Esse bairro passou a integrar o perímetro urbano do município a partir do final da década de 1970. Entretanto, apesar de ser considerado urbano, ele “possui características diferenciadas pelo padrão de ocupação e infra-estrutura nele existentes, tendo em vista que se trata de um bairro constituído por chácaras de recreio e moradia” (ROSA, 2005, p.40). Na realidade, trata-se de uma antiga área rural do município que foi loteada e ocupada por chácaras, sem que a urbanização de fato tenha ocorrido de forma efetiva.
O referido bairro integrou o processo de ampliação do perímetro urbano de Araraquara, que praticamente triplicou na década de 1970 (conforme antes relatado), promovendo a valorização de grandes extensões de áreas rurais. Assim, o bairro teve origem a partir do loteamento da Fazenda Três Irmãs, pertencente a Roberto Selmi Dei (desde 1946), que também era proprietário da SAMUA (S.A. Melhoramentos Urbanos de Araraquara), empreendedora desse projeto. Em 1979, foram, então, aprovados 605 lotes, concebidos inicialmente como área residencial, exatamente como o Chácara Flora do município de São Paulo. O objetivo principal era oferecer terrenos maiores com baixo custo, para atender a classe média. Todavia, a administração municipal da época considerou que o tamanho dos lotes (40 m² x 46,6 m² ) correspondia ao de chácara, fato que, segundo o atual diretor-gerente da SAMUA111, contribuiu para que o bairro mudasse totalmente sua característica planejada.
Nesse sentido, em se tratando de chácaras e não de terrenos, não haveria, por parte da prefeitura, a obrigatoriedade da implantação de toda infra-estrutura urbana, sobretudo o asfaltamento (que não existe até os dias atuais).
A ocupação da área deu-se, mais especificamente, ao longo da década de 80, quando todos os lotes foram vendidos e seus compradores acabaram transformando-os em chácaras de
veraneio e clubes. Aliás, existem atualmente dois clubes nesse bairro: o dos funcionários do Santander Banespa112 e o dos funcionários da justiça de Araraquara.
De acordo com dados da Prefeitura Municipal e do IBGE, o Chácara Flora é considerado um dos bairros mais distantes do centro da cidade. O entorno do bairro caracteriza-se pela presença de loteamentos e condomínios de luxo, além dos empreendimentos de lazer, referidos anteriormente. No mapa a seguir, podemos visualizar a localização do bairro Chácara Flora na área urbana do município de Araraquara (Figura 25).
112 Como o Banespa foi o banco financiador do loteamento, a empreendedora do Chácara Flora fez a doação de
Fonte: ROSA (2005) apud Base digital - Projeto: Políticas Públicas e Violência contra crianças e Adolescentes em
Araraquara – SP.Departamento de Antropologia, Política e Filosofia. FCLAr. Araraquara: Unesp/Fapesp, 2002.
Figura 25. Área urbana do município de Araraquara – SP: localização do bairro Chácara Flora.
O Censo demográfico de 2000 registrou um total de 574 pessoas residindo no Chácara Flora, distribuídas num total de 524 lotes. Aqui vale ressaltar que, pela elevada existência de chácaras de recreio, muitos desses lotes mesmo construídos, não são habitados, pelo menos durante a semana (ROSA, 2005).
Em termos de infra-estrutura urbana, 98% dos domicílios do bairro recebem abastecimento de água encanada, através da rede geral que abastece o município e, 99% são atendidos pela coleta de lixo e serviço de limpeza (IBGE, 2000). Todavia, a maioria das
Mapa 1: Área urbana do Município de Araraquara - SP: local ização do bai rr o Chác ara Fl or a Ar ar aquar a.
Fonte: Base Digital - Projeto
. Departamento de Antropologia, Polític a e F i l o s o f i a - FC L / C A r . A r a ra q u a r a : U n e s p/ Fa p e s p , 2 0 0 2
Polít icas Públicas e Violência Contra Cr ianç as e Adolescentes em Arar aquar a - SP
.
chácaras possui fossa, uma vez que não há uma rede geral de esgoto. As ruas do bairro também não são asfaltadas, como já mencionamos. Em termos de transporte coletivo, o Chácara Flora é atendido por ônibus da linha urbana, que circulam em horários específicos, fazendo a ligação bairro-centro113.
A partir de uma pesquisa de campo realizada no referido bairro, Rosa (2005) traçou um perfil das chácaras presentes nele, no que tange aos usos dados pelos responsáveis pelas mesmas. Assim sendo, a tipologia estabelecia configura-se da seguinte forma:
Chácaras de recreio: aquelas em que os responsáveis não residem, geralmente freqüentam o espaço aos fins de semana ou quinzenalmente; Chácaras residenciais: em que os responsáveis residem de fato no
local;
Chácaras comerciais: em que os responsáveis utilizam o espaço para comercialização de produtos cultivados, tais como produção de hortaliças, peixes e/ou outros produtos (ROSA, 2005, p.44-5).
A autora constatou também que, a despeito de ser uma área urbana, o Chácara Flora possui muitas características rurais. Além da paisagem que, em muito lembra o meio rural, é comum a prática da criação de animais (não somente de estimação) e o plantio de culturas para comercialização e consumo da família. Dentre os animais criados, destacam-se as aves (galinha, pato, peru), porcos, vacas e ovelhas114. A atividade agrícola, por sua vez, resume-se
basicamente ao cultivo de hortaliças e árvores frutíferas.
Outras características do bairro, destacadas por Rosa (2005), dizem respeito ao fato de ele não oferecer aos moradores a possibilidade de suprirem suas necessidades no local. São muito poucos os estabelecimentos comerciais existentes (4 bares) e não há nenhum tipo de equipamento público, seja unidade de saúde, escola, seja posto policial. Inclusive, nem nos bairros vizinhos é possível encontrar tais tipos de serviço. Nesse sentido, os moradores são obrigados, muitas vezes, a se deslocar para a região central da cidade em busca dos serviços básicos.
113 Essas linhas de ônibus costumam atender também aos moradores da área periurbana.
114 Rosa (2005) ressalta, no entanto, que existe um número grande de chácaras que não possuem nenhum tipo de
criação de animais, o que se explica pelo fato de serem chácaras de recreio, ocupadas somente nos finais de semana e feriados.
Merece destaque também a constatação, pela autora de que muitos moradores consideram suas chácaras como sendo, ao um só tempo, local de moradia e de lazer da família. Nesse sentido, ela concluiu que as chácaras
[...] representam também um espaço de descanso e de divertimento aos membros da família, por conta de suas características e de sua proximidade com a natureza, enfim, de reconstrução de um bucolismo existente em poucos locais. Por isto, durante o trabalho, foi perceptível a grande afinidade dos moradores com o local de moradia. Entre aqueles responsáveis pelas chácaras que não residem no local - ou seja, que possuem chácara de recreio - é grande a pretensão de futuramente residirem no local. Muitos demonstraram este desejo, e planejam mudarem-se para o bairro quando envelhecerem ou se aposentarem (ROSA, 2005, p.49).
Esse, segundo a autora, seria um dos motivos pelos quais, apesar dos problemas estruturais do bairro relatados, os moradores vêm a Chácara Flora como um espaço privilegiado, onde a tranqüilidade e a relação com a terra ainda podem ser mantidas. Essa afinidade com o bairro, para ela, pode ser explicada pelo fato de a maioria dos proprietários entrevistados já terem residido no meio rural em determinado momento de sua vida.