• Sonuç bulunamadı

60

Em uma época de conturbação e de crise nada pode ser mais perigoso à manutenção da ordem do que uma sublevação armadas das tropas regulares. Atraso no abastecimento de víveres, baixo soldos e irregularidades frequentes nos proventos são fatore que historicamente costumam determinar motins – que conforme a gravidade da situação política catalizam revoluções e anarquias.

A Relação do Porto é uma evidência exemplar disso – sendo a causa imedita desse movimento o descontentamento da tropa com o atraso no pagamento dos soldos. Também no Brasil, a ameaça de insubordinação do exército pela má administração militar revelou todo o seu drama nos conhecidos motins de São Paulo e Santos. No dia 3 de junho de 1821 deu-se o levante na capital paulista, " por motivo de atraso no pagamento do soldo e de desvantagens em relação aos militares portugueses."61 No dia 29 do mesmo mês, por razões símiles, amotinou-se a tropa da Vila de Santos. "Nessa ocasião, sem comando nem disciplina, saquearam os soldados vários estabelecimentos comerciais e residências, deixando a população santista apovadrada e atônita. A revolta só foi contida com a marcha da tropa vinda do Rio de Janeiro."62

Estes três exemplos revelavam o quanto era melindrosa, no Brasil, a questão militar. Mesmo Goiás, a despeito das trezentas léguas que a separavam do frenesi do litoral, conheceu o poder decisivo das tropas na evolução de sua dinâmica política. Basta rememorar a deposição do Ouvidor Manuel Galvão e do coronel Antônio Alencastre pela soldadesca, cuja insatisfação com o crônico atraso nos soldos foi habilmente instrumentalizada pela Junta Provisória.

Como um coronel em íntimo contato com a tropa, e não apenas com um militar de gabinete, sabia Cunha Mattos o quanto as questões pecuniárias podiam afetar a 'rentabilidade' e a 'disposição' da tropa no cumprimento e execução das obrigações militares. Aliás, dentre os inúmeros dissabores sofridos por Cunha Mattos na operacionalização de suas obrigações e intentos militares em Goiás, os mais freqüentes e prementes vinculavam-se precisamente aos problemas relacionados à manutenção, disciplina e pagamento da tropa. No ofício datado de 1 de janeiro de 1825, por exemplo, ele acusava, declarava e expunha à Junta que:

61

WERNET, Augustin. O Processo de Independência em São Paulo, in, Dimensões 1822, Editora Perspectiva, São Paulo, pg. 347.

62

(...) a falta de soldo e alimentos tem dado motivos a muitas dezerções, e a Junta [da fazenda] é a culpada de semelhante acontecimento.(...)[E] Vossa Excelencias sabem que sem tropas não se pode defender estas províncias tandos dos inimigos internos quanto dos inimigos externos.(...)63

Na verdade, inúmeros soldados não recebiam soldos a anos, " e se [...] pagam he em bilhetes emitidos pela Junta para receberem na Caza de Fundição por Conta dos Quintos do Ouro que se funde, e por que nunca os soldados tem ouro para fundir achão-se obrigados a rebater aqueles bilhetes pela quarta de seu valor”.64

E complementa:

A falta de Socorros à Tropa de 1 e 2 linha tem dado motivos a inúmeras dezerções. (...) A guarnição do Rio Claro abandonou seu posto: esta guarnição contava com quatro milicianos(...) Da aldeia graciosa desertaram quatro soldados de linha: todas estas dezerções procedem da falta de pagamento de soldos...65

Já "por falta de meios de sustenção" se viu Cunha Mattos na impossibilidade de "conservar a guarnição de no Rio Piranintiga, onde os bárbaros Carijós fazem estragos"66

Em outro ofício, anterior ao acima citado, Cunha Mattos de modo mais sintético e objetivo expôs à Junta a sua compreensão quase dramática da situação da situação militar em Goiás:

"Em todo o Império", dizia o Governador das Armas, " não há Tropa mais desgraçada e digna de comiseração do que a da província de Goiás. Não Ha regularidade alguma no pagamento dos soldos; muitos soldados estão por pagar a anos. Não há fardamento aos que assentão praças, [e] não recebem erário a maior parte deles.67

Já no fim de sua estada em Goiás, a situação dramática parece torna-se crítica – ao menos é o que deixa entrever o ofício de 24 de outubro de 1825, dirigido à Secretaria dos Negócios do Estado da Guerra:

Vejo-me na indispensável obrigação de representar a Vossa Excelência [ D. Pedro I], que eu e a tropa de toda esta província não temos meios

63

Livro Manuscrito O118, pg. 121-123, ofício número 83, datado de 1[?] de Janeiro de 1825.

64 Ibidem. 65 Ibidem. 66 Ibidem. 67

alguns de subsistir. Eu não recebo soldo a tres meses. Muitos Officiais, [e] Officiais inferiores achão-se redusidos a última indigência. O Excelentíssimo Presidente procura com todas as suas forças acudir a necessidade[de pagamento] dos filhos da folha, mas debalde por que as rendas da Província não chegam a fazer a qualquer parte das despesas della: vinte mil cruzados que vieram do Rio de janeiro em consequencia das Representações que tive a honra de fazer a Vossa Excelência tem- se consumido, e continuam a dispender-se na promptificação dos mantimentos, e compra e alugueis de Bestas para condução das tropas, Ferro, Polvora e Aço que do Rio de janeiro e São Paulo se remeterão para Província de Matto Grosso. A província de Goyas he tão pobre, e as despesas que se fazem de tal modo avultosas, que não sei como hei de subsistir. Nem há quem empreste dinheiro, nem me atrevo apedi-lo por não Ter meios, nem esperança de paga-los: estou redusido a maior miséria, ausente de minha casa, e familia onde teria alguns recursos, sendo-me obrigado a franquear a minha frugal mesa aos Officiais de Matto Grosso, que por aqui passaram, e aos que aqui se achão, a acudir as continuas privaçoens dos Officiais e soldados de Goiás, que há muito meses não tem cobrado seus respectivos soldos. Digue-se Vossa Excelência acudir a esta miserável situação fazendo com que se remetão do Rio chapas de cobre para aqui serem cunhadas a fim de se proceder ao pagamento dos soldos devidos as tropas, e a outros filhos da folha.68

Mas a carência da tropa, do qual fala reiteradamente Cunha Mattos, não se subsumia ao atraso no pagamento dos soldos, as deficiências no abastecimento das provisões e na entrega dos fardamentos. Também se defrontava Cunha Mattos com o tratamento demasiado severo e não raro desumano de que eram vítimas os soldados. Isso podia advir tanto das falhas da estrutura militar existe em Goiás quanto dos vícios e corrupções inerentes às deformações da ética, principalmente daquela ética que deveria mediar as relações entre a Junta da Fazenda, os oficiais e os subordinados.

O primeiro caso pode ser exemplificado pela carência ou falta de botica, medicamentos, aparelhos cirúrgicos na enfermaria do Quartel General de Goiás, registrada em um ofício endereçado à Secretaria do Estado dos Negócios da Guerra, em que o Governador das Armas solicitava o envio desses materiais indisponíveis na Cidade de Goiás, e de que obviamente faziam parte todo o material minimamente necessário à manutenção de um posto destinado à oficiais feridos ou doentes.69

68

Livro Manuscrito 0118, pg. 280-281, ofício número 51 datado de 27 de outubro de 1825.

69

Já a irresponsabilidade e os abusos contra lisura podem (exemplarmente) ser averiguadas em quatro situações diferentes – entre tantas outras presentes na vasta documentação.

A primeira delas, já mencionada, refere-se ao mecanismo de rebate empregado no pagamento dos militares: a Junta da Fazenda não tendo numerário para saldar as dívidas com o funcionalismo militar tinha por hábito entregar os bilhetes do quinto que eram vendidos com o desconto de 30%. Esse mecanismo que favorecia, nas palavras de Americano do Brasil, "alguns ricaços pertencentes ao próprio governo",70 indignou Cunha Mattos, que exigiu a sua suspensão imediata.

Outra exigência do Governador das Armas se referia aos dias estabelecidos para o pagamento, que deveria ser normatizado conforme o sistema de pagamento das demais províncias do Império:

Havendo Vossa Excelencia mui benignamente atendido as minhas representações sobre a mizeria a que se achavão reduzidas as Tropas dessa Província por falta de seus soldos, e outros vencimentos, cumpre ainda clamar perante Vossa Excelencia contra o sistema inteiramente oposto ao da Corte, e ao de outras Províncias do Império.(...) [Os militares] que recebem os soldos e outras vantagens são obrigados a fazer uma e presentação a Junta da Fazenda a qual tem somente duas sessões por semana. Feliz he aquele que a representação na Primeira secção (...). De outra maneira, para o oficial receber seu soldos, há de esperar por duas ou mais secções entre as quais acontece cahirem alguns ou muitos dias feriados, do que resulta ficares[os militares] sem receber"

Esta pratica he muitas vezes alterada, pagando-se aos Officiais ao arbitrio da Junta para conhecimento lavrados na Contadoria, e nunca a vista de recibos: do que resulta ficarem sem receber os soldos os Officiais que se achão fora da Cidade, acumulando-se os seus vencimentos a medida que vai acumulando os mesmos. Aos soldados paga-se uma vez por mês, e outras vezes em consequencia de requerimentos em que se lançam Despachos tão morosos, quanto devidos a proteções particulares, e isto com o intolerável abuso de se ignorarem os Comandantes dos Corpos das Companhias a entrega do requerimento como os Despachos da Junta da Fazenda...71

Longe, porém, estavam as irregularidades de circunscreverem aos limites da relação entre a Junta da Fazenda e o corpo militar. Na verdade, entre repreensões, desafios e ousadias frente à pobreza do erário que afligia o exército em Goiás, frente à indisciplina da tropa, frente aos velhos privilégios de casta e

70

BRASIL, Americano do. Pela História de Goiás, Editora UFG, Goiânia, 1980, pg. 147.

71

face aos abusos cometidos pelo e para com os soldados agiu Cunha Mattos com denodo e determinação.

Logo no início de sua estadia em Goiás aboliu a segregação existente entre negros e brancos nos corpos milicianos. Esta determinação foi

(...) um golpe na aristocracia indígena que não compreendia pardos entre brancos. A resolução não fez adeptos, mas seria cumprida em nome da disciplina. Fervilhavam, [então] intrigas contra o então general Cunha Mattos. Achando esta atitude contrária ao bom senso, escrevia Cunha Matos ao ministro da Guerra que os goianos não estavam habituados a receber um governo popular. E mostrando a ligação com a família goiana e os inconvenientes resultantes, assegurava [Cunha Mattos] que eram satisfatórias as suas conclusões.72

No norte goiano, uma de suas ações foi interferir na nomeação de apadrinhados da Junta Provisória, substituindo os comandantes nomeados pelo padre Gonzaga por comandantes dos Distritos, encargo que deveria pertencer à pessoa mais graduada da localidade.73 Por causa de sua exigência da mais estrita disciplina, ordenou também a prisão de 36 oficiais e grande número de soldados por três dias, por se ausentarem dos compromissos da solenidade de 12 de outubro, data de aniversário do Imperador, e para qual, em homenagem, concebera Cunha Mattos uma parada. "As menores faltas eram punidas com rigor. A um soldado que cometeu estupro", diz Americano do Brasil,"mandou aplicar chibatadas à vista da tropa e da ofendida; a um cabo que roubou um cavalo, fez rebaixar."74 Ordenou e concebeu ainda o reparo na estrutura física de inúmeros quartéis em Goiás e seus armamentos, utilizando-se para tanto de subscrições populares.75

Tentou ainda, sempre que possível, moralizar a conduta dos oficiais em relação aos soldados, coibindo e negando o direito dos oficiais de utilizaram a chibata e de tomarem decisões a seu mero arbítrio e capricho, como pode se verificar no ofício enviado, como conselho e alerta, aos comandantes dos distritos:

Vossa Excelencias devem governar os soldados com muita prudência e amor, e urbanidade, lembrando-se que são homens livres e não Escravos (...) [mas seja a Vossa justiça antes] morosa e compassiva

72

BRASIL, Americano do. Pela História de Goiás, Editora UFG, Goiânia, 1980, pg. 147.

73 Ibidem, pg. 153. 74 Ibidem, pg. 156 75 Ibidem, 159.

do que precipitada e rigorosa. 2) No caso de que Vossa Excelencia esteja incumbido da Administração da fazenda Publica, zele com muita vigilancia, mas não confunda vigilancia com opressão. A Fazenda Publica não pode ser dilapidada, mas os Povos também não devem ser roubados a titulo dos interesses da Fazenda Nacional.(...). 4) Em caso de motins e dezordens populares V. Ex intervirá com a força armada para tranquilizar, e pacificar os homens e nunca para punir e vexar. 5) O tronco he para facinorosos incorrigíveis(...)76

Também combateu energicamente a exploração dos praças, coibindo muitas vezes o oportunismo dos Comandantes, como exemplifica o ofício enviado ao diretor militar do arraial de São Domingos:

Tendo vindo algumas peçoas a este Arraial [dizendo]que o Senhor para reputar por alto preço o Seo gado vale da autoridade para impedir que os seus subordinados saiam com as suas Boiadas para fora da Provincia.=Parecendo-me impossível este procedimento da parte de Vossa senhoria que sertamente não cometeria tão inaudida vileza imprópria de um homem honrado. Mas devendo eu tapar a boca de quem acusão a Vossa senhoria [ exijo] providencias que obstem a repetição da mesma queixa. Ordeno a Vossa Senhoria que não ponha o menor embaraço a sahida de soldados huma vez que elles lhe peção licença pra ir com Boiadas ou para algum negócio (...)77

Não foi tão somente, porém, na relação entre a oficialidade e a soldadesca que registrou Cunha Mattos a flagrantes atos irregularidades. Também entre a própria oficialidade o Governador das Armas se sentia obrigado a denunciar à Junta, em longo e pormenorizado ofício, o crasso desrespeito e subversão na nomeação de oficiais graduados – supondo, é claro, que fosse verdadeira a tese da inconsciência da Junta quanto ao caráter indevido das promoções apontadas pelo Governador das Armas:

Tenho a honra de participar a Vossas Exlencias que passei em revista as Companhias de Infantaria, e Cavalaria, aquarteladas nos Arraiais de Corregos de Jaragua, Meia-Ponte, e Bonfim, onde encontrei poucos bons soldados e quase todos os oficiais (principalmente os de Infantaria) o pior que pode ser. Contra a letra positiva [das] Patentes que Vossa Excelencias conferio por Despacho a dia 12 de maio do ano Corrente a diversos individuos, achei este homens qualificados nas Relações como Officiais, usando das insígnias correspondentes, e mandando ou Servindo nas respectivas Companhias. Fis dar imediata execução aos decretos de 11 de novembro próximo passado, e devo afirmar a Vossas Excelencias sem o menor escrupulo, que Vossas excelencias foram enganadas nas Propostas dos Chefes dos Corpos, e que estes por outro igual engano ou descuido propuzerão a Vossas Excelencias pessoas de

76

Livro Manuscrito 0120, pg 1-2, Ofício sem número, datadp de 27 de junho de 1823.

77

nenhum modo qualificadas para o Cargo os postos que os elevarão: Todos os promovidos estão fora das circunstancias da Ley: não podiam ser propostos a Vossas Excelências ( a exceção dos officiais infeiores ou alguns alferes) houve as mais escandalosas preterições de Officiais benemeritos, preterições que bem podiam se evitar porque não faltavam logares em que se acomodarem os homens dignos chamados ao serviço por Vosssas Excelencias ou lembrados pelos Comandantres dos Corpos. Eu espero que o sistema Militar fique bem estabelecido nessas Companhias depressa, [e] que para o futuro se evitem os abuzos athe o prezente tolerado.78

E assim, se forma o quadro ou mosaico dos intentos mais íntimos do Governador das Armas em relação à tropa do Império que servia em Goiás: racionalizar a administração militar tornando não apenas mais ágil o pagamento, o abastecimento e o socorro físico como também moralizar a dinâmica e o cotidiano dos soldados e oficiais. Para tanto, o recurso empregado era o novo e terno apelo à disciplina e ‘à obediência aos códigos militares. Disso não se pode deixar de ter em conta: Cunha Mattos era rígido e disciplinador como oficial e como militar. Aliás, devem ter sido estas características que impulsionaram a sua carreira. Afinal de contas, só o mérito próprio podia faze-lo nesse caso: filho de um modesto funcionário público de uma fundição estatal, sem antepassados aristocratas, sem ser nem mesmo ser apadrinhado por alguém que o vinculasse aos privilégios ou vantagens do funcionalismo militar, tinha construído ele sua carreira e projeção no exército apenas com as virtudes e qualidades que lhe deveriam ser inerentes.

A Junta conhecia decerto a reputação singular de Cunha Mattos. Não é, inclusive, uma mera especulação supor de que ela estivesse ciente e consciente de seu desempenho na campanha de Rossilon, próximo às montanhas dos Pireneus, onde se destacara como soldado por bravura frente a um ataque dos franceses revolucionários. Também não poderiam deixar de conhecer seu desempenho, já como oficial graduado, no combate aos revolucionários pernambucanos de 1817. Aliás, um ofício datado dessa época, dirigido ao então D. João VI, versando sobre a temática militar das tropas acantonadas na Bahia, revela a desenvoltura, a obstinação e a seriedade de Cunha Mattos quanto à disciplina, a autoridade, armamento e funcionalidade dentro dos quadros do exército.

78

Eu sei positivamente que as tropas de Sua Majestade, comandadas pelo General, sofrem as maiores privações, e que lhes faltam muitas coisas indispensáveis para fazerem a guerra. Ninguém poderá acreditar no que se disser a respeito do miserável estado dos armazéns dessa capitania, e da triste figura das tropas de linha dela.

Basta disser a V. Ilma. que Sua Majestade aqui não tem mais do que uma peça de[calibre] 9, montada em raparo podre e sem armão, uma de 6 e uma de 3 com armões, além de um carro de munição em bom estado, e três ou quatro que nada valem. Também achei cobertas de ferrugem, em um armazém duas peças de calibre um, as quais para nada servem, porque os reparos não estão em termos de resistir ao fogo [...]. Esta manhã entreguei a relação do que é necessária para as tropas que aqui hão de marchar; sofro, porém, o desgosto de saber que não há granadas nem balas de calibre 6. No laboratório fazem apenas mil cartuchos cada dia. Não há lanternetas; enfim, Ilmo Sr. Tenho-me visto doido, trabalhando todo o dia, sem nada poder alcançar [...]79

Pode a situação por enfrentada Cunha Mattos na Baía em 1817 ser comparada à situação das tropas goianas em 1823? A resposta, dada por uma análise cuidadosa e carente de preconceitos não pode senão aponta para uma dupla resposta, uma afirmativa e outra negativa. Afirmativamente, porque as deficiências na organização e manutenção das tropas de linha ou miliciana, como muito bem mostra o ofício acima, estavam longe, muito longe na verdade, de serem uma exclusividade de Goiás. Contudo, a singularidade econômica de Goiás à época –sobretudo a pobreza de seu erário – revelavam também uma pronta e inequívoca negativa.

Na verdade, a despeito da pungente lamuria de Cunha Mattos constante em longo ofício acerca da precariedade e insuficiências das tropas baianas, nada de gritante se revela o então tenente-coronel Cunha Mattos sobre a problema de abastecimento, pagamento ou manutenção de oficiais e soldados engajados na campanha de 1817. Em Goiás, o que se afere dos ofícios do Governador das Armas ao longo de sua permanência nos rincões do Planalto Central quanto às questões militares evidenciam que a problemática pertinente ao armamento – embora premente – era bem menos relevante do que a sua angustia, natural na sua condição de Governador das Armas, com o pagamento, o fardamento, a manutenção e a alimentação da tropa.

É bom, nesse caso, lembrar que para Cunha Mattos a situação política – tanto interna quanto externa – vivenciada em 1823 era de uma natureza muito

79

SILVA, Pretextato Maciel da, Os Generais do Exército Brasileiro 1822 – 1889, Rio de Janeiro, Companhia EditoraAmericana.

mais premente do que a presenciada por ele durante a Revolução Pernambucana, sobretudo pela conjuntura imposta. Em 1817, a luta em curso era contra um grupo de republicanos idealistas pouco articulados e desprovidos de um do apoio favorável tanto na conjuntura interna quanto externa. Diferente era o quadro político em 1823 e 1824. Aqui, tanto a estrutura quanto a conjuntura eram marcadas pelos símbolos e signos – visíveis e invisíveis –da incerteza, da insegurança e do receio. Incerteza, insegurança e receio quanto a consolidação da Independência, quanto a sustentabilidade do projeto monárquico conservador, quanto à possível eclosão do ímpeto liberal e republicano...E tudo isso ainda em

Benzer Belgeler