BÖLÜM 3: BULGULAR VE YORUM
3.3. Otizm Spektrum Bozukluğunda Koçluk Sisteminin Otizm Spektrum Bozukluğuna
3.3.2. Otizm Spektrum Bozukluğunda Koçluk Sisteminin Aileler Üzerindeki Rolü
3.3.2.3. Otizm Spektrum Bozukluğunda Koçluk Sisteminin Aileye Ekonomik
Essa perspectiva sugere uma distinção entre “públicos críticos” e uma massa de consumidores dos bens simbólicos que ocupam o espaço público dos meios de comunicação. O crescimento da das estruturas comunicativas, em especial a intensificação da organização de uma indústria mediática, seria, assim, responsável por uma ampliação do público acrítico, em detrimento da formação de um público mais reflexivo. Haveria, portanto, certa coincidência entre os processos de produção das formas simbólicas e culturais e o de bens materiais industrializados. De acordo com a leitura da teoria crítica, tal semelhança implicaria em uma convergência na recepção e consumo de bens simbólicos e materiais (HABERMAS, 1998).
Todavia, a convergência imediata entre os processos de produção e consumo acaba por levar a uma visão pouco elucidativa acerca das relações entre as pessoas e as informações que participam da formação das opiniões públicas, bem como do impacto da comunicação mediada sobre os seus receptores. Não se pode desconsiderar que a fixação das mensagens veiculadas nos meios de comunicação de massa não determina, sem mais, os seus efeitos sobre as atitudes políticas dos interlocutores. Para uma compreensão mais adequada da recepção de produtos culturais, é fundamental que sejam considerados as intenções dos produtores e, também, os contextos de recepção. As pessoas, seja qual for o seu background cultural, processam de forma mais ou menos sofisticada o conteúdo das mensagens veiculadas, o que proporciona uma flexibilidade que leva à disputa de significados a respeito do que é apresentado publicamente (AVRITZER, 2000b). Ademais, Lupia et al. (2000) afirmam que para os assuntos mais comuns nos quais os cidadãos devem se posicionar, ter competência requer muito pouca informação110 e a informação requerida para tal competência pode ser adquirida através de outros indivíduos ou grupos (como partidos políticos, amigos etc.). As pessoas podem se valer – e, é bom dizer, se valem – de atalhos ou da heurística para tomar decisões competentes, que não diferem sobremaneira das que tomariam caso dispusessem de um volume maior de informação. Assim, mesmo partindo do pressuposto de que os cidadãos não possuem um grande estoque de informações sobre aqueles temas que não lhes dizem
110 Essa análise remonta à perspectiva aristotélica sobre a ideia de razão prática. A democracia não requer que os
indivíduos possuam informações especializadas para acompanhar o debate público. Ainda que não tenham uma quantidade de informações estocadas sobre todos os assuntos, os cidadãos, quando requeridos, sabem o que condiz mais com as suas preferências por utilizarem a razão prática para agir politicamente.
respeito mais diretamente, como sugere Schumpeter (1961), o contexto no qual estão inseridos torna possível que as suas decisões e atitudes sejam semelhantes às que se observariam caso dispusessem de todas as informações disponíveis sobre essas questões.
Tipicamente, os produtores, ao elaborar as mensagens, têm como objetivo causar alguma reação nos receptores. Sendo assim, parece adequado inferir que formatarão as narrativas sob influência, ao menos indireta, de seus potenciais interlocutores – o que nos leva, mais uma vez, a voltar o olhar para o contexto de recepção. É certo que a interpretação e a apropriação dos conteúdos das mensagens, bem como a sua transformação em ações responsivas, depende dos atributos sociais do contexto e dos atributos pessoais de cada receptor. Em outras palavras, existe pelo menos certo grau de influência do público sobre os conteúdos veiculados pelos media; da mesma forma, a sua recepção e as atitudes que serão influenciadas por ela serão distinta por diversos aspectos individuais e circunstâncias sociais.
A visão sobre os efeitos dos meios de comunicação mudou bastante ao longo do tempo. Os primeiros estudos sobre essa influência, que deram origem ao que se convencionou chamar de “teoria hipodérmica”, sustentavam a crença em efeitos quase ilimitados sobre as atitudes e o comportamento dos indivíduos. Posteriormente, ganharam proeminência pesquisas cujos resultados levaram a um completo ceticismo em relação a tais impactos, afirmando que as atitudes dos cidadãos poderiam ser, se tanto, reforçadas pela recepção dos discursos mediatizados. Hoje, há uma percepção mais nuançada e complexa sobre o tema, que lança luz sobre a capacidade dos meios de influenciar a agenda pública – sobre o que pensam os cidadãos – e o enquadramento dos temas em discussão – como pensam os cidadãos a respeito das questões postas na agenda.
A teoria hipodérmica surgiu no período entre guerras, com ênfase particular na suposta relação entre a ascensão de regimes totalitários em diversas regiões da Europa e a emergência do rádio como veículo de comunicação direta entre líderes populistas e a massa de cidadãos. Sob influência das teorias psicológicas behavioristas, essa perspectiva se baseada em pesquisas acerca das respostas individuais de curto a médio prazo às mensagens mediatizadas. Não à toa, o principal contexto para a realização de tais estudos eram as campanhas eleitorais, que ganhavam então alcance mais amplo devido ao aumento da circulação de jornais impressos e do rádio. Dentre as principais referências dessa vertente, está Walter Lippman (1946), cujo estudo Public Opinion, realizado no início da década de 1920, indicava a capacidade quase irresistível de manipulação da população pelos líderes políticos111.
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De certa forma, a teoria crítica esposada por Habermas acima sustenta uma crença semelhante na medida em que distingue públicos críticos da massa de cidadãos manipuláveis. Ademais, ao relacionar o processo de produção de bens
Já em meados da década de 1940, surgiram estudos mais complexos sobre a relação entre a comunicação mediada e as atitudes dos cidadãos, mantendo, contudo, o processo eleitoral como
locus privilegiado. Nas pesquisas que subsidiaram o “modelo sociológico” do comportamento
eleitoral, constatou-se que a principal fonte de informação política eram os contatos interpessoais, e não os meios de comunicação de massa. Entre outros motivos, o que estes estudos indicaram foi certa desatenção da maioria dos eleitores em relação aos produtos mediáticos. De modo geral, a porção majoritária dos que se disseram atentos às campanhas e aos noticiários eram de sujeitos politicamente mais sofisticados e cuja decisão no processo eleitoral fora tomada antes mesmo de sua exposição aos meios. Identificou-se, com isso, um fenômeno de exposição seletiva dos atores sociais às informações relativas às campanhas políticas. Além disso, notou-se também uma influência decisiva, dentro dos grupos sociais, de determinados sujeitos que exercem o papel de mediação entre os media e os eleitores em geral. Tal processo foi denominado pelos autores como o fluxo de comunicação em duas etapas, ou two step flow. Os “líderes de opinião” seriam responsáveis por construir e reconstruir, em seus círculos sociais, a a interpretação das mensagens veiculadas nos meios de comunicação (LAZARSFELD et al., 1944)112.
Em estudos posteriores, embora tenha se corroborado a importância dos grupos sociais e dos líderes de opinião, houve a tentativa de relacionar os resultados às teorias democráticas. A conclusão inicial mostrou que os indivíduos, em sua maioria, não demonstraram interesse ou motivação política, dispunham de conhecimento pobre e restrito sobre os temas de natureza política, eram incapaz de mobilizar princípios para justificar as suas decisões e, por fim, não sustentavam as suas decisões eleitorais em “razões” – não desfrutavam, portanto, daquilo que as teorias da democracia consideravam essencial à política democrática, i.e. interesse e motivação, informação, princípios e racionalidade. Esse quadro, sustentavam os autores, ao contrário do que se poderia imaginar, era justamente o responsável pela manutenção da política democrática: se no nível individual não se dispunha do fermento necessário à democracia, no nível agregado era até benéfico que se verificassem essas características, pois, caso os cidadãos dispusessem de interesse e motivação em graus elevados, intensificar-se-iam concomitantemente as clivagens e o conflito político (BERELSON et al., 1954; KATZ; LAZARSFELD, 1955)113.
simbólicos ao seu consumo acrítico, ignora a capacidade dos cidadãos de resistir aos impulsos promovidos pelas mensagens mediatizadas.
112 No estudo de Lazarsfeld et al., dos 600 participantes que responderam ao questionário, apenas 54 reportaram
mudança de posição durante o processo de exposição às mensagens. Os efeitos do pertencimento a grupos sociais foi de tal monta que era possível prever boa parte das escolhas dos cidadãos tendo como base apenas fatores de background, como o status socioeconômico, a religião e a área de residência.
113 Em pesquisas posteriores, realizadas no contexto europeu, Lipset e Rokan (1967) argumentam que o
desenvolvimento dos sistemas partidários no continente refletem clivagens que emergiram, de um lado, com a distinção centro/periferia e Estado/Igreja, e, de outro, o conflito entre meio rural/urbano e capital/trabalho, que são resultado,
O modelo sociológico, todavia, apresentava fraquezas advindas, sobretudo, da sua incapacidade de captar os efeitos sobre as escolhas eleitorais de nuances e mudanças que ocorriam nas clivagens sociais e na comunicação política. Sobretudo a partir da emergência da televisão como meio noticioso central, houve um desenvolvimento nos estudos sobre o impacto político e social dos
media. Na década de 1970, surgiram os primeiros trabalhos centrados na análise da capacidade de
agenda dos meios de comunicação, preocupados menos com a influência das mensagem mediatizadas sobre as atitudes individuais do que com seu impacto cognitivo. Nessa perspectiva, sugere-se que aos meios de massa caberia particularmente a definição de uma ou mais agendas relevantes sobre as quais, no entanto, seria dado aos cidadãos decidir como se posicionar – esta que ficou conhecida como a abordagem de agenda-setting (McCOMBS & SHAW, 1972).
Mais recentemente, autores como Iyengar (1994) vêm se debruçando sobre o enquadramento das informações nos meios de comunicação, em especial no que se refere à sua porção noticiosa. Nesse trabalho, o autor procura mostrar formas distintas adotadas pela imprensa para lidar com a cobertura de eventos, sejam políticos, sociais ou culturais. Enquanto a abordagem do agenda-setting lançava luz sobre a saliência de determinados temas nos meios de comunicação, na análise do enquadramento a atenção central é dedicada aos atributos, relacionados aos temas em discussão, que ganham mais evidência. Em outras palavras, o enquadramento de um tema consiste na escolha de certos valores e fatos como os mais importantes para se compreender e se posicionar sobre um tema; estes valores e fatos ganham, assim, relevância mais acentuada em determinada questão do que teriam sob um enquadramento distinto. O enquadramento depende de uma série de fatores, entre eles a lógica de operação dos meios, se públicos, privados ou estatais, e o tipo de media, se impresso, eletrônico ou digital. Assim, a depender dos valores e dos objetivos que se deseja promover através da comunicação mediada, é possível desenvolver e implementar normas capazes de dar suporte aos mesmos (FEINTUCK, 2006).
Decerto que os diferentes media têm papéis e exercem efeitos distintos sobre a audiência. Enquanto os meios eletrônicos tradicionais e em especial a televisão parecem impactar mais fortemente os espectadores, os meios impressos como revistas e jornais influenciam a parcela possivelmente mais politicamente ativa da sociedade. Os novos meios, a internet e suas redes sociais, de sua parte,
respectivamente, da “revolução nacional” e da “revolução industrial”. Segundo os autores, nesse contexto, os cidadãos desenvolvem percepções sobre tais clivagens que, assim, assumem relevância no sistema político. As distinções são perceptíveis em três níveis: (1) como elementos encrustados na estrutura social, (2) como componente ideológico que se traduz nos conflitos sociais, e (3) como características institucionais que se materializam nas relações interpessoais e nas relações entre instituições e indivíduos.
possuem uma estrutura mais descentralizada, mas tendem a atingir um público mais específico, cuja exposição a ideias contrárias às suas é frequentemente menor (LIMA, 2012).
A informação é uma fonte essencial de poder político; a sua produção e difusão se configuram como mecanismos importantes por meio do qual opera o poder. As distinções em relação ao impacto dos meios de comunicação correspondem a maneiras distintas de traduzir informação em conhecimento e compreensão sobre a política e sobre o mundo que nos cerca. Esse entendimento desloca o nosso olhar de uma noção crua dos efeitos dos media para uma discussão sobre o seu papel na circulação das formas simbólicas e do poder comunicativo. As concepções de agenda e enquadramento indicam como os discursos mediados afetam os nossos julgamentos sobre o mundo político e as relações de causa e efeitos dos fenômenos sociais. A partir de uma análise do impacto de enquadramentos distintos sobre a audiência, Iyengar (1994) sugere que eles impactam, sobretudo, a atribuição de responsabilidades, por parte dos cidadãos, de questões tais como desigualdade racial e pobreza.
Segundo nos diz Street (2011: 96)114, “os media não produzem 'mensagens' que são recebidas e apropriadas; antes, eles circulam símbolos e sinais que demandam interpretação”. O conteúdo da comunicação mediada compõe o processo de formação do “senso comum” mediante uma recepção ativa das imagens e da linguagem das narrativas apresentadas. O significado do senso comum não deve ser entendido, assim, como uma informação imparcial que sustenta uma visão de mundo; antes, é preciso compreendê-lo em seu entrelaçamento com paixões, com o desejo de interferir no mundo e na forma como julgamos o outro. A cultura, portanto, contribui para a forma como se estruturam os nossos sentimentos, o que é mais amplo do que a influência sobre nosso comportamento eleitoral (Ibidem).
Essa interpretação não implica a ausência de qualquer impacto dos media sobre o nosso comportamento, ela sugere apenas que tal processo envolve o reconhecimento da complexidade da relação dos indivíduos com as diversas narrativas a que estão expostos e das condições sob as quais as interpretam. Os conteúdos transmitidos através dos meios de comunicação exercem influência sobre a nossa compreensão do mundo, mas o que fazemos com essa visão sobre a realidade que nos circunda também é função de outras variáveis. Todas as demais instituições que compõem a estrutura básica da sociedade participam, junto aos discursos mediados, da formação da nossa concepção sobre a bem comum e a nossa relação com o outro. A interpretação, per se, é produto de características contingente que direcionam a nossa recepção. É preciso, portanto, reconhecer o
114
No original: “the media do not produce ‘messages’ which are received and appropriated; rather they circulate symbols and signs which require interpretation”/.
processo interativo que ocorre entre a produção dos conteúdos simbólicos e as respostas da audiência a eles.
A tradição hermenêutica chama a atenção para um aspecto importante da interpretação das mensagens veiculadas nos meios de comunicação. No processo de interpretação das formas simbólicas, os indivíduos as incorporam à própria compreensão que têm de si mesmos, dos outros e da realidade social. Nesse sentido, tornam-se veículos para a reflexão e autorreflexão115. Os indivíduos compartilham e discutem com seus pares, que podem ou não ter participado do momento inicial da recepção, os produtos mediáticos a que são expostos. Nesse segundo momento, dá-se inevitavelmente uma reinterpretação das mensagens mediatizadas; contudo, desta vez, a compreensão é discursivamente elaborada. Através desse processo, o entendimento dos indivíduos se transforma, pois a sua própria versão é comentada a partir de outras perspectivas, sendo as impressões apenas posteriormente incorporadas no tecido simbólico da vida cotidiana (THOMPSON, 1998: 45).
É um senso comum sociológico a percepção de que o interesse pelos assuntos públicos e a utilização dos meios de comunicação como fontes de informação sobre a política têm uma correlação forte com o status social e cultural – o que indicaria uma diferenciação insuficiente do sistema comunicativo em relação à estrutura de classe. Apesar disso, as investigações realizadas desde o final da década de 1980 mostram que os laços entre as origens social e cultural vêm se enfraquecendo, dando lugar a um público cada vez mais fragmentado em torno de temas específicos. Isso sugeriria a possibilidade de haver certa sobreposição entre os públicos temáticos, que seria responsável por combater e enfraquecer a inclinação à fragmentação.
No entanto, a despeito da inclusão de cada vez mais cidadãos nos fluxos de comunicação política, os estudos recentes mencionados por Habermas mostram uma correlação entre a exposição à comunicação de massa e o envolvimento dos cidadãos com a política. As pessoas agem no mundo a partir da forma como enxergam e compreendem a realidade que as cercam. Os meios de comunicação são como lentes que ajustam o nosso campo de visão e interferem naquilo em que prestamos um olhar mais atento (HABERMAS, 2006: 5-7).
115 A este processo Thompson (1998: 45-6) deu o nome de “apropriação”. Ao se apropriar das mensagens e incorporá-
las à própria vida, uma pessoa está implicitamente construindo uma compreensão de si mesmo, dos outros e do mundo em que vive.