Como compreender a experiência de Cunha Mattos em Goiás? As pistas ao longo deste capítulo apontam, em minha opinião, três caminhos inequívocos e interdependentes. O primeiro deles se relacionava à problemática do panorama político de Goiás, e vinculava-se à rejeição por parte de Cunha Mattos do oportunismo, do clientelismo e da corrupção da elite burocrática goiana. Esta, por sua vez, não é analisada independe dos fatores nacionais em formação. De fato, é impossível não perceber que Cunha Mattos analisa e interpreta Goiás a partir da óptica da construção da nação, do Estado e do Império, porque, fundamentalmente, são estes três elementos que, repetidas vezes, justificam e orientam as opiniões e os argumentos de Cunha Mattos. Aliás, na compreensão de Cunha Mattos a regeneração de Goiás estava indissociada da ação efetiva desses fatores. Essencialmente, isso decorria da compreensão de Cunha Mattos que a independência e a construção da nação pelo Estado Imperial significava o maior dos marcos fundantes da história do Brasil. A moral, a disciplina, a obediência às leis, a racionalidade dentro do aparelho estatal eram visto por Cunha Mattos como uma justificativa que orientava e, sobretudo, justificava e legitima o projeto de nação movida pelo Império – cujo objetivo primordial era a constituição de um projeto civilizatório.
Na compreensão política de Cunha Mattos (como, aliás, também em quase todos os quadrantes da alta burocracia) este projeto era inexeqüível sem disciplina, união e ordem. Tais elementos, por definição, seriam (conforme se deduz das palavras de Cunha Mattos) possíveis tão somente a partir do pressuposto do Império e da centralidade Monárquica.
As adversidades e a indisposição de Cunha Mattos com parte da elite burocrática goiana foi, na compreensão do próprio Cunha Mattos, interpretada como a oposição entre os interesses locais ou regionais enraizados contra a ação coerciva e moralizadora do estado imperial – excelso promotor da nação e da
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civilização. Cunha Mattos deve ter essa impressão – correta em linha gerais – reforçada pelos confrontos verificados entre o ouvidor João Pereira Borges – que, como Cunha Mattos, enfrentou uma forte resistência da burocracia, o que é demonstrado, de modo paradigmático, pela pitoresca altercação que levou um adversário a cognomina-lo de maroto, cacchorrão e filha da puta, além de uma cena de quase pugilato entre este magistrado e o capitão Hancinto ocorrido na casa de fundição e mencionado em ofício pelo próprio Cunha Mattos.128
Dentro dessa estrutura nos quais se articula a ação, os interesses e as determinações dos potentados locais, não se pode excluir nem mesmo a figura de Manuel Inácio de Sampaio. É difícil não perceber que parte da oposição 'patriótica' que lhe foi movida relacionava-se estritamente à emersão do oportunismo e da ambição do de parte da burocracia local. Cunha Mattos compreendeu isso, e seu elogio insuspeito ao ex-capitão general se vinculava, em parte, à resistência desse burocrata exemplar em compactuar com o jogo político regional.
Essa, aliás, foi a mesma atitude de Cunha Mattos. Contudo, deve-se ressaltar uma diferença fundamental, fornecida pela conjuntura histórica, entre o Governador das Armas e o ex-capitão-general: enquanto funcionário de uma monarquia absolutista periclitante, não dispunha Sampaio de um sólido respaldo à sua ação e sustentação política, e sua permanência no poder se tornou, por causa disso, insustentável; Cunha Mattos, ao contrário, era um burocrata vinculado ao prestígio de uma monarquia que liderava o processo de independência, e que até 1826 dispunha, em grau razoável, de aprovação e legitima popular.
Caso não tivesse Cunha Mattos esse respaldo da Corte e do Estado-maior dificilmente ele teria conseguido se manter no cargo de Governador das Armas de Goiás por quase três anos em função da oposição da junta Provisória e, depois, de Lopes Gama e do Conselho Geral.
Nesse contexto, pode ser contraditório que mesmo em face de tamanha oposição Cunha Mattos tivesse o privilégio de ser eleito deputado pela província de Goiás. Será que estavam os "homens bons" de Goiás dispostos a reconhecer – ainda que com alguma relutância – a obra e a dedicação do Governador das
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Armas em relação às suas realizações militares e intelectuais e, portanto, o privilégio de tê-lo como representante no congresso nacional?
Na verdade, a eleição de Cunha Mattos, em virtude do sistema eleitoral em vigor, foi muito mais fruto de uma ação da política centralizadora imperial do que uma prova inquestionável da boa-vontade da elite goiana. O pleito para deputado, conforme estipulava a constituição outorgada por D. Pedro, “era indireto; ficavam excluídos da eleição os menores de vinte cinco anos não casados, e não empregados nos serviço público, os criados de servir, os religiosos, e quaisquer que vivem em comunidade claustral, e os que não tenham 100$000réis de renda anual..."129
A primazia do Imperador na determinação e controle dos congressistas, porém, dependia menos dessas restrições ao eleitorado, do que à sua ação exercida sobre os eleitos, já que cabia a Sua Majestade nomear
um membro entre os três candidatos mais votados de cada lista. Em vários exemplos, aconteceu que os mesmos candidatos tinham votos em duas províncias: disto se valeu Sua Majestade para escolher tais candidatos para uma das duas províncias, eliminar os seus nomes de todas as outras listas, e eleger o quarto, ou quinto candidato, em lugar do primeiro, segundo ou terceiro: um exemplo poderá melhor aclarar esta exposição. O imperador deseja nomear o quinto candidato de Goiás em lugar de um dos três mais votados: os dois primeiros na respectiva lista haviam também obtidos maioria de votos em outras províncias. Depois de haver nomeado esses dois candidatos pelas outras províncias, eliminou seus nomes da lista de Goiás, e contou o quinto nela como o terceiro mais votado”.130
A descrição de João Armitage parece ter sido moldado a partir do exemplo do próprio Cunha Mattos, que foi simultaneamente candidato por Goiás e Minas, e que dentro do ardiloso esquema eleitoral concebido pela constituição outorgada tivera o privilégio de ser escolhido pelo Imperador como representante legislativo de Goiás. Portanto, a sua eleição no pleito de Goiás se deveu menos à generosidade dos eleitores do que a determinação e a disposição do poder moderador em constituir a câmara e o senado com congressistas afinados com a política Imperial.
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ARMITAGE, João. História do Brasil, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1981, pg. 90.
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Além de Cunha Mattos, foi também 'eleito' deputado o ouvidor geral João Francisco de Borja Pereira: a seleção de ambos os deputados obedecia, em termos numéricos, correspondia à proporcionalidade eleitoral do pleito, que determinava um representante na câmara para cada 30 mil habitante provinciais.
Na eleição goiana é curioso constatar que ambos os deputados escolhidos eram de origem portuguesa, pertenciam ao alto estamento burocráticos e se debatiam em constante atrito com a elite local. Será que escolha de ambos obedecia apenas ao desejo de privilegiar funcionários públicos alinhados à ideologia imperial ou será que esta seleção foi também, de certo modo, um diplomático mecanismo utilizado para tentar apaziguar as desavenças entre o governador das Armas, o ouvidor, Lopes Gama e o Conselho Geral?
Não é certo concluir de modo cabal – em em face à disponibilidade da documentação – que a escolha de ambos para a Assembléia estivesse vinculada ao desejo do Imperador de solucionar as desavenças ente estas quatro esferas de poder em Goiás. Porém isso não desautoriza o historiador a compreender que do ponto de vista político, cedo ou tarde, o Imperador seria obrigado a agir, tanto para arrefecer os ânimos e as tensões como também para garantir a 'harmonia' e funcionalidade relativa dentro dos quadros do governo goiano.
Na verdade, não era possível uma governabilidade satisfatória sem a intervenção da autoridade exercida pelo poder moderador. Ainda que a eleição de Cunha Mattos e João Francisco não fosse uma ação diplomática apaziguadora operacionalizado por D. Pedro, e sim um mero mecanismo para a constituição de um corpo legislativo conforme os interesses imperiais, não se pode deixar de conceber que, em algum momento, a intervenção real seria impreterível e imprescindível.
Há ainda uma terceira hipótese – não menos plausível que as anteriores: a de que eleição tenha sido, além dos fins políticos incontestes, um mecanismo de prestigiar os serviços e ação do Governo das Armas e da Ouvidoria. Isso seria um meio sutil de repreender o jogo político e a prática administrativa em Goiás ao brindar com o pleito os seus maiores críticos.