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2.2. Örgütsel Adalet Boyutlar

2.2.2. Prosedürel( lemsel) Adalet

Se é verdade que na vida de toda pessoa há sempre um grande mestre, na minha não podia ser diferente. A vida na roça demandava uma grande carga de trabalho, o que levava meu pai a contratar pessoas para ajudá-lo nessas tarefas. Todas as noites, depois de um dia duro de trabalho e ocupação com os animais e a plantação, era no alpendre que se aliviava o cansaço, contando histórias, falando sobre a vida e lendo folhetos de cordéis.

O alpendre era o nosso local de sociabilidade. Um dia chegou ao sítio um senhor baixo e franzino, mas com promessas de alegria em seu olhar e em seus gestos. Se pela manhã bem cedo ia pegar água no açude para abastecer a casa, o caminho era encurtado com canções que nos convidavam a aprendê-las, e que ele, pacientemente nos ensinava, repetindo tantas vezes quantas fossem necessárias.

Foi pela voz de seu Antônio que aprendi muitas canções do nosso folclore, da nossa cultura. Aquele homem simples e humilde era dono de uma alma, de uma sabedoria e de uma natureza lindas e lúdicas. Tudo parecia mais leve e mais fácil se ele estava por perto, e nunca o ouvi queixar-se da sorte nem do trabalho pesado.

Aos sábados, ia para feira de Acari, onde comprava balas de mel e folhetos de cordel. As balas eram para nos “vender” de faz-de-conta. A moeda? Cantar músicas, recitar parlendas e trava-línguas que havíamos aprendido com ele. Os cordéis, que eram muitos e de temas variados, tornariam mais alegres ou mais assustadoras nossas noites.

Mesmo tremendo de medo, nos agarrávamos uns aos outros ou corríamos todos para junto de nossa mãe, e pedíamos mais uma história. O ritual de ouvir a leitura de cordéis, quase que cotidianamente, no alpendre da minha casa despertou em mim o desejo de ler e descobrir os “mistérios” daqueles livros, o que na minha inquietude e curiosidade de criança, me fez desenvolver práticas clandestinas de leitura. Clandestinas, porque em princípio eu “roubava” os cordéis de seu Antônio e os lia escondida, tentando desvendar os enigmas do ato de ler.

Quando seu Antônio saía para o trabalho, eu ia até seus aposentos, pegava o cordel que havia sido lido na noite anterior e tentava descobrir onde estava escrito o que ouvira contar. Hoje entendo que estava desenvolvendo estratégias de leitura, tentando decodificar e atribuir sentido a um texto. Foi assim que, passado algum tempo, eu estava lendo sozinha os folhetos de cordéis e uma noite no alpendre eu pedi para ler para os presentes. Meus pais ficaram pasmos, pois não sabiam que eu havia aprendido a ler e, é claro, atribuíram o feito à escola.

Porém, se na minha casa os textos se mostravam cheios de fantasias e significados, a ponto de despertar meu interesse por “decifrá-los”, na escola me ensinavam as letras e seus nomes e, no máximo, a juntá-las e formar sílabas e algumas palavras. Até hoje não entendo porque a professora não percebeu que, àquela altura, eu já estava lendo. Tampouco tive a preocupação de dizer ou mostrar para ela que já sabia ler, creio que por achar que o que acontecia na minha casa era diferente do que acontecia na escola, e ainda, que a leitura dos cordéis, parlendas e canções estava muito distante do que a escola trabalhava, já que eu não conseguia fazer nenhuma relação entre o que era ler e escrever na/para a escola, com aquela experiência que eu vivenciava em casa. O fato é que fui salva pela literatura, e por isso sobrevivi à escola e seus métodos.

Mesmo assim, da escola não me queixava, adorava todo o ritual de me preparar para ir à aula e fazia tudo com prazer. Como perdi o primeiro ano de escolaridade por motivo de doenças, minha mãe me matriculou novamente na primeira série, mas, em outra escola, na escola de Dona Socorro.

Como não lembrar a saia azul marinho com pregas, abotoada na lateral e da blusa de cambraia branca com vivo azul na manga e um distintivo bordado indicando o ano que cursava. Mais feliz fiquei quando, ao perceber que eu já lia e “atrapalhava” os colegas da turma, Dona Socorro me promoveu, no mesmo ano, para a segunda série. A manga da minha blusa ganhou mais um traço e, se eu ganhei um ano a mais na vida de estudante, nunca estive certa disso.

Permaneci nessa escola até a quarta série, classe que cursei a partir de um acordo entre a professora e minha mãe, pois a escola era autorizada a oferecer até a terceira série. Não sei como a professora conseguiu os trâmites legais para eu estudar dessa forma, só lembro que nos idos dos meus 18 anos, a Secretaria Municipal de Educação de Acari me convocou a fazer provas para constar na minha documentação estudantil que eu tinha cursado a quarta série.

No ano seguinte, mudei de escola, de casa, de convivência familiar. Fui morar na cidade, não sem antes prestar o exame de admissão. Eu nem tinha muita consciência do que aquilo significava, só sei que os exames não me despertaram medo e até hoje lembro o quanto me deu prazer fazer a redação, na época chamada composição.

No dia do resultado, todos reunidos num grande pátio coberto da escola, que eu achava linda e gigantesca comparada às outras pelas quais havia passado, ao chamarem o nome Maria de Fátima Araújo, levantei-me para ir receber o canudo simbólico da aprovação. Eis que, no mesmo instante, uma menina dirige-se à pessoa que estava entregando os “diplomas” e recebe aquele que era meu grande objeto de desejo, naquele momento. Eu esperei por toda a chamada de A a Z e não tive a chance de ouvir repetirem meu nome. Todos se foram e aquele pavilhão ficou enorme e silencioso aos meus olhos e ouvidos tristes e assustados. Eu sentei no chão e comecei a chorar, sentindo o gosto do que seria minha primeira reprovação nos estudos.

Nesse momento uma professora se aproximou de mim e perguntou-me qual o motivo do meu choro. Respondi que não tinha sido aprovada no exame. Ela, que tinha um papel na mão, perguntou o meu nome e ao respondê-la, constatou que se tratava do meu certificado, que ela tinha chamado e eu não tinha ido receber. Ou seja, havia duas pessoas com o mesmo nome, eu tinha sido aprovada e podia ingressar no primeiro ano ginasial.

Se isso era bom para mim, naquele momento, eu não sabia o que me esperava. Ingressei numa turma de alunos que estudavam juntos desde o jardim de infância e, portanto, onde todos se conheciam e mantinham entre si, relações afetivas e laços muito fortes de amizade. Eu era um corpo estranho naquela turma de crianças urbanas, de classe média. Na ausência de escolas privadas e sendo aquela uma escola tradicional da cidade, coabitavam a mesma turma o filho do médico, do vice-prefeito, do advogado, da professora universitária, de comerciários e eu, uma verdadeira anônima para aquelas crianças, assim como elas eram para mim.

Com o meu linguajar de menina recém-chegada da roça, sem muita preocupação com o plural das palavras, falando uma linguagem que só quem vive na roça conhece, vivi naquela turma, um verdadeiro inferno. Para piorar a situação, o meu rendimento escolar era muito bom, pois eu não conhecia ninguém, não conversava com ninguém e, em compensação, prestava muita atenção às aulas. Vieram as notas do primeiro bimestre e eu tinha a melhor nota da classe em quase todas as disciplinas, especialmente em Matemática e Língua Portuguesa.

Além de diferente, de matuta, menina franzina, magra, com a cara cheia de sardas e cabelo escorrido, eu estava tomando a “frente” de muitos deles. Isso fazia com que eu fosse cada vez mais preterida pelo grupo. Lembro que em algumas disciplinas faziam chamada oral e o aluno tinha que ir à frente do grupo responder as perguntas dos professores. Nestas situações, eu tremia, ficava vermelha e toda classe ria de mim.

É difícil, muito difícil para mim, como professora, lembrar aquela cena e saber que os professores não faziam nada para amenizar o constrangimento e a humilhação. Foi assim, tremendo e morrendo de medo dos professores e de vergonha dos meus colegas que, por um processo de identificação, me aproximei de quem viria a ser meu primeiro amigo, na turma. Identifiquei-me com ele porque percebia que assim como eu, ele também tremia e ficava vermelho e, o que era pior, sua voz afinava e a turma não perdoava.

Foi com João, meu amigo de gestos delicados e nobres, de alma e natureza singulares, que passei a conversar, compartilhar medos, inseguranças e também conhecimentos. Ele era muito inteligente e me senti mais tranquila por perceber que sentia o mesmo que eu em relação ao grupo e as relações nele estabelecidas. Creio que esta nossa parceria de amizade e cumplicidade ajudou-nos a sobreviver àquela

turma, àquela escola. Em pleno período de ditadura militar no Brasil, em que nos ensinavam o amor incondicional à pátria, também estimulavam a competição e reforçavam os desempenhos individuais.

Nesse período, minha escola condecorava com medalhas e quadros de honra ao mérito os alunos que tivessem os melhores desempenhos, as melhores notas, em cada classe. Eu tinha uma coleção delas, das quais muito me orgulhava, mas ficava incomodada no dia de recebê-las porque as outras crianças recebiam das mãos de seus pais e os meus estavam sempre ausentes porque moravam no sítio e nem sempre podiam ir à cidade. Contra a tirania dos que me rejeitavam, estudava, estudava e tirava deles seus quadros e suas medalhas de honra. Muitas vezes chorei e desejei não fazer parte daquele grupo, mas não tinha jeito, eu precisava estudar e era ali que tinha que ficar.

Foi por este tempo que a professora de educação física, percebendo a agilidade das minhas pernas longas e finas como toda a minha silhueta, me convidou para praticar salto à altura e em distância. Dessa maneira, me tornei atleta nessas modalidades, representei a escola em alguns torneios e comecei a ganhar a simpatia de alguns colegas da turma e da escola.

Eu morava com três tios-avós paternos: duas tias e um tio. Eles eram muito rigorosos e eu, aos dez anos, participava ativamente de toda a rotina da casa, inclusive dos afazeres domésticos; só me davam folga para o estudo e para as lições de casa.

Fui, nessa época, apresentada ao cinema, a minha segunda “salvação”: a primeira? A literatura de cordel. Na rua em que eu morava consegui estabelecer vínculos de amizade com a irmã de uma colega de classe, que era também minha prima. Foi com esta prima/amiga que conheci a magia do cinema: sorri, chorei, criei heróis, torci e me emocionei com eles.

E, se alguma vez na vida, eu havia me perguntado onde os sonhos eram fabricados, naquele momento, eu não tinha dúvidas de que teria sido naquela imensa fábrica de sonhos, o cinema. Sim, porque era assim que eu o via, como uma imensa fábrica de sonhos, dos quais, eu nem sempre desejava despertar. Íamos, todos os sábados e domingos, para o cinema. Esse era meu único lazer e quando eu mergulhava naquela espécie de caverna escura e fantástica, todos os meus fantasmas eram deixados para trás, vivia momentos de verdadeiro encantamento em seu interior.

Com ajuda da minha amiga, o meu repertório de brincadeiras da roça foi, aos poucos, sendo alargado pelo jogo da amarelinha que chamávamos academia, o jogo de cinco pedras, adedonha, e tantos outros que ela me ensinou a jogar.

Em meio à vida na cidade, às voltas ao sítio, no período de férias, e a todos os acontecimentos da escola, concluí o curso ginasial, a oitava série. Era momento de escolher um curso de nível médio. As opções na cidade eram poucas: o magistério ou o técnico em contabilidade.

A minha opção foi pelo magistério e passei a cursar, inicialmente, as disciplinais gerais. A partir do segundo ano é que tive contato com as específicas da formação para o magistério de 1º e 2º graus. No terceiro ano veio o estágio supervisionado no qual teríamos que por em prática, com crianças, o que tínhamos aprendido na teoria. O estágio seguiu seu curso, suas etapas, e quando chegou o momento de regência de classe, ou seja, se assumir a sala, pude ensaiar meus primeiros passos como professora.