– Memórias! Pois então uma criatura que viveu tão pouco já tem coisa para contar num livro de memórias? Isso é para gente velha, já perto do fim da vida.
(Monteiro Lobato)
Em Educação, e no fluxo de ascensão do movimento biográfico internacional, o uso de fontes biográficas e autobiográficas se afirma como uma das vias privilegiadas da pesquisa qualitativa e interpretativista. Segundo Passeggi (2008), o movimento das histórias de vida em formação surge nos anos 1980, no contexto da formação permanente, acompanhando o retorno do sujeito nas Ciências humanas, no Canadá e em países europeus (França, Bélgica, Suíça, Portugal). Esse movimento se propaga no Brasil, nos anos 1990, graças aos trabalhos de António Nóvoa, que reconhece as potencialidades das histórias de vida para a formação de professores. Encontra, no Brasil, um espaço aberto por um tipo de escrita de si que se constitui uma tradição acadêmica no ensino superior brasileiro, conforme afirma Passeggi:
O memorial, que se institucionalizou, nos anos 1930, tornando-se uma prática usual para fins de ingresso e promoção na carreira docente, obtenção de diplomas e acesso à pós-graduação (2006a, p. 66).
A autora (2008), ao realizar uma espécie de sobrevôo histórico, tomando como indicadores publicações, congressos, criação de associações, teses e mestrados nos cursos de pós-graduação distingue quatro períodos importantes na adoção e utilização do memorial na academia: o de institucionalização do memorial (1930-1970), quando passa a ser exigido como requisito para ingresso ou progressão no cargo de professor catedrático; o de expansão (1980), quando é solicitado como requisito para ascensão ao cargo de professor adjunto, nas universidades federais, momento em que se implanta uma nova carreira no magistério superior; o de diversificação (1990), quando o memorial passa a ser utilizado como dispositivo de formação de professores; e o de fundação (2000), quando os memoriais tornam-se fonte de pesquisa educacional.
Entre os anos 1980 e os anos 2000, Passeggi (2008) observa a existência de uma sincronicidade entre a evolução do movimento das histórias de vida em formação, na Europa, e a evolução das concepções e usos dos memoriais como fonte de pesquisa e prática de formação, no Brasil. A publicação, em 1991, do memorial da professora Magda Soares - Metamemória, Memórias: travessia de uma
educadora, escrito em 1981 para o concurso de professor titular na Universidade
Federal de Minas Gerais, marca o momento em que se generaliza o seu uso também em concursos públicos e para diferentes níveis da carreira docente. Esse fenômeno de expansão e valorização da palavra do sujeito, que toma em suas mãos a própria vida para fazer a narrativa de sua formação, não pode ser visto de forma isolada. Há que se considerar o momento histórico e o contexto sociopolítico e cultural vigentes, conforme assinala Passeggi (2010a, p. 31):
A institucionalização do memorial tem como pano de fundo o momento histórico da redemocratização do país, a busca de transparência nos concursos públicos e a valorização do mérito acadêmico nas instituições federais.
A Universidade Federal do Rio Grande do Norte figura entre as instituições federais brasileiras que adotam o memorial com uma tripla finalidade: para ingresso, para progressão na carreira e como dispositivo de formação (Trabalho de Conclusão de Curso - TCC).
O NEI, embora não sendo uma instituição de ensino superior, encontra-se administrativamente ligado ao Centro de Educação e segue a legislação vigente na UFRN, em muitos aspectos. No que interessa para este estudo, adota as mesmas normas do concurso público para preenchimento de vagas de docentes, inclusive a escrita e defesa do Memorial e Projeto de Atuação Profissional – MPAPs –, pelos candidatos.
As finalidades da escrita do memorial foi um aspecto abordado nos textos de alguns professores, como no de Polímnia que fez uma reflexão sobre a produção do memorial como uma autobiografia, no contexto de um concurso público:
Construímos a nossa autobiografia acreditando ser a história de nossas vidas para um determinado momento possível que estamos vivenciando ou pelo qual estamos passando, no meu caso um concurso público (POLÍMNIA, 2010, p. 1).
Quanto à produção de memoriais, pelo menos uma professora da pesquisa relatou que já havia passado pela experiência da escrita de um memorial de formação e que, no momento de produção do memorial acadêmico para realização do concurso, passou por alguns questionamentos que dizem respeito às características desses dois tipos de narrativas e a seus objetivos:
Eu já tinha feito um memorial para a conclusão de uma especialização que fiz aqui na universidade e o trabalho de conclusão de curso já era um memorial. E aí, aquela pessoa que escreveu o memorial era a mesma que estava concorrendo, então eu recuperei parte desse memorial, fui atualizando muitas coisas e outras precisando escrever novamente. Mas acho que, ao voltar para este memorial e refletir [...] eu fiz uma nova leitura, eu fui retomar [...] será que aquilo que eu escrevi em 2005 valia agora em 2010 ou algumas coisas precisavam retomar? [...] Agora não era mais para conclusão de curso, eu estaria sendo avaliada também, mas agora uma avaliação um tanto diferenciada, qual era o aspecto que eu tinha que dar maior visibilidade, era o meu aspecto profissional? (TERPSÍCORE, grupo de discussão).
Ao retornar ao memorial produzido anteriormente, Terpsícore identifica elementos que são recorrentes, porque se trata da mesma pessoa e, portanto, de um percurso profissional que precisava ser revisitado e atualizado, tendo em vista o hiato temporal entre a escrita dos dois memoriais. Ela também considera que existem diferenças entre os dois textos, porém, ao que parece, realizou uma certa “negociação” entre o que deveria ou não ser ressaltado na escrita do memorial acadêmico, tendo em vista a sua finalidade.
A professora Clio, embora não tenha afirmado se já havia passado pela experiência de escrita de um memorial, parece ter consciência da diferença entre um memorial de formação e um memorial acadêmico:
Então, acho que pesou muito essa questão de ser um memorial para um concurso porque se eu não tivesse sendo avaliada, se fosse um memorial, por exemplo, escrito [...] no curso de Pedagogia eu tenho certeza que seria um memorial diferente (CLIO, grupo de discussão). A escrita do memorial em contexto institucional constitui-se como uma forma de dar sentido à existência e à formação, reconstituindo percursos formativos. Esta prática não pode ser tomada isoladamente. É necessário colocá-la num sistema de ralações estabelecidas numa sociedade cujo imperativo é a exposição do eu, haja vista a utilização cada vez mais crescente de blogs, páginas web e redes sociais que tem contribuído para uma exposição pública da vida e do vivido pelas pessoas. No
discurso instituído pelas Ciências humanas, a essas formas de “exposição do eu”, pela escrita da própria vida ou escritas de si, tem-se denominado de processo de biografização, sobre o qual faço uma breve discussão.