• Sonuç bulunamadı

Otizm Spektrum Bozukluğunda Koçluk Sisteminin Aile Üzerindeki

BÖLÜM 3: BULGULAR VE YORUM

3.3. Otizm Spektrum Bozukluğunda Koçluk Sisteminin Otizm Spektrum Bozukluğuna

3.3.2. Otizm Spektrum Bozukluğunda Koçluk Sisteminin Aileler Üzerindeki Rolü

3.3.2.2. Otizm Spektrum Bozukluğunda Koçluk Sisteminin Aile Üzerindeki

Segundo Sandel, “a comunidade política depende das narrativas por meio das quais as pessoas compreendem a sua condição e interpretam a vida em comum que compartilham; em seu melhor, a deliberação política não se refere apenas a políticas públicas em competição, mas também sobre interpretações concorrentes sobre o caráter da comunicação, seus propósitos e seus fins” (1998: 350)99. Ao reconhecer a importância da comunicação pública para a democracia, encampada pela tese da necessidade, emerge na análise a importância de avaliar as funções da deliberação em uma sociedade democrática e os efeitos da forma como se estrutura esse debate generalizado para a qualidade da democracia. Na abordagem sistêmica, os media fazem a ligação entre as diversas partes do sistema, atuando de forma decisiva na construção de identidades coletivas e privadas, bem como nas possibilidades de agência política. Parte majoritária dos cidadãos nas democracias modernas têm nos diversos meios de comunicação a sua principal fonte de informação sobre os temas de interesse público, sobre a imagem dos diversos grupos sociais e sobre a própria realidade política e social. Nesse sentido, “o conhecimento dos cidadãos tanto no governo quanto na esfera pública vem através dos media, em conjunto com o enquadramento e com a definição da perspectiva na qual todos os meios devem, por sua natureza, se engajar” (MANSBRIDGE et al., 2012: 20)100.

Argumentei neste capítulo que a comunicação e os processos decisórios democráticos podem ser elaborados teoricamente como um procedimento no qual os cidadãos e os grupos sociais visitam a situação particular dos demais e formulam soluções para os seus problemas e conflitos comuns a partir de uma visão que está além de suas próprias posições particulares. Nessa concepção, os

98

Para Street, “The notion of bias is not confined to the battle between political parties. It applies equally to competing value systems, to the representation of women and men, to the portrayal of ethnic groups and to the priority accorded to whole countries and their peoples” (2001: 17).

99

No original: “political community depends on the narratives by which people make sense of their condition and interpret the common life they share; at its best, political deliberation is not only about competing policies but also about competing interpretations of the character of the community, of its purpose and ends”.

100

No original: “citizen knowledge of debates both in government and in the public sphere comes through the media, along with the framing and perspective-setting in which all media must, by their nature, engage”.

cidadãos e grupos não apenas expressam preferências, eles se engajam em processos interativos nos quais buscam equilibrar interesses em um contexto de inclusão igualitária (YOUNG, 2010: 26). Em uma ordem política inclusiva, na qual todos os membros da associação são equitativamente incluídos nos processos decisórios e desfrutam de oportunidades iguais de influenciar os seus resultados, aumenta a possibilidade de que os que apresentam uma proposta transformem as suas posições, de uma perspectiva mais autocentrada para um apelo mais objetivo a concepções de justiça – pois, é preciso lembrar, em uma associação desse tipo fomenta-se um contexto político e social habitado por pontos de vista diversos e por cidadãos aos quais as decisões devem ser responsivas. Portanto, todos devem desfrutar de chances iguais de se expressar, de acesso equitativo às arenas relevantes de discussão e devem ser considerados em pé de igualdade no processo de tomada de decisões. Nos termos de Bohman (2009: 44), a igualdade política “precisa ser forte o bastante para assegurar a inclusão de todos os cidadãos na deliberação e a exclusão de formas extrapolíticas, ou de formas endógenas de influência, como o poder, a riqueza e as desigualdades sociais preexistentes”.

A deliberação nas sociedades complexas deve ser interpessoal em pelo menos um sentido político específico: ela é pública. Todos os cidadãos devem ser igualmente empoderados e autorizados a exercer as suas liberdades políticas e participar das decisões que lhes afetam. Além disso, a deliberação deverá ser pública no que toca às razões oferecidas pelos participantes: elas devem ser razoavelmente aceitáveis por todos. A deliberação deve ser conduzida de modo a construir o que Scanlon denominou de “acordo geral informado e sem constrangimento” ou o que Habermas chamou de “consenso não-coercitivo” (BOHMAN, 2009).

O objetivo mais amplo da ideia de comunicação pública é o de assegurar a legitimidade das decisões coletivas ao tornar as instituições da estrutura básica sistematicamente responsivas às razões públicas e não apenas ao peso dos números ou ao poder dos interesses. Tendo em vista a incapacidade de qualquer instituição em particular executar, por si só, essa tarefa, a abordagem sistêmica sugere a divisão de funções entre as diversas arenas periféricas da sociedade. A crescente diversidade das formas de mediação da comunicação torna sobremaneira complexa a discussão sobre o papel dos media em um sistema deliberativo democrático. Os papeis realizados pelos distintos meios de comunicação dependem das diferentes funções que os profissionais da comunicação tomam para si. Em alguns momentos, estes profissionais se arrogam o papel de vigilantes dos atos realizados no sistema político, em outras se afirmam como representantes dos cidadãos e comunidades, tradutores de conhecimento, educadores, defensores de causas etc. A tese da necessidade propõe que a comunicação pública, em geral, e a comunicação mediada, em

particular, seja avaliada levando-se em conta a sua capacidade de realizar as funções necessárias ao cumprimento dos objetivos do sistema democrático. Nessa concepção, seria possível acomodar uma diversidade de tipos de funções e objetivos. Para Mansbridge (2012), seriam três as funções relativamente comuns em sua aplicação geral e que podem servir para ilustrar a abordagem que estamos levando adiante: (a) uma função epistêmica, (b) uma função ética e (c) uma função democrática.

Em sua função epistêmica, a deliberação pública deve gerar decisões, preferências e opiniões adequadamente informadas pelos fatos e pela lógica, que sejam resultado de uma consideração substantiva das razões relevantes. Uma estrutura política democrática se caracteriza por oferecer oportunidades – e condições efetivas – para que considerações relevantes sejam trazidas ao espaço público a partir de uma diversidade de locais, podendo ser discutidas e apropriadamente pesadas nas decisões coletivas. Os media atuam como transmissores de informações potencialmente confiáveis e úteis, que auxiliam os cidadãos a interpretar os fatos e fazer a conexão entre eles, os papeis, as políticas, além de agir como vigilantes, críticos e investigadores.

A função ética primária da comunicação pública é a de promover o respeito mútuo entre os membros da comunidade. Prudencialmente, o respeito mútuo permite que o sistema continue em funcionamento; eticamente, ele é um bem em si mesmo e um requisito básico dos membros iguais de uma ordem política democrática. As bases morais do respeito mútuo e do autorrespeito em uma democracia se assentam na ideia de que as pessoas não devem ser tratadas meramente como objetos da legislação, como cidadãos que escolhem aqueles que devem governar, mas, antes, devem ser considerados agentes autônomos que tomam parte no autogoverno coletivo de suas sociedades, diretamente ou por meio de seus representantes. Os media impactam sobretudo o grau de civilidade e o respeito mútuo entre os cidadãos.

A terceira função, que estou denominando, com Mansbridge et al. (2012), de democrática, seria responsável por produzir um processo político inclusivo em termos de igualdade. A inclusividade do sistema – de uma pluralidade de perspectivas, vozes, interesses etc. – não é meramente uma exigência ética, mas é o que torna o sistema deliberativo propriamente democrático. O sistema deliberativo deve ser inclusivo de duas formas: ele não deve excluir qualquer cidadão do processo democrático sem uma razão legítima, além de, em seu lado proativo, promover a garantia de oportunidades iguais de participação a todos – o que pode envolver representação formal e novos direitos políticos. Os media desempenham uma função fundamental na inclusividade do sistema político democrático na medida em que são eles influenciam decisivamente as oportunidades de

atores e pontos de vista de ascenderem ao espaço público e participarem da formulação da opinião pública e da vontade democrática.

Para os propósitos deste trabalho, reorganizo tais funções em termos de alguns ideais, democráticos por excelência, que se relacionam e se influenciam mutuamente. No que se segue, vou pensar a comunicação mediada em termos de seu papel na realização (a) da autonomia pública, (b) da autonomia privada e (c) da agência política. A autonomia pública consiste na distribuição das oportunidades de definir os valores públicos e coletivos que orientam e estruturam a direção da sociedade. A autonomia privada, por sua vez, corresponde às mesmas oportunidades, mas para a sua orientação no plano individual. Isto é, pretendo discutir em que medida a organização dos sistemas mediáticos impactam as chances de que dispõem os indivíduos de formular e perseguir uma concepção da boa vida. Por fim, a agência política se define pelas condições oferecidas aos atores sociais e às diferentes perspectivas sobre o bem comum de exercer influência sobre a elaboração e a escolha das políticas públicas que serão implementadas pelo poder coletivo da sociedade. Para realizar essas funções, pretendo argumentar, os meios de comunicação de massas devem oferecer informações amplas e diversas sobre os temas de interesse público, espaço para a expressão de diferentes perspectivas sobre o bem comum, acesso equitativo às oportunidades comunicativas e desencorajar a ocupação de discursos que causem danos às bases sociais do autorrespeito.

Um “sistema comunicativo ideal”, portanto, consiste de um grupo livremente organizado de instituições e práticas que, em concerto, realizam as três funções enumeradas acima. A realização bem sucedida dessas três funções promove a legitimidade das decisões coletivas vinculantes, pois assegura a razoabilidade das decisões em um contexto de respeito mútuo entre os cidadãos e um processo decisório inclusivo (MANSBRIDGE et al., 2012: 11-2).

Na próxima parte esta tese se debruçará sobre as questões relacionadas à comunicação mediada, de modo a discutir os problemas colocados à realização das funções enumeradas acima, devidos à natureza da comunicação mediada e também à forma como se estruturam os sistemas comunicativos modernos.

PARTE II – O DEBATE PÚBLICO NOS MEIOS DE