas imagens primitivas da dureza e da moleza. (BACHELARD, 1991, p. 15)
No poema de Sophia, essa antítese entre a moleza e a dureza está explicitada na luta do mar, matéria mole, contra o jardim, matéria dura. A força atuante da água, sua fúria, sua cólera, jogam-se com toda volúpia contra o indefeso jardim que, na sua solidez terrena, vê-se ameaçado a desmanchar-se. Essa imagem, de acordo com Bachelard, é típica de um animismo colérico. As raivas, as pulsões de morte, o ódio, encontram na fúria das águas a sua maior expressão metafórica. De acordo com o filósofo, a “imaginação precisa de um animismo dialético, vivido ao encontrar no objeto respostas às violências intencionais”. Dessa forma, a “imaginação material e dinâmica nos faz viver uma adversidade provocada, uma psicologia do contra que não se contenta com a pancada, com o choque, mas que se promete a dominação sobre a própria intimidade da matéria” (BACHELARD, 1991, p.18). Essa dominação pode ser percebida, no texto de Sophia, pelo caráter invasivo da água, pronta para tomar o espaço da terra, em uma metáfora típica da afronta humana, da nossa ira e da nossa violência. As pulsões agressivas do ser humano, o seu caráter destrutivo, ações sob a égide do princípio de morte, são encarnadas, no poema, pela metáfora do mar bravio.
O mar de Sophia, nesse seu texto como em muitos outros, ganha conotações insólitas. Ele representa não somente a violência cósmica, adversidade contra a qual os pobres humanos precisam lutar, mas também as nossas forças agressivas. Ele é o elemento naturalmente inapreensível, misterioso, pois encarna a porção mais sombria do nosso inconsciente. As pulsões violentas de nossa psique, nosso desejo muitas vezes cego de destruição, encontram
literário, o que não acarreta necessariamente uma síntese. Ao longo de nosso trabalho, utilizaremos tal termo nos moldes propostos por Bachelard.
no mar sua metáfora precisa. Em A água e os sonhos, Bachelard detalha aspectos importantes do oceano:
Um mar calmo é acometido por uma súbita ira. Rosna e ruge. Recebe todas as metáforas da fúria, todos os símbolos animais do furor e da raiva. Agita sua juba de leão. Sua escuma assemelha-se “à saliva de um leviatã”, “a água é cheia de garras”. [...] a psicologia da cólera constitui, no fundo, uma das mais ricas e das mais matizadas. Vai da hipocrisia e da covardia até o cinismo e o crime. A quantidade de estados psicológicos a projetar é muito maior na cólera que no amor. As metáforas do mar feliz e bondoso serão pois muito menos numerosas que as do mar cruel. (BACHELARD, 1998, p. 178)
O mar de Sophia, em “Jardim do mar”, vai portanto encarnar essa psicologia da cólera, do ódio. Bachelard é enfático: “A alma sofre nas coisas; à aflição de uma alma corresponde a desgraça de um oceano” (1998, p. 180). Os tormentos do eu lírico, suas angustias mais cruas, suas dores mais cortantes, encontram no mar a expressão mais válida, mas conforme. A correspondência entre alma e cosmos é reveladora, no poema de Sophia, dos abalos do desassossego, da inquietação. Bachelard, a partir das palavras de Balzac, salienta o quanto a consciência infeliz encontra na turbação dos oceanos a sua medida e dimensão:
[...] há uma correspondência [...] entre vida de um elemento em fúria e a vida de uma consciência infeliz. “Já várias vezes ele [uma personagem de
Balzac] encontrara misteriosas correspondências entre suas emoções e os
movimentos do Oceano. A advinhação dos pensamentos da matéria, de que o havia dotado sua ciência oculta, tornava esse fenômeno mais eloqüente para ele que qualquer outro”. (BACHELARD, 1998, p. 179)
Também Sophia encontrará no seu mar a expressão mais eloquente de suas inquietudes, de suas atribulações. O oceano em sua prodigalidade representa a ausência de fronteiras, o ilimitado. Nesse aspecto, diante do mar, Sophia terá aquele sentimento do
tremendum, do terrível, emoção essa inerente ao sagrado, conforme nos aponta Rudolf Otto.
Por ser o totalmente outro, alteridade indevassável em sua prodigalidade, o mar encarna o mesmo sentimento de grandeza, de magnânima superioridade, suscitados pelo divino. Ante esse outro incognoscível, o homem rende a ele um sentimento de pânico, de terror, de adoração, de paixão. Esse sentimento está na raiz do ardor sacro e é ele quem irriga o “patos”, a disposição anímica do eu lírico. Portanto, o horror do jardim frente ao mar é de ordem mística, sacra. Bachelard explicita tal sentimento na seguinte frase: “A tempestade nos fornece imagens naturais da paixão” (1998, p. 183). O mar de Sophia, tal como a tempestade,
suscita, na poeta, imagens da paixão. Isso se dá porque “toda imaginação jovem” vê na violência da vagas “uma imagem de guerra, um combate” (1998, p. 181). O ardor do combate, a fúria da luta, o desejo de potência, irriga o poema, tencionando suas imagens, exaltando o movimento das palavras, dos significados. O poema de Sophia, mimetizando o mar, é também composto por um ritmo de vagas em desalinho, em furor.
Se por um lado o mar suscita o poder da fúria do sagrado, por outro lado ele também encarna as pulsões de morte. O sagrado, conforme Rudolf Otto, não pode ser fitado diretamente. Ele necessita sempre da intermediação dos símbolos. Fitar o sagrado sem esse trâmite simbólico é arriscar-se na morte. Também o divino é capaz de destruir, de aniquilar. Esse misto de sacralidade e destruição perpassa a imagem do mar de Sophia. Ainda, mais uma vez, conforme nos aponta Bachelard, à água associam-se fortemente “todos os intermináveis devaneios do destino funesto, da morte, do suicídio” (1998, p. 93). O escritor francês ainda afirma: “A água torna a morte elementar. A água morre com o morto em sua substância. A água é então um nada substancial” (1998, p. 95). Enredada nesse fascínio, Sophia esboça, pelo símbolo do mar, as pulsões destrutivas de nossa alma. Como o nada dos existencialistas, alteridade também absoluta, o homem luta contra esse mar para erigir um mínimo de sentido para a sua vida. Chevalier e Cheerbrant explicitam a importante ambivalência da vida e da morte na imagem do mar:
Símbolo da dinâmica da vida. Tudo sai do mar e tudo retorna a ele: lugar dos nascimentos, das transformações e dos renascimentos. Águas em movimento, o mar simboliza um estado transitório entre as possibilidades ainda informes e as realidades configuradas, uma situação de ambivalência, que é a de incerteza, de dúvida, de indecisão, e que pode se concluir bem ou mal. Vem daí que o mar é ao mesmo tempo a imagem da vida e a imagem da morte. (CHEVALEIER & CHEERBRANT, 2008, p.592)
O mar de Sophia configura essa ambivalência de vida e de morte, pois ele, ao mesmo tempo que ameaça o jardim, também o alimenta, sustenta sua vida (o jardim está suspenso sobre o mar). Conforme ainda Chevalier e Cheerbrant, do mar surgem os monstros das profundezas, por isso é “a imagem do subconsciente, fonte também de correntes que podiam ser mortais ou vivificadoras” (2008, p. 592-593). Toda essa ambivalência perpassa o mar de Sophia, irriga sua escrita, nos demonstrando com imensa sinceridade as agruras e as belezas da condição humana.