3. SURİYE KİRİZİNDE TÜRK BASINI
3.11. Suriye İç Savaşında Türk Ulusal Basınının Olaylar Öncesi (30 gün)ve
3.11.4. Ortadoğu Gazetesi
como testemunha
O Direito ainda trazia restrições dirigidas às mulheres em geral e não somente àquelas casadas ou que já haviam sido casadas. Em relação às tutelas, citadas anteriormente, havia expressa proibição das mulheres serem tutoras ou curadoras, exceto se fossem as mães e as avós.302 Pode-se deduzir que a explicação para tão clara vedação não deveria ser outra senão a incapacidade mental e a prodigalidade das mulheres, para lidar, sozinhas, com a administração dos bens e da pessoa de outrem, uma vez que elas mesmas precisavam de um terceiro para auxiliá-las, como o pai ou o marido.
Tratando-se especificamente da curadoria, tinha-se que filhas e irmãs não poderiam ser curadoras de seus pais ou irmãos. Dita exclusão é percebida pela interpretação do § 5º, Título CIII, das Ordenações Filipinas:
E no caso que o Desassisado não tiver pai, nem mulher, nem avô, seja constrangido para ser seu Curador seu filho varão, se o tiver tal, que seja idôneo, e maior de vinte cinco anos; e não tendo tal filho, seja constrangido seu irmão, para pertencente, e maior da dita idade, e que tenha casa manteúda, em que viva; e não havendo tal irmão, será constrangido seu parente mais chegado [...].303
301
FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 214.
302 Cf. FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal,
Conselho Editorial, 2003. P. 200-201, artigo 262, § 1º.
303
ALMEIDA, Candido Mendes de. Ordenações Filipinas. Livro IV. Ed. fac-sím. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985. P. 1006-1007.
No caso da curadoria de maridos “pródigos e loucos”, ela só seria entregue à sua esposa, se fosse honesta e discreta.304 O simples constar na lei destas expressões já denota um preconceito em relação à mulher, já que não havia semelhante exigência no caso dos homens assumirem a curatela de suas esposas.
Em relação a doações, quando algumas delas eram realizadas, tendo em vista seu valor, precisavam ser “insinuadas”. Insinuar significava obter aprovação do Governo.305 A insinuação deveria ser requerida ao Juiz de primeira instância e, posteriormente, averbada em livro competente. Consistia na inquirição do doador sobre sua livre e espontânea vontade acerca da doação e se ela havia sido feita sem influência de qualquer engano, induzimento, medo ou conluio e também na inquirição dos vizinhos, para que explicassem como a doação foi feita. Se, pela inquirição, o juiz verificasse o livre consentimento do doador e removesse toda a suspeita de artifício, a doação era confirmada.306
Contudo, os valores estabelecidos para a necessidade de aprovação da doação em juízo eram diferentes para homens e mulheres:
Art. 411. Todas as doações de bens móveis, ou imóveis, que excederem de 360$000 rs. sendo feitas por varão, e de 180$000 rs. sendo feitas por mulher, devem ser insinuadas.307
Do citado artigo, percebe-se que o limite para insinuações das doações feitas por mulheres era metade do valor estabelecido para homens. Logo, a autonomia para dispor livremente de seus bens era muito mais restrita para mulheres do que para homens.
A falta de insinuação anulava as doações realizadas, mas apenas no valor que ultrapassasse o limite estabelecido em lei, conforme o artigo 412 da Consolidação.308
Ainda em relação às doações, há mais dispositivos legais que estabeleciam tratamento diferenciado para as mulheres, prejudicando-as. Pais e mães tinham direito de fazer doações para seus filhos e essas doações poderiam ser revogadas por ingratidão.
304
Cf. FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 217, artigo 312, § 1º.
305 Cf. ALMEIDA, Candido Mendes de. Ordenações Filipinas. Livro IV. Ed. fac-sím. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 1985. P. 861.
306
Cf. FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 289, artigos 414, 415, 416.
307 FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal,
Conselho Editorial, 2003. P. 284, 287.
308
Cf. FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 287.
Segundo o artigo 421, eram consideradas causas de ingratidão: o donatário injuriar o doador com ou sem a presença deste; feri-lo ou colocar as mãos nele com ânimo de injuriar ou de desonrar; maquinar contra ele grave prejuízo ou atentar contra sua vida.309
Todavia, se a doação tivesse sido feita pela mãe viúva a seu filho e ela, posteriormente, contraísse segundas núpcias, as causas de revogação passavam a ser as seguintes:
Art. 422. Mas, se a doação foi feita a algum seu filho por doadora viúva, que depois tornou a casar, só poderá ser revogada nos casos seguintes:
§ 1º Se o donatário atentou contra a vida dela: § 2º Se lhe pôs as mãos irosamente
§ 3º Se lhe maquinou a perda de todos os seus bens.310
Nota-se, claramente, que as causas de ingratidão, que permitiam que se revogasse a doação, eram muito mais restritas para a mãe viúva que se casasse novamente do que para os casos gerais. No Livro IV das Ordenações Filipinas, no Título LXIII, que trata do assunto, há uma explicação para tal restrição:
E não poderá revogar essa mãe em outro caso algum a doação, feita a seu filho, por outra causa de ingratidão; porquanto é presunção de Direito, que, pois ela se casou com outro marido depois da doação feita, facilmente a seu requerimento se moveria a revogá-la: e portanto lhe foram coarctadas as causas de ingratidão, porque pudesse revogar a dita doação.311
Percebe-se, pois, que a vulnerabilidade da mulher, mais uma vez, é considerada a razão da norma restritiva.
Outra restrição dizia respeito às fianças. Por disposição expressa da lei, as mulheres não podiam ser fiadoras e nem tomar para si obrigações de outrem.312 Em um artigo das Ordenações, pode-se encontrar os motivos para dita proibição:
Por Direito é ordenado, havendo respeito à fraqueza do entender das mulheres, que não pudessem fiar, nem obrigar-se por outra pessoa alguma, e em caso que o fizessem, fossem relevadas da tal obrigação por um remédio chamado Direito
309 FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal,
Conselho Editorial, 2003. P. 300.
310
FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 301-302.
311 ALMEIDA, Candido Mendes de. Ordenações Filipinas. Livro IV. Ed. fac-sím. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 1985. P. 865.
312
Cf. FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 479, artigo 781.
Velleano; o qual foi especialmente introduzido em seu favor, por não serem danificadas obrigando-se pelos feitos alheios, que a elas não pertencessem. [...]313
O que é chamado de Direito Velleano não é nada mais que um benefício de exoneração, ou seja, as mulheres que contraíssem fiança ou responsabilidade por fatos alheios eram beneficiadas com a exoneração da obrigação, para que não fossem prejudicadas. Teixeira de Freitas observava que tal benefício só aproveitava às mulheres solteiras e não às casadas, que prestassem fiança com seus maridos.314 Isso porque, devido ao poder marital, o esposo ficava responsável pelos atos civis de suas mulheres. Entretanto, o gozo do benefício de exoneração não era absoluto e havia situações em que a mulher perdia o direito da exoneração da obrigação. São elas: quando prometia a liberdade de um escravo ou fiava alguém que o tivesse prometido; quando afiançava promessa de dote para casamento; quando se fingia de homem para o credor, com trajes disfarçados; quando fosse herdeira de outrem e renovasse a obrigação do de cujus; quando fosse herdeira, no todo ou em parte daquele a quem afiançara; quando recebesse do devedor a quantia ou objeto da fiança; quando fosse comerciante e outros.315
Mesmo nestes casos em que não gozavam da exoneração, as mulheres podiam ainda usar do benefício de restituição, se fossem menores de idade ao tempo em que assumiram a responsabilidade pela fiança. Referido benefício de restituição não podia ser renunciado pelas mulheres, exceto quando assumiam obrigações na figura de tutoras ou curadoras de seus filhos ou netos.316
De todo o exposto, percebe-se que a mulher não podia fiar e era “protegida”, a todo custo, de assumir a responsabilidade pelas obrigações que contraía. Isso não deixa de ser mais um sinal de que a mulher era considerada fraca, frágil e vulnerável, não sendo capaz de honrar os compromissos assumidos. Por isso, a lei evitava, ao máximo, a responsabilidade da mulher, principalmente por obrigações de terceiros, já que, supostamente, elas já eram incapazes para lidar com seus próprios negócios. Mas não se pode, também, deixar de cogitar
313 ALMEIDA, Candido Mendes de. Ordenações Filipinas. Livro IV. Ed. fac-sím. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 1985. P. 858.
314
Cf. FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 479.
315 Cf. FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal,
Conselho Editorial, 2003. P. 480.
316
Cf. FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 479-481, artigos 782, 783, 784, 785.
que muitas mulheres, astutamente, tendo conhecimento dessa norma, faziam uso dela para obter vantagens econômicas ou pessoais.
Ainda nesse contexto, a mulher, diferente do homem, era a única que poderia alegar ignorantia iuris quando não tivesse sido aconselhada juridicamente para a realização de atos jurídicos. Pois, segundo Rui Gonçalvez, a ignorância da mulher era presumida:
Porém quando se trata de haver proveito e interesse, e a mulher não pode haver conselho de letrados por viverem parte onde os não há, ou em lugar remoto e afastado donde há cópia deles, em tal caso aproveita às mulheres a ignorância de direito, e são de melhor condição que o gênero masculino.
Porque muito mais facilmente se presume na mulher ignorância de direito, que nos homens, e por isso socorrem mais a elas que ao gênero masculino.317
Para completar o rol de restrições, desde as Ordenações Filipinas, em geral, as mulheres não poderiam figurar como testemunhas de testamentos, sejam públicos, cerrados ou particulares. E essas disposições não foram revogadas, uma vez que aparecem compiladas na Consolidação. É o que se comprova pelos seguintes dispositivos:
Art. 1054. Para ser valioso o testamento público, é necessário: [...]
§ 2º Que a ele assistam, além do Tabelião, cinco testemunhas varões, e maiores de quatorze anos.
Art. 1055. Para ser valioso o testamento cerrado com instrumento de aprovação, é necessário:
[...]
§ 4º Que o testador o entregue ao Tabelião perante cinco testemunhas varões, e maiores de quatorze anos.
Art. 1060. As solenidades do testamento particular são: [...]
§ 2º Que intervenham cinco testemunhas varões, e maiores de quatorze anos, [...]318
Só em raras exceções a mulher poderia ser testemunha. Era o caso dos testamentos nuncupativos (feitos oralmente no leito de morte) e militares, bem como nos codicilos.
Art. 1061. No testamento nuncupativo, feito de viva voz ao tempo da morte, é necessário para sua validade, que intervenham seis testemunhas, homens ou mulheres.
317 GONÇALVEZ, Ruy. Dos privilégios e prerrogativas que o gênero feminino tem por direito comum e
Ordenações do Reyno mais que o gênero masculino. Lisboa: Barrerium Regium Typographum, 1557. P. 81.
318 FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 2. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal,
Conselho Editorial, 2003. P. 629, 631, 635. Cf. ALMEIDA, Candido Mendes de. Ordenações Filipinas. Livro IV. Ed. fac-sím. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985. P. 900- 905, Título LXXX, caput, § 1º, § 3º.
Art. 1065. Os testamentos, que os militares fizerem em campanha, ou cercados em Presídios e Fortalezas, são privilegiados; e para eles bastam somente duas testemunhas, homens ou mulheres, chamadas para o ato; [...]
Art. 1080. Nas Cidades, Vilas, e lugares de grande povoação, devem intervir para os codicilos quatro testemunhas, homens ou mulheres, maiores de quatorze anos; [...]319
O testemunho da mulher, como visto, não tinha muito valor, uma vez que ela só poderia testemunhar naqueles atos mais urgentes (testamento nuncupativo ou militar), em que havia risco de morte para o testador, ou naqueles muito simples, que não envolviam grandes somas materiais, como no caso dos codicilos.
Por todo o exposto, percebe-se, que para o Direito, a mulher era um ser frágil que necessitava de tutela constante – quando não era pela autoridade do marido ou do pai, o campo jurídico entrava em ação para socorrê-la. Por isso, o Direito também contribuiu, com suas normas e seus doutrinadores, para formação de um estereótipo de submissão feminina, principalmente para a mulher casada, que se tornava incapaz para os atos da vida civil, por estar sob poder e autoridade do marido.