• Sonuç bulunamadı

Päkistanyň durmuş­ykdysady ösüşiniň esasy meýilleri

Belgede Dünýä ykdysadyýetiniň (sayfa 120-123)

Os quilombos brasileiros surgem em resposta á dinâmica exploratória do cativeiro compulsório a que foram submetidos negros africanos e afros brasileiros durante 300 anos de escravidão em terras brasileiras. Segundo Costa (1999, p. 252): “A escravidão brasileira, como a escravidão em outras partes do Novo Mundo, foi um sistema de exploração do trabalho baseado na posse sobre o trabalhador”. A escravidão empreendida no Brasil manteve uma característica de superioridade da elite branca dominante, em detrimento da invisibilidade social do povo negro e indígena, um legado que atravessou gerações, que foi justificado pela doutrina religiosa, que defendia uma “visão providencial do mundo, onde os senhores nasciam para serem senhores e os escravos para serem escravos” (Idem, 1999, p. 355).

Nessa lógica de opressão, as diferenças sociais se pautaram na cor do individuo, sendo o elemento negro, excluído e menosprezado, tendo em vista que as diferenças sociais, entre senhores e escravos, se legitimavam na crença que os escravos “constituíam um grupo racial distinto, os estereótipos negativos podiam ser associados à sua aparência física”. (Idem, 1999, p. 253). Justificando sua inferioridade frente ao senhor, nesse aspecto, o fator raça foi utilizado como um determinante para o destino do individuo em sociedade, forjando uma divisão social entre escravos e libertos:

A complexidade originou-se da alforria de escravos e do nascimento de indivíduos mestiços, nascidos livres e outros, escravos, estes últimos sendo favorecidos nos processos de manumissão. Esses indivíduos criaram novas categorias sociais que precisavam ser ajustadas à hierarquia social. (SCHWARCZ, 2001, p.20).

As divisões sociais8 se formularam a partir da manutenção da escravidão no Brasil, abrindo precedentes para as revoltas e rebeliões de cativos. Segundo Reis & Silva (1989) os escravos não foram heróis nem vilões o tempo todo, situando-se na zona intermediaria o aparente escravo dócil, poderia se tornar um rebelde do dia seguinte, tudo dependia da situação apresentada.

Uma das modalidades de resistência mais usadas pelos cativos era a fuga, que poderiam ser realizadas individualmente ou coletivamente, independentemente da relação senhor e escravo, as fugas representavam a possibilidade real de viver em

8Tendo em vista que, até 1850, a distinção entre escravizados e livres/libertos dividia a sociedade do ponto de vista dos “homens de cor”, pois, os brancos e mesmo os brancos pobres eram proibidos de realizarem tarefas de “negros” (restrita apenas aos escravos) (MATTOSO, 1982).

liberdade, eram chances reais de sobreviver fora do cativeiro, de reconstruir ou construir os laços de sociabilidade que a escravidão destruiu. Desta forma, os quilombos surgiram como alternativa de vivência coletiva de escravizados, livres e libertos que se recusaram a aceitarem as normas impostas pelo sistema colonial no Brasil.

A primeira determinação oficial sobre quilombos no Brasil, ainda no período Colonial, será obtida nas cartas do Conselho Ultramarino Português (1740) que definiu quilombos como “Toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte desprovida, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles”9. Assim, a documentação oficial quando apontava a existência de quilombos tinha o único objetivo de “intervir para extingui-los” (LIMA, 2002, p.39).

Sendo assim, os quilombos foram instituídos enquanto um conceito “próprio dos africanos bantos que vem modificado através dos séculos, [...] Quer dizer acampamento guerreiro na floresta, sendo entendido ainda em Angola como divisão administrativa” (LOPES, SIQUEIRA & NASCIMENTO, 1987, p.27-28). Munanga (1995, p.06), ainda expõe que o quilombo brasileiro nos séculos XVI e XVII:

É, sem duvida, uma cópia do quilombo africano reconstruído pelos escravizados para se opor a uma estrutura escravocrata, pela implementação de uma outra estrutura política na qual se encontravam todos os oprimidos.

Sem duvida os quilombos brasileiros na sua formação histórica representam espaços de resistência cultural e simbólica, Lima (Idem, p.39) aponta que: “dessa tradição africana no Brasil, mocambos e quilombos são designações usadas para nomear as comunidades de fugitivos”, sendo rememorados pela historiografia tradicional, através do famoso Quilombo dos Palmares e de seu líder Zumbi, que existiu entre 1675-1695 na região da Serra da Barriga atual Alagoas, onde os quilombolas constituíram uma sociedade para além do regime escravista vigente, sendo duramente reprimida pelas tropas da Coroa Portuguesa, tornando-se um local que baniu a fronteira étnica e desigual, com suas “instituições políticas e militares trans-étnicas, centralizadas, formadas por homens guerreiros” (MUNANGA, Idem, p. 57-63).

9 Na Província da Parahyba do Norte durante o século XIX encontramos documentos normativos das autoridades instituídas relatando a necessidade de se combater à formação de Quilombos, ver: Correspondência do Capitão Mor ao Governador da Parahyba, de 20 de agosto de 1803, Correspondência do vice-presidente da Província da Parahyba á Câmara da Povoação da Freguesia, de 04 de dezembro de 1834, Instruções do Chefe de Polícia da Província da Parahyba aos Comissários de Polícia, de 30 de junho de 1837. Disponível nas caixas 002 e 004 do Arquivo Público Histórico da Paraiba, FUNESC, João Pessoa, Paraíba.

Surgidos na tradição ancestral de resistência a escravidão, os quilombos, na atualidade, adquirem uma nova expressão social, para além da relação histórica de resistência e opressão, Lima (2002, p.39) ainda nos coloca que: “hoje a expressão quilombagem corresponde a todas as ações de resistência da população negra contra as opressões”. Segundo Leite (2003) falar em quilombos e quilombolas, atualmente, é repensar a posição histórica e social que este grupo étnico tem ocupado ao longo dos séculos, dentro da sociedade brasileira, partindo do principio que os quilombos hoje adquirem novos modos de representação social e geografia muito diferentes da definição histórica, representam um grupo étnico em construção política e histórica.

Os quilombolas “ressurgem” no contexto de grupo étnico militante, a partir da reorganização social do movimento negro brasileiro, especialmente, em meados da década de 1930, com a Frente Negra Brasileira (1930). Essa organização social negra, como as outras que se seguiram após esta, o Teatro Experimental do Negro (1944) responsável por inserir ao elemento negro no âmbito da cultura e com maior expressão o Movimento Negro Unificado (1978), passaram a buscar o resgate da cultura negra brasileira, tendo como bandeira de luta a desconstrução do “mito da democracia racial”, bem como, o combate ao racismo e a igualdade de acesso aos direitos sociais para a população negra.

Para isto o movimento negro passou a “rejeitar a piedade e o filantropismo aviltantes e a luta pelo seu direito ao Direito” (NASCIMENTO, 1948, p.1), essa rejeição à democracia racial, ao cativeiro benevolente, pautaram as bases de luta do movimento para um resgate da cultura negra silenciada ao longo do processo de escravista brasileiro. Com isso, falar em “ressurgimento” dos quilombolas é expor que esses grupos étnicos estiveram à margem social, ora no período Colonial sendo criminalizado e perseguido, ora na invisibilidade da República permanecendo silenciados e esquecidos. Essa invisibilidade não fez com que estas comunidades negras desaparecerem, ao contrário, elas continuaram a existir, a reproduzir sua cultura, mesmo sofrendo com o legado de exclusão social que o processo escravagista deixou na sociedade brasileira.

Essa invisibilidade social constituiu-se como uma ferramenta de negação do elemento negro pelo Estado, para desconstruindo a própria história, sua memória, sua cultura, a fim de, negar a existência dos quilombolas e a formação do lugar do quilombo, como um espaço de luta e de resistência na diáspora. Com isso, esse processo

de resgate da cultura do povo quilombola, levou aos movimentos sociais a forjarem três campos de lutas políticas e simbólicas para a reorganização dos movimentos quilombolas brasileiros, na reivindicação de ações afirmativas, segundo Flores (2008) estão destacados como: Frentenegrinos, Negritudinistas e Unicionistas.

Os frentenegrinos defendiam a negação da escravidão e colonização benevolente, reconhecendo que a formação dos quilombos e o precário processo de abolição no Brasil, não libertaram a população negra da cor como determinante social defendia assim uma segunda abolição. Os Negritudinistas buscaram o combate do mito da democracia racial e do cativeiro benevolente por meio da produção intelectual (imprensa, artes, literatura e dramaturgia) ativista, denunciando o mito sociológico e o branqueamento social como fatores para o distanciamento da população negra do passado escravista, apresentado como algo a ser superado, algum ruim, por isso, reconstruíram o quilombismo como força vital da ancestralidade africana. E os Unionistas visaram derrubar os alicerces do historicismo eurocêntrico, instituindo o dia 20 de novembro, como uma representação histórica das lutas dos quilombolas no passado e no presente, reivindicando uma educação que valorizasse a cultura negra e afro-brasileira.

Assim, o reconhecimento da importância dos quilombos na resistência negra na diáspora brasileira levou os militantes do movimento negro á aproximação/conscientização dos grupos quilombolas, num processo que Arruti (2006) define como “formação quilombola”, caracterizado por uma série de ações sistemáticas voltadas para a busca do resgate da autoestima dessas comunidades e do empoderamento mediante o reconhecimento da importância da história de cada comunidade, levando as comunidades a uma reivindicação de direitos a partir do processo de mobilização de dentro pra fora (a comunidade toma a iniciativa de organização social) ou de fora pra dentro (através do apoio de ONGS, grupos políticos, religiosos, sindicais, dentre outros), fundamentadas no princípio da autodeterminação e do autoconhecimento, estas passaram a articulação para a busca de direitos sociais e da reconquista da posse de seus territórios.

Essa articulação quilombola, impulsionada pelos movimentos negros no Brasil, contribuiu para a conquista do direito à cidadania, a partir da Constituição de 1988, na qual, em seu art. 68, passou a reconhecer a existência das comunidades quilombolas brasileiras, estabelecendo o direito à posse da terra ancestral, mas que para

ser efetivado enquanto direito, denota que estas comunidades se submetam a vários processos de autodeterminação para a demarcação territorial, que Arruti (2006) define como: processo de nominação, processo de identificação, processo de reconhecimento e processo de territorialização.

Esses processos mencionados por Arruti partem da nova forma de organização política dos quilombos brasileiros chamados de território10 étnico, como modelo criado para conviver com outros grupos étnicos sociais (principalmente indígenas), iniciando assim um longo processo na busca por afirmação da identidade, formalização das diferenças étnicas e culturais, no âmbito local, regional e nacional, com isso, os quilombos contemporâneos passam a serem entendidas como comunidades tradicionais11negras rurais ou urbanas habitadas por descendentes de

africanos escravizados, que vivem em terras doadas, compradas ou ocupada secularmente pelo grupo.

Esses grupos possuem características próprias de vida em coletividade e que por isso, necessitam das garantias do Estado para a efetivação dos direitos fundamentais, principalmente, assegurando a posse definitiva de suas terras ancestrais. A conquista desses direitos não está apenas na Constituição de 1988, mas em outras orientações e leis que foram sendo promulgadas no pós-1988, embora nem sempre a disposição normativa seja garantia de efetivação na prática, estas leis e orientações, que trataremos especificamente logo a seguir, representam os muitos passos que as comunidades quilombolas e o movimento negro brasileiro conquistaram no campo de políticas públicas no Brasil.

Abrindo precedentes para a reivindicação destes segmentos sociais para a tomada da responsabilidade do Estado em dar garantias especificas de direitos, ou seja, o “direito de reivindicar a igualdade sempre que a diferença nos inferiorize e termos direito a reivindicar diferença sempre que a igualdade nos descaracterizar” (SANTOS, 2002, p.120). Constataremos no quadro abaixo os mecanismos de efetivação dos

10

Território: nasce com uma dupla conotação, material e simbólica, pois etimologicamente aparece tão próximo de terra-territorium quanto de terreo-territor (terror, aterrorizar), ou seja, tem a ver com dominação (jurídico-política) da terra e com a inspiração do terror, do medo – especialmente para aqueles que, com esta dominação, ficam alijados da terra, ou no “territorium” são impedidos de entrar. Ao mesmo tempo, por extensão, podemos dizer que, para aqueles que têm o privilégio de usufruí-lo, o território inspira a identificação (positiva) e a efetiva “apropriação”(HAESBAERT, 2001, p 6774)

11Os territórios tradicionais são espaços necessários à reprodução cultural, social e econômica dos povos e comunidades tradicionais, sejam ele utilizados de forma permanente ou temporária [..]. (Art. 3o, Decreto 6.040 de 07 de fev. de 2007).

direitos das Comunidades quilombolas no Brasil, como fruto da organização/mobilização do povo negro pela efetivação dos direitos fundamentais.

QUADRO II

Belgede Dünýä ykdysadyýetiniň (sayfa 120-123)