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Um pré-requisito para se falar de Equilíbrio Reflexivo na teoria de Rawls é entender que os cidadãos são livres e iguais e possuidores das duas faculdades morais anteriormente apresentadas. Para Rawls, a concepção pública de justiça fornece um ponto de vista aceito por todos. Os cidadãos sabem: 1) que a estrutura básica da sociedade respeita esses princípios; e

2) que têm um senso de justiça que lhes permite aplicar os princípios justos publicamente reconhecidos. Portanto, parece razoável que as partes optem pelos dois princípios de justiça que garantem a todos uma total liberdade, acesso equitativo aos bens primários e uma posição social segundo sua qualificação, formação e/ou capacidade. Os participantes da posição original, submetidos ao véu de ignorância, firmam um contrato de uma ordem social justa. Esse acordo tem de ser feito tendo por base a noção de Equilíbrio Reflexivo - Thomas Pogge ressalta que o estado de equilíbrio reflexivo não é necessariamente permanente87 – que é alcançado quando alguém considera cuidadosamente outras concepções de justiça e a força dos vários argumentos que as sustentam. Segundo Rawls, os juízos refletidos são alcançados quando a nossa capacidade de julgamento pode ser plenamente exercida e não é afetada por influências distorcidas. Tanto a teoria da justiça como equidade, afirma Rawls, como quaisquer outras teorias devem passar por essa avaliação. Ou seja, devemos procurar ver:

até que ponto a doutrina, tomada como um todo, alia e articula entre si nossas convicções mais firmes e mais ponderadas, em todos os níveis de generalidade, depois de um exame sério, uma vez feitos todos os ajustes e revisões que pareçam necessários. Uma doutrina que satisfaça esse critério é a doutrina que, na medida em que podemos agora estar seguros dela, é a mais razoável para nós (RAWLS, 2002a, p. 75).

Para Vita, isso nos dá a possibilidade de rejeitar uma concepção de justiça que em certos casos “possa justificar a escravidão ou a servidão [...], a intolerância religiosa ou o preconceito racial ou ainda aceite a violação de direitos e liberdades políticos em troca da maximização da utilidade geral” (VITA, 1993, p. 46). No entanto, os juízos que fazemos sobre algo pode chocar-se com o de outras pessoas e até mesmo com as nossas próprias concepções, pois nossos juízos nem sempre são coerentes. A grande questão para Rawls é a seguinte: “como podemos tornar nossos juízos refletidos de justiça política mais coerentes, tanto dentro de nós mesmos como com os dos outros, sem impor a nós mesmos uma autoridade política?” (RAWLS, 2003, p. 42).

Para a teoria rawlsiana, todos os nossos juízos são passíveis de ter certa razoabilidade. Em contrapartida, como nossos juízos entram em conflito com o dos outros, alguns deles precisam ser revistos ou mesmo suspensos, a fim de que seja possível atingirmos um acordo razoável no que diz respeito à justiça política. Rawls divide em duas concepções o que ele entende por juízos reflexivos: um restrito, o outro amplo. Imaginemos que nos deparamos, por exemplo, com uma questão a ser discutida dentro da sociedade e que essa questão não exige revisões e se apresenta como aceitável na medida em que é apresentada. Para ele, “quando a pessoa em questão adota essa concepção e a ela alinha seus outros juízos, dizemos que essa pessoa está em equilíbrio reflexivo restrito” (RAWLS, 2003, p. 42). É considerada restrita quando é procurada a concepção de justiça que menos exige revisões e não se levam em consideração outras concepções ou a força dos argumentos que as sustentam88. Por equilíbrio

reflexivo amplo, por outro lado, Rawls entende aquele equilíbrio que é alcançado “quando alguém considerou cuidadosamente outras concepções de justiça e a força dos argumentos que as sustentam.” (RAWLS, 2003, p. 43). Para ele, essa pessoa considerou as principais concepções de justiça política que estão presentes na tradição filosófica e pesou os argumentos que as sustentam, sejam eles filosóficos ou não89. Para Pogge, a noção de equilíbrio reflexivo amplo seria uma incorporação, por assim dizer, de vários equilíbrios

88 “A reflexive equilibrium that arise through reflection on merely one’s own prior convictions is narrow”

(POGGE, 2007, p. 165).

89 “A process of reflection that also pays careful attention to the moral conceptions advanced by others – in one’s

own and in foreign intellectual traditions – and thereby gives these a chance to influence one’s own convictions and systematizations results in a wide reflexive equilibrium” (POGGE, 2007, p. 165)

reflexivos restritos. Assim, 1) se uma sociedade bem-ordenada, tal como Rawls propõe, é uma sociedade dirigida por uma concepção pública de justiça; 2) se os cidadãos reconhecem essa concepção pública de justiça; 3) Rawls conclui que o equilíbrio reflexivo também é geral, pois “a mesma concepção é afirmada nos juízos refletidos de todos” (RAWLS, 2003, p. 43). Em uma palavra, a pretensão de Rawls é afirmar que a concepção de justiça mais razoável é aquela que se ajusta a todas as nossas convicções refletidas, demonstrando, assim, o caráter prático de sua teoria. Nas palavras de Vita, a filosofia política pode dedicar-se a um empreendimento prático, a saber:

conceber princípios primeiros de justiça para as instituições básicas da sociedade que exprimam nossa autopercepção como pessoas morais livres e iguais e a ideia intuitiva de que a sociedade entre pessoas que assim se concebem deve ser um sistema equitativo de cooperação social (VITA, 1993, p. 44).