“Eu acho que você é quem deveria ser nossa professora”: esta frase ecoa em meus ouvidos desde aquela manhã de um final de setembro primaveril. O ano era 2005. O cenário, uma sala de aula do NEI, e o motivo para eu estar naquele lugar: a prova didática de um concurso público para ingresso, na instituição, como professora efetiva.
O tema da aula que eu conheci 24 horas antes de proferi-la – a flora da cidade –, levou-me ao Parque das dunas para coleta de material que a mãe natureza deitara ao chão. No dia seguinte preparei, cuidadosamente, um baú forrado de seda com o material colhido, um projeto de trabalho e um plano para a referida aula. Ao entrar na sala e sentar na roda com as crianças, a curiosidade destas para conhecer o conteúdo do baú, era latente. A aula começou naquela turma de crianças que havia estudado as plantas como tema de pesquisa durante o ano, e que, portanto, sabiam muito mais sobre plantas do que eu. A aula seguiu seu curso acompanhada pelo olhar da banca examinadora ali instalada: três profissionais expert em educação de crianças para, ao final, ouvir da boca de uma criança, a frase acima. Para mim significava o prenúncio da realização do meu sonho de ingressar, como professora, no NEI.
Era o quarto concurso para carreira de professor que eu me submetia durante toda a vida. O primeiro em 1984 para o estado do RN, o segundo em 1989 para prefeitura de Natal, o terceiro em 2003 para professor substituto do curso de Pedagogia do Departamento de Educação da UFRN, em todos eu havia obtido êxito.
Em 1993, o NEI abriu concurso público para preenchimento de 14 vagas de professores. Fiz minha inscrição, mas a maternidade me impediu de comparecer ao concurso, uma vez que, no dia da prova escrita eu me encontrava na maternidade por ter trazido ao mundo, Lucas, meu único filho.
O sonho de ser professora no NEI teve que ser adiado e quando eu nem esperava mais por isso, ele se fez realidade. Submeti-me, despretensiosamente, porque sabia do quão difícil seria uma aprovação naquela instituição, ainda mais porque estava sendo oferecida uma única vaga. Porém, ao terminar a aula e ouvir tal julgamento proferido por uma criança, fui para casa e comecei a preparar meu espírito para o resultado final.
O prenúncio do menino se fez realidade. Fui aprovada no concurso e ingressei no NEI em julho de 2006, tendo que romper o vínculo profissional com a prefeitura de Natal, já que o regime de trabalho no NEI é de dedicação exclusiva. Desde então, atuo como professora no atendimento a crianças da educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental.
Nessa instituição, além da educação das crianças, cuidamos permanentemente de nossa formação e da formação de professores das redes públicas de ensino do estado do Rio Grande do Norte, bem como de outros estados brasileiros. Com a minha inserção no NEI ampliaram-se as possibilidades de atuação em cursos de formação resultantes de projetos de pesquisa e extensão desenvolvidos pelo NEI e/ou em parceria com a instituição.
Neste sentido, tive oportunidade de participar de dois programas de formação dos quais o NEI era parceiro, a saber: o PAIDEIA (Programa de Formação de Professores de Arte e Educação Física na Infância), um programa do Ministério da Educação-MEC em convênio com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, destinado a professores da educação básica (infantil e anos iniciais do ensino fundamental); e do PROINFANTIL (Programa de Formação Inicial para Professores em exercício na Educação Infantil) também do MEC/SEB (Secretária de Educação Básica) e SEDIS (Secretaria de Educação a Distância).
Ambos os programas tinham como exigência a produção de um memorial de formação. No PAIDEIA, esta exigência se dava no Curso de Especialização, como TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Cada grupo de cinco cursistas tinha um tutor que orientava seus estudos e a elaboração do memorial.
No PROINFANTIL, o memorial era construído ao longo de todo processo de formação (dois anos) como parte integrante do portfólio dos professores cursistas. Atuando como professora formadora e orientadora da produção escrita de memoriais nessas duas experiências, percebia a potencialidade da escrita desta narrativa para o sujeito em formação, o que reforçou ainda mais o meu interesse por continuar nessa vertente de pesquisa.
No NEI, temos também oportunidade de participar na elaboração e desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão. Participei, em parceria com o Departamento de Nutrição da UFRN, de um projeto de pesquisa que visava a promoção da alimentação saudável desde a mais tenra infância e que envolveu toda a comunidade escolar. Este projeto alimentou muitos trabalhos de conclusão de
curso, especialmente de alunos do curso de Nutrição, dos quais participei como co- orientadora e membro de bancas de avaliação.
Em 2010, em parceria com professores do DENUT, publicamos o livro intitulado “É de pequeno que se aprende? Promoção da alimentação saudável na
Educação Infantil”, pela EDUFRN. Como desdobramentos desse projeto de pesquisa
apresentei e coordenei, por dois anos, o projeto de extensão Educação alimentar na Escola: uma responsabilidade de todos. Uma das metas desse projeto consistia na implantação de uma horta na escola e pude contar com a colaboração de uma aluna do curso de Nutrição que fez seu TCC sob minha orientação, com a temática da horta na escola como estratégia de educação para uma alimentação saudável.
Em parceria com o Centro de Educação, orientamos Trabalhos de Conclusão de Curso de estudantes de Pedagogia, especialmente sobre temas centrados na infância. Também ministramos aulas em cursos de especialização destinados a formação de professores da educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental.
Terminado o meu estágio probatório de três anos no NEI, elaborei um projeto para concorrer à seleção do curso de doutorado no PPGEd-UFRN e fui aprovada. Tinha como intenção desenvolver uma pesquisa com o objetivo de analisar o processo de inserção de professores da infância, no NEI, tomando como base narrativas autobiográficas produzidas no contexto de realização de um concurso público, no ano de 2010, para ingresso na instituição como professor efetivo. O conhecimento construído nessa pesquisa está sistematizado neste texto de tese.
A realização do doutorado me propiciou, além de outras experiências, a realização de um estágio sanduíche e desenvolvimento do projeto “Formação de professores da infância: interfaces entre (Auto)biografia e formação”, pelo Programa Nacional de Cooperação Acadêmica (PROCAD-NF-2008/CAPES) conforme acordo estabelecido entre a Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN e a Universidade de São Paulo – USP, no período de 15 de outubro a 15 de novembro de 2011, em São Paulo-SP.
Embora por um curto espaço de tempo, tive oportunidade de acesso ao acervo da biblioteca da Faculdade de Educação – FEUSP; de participar de algumas aulas ministradas na pós-graduação; de visitar o Colégio de Aplicação da USP, que atende crianças em nível de creche, educação infantil e ensino fundamental. Foi, também, uma oportunidade de fazer contatos e trocas com professores da Faculdade de Educação, como a professora Paula Perin, Mônica Pinazza, dentre
outros. Na realização desse estágio, entre um café e outro, e por entre os muitos livros da Livraria Cultura, conheci a professora Marineide Gomes que me deu muitas orientações de leitura e contatos em diferentes universidades de São Paulo, além de presentear-me com a leveza da sua companhia e a sabedoria e simplicidade que habitam sua alma.
A realização do doutorado oportunizou-me, ainda, a realização de um doutorado sanduíche financiado pela CAPES, no Instituto de Educação da Universidade do Minho – Braga-PT, sob a orientação da Professora Dra. Teresa Sarmento, no período de março a setembro de 2012. Além da convivência no contexto de uma importante universidade internacional, principalmente no que diz respeito à educação de crianças e formação de professores desse nível de ensino, tive oportunidade de participar em disciplinas ministradas pela professora Teresa, como ouvinte e como palestrante numa sessão de debate, no curso de mestrado em educação.
Além disso, também participei durante o semestre que lá estive, do acompanhamento de estágio orientado pela professora Teresa, junto às alunas de um curso de mestrado em educação de crianças. Além das sessões de orientação que aconteciam quinzenalmente, acompanhei a professora em muitas de suas visitas a instituições de educação infantil dos municípios de Braga, Guimarães e Pólvoa de Lanhoso, bem como da culminância do estágio, no final do semestre, em que estavam presentes todas as estagiárias do curso e as respectivas educadoras que as receberam nas instituições – campos de estágio, num debate em que eram avaliados os projetos pedagógicos desenvolvidos e a atuação das estagiárias.
Esta experiência me possibilitou conhecer a forma como o estágio é conduzido naquele contexto, além de diferentes instituições de atendimento à infância no norte de Portugal, quanto à proposta pedagógica adotada, a relação estabelecida entre educadoras-crianças, crianças-crianças e destas com o saber.
Como na realização do mestrado em educação, encontro-me em processo de produção de um texto, desta vez uma tese que trata das formas como se deu o processo de inserção institucional de professores da infância num Colégio de Aplicação da UFRN e, com ele, espero contribuir para a construção de conhecimento nesse campo.
Nesta narrativa/recorte da minha história de vida tracei o caminho de como, ao longo de minha trajetória pessoal e profissional tem acontecido a minha inserção
em diferentes contextos e grupos sociais: família, escola, universidade, instituições profissionais, transformando-as e sendo por elas transformada, num movimento/ metamorfose constantes, tal como acontece nas fases da vida de uma borboleta, e se confundem com o meu próprio processo de formação, que como segue seu curso, só pode ser contado no caminho.
Sigo, assim, nesta grande escola que é a vida, aprendendo, me formando e reafirmando o que disse Comenius: “não há outra finalidade para cada ser, além de aprender na vida a própria vida”.
Sendas e caminhos da investigação
Caminhante, é tuas pegadas, o caminho nada mais; caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar. Ao andar se faz caminho, e ao voltar a vista atrás se vê a senda que nunca, se há de voltar a pisar Caminhante não há caminho, se não há marcas no mar... [...] Caminhante não há caminho, se faz caminho ao andar...
(Antônio Machado, 1999)