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O avanço cada vez mais acentuado das tecnologias da informação, imposto em grande escala pelo processo de globalização, contexto social, político e econômico no qual nos vemos imersos na contemporaneidade, faz com que vislumbremos lógicas que acentuam cada vez mais a exposição do eu. Delory- Momberger (2008) lembra que “o indivíduo tornou-se o homem plural descrito por Bernard Lahire (1998): ele não é mais o representante de um grupo e da lógica social inerente a esse grupo, mas o produto complexo de experiências socializadoras múltiplas” (p. 75) para atender as demandas e as características de uma sociedade em que o indivíduo tende a sucumbir à coletividade.

Mas, como ser o homem plural de Lahire sem perder a sua singularidade? A esta indagação, arrisco responder com uma reflexão que fiz em meu diário de campo, dialogando com Severino, personagem de Morte e Vida Severina (MELO NETO, 1994) e com as relações estabelecidas entre as pessoas, há poucos anos atrás na cidade onde nasci:

Em Acari-RN, cidade onde nasci, todos eram conhecidos pelo seu nome de “pia” e pelo seu pertencimento, como nas palavras de Severino: “O meu nome é Severino/ como não tenho outro de pia/ como há muitos Severinos/ que é santo de romaria/ deram então de me chamar/ Severino de Maria/ como há muitos Severinos/ com mães chamadas Maria/ fiquei sendo o da Maria/ do finado Zacarias [...] Mas, para que me conheçam/ melhor Vossas Senhorias/ e melhor possam seguir/ a história de minha vida/ passo a ser o Severino/ que em vossa presença emigra” (MELO NETO, 1994) E, igualzinho à história de Severino... Na minha cidade era assim/ todos se conheciam/ e por louvor à virgem santa/ muitas se chamavam Maria/ de Fátima havia muitas/ e pra não ter arrelia/ eu era Fátima de Wilson/ este nome era meu guia/ Wilson era meu pai/ seu nome também servia/ pra minha identificação/ era o que me distinguia/ além de Fátima professora/ das outras tantas Marias/ de Fátima, que como eu/ naquela cidade viviam (Diário(à)mente, set. 2013).

Infelizmente, esta lógica vem se transformando cada vez mais nos dias atuais. Creio que a saída se encontra nos meandros e possibilidades de uma sociedade biográfica que está em expansão e faz um apelo a que não nos esqueçamos quem

somos: “Como então dizer quem falo/ agora a Vossas Senhorias?/ Vejamos: é o Severino/ da Maria do Zacarias/ lá da serra da Costela/ limites da Paraíba” (MELO NETO, 1994).

Nessa perspectiva, o percurso biográfico se constitui num movimento capaz de encadear e vincular o homem a seus múltiplos perfis, a manifestar suas experiências, exercer sobre elas um processo de reflexividade e, a partir de uma lógica social plural e heterogênea, viver e expressar sua singularidade como ator social, ter uma vida, não como destino coletivo, mas uma vida que seja sua, que faça parte de sua história pessoal e de uma narrativa de si.

A forma narrativa da expressão de si é, sem dúvida, de todos os tempos, mas ela é mais particularmente de um tempo que induz cada um a manifestar as marcas de sua passagem no mundo e que identifica consciência de si e ação sobre o mundo (DELORY- MOMBERGER, 2008, p. 78).

Esse “imperativo biográfico” faz uma convocatória a que sejamos donos e possuidores da história de nossas vidas, e a biografização apresenta-se como uma das formas possíveis dessa apropriação. Segundo Passeggi (2011), o processo de biografização diz respeito ao ato pelo qual o narrador apropria-se de um instrumento semiótico (grafia), culturalmente herdado, para se colocar (autobiografia) ou colocar o outro (biografia) no centro da narrativa como protagonista do enredo.

Neste trabalho, entendo o processo de biografização como uma atividade na qual o sujeito utiliza-se da tecnologia da escrita para colocar-se no centro de uma narrativa autobiográfica como principal protagonista do enredo, sendo essa narrativa uma forma de comunicação que os indivíduos travam com seus processos de formação e com suas identidades pessoal e profissional para dizer quem são, o que fizeram em suas trajetórias de vida e formação até o momento em que pleiteiam uma vaga no contexto acadêmico brasileiro.

3.3 O processo de biografização no memorial: uma experiência formadora?

Retomando o que defini como pressuposto deste capítulo, de que a escrita de MPAPs por professores da infância, em contexto de injunção institucional, pode se constituir numa experiência formativa, recorro a contribuições de Josso (2010) para discutir a noção de experiência formadora. A autora afirma ser inesgotável a gama de “experiências” que evocamos a respeito de nossas vidas:

Vivemos uma infinidade de transações, de vivências; essas vivências atingem o status de experiências a partir do momento que fazemos certo trabalho reflexivo sobre o que se passou e sobre o que foi observado, percebido e sentido (JOSSO, 2010, p. 48).

Neste sentido, insisto na ideia da escrita de MPAPs pelos professores como uma experiência formadora, na medida em que estes operam uma reflexão sobre o contexto e condições de produção e defesa desses textos, bem como suas implicações em todo o processo.

Josso (2010) considera, ainda, que “para que uma experiência seja considerada formadora é necessário falarmos sobre o ângulo da aprendizagem [...] essa experiência simboliza atitudes, comportamentos, pensamentos, o saber-fazer [...]” (JOSSO, 2010, p. 47). Nessa perspectiva, para que uma experiência seja formadora, precisa comportar aprendizagens das quais o sujeito toma consciência a partir de um trabalho reflexivo feito sobre a experiência vivida.

A autora elenca três gêneros de aprendizagem, a saber: “aprendizagens e conhecimentos psicossomáticos; [...] instrumentais e pragmáticos, [...] compreensivos e explicativos” (JOSSO, 2010, p. 49), dos quais considero que os dois últimos têm uma relação intrínseca com a experiência da escrita e defesa dos MPAPs pelos professores: “aprendizagens e reconhecimentos instrumentais e pragmáticos (como é que eu me reconheço como ser capaz de interagir com as coisas, a natureza e os homens?)” (Idem). Esta dimensão da aprendizagem aparece nas narrativas dos professores quando eles interagem, pela escrita e defesa de seus MPAPs, com os aspectos técnicos relacionados a tecnologia da escrita e com o contexto de injunção institucional do concurso público; “aprendizagens e reconhecimentos compreensivos e explicativos (como é que eu me conheço como ser capaz de representações?)” (Ibidem). Esta dimensão da aprendizagem se evidencia nas narrativas dos professores, ao perceberem-se como alguém capaz de