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Os deveres de lealdade e cooperação impõem aos contratantes uma atuação reta, omissiva ou comissiva, insuscetível de fraudar a confiança da contraparte, conforme se espera de quem atua no tráfico jurídico, objetivando o atendimento das legítimas expectativas da contraparte.
Tais deveres transformam os contratantes em parceiros ainda que seus interesses sejam contrapostos, porém, não divergentes, uma vez que os efetivos interesses envolvidos na relação devem ter por escopo o melhor adimplemento e a finalidade do negócio.
Dessa forma, é incorreto atualmente representar o contrato como um feixe de interesses divergentes, tal como se fazia no passado, com fins didáticos, para distinguir o instituto do contrato de sociedades, simbolizado por um conjunto de interesses convergentes à consecução do objeto social.
Para Cordeiro (2007, p. 606-607):
Os deveres acessórios de lealdade obrigam as partes a, na pendência contratual, absterem-se de comportamentos que possam falsear o objectivo do negócio ou desequilibrar o jogo das prestações por elas consignados. Com esse mesmo sentido, podem ainda surgir deveres de actuação positiva. A casuística permite apontar, como concretização desta regra, a existência, enquanto um contrato se encontre em vigor, de deveres de não concorrência, de não celebração de contratos incompatíveis com o primeiro, de sigilo face a elementos obtidos por via de pendência contratual e cuja divulgação possa prejudicar a outra parte e de actuação com vista a preservar o objetivo e a economia contratuais. Estes deveres hão-de imputar-se à boa-fé e não ao próprio contrato em si, quando não resultem apenas da mera interpretação contratual, mas antes das exigências do sistema, face ao contrato considerado.
Entende ainda o mencionado doutrinador que esses deveres “[...] acompanham as particularidades assinaladas dos seus congêneres. [...] a ‘lealdade’ em jogo transcende o respeito pelo contrato; corporiza, antes, parâmetros diversos do sistema que afloram a pretexto do contrato” (CORDEIRO, 2007, p. 616).
Os deveres de lealdade têm forte influência sobre os deveres de prestação, já que a inobservância daqueles pode acarretar a frustração destes últimos. Isso porque, segundo o escólio de Silva (2002, p. 112), os deveres de lealdade:
[...] nascem e se corporificam, em grande medida, em atenção às situações estabelecidas para as prestações fim do contrato, como no caso da omissão de determinada conduta que conflitue com o objeto de um contrato em vigor ou anterior.
Da mesma forma, os deveres de cooperação têm grande importância para os fins do contrato, visto que estabelecem para as partes a obrigação de auxiliar na realização de atividades preliminares indispensáveis ao adimplemento, mas também impõe o dever de não criar dificuldades para a consecução do ajuste. Silva (2007a, p. 96) assevera que “todos os deveres anexos podem ser considerados deveres de cooperação”.
Isto porque é ínsita às relações obrigacionais uma atitude positiva de cooperação, de colaboração na busca da melhor satisfação do interesse alheio, à medida que a boa-fé atua como critério de conduta que se dirige ao cumprimento do pactuado, satisfazendo a expectativa da outra parte (MARTINS-COSTA, 2002a).
Os deveres de lealdade possuem duas conotações: uma positiva e outra negativa. A primeira exige que – desde as tratativas até a fase pós-contratual – os negociantes atuem e cooperem, removendo óbices materiais e jurídicos que, porventura, perturbem a conclusão da obrigação. A feição negativa traduz-se no dever de não iniciar ou prosseguir nas tratativas se
inexistir real intenção de concluir o estipulado84, bem como de não abandonar ou interromper, desmotivadamente, a execução do contrato.
Sobre esse dever no âmbito consumerista, pontifica Marques (2005, p. 1024):
Cooperar é um dever de conduta do parceiro contratual segundo a boa-fé. É o simples agir com lealdade, é colaborar com o “outro”, para que possa cumprir com suas obrigações e possa alcançar suas expectativas legítimas e interesses naquele tipo contratual. Cooperar é não obstruir ou impedir o acesso do consumidor à justiça, à possibilidade de reclamação ou efetivação de seus direitos, ou o seu acesso à prestação contratual (com reabertura de carência, desconsideração do cumprimento substancial pelo atraso de apenas uma prestação etc.). Cooperar é tratar com lealdade o outro e não instituir um mandato ou cláusula afim para poder assinar em seu nome negócio jurídico diferente do principal ou poder se ressarcir de forma mais efetiva diretamente em sua conta corrente ou poder transferir riscos profissionais seus ao levantar dinheiro no mercado ou empréstimo em dólares. Cooperar é colaborar com o outro que deseja ou necessita manter os contratos cativos de longa duração (forçando distratos fictos, rescisões, e induzindo o fim do vínculo). Cooperar é, em resumo, não criar barreiras contratuais para que o “outro” consiga alcançar seus pontos legítimos no contrato.
Investigando a incidência dos deveres de lealdade na responsabilidade pré- contratual, Prata (2005, p. 68) oferece critérios que permitem caracterizar como ilícita, a ruptura das negociações em virtude da violação desse específico dever, afirmando que:
Se, nos casos em que uma das partes inicia o processo negociatório sabendo de antemão que não virá a concluir qualquer contrato – e isto quer a sua motivação seja a de prejudicar a outra parte, quer seja a de, com desconsideração dos interesses dela, explorar as condições de mercado, por exemplo – ou naqueles em que a própria ruptura tem por fim a produção de prejuízos ao outro sujeito, é fácil encontrar maioritário entendimento doutrinal no sentido de fazer suportar a essa parte os danos que a sua conduta dolosa ou irreflectida provocou ao outro sujeito [...].
Critério semelhante foi proposto por Vaz Serra (apud PRATA, 2005, p. 71) para o Código Civil português, estatuindo o n. 3 do seu art. 8º que “incorre em responsabilidade, no caso de rotura de negociações, aquele que conscientemente fez com que a outra parte acreditasse, sem dúvida, em que o contrato se realizaria e depois, sem motivo justificado, rompe as mesmas negociações”.
Essa redação, no entanto, não transitou para o texto definitivo do Código, permanecendo a cargo do intérprete a definição da responsabilidade in contrahendo, em casos
84 Ressalta-se que: “o entrar em negociações pressupõe uma disponibilidade das partes em celebrar o contrato,
caso os juízos de conveniência e oportunidade surjam para ambas. É um ato, ou processo, que requer uma certeza: a de que pode conduzir ao fechamento do contrato. A negociação é, portanto, um processo teleológico, dotado de uma finalidade – a eventual conclusão contratual – o que requer um comportamento leal e honesto em todo o seu desenrolar. Por esta razão, tem-se considerado como contrário à boa-fé objetiva o entrar ou prosseguir em negociações sem que haja, desde o início, uma intenção de conclusão, o que a Doutrina alemã chama de
que tais, tarefa da qual se desincumbirá mediante a ponderação dos interesses em jogo e considerando a crescente confiança gerada pela evolução dos contratos pré-negociais, impondo o dever de lealdade. Ainda segundo Prata (2005, p. 71):
[...] que a parte, que saiba – ou deva saber com a normal diligência – que algum risco ameaça o sucesso do processo negociatório, o comunique à contraparte, advertindo-a, em particular, da necessidade de adequada prudência na realização de gastos ou na privação de ganhos. A violação do dever pré-contratual de lealdade pode consubstanciar, pois, uma conduta omissiva – e, frequentemente,- assim será -, mas pode também traduzir-se num positivo comportamento de incitamento da contraparte a praticar actos ou a abster-se de iniciativas no pressuposto da futura celebração do contrato, quando se sabe que a probabilidade desta é escassa.
Independente dos motivos capazes de gerar o rompimento das negociações, os deveres laterais de lealdade – e aqui se acrescenta, o de cooperação – objetivam evitar a ocorrência de prejuízos injustos ao contratante que concorreu para as tratativas com boa-fé, buscando a realização dos seus legítimos interesses.
Portanto, aos contratantes não cabe tão-somente a observância e o respeito às cláusulas estipuladas no contrato, mas também à colaboração leal na satisfação das necessidades da relação obrigacional.
Esse norte, orientador da fase de negociações, constitui bússola segura a guiar a conduta dos contratantes nas demais fases contratuais, porquanto, o que aqui se prestigia é a postura de integridade, de probidade e de idoneidade das partes, visando atender as legítimas expectativas do alter.