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2.3. Arap Baharının Başlaması

2.3.4. Suriye’de Arap Baharı

2.3.4.1. Arap Baharı Sürecinin Suriye’de Yaşanmaya Başlaması

Mas não era apenas em relação à honra que as mulheres eram cobradas. A Igreja também pregava rígidas condutas para elas e destacavam o papel que deveriam ter de mulher casta, boa mãe e esposa submissa. A doutrina cristã é marcada por conservadorismos e uma forte tradição. Dessa forma, as pregações em relação aos pecados, mandamentos e sacramentos são muito antigas. Frisava-se bastante o papel da esposa em contraposição ao do marido, como se observa do trecho que se segue:

[...] Acerca do qual digo que a graça que neste sacramento recebem os que com temor de Deus e com santa intenção se ajuntam, é que o marido ame a mulher com amor casto, como Cristo amou a Igreja; e semelhantemente a mulher ame e reverencie ao marido. [...].217

O marido deveria apenas amar a esposa. Em contrapartida, cabia à mulher amar, mas também reverenciar ao marido. Essa diferença era bem marcada, pois, embora a igreja pregasse a igualdade e a aceitação recíproca, o mero fato de estabelecer papéis diferenciados denota sua opinião em desfavor da mulher. Segundo Vainfas, em relação ao matrimônio, a Igreja pregava:

216 ANDRADA, Diogo de Paiva de. Casamento perfeito. Lisboa: Livraria Sá da Costa/Editora Lisboa, 1944. P.

123.

217 GRANADA, Luys de. Compêndio de doutrina Cristã recopilado de diversos autores que desta matéria

escreveram, pelo R. P. F. Luys de Granada, Provincial da ordem de S. Domingos. Lisboa: Casa de Joannes Blanio de Agripina Colonia, 1559. P. CLVII. Terceira parte, cap. XV.

[...] Reprovação da discórdia no interior do casal, supressão da diferença e eliminação da alteridade entre os esposos, salvo no tocante ao poder marital, eis as características do modelo cristão de “amor” no casamento. Uma projeção erótica celeste, tal como o próprio casamento era réplica da virgindade.218

A posição da Igreja, vista nesse trecho, demonstra a sua contradição discursiva, já que pregava a supressão da diferença entre os esposos, mas destacava o poder marital. Ocorre que as prerrogativas e autoridade provenientes de tal poder transformavam-no em verdadeira regra e não em exceção, demonstrando que a igualdade entre os cônjuges, defendida pela Igreja, não era material, mas simplesmente formal.

A submissão feminina era fundamentada por meio de passagens bíblicas, como no trecho da Primeira Epístola a Timóteo, em que se diz que a mulher deveria ouvir toda instrução do homem, ficando em silêncio, “com espírito de submissão” e era proibida de ensinar ou impor qualquer autoridade sobre ele, pois o primeiro a ser criado foi Adão, para depois surgir Eva. Logo, o homem, sendo anterior, detinha todo o poder. Além disso, a mulher foi culpada exclusivamente pela transgressão havida no paraíso, podendo, todavia, salvar-se, contanto que cumprisse os deveres de mãe, permanecendo com “modéstia na fé, na caridade e na santidade”.219

A Igreja, pois, sentia necessidade de deixar clara a diferença entre homens e mulheres no seu discurso. Eva foi a grande pecadora e responsável pela desgraça da humanidade, devido ao cometimento do pecado original.220 A Igreja, então, utilizava-se dessa narrativa, seja intencionalmente, seja por verdadeira convicção, para incutir culpa nas mulheres e persegui-las em vários momentos históricos.

Na tradição cristã, pode-se dizer que há dois paradigmas antagônicos de figuras femininas: Maria e Eva. Todas aquelas que não seguem o exemplo singular de Maria, são todas consideradas filhas de Eva. Maria tem uma pureza incomparável e uma natureza perfeita e inatingível, em contraste com Eva, relacionada diretamente com o pecado original, dotada de uma natureza pecaminosa. Assim, por meio da figura de Eva, a Igreja definia o que a mulher era, e por meio de Maria, o que a mulher deveria ser.221

218 VAINFAS, Ronaldo. Casamento, amor e desejo no ocidente cristão. 2. ed. São Paulo: Ática, 1992. P. 51. 219

BIBLIA. Português. Bíblia sagrada. Revisão de Frei João José Pedreira de Castro. 147. ed. São Paulo: Ed. Ave Maria, 2002. I Timóteo, Cap. 2, vers. 9-15. P. 1518.

220 Cf. DEL PRIORE, Mary. A mulher na história do Brasil. 2 ed. São Paulo: Contexto, 1989. Coleção

Repensando a História. P. 16.

221

Cf. TEDESCHI, Losandro Antonio. História das mulheres e a representação do feminino. Campinas: Curt Nimuendajú, 2008. P. 65-68.

Em compêndios de doutrina cristã, quando se tratava do pecado capital da luxúria, os homens eram alertados quanto ao comportamento das mulheres:

[...] Por isto foge da companhia das mulheres: porque vê-las dana os corações, ouvi- las os atrai, falar-lhes os inflama, tocá-las os estimula, e finalmente tudo delas é laço para os que tratam com elas. [...] E se amas alguma mulher honesta e santa, ama-a em tua alma, sem curar de a visitar muito: lembrando-te que ao morador do paraíso lançou a mulher fora de as posses.[...]”222

A mulher era considerada o símbolo da luxúria e mesmo as honestas poderiam guardar o germe do pecado, não devendo o marido, portanto, manter relações frequentes com ela. Partindo desse discurso da mulher pecadora, a Igreja ditava regras para o comportamento feminino e isso não foi diferente no século XIX, principalmente no Brasil, onde a Igreja Católica ainda tinha muito prestígio, por ser a religião oficial do Estado.

O domínio da Igreja se exercia principalmente pelo controle da sexualidade feminina e pela propagação do modelo eclesiástico do casamento. Por ser considerada um ser propenso ao pecado, a mulher sempre deveria obediência a alguém do sexo masculino: inicialmente à figura paterna, posteriormente à do esposo. A idéia de controlar a mulher, principalmente sua sexualidade dentro do matrimônio, “decorre do interesse de fazer da família o eixo irradiador da moral cristã”.223 Em relação à sexualidade feminina no matrimônio:

Impunha-se uma dicotomia sexual onde apenas o homem fosse ativo; a mulher seguia passiva, dando continuidade e coerência à obediência e sujeição a que era obrigada no mais da vida doméstica. Objeto de consumo quando utilizado para a procriação, o corpo feminino era também objeto de consumpção, porque afastado de mínimos prazeres sexuais. O desejo sexual erigia-se como um apanágio exclusivo dos homens, atributo, aliás, confirmado pelo grande número de emissores de um discurso sobre o corpo da mulher, não havendo lugar para falas femininas sobre a sua própria sexualidade.224

O controle da sexualidade foi bastante difundido pela Igreja, por meio de seus discursos, pela afirmação de condutas pecaminosas e até de crimes ligados à expressão sexual. Neste último ponto, também seguida de perto pela ingerência do Estado. Só por meio do

222 GRANADA, Luys de. Compêndio de doutrina Cristã recopilado de diversos autores que desta matéria

escreveram, pelo R. P. F. Luys de Granada, Provincial da ordem de S. Domingos. Lisboa: Casa de Joannes Blanio de Agripina Colonia, 1559. P. XCV.

223 DEL PRIORE, Mary. A mulher na história do Brasil. 2 ed. São Paulo: Contexto, 1989. Coleção Repensando

a História. P. 16.

224

DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo: condição feminina, maternidade e mentalidades no Brasil colônia. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995. P. 137.

casamento a mulher poderia redimir seu espírito pecador, cumprindo o seu papel fundamental de esposa e mãe. Por isso, a Igreja condenava o prazer e o desejo, principalmente femininos.

Outro ponto de destaque era o fato de a Igreja insistir no papel social de mãe que as mulheres deveriam assumir, tendo em vista que a procriação era o principal objetivo do matrimônio. Segundo Lott:

De acordo com o Catecismo tridentino, dá-se o nome de matrimônio ao sacramento cuja finalidade máxima é a maternidade: a mulher deve conceber, dar à luz e educar seus filhos na fé cristã. Chama-se também união conjugal, pois une o homem e a mulher sob o mesmo teto [...].225

Para tanto, a Igreja se empenhou na tarefa de “adestrar a mulher”, com o intuito de transformá-la numa ótima dona de casa, excelente esposa, boa mãe no cuidado com os filhos. Para Tânia Quintaneiro:

A veneração da feminilidade e da maternidade promovia com eficácia o ideal da mulher dedicada inteiramente às tarefas domésticas. Essa ideologia afirmava que ser mãe era, além de destino natural da mulher, o estado mais alto e nobre que ela poderia alcançar, acabando por transformar-se na própria razão da existência feminina. Um crescente número de debates, publicações científicas e sermões feitos por sacerdotes insistiam sobre as alegrias que a maternidade reservava às mulheres e na importância do cumprimento dos “deveres femininos”.226

A fim de atingir seu desiderato, a Igreja elaborou vários discursos, apropriando-se da mentalidade androcêntrica presente à época. Aproveitando a forte relação de domínio existente entre homens e mulheres, incentivava estas a serem obedientes e submissas. A figura feminina era basicamente escrava doméstica de seu marido, devendo “cuidar da casa, cozinhar, lavar roupa, servir ao chefe da família com o seu sexo, dando-lhe filhos que assegurassem sua descendência e servindo como modelo para a sociedade familiar com que sonhava a Igreja”.227 Para não cair em tentação e evitar maiores desgraças, a mulher estaria obrigada a obedecer a seu marido por “preceitos divinos”. O papel da mulher era muito claro para a Igreja e, dentro do matrimônio, que deveria ser espaço de obediência e retidão moral, a

225 LOTT, Mirian Moura. Na forma do ritual romano: Casamento e família em Vila Rica (1804-1839). São

Paulo: Annablume; Belo Horizonte: PPGH/UFMG, 2008. P. 72.

226 QUINTANEIRO, Tânia. Retratos de mulher: o cotidiano feminino no Brasil sob o olhar de viageiros do

século XIX. Petrópolis: Vozes, 1995. P. 109.

227 DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo: condição feminina, maternidade e mentalidades no Brasil colônia. 2

mulher seria a gestora de valores cristãos e deveria fazer seus filhos os absorverem em profundidade.228

Sobre o discurso da Igreja, Tedeschi vai dizer que:

As características construídas pela moral cristã e atribuídas ao feminino são aquelas necessárias ao cuidado do lar, da família e do bom desempenho da maternidade, negando à mulher outras possibilidades e reforçando seu enclausuramento no espaço doméstico.229

E essas características, segundo Tedeschi, são a mansidão, a tranquilidade, a docilidade, a sinceridade, a discrição, a abdicação, a quietude. Todas elas instituídas pela moral cristã e reforçadas continuamente pelo poder do discurso masculino.230 Afinal, era muito mais conveniente para os homens, interessados em tomar conta da situação, possuírem esposas submissas e obedientes.

Os religiosos que escreviam livros de comportamento moral aconselhavam as esposas a estar sujeitas aos maridos e procurar o bem destes de corpo e alma, sobretudo a paz, a união e a concórdia no casamento. Quando estivessem insatisfeitas com algum defeito dos maridos, caso eles fossem coléricos, caprichosos, jogadores, elas deveriam apenas ter confiança e fé em Deus e de forma alguma contrariá-los. Muito pelo contrário, elas deveriam tratá-los com benignidade e prudência, pois apenas a palavra branda era capaz de romper a ira. Deveriam ainda esmerar-se em preparar-lhes a comida do modo que eles mais gostassem e buscar agradá-los de todas as formas, em relação à roupa e outras coisas da casa. Sobretudo, quando o marido estivesse ébrio e irritado, a esposa deveria calar-se, por mais razão que tivesse, devendo se comportar como se ela fosse a culpada, pois a mulher, das muitas vezes em que era castigada, era por sua língua. A única recomendação feita aos maridos era que amassem suas esposas como Cristo à Igreja e como ama seu próprio corpo, não devendo maltratá-las por atos ou palavras e evitando contrariá-las, pois embora o homem fosse o superior da casa e a esposa devesse obedecê-lo, superior a ambos se encontrava Deus, que sempre providenciava o castigo adequado, se assim fosse invocado pelo cônjuge irritado.231

228

DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo: condição feminina, maternidade e mentalidades no Brasil colônia. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995. P. 279.

229 TEDESCHI, Losandro Antonio. História das mulheres e a representação do feminino. Campinas: Curt

Nimuendajú, 2008. P. 81.

230

Cf. TEDESCHI, Losandro Antonio. História das mulheres e a representação do feminino. Campinas: Curt Nimuendajú, 2008. P. 85.

231 Cf. CLARET, Antonio María. Llave de oro: ó série de reflexiones que, para abrir el corazon cerrado de los

pobres pecadores, ofrece a los confessores nuevos El Excmo. é Ilmo. Sr. Antonio María Claret, Arcebispo de Trajanópolis. In: LARRAGA, Fr. Francisco. Prontuario de la teología moral. Ampliado e revisto por D. Antonio Maria Claret. 6. ed. Barcelona: Libreria Religiosa D. Pablo Riera, 1866. P. 675-677.

Vê-se, portanto, que a posição superior do marido era bastante destacada e uma postura bem mais exigente era cobrada da esposa. Além disso, o castigo do homem era divino e invocado pela esposa, ao passo que o castigo desta era bem real e incentivado pelos párocos. Entretanto, em relação aos deveres conjugais, a Igreja procurava ser justa na sua reciprocidade, principalmente em relação à fidelidade e à exigência do débito conjugal. Contudo, considerava-se mais grave o adultério do solteiro com a casada do que o do casado com a solteira, já que havia a probabilidade de nascer um filho adulterino que disputaria a herança com os legítimos.232

Por esse motivo, a Igreja era a favor dos castigos contra a mulher, dados por seus maridos, quando elas fossem desobedientes. Ela condenava tratamentos violentos, mas pregava que o marido deveria refrear a insolência da esposa. O problema era que não se definia muito bem o limite entre castigos e maus tratos.233 As “correções” variavam desde o recolhimento a clausuras até os maus tratos físicos.234 Segundo Eliana Goldschmidt, a Igreja justificava o castigo da mulher para evitar desregramentos no âmbito familiar, já que este era um importante núcleo de perpetuação dos valores da Igreja, do Estado e do patriarcalismo. O rigor da punição, portanto, garantiria, aos olhos do juízo eclesiástico, o cumprimento das obrigações familiares para manutenção do comportamento feminino dentro dos moldes desejados.235

Pôde-se notar que também a Igreja contribuiu para a reclusão da mulher, principalmente a casada, cujo comportamento básico era a obediência ao marido, (re)produzindo o discurso da boa mãe e da boa esposa e destacando sua natureza pecaminosa. Logo, “as prescrições da Igreja reforçavam sua [da mulher] dependência e subordinação ao pai e ao marido e a confinava aos papéis domésticos”.236

232 Cf. LARRAGA, Fr. Francisco. Prontuario de la teología moral. Ampliado e revisto por D. Antonio Maria

Claret. 6. ed. Barcelona: Libreria Religiosa D. Pablo Riera, 1866. P. 213-215; 401-403.

233 Cf. SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Sistema de casamento no Brasil colonial. São Paulo: T. A. Queiroz, Ed.

da Universidade de São Paulo, 1984. P. 158-159.

234 Cf. SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Vida privada e quotidiano no Brasil na época de D. Maria I e D. João

VI. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. P. 111.

235 GOLDSCHMIDT, Eliana Maria Rea. Virtude e pecado: sexualidade em São Paulo colonial. In: BRUSCHINI,

Cristina; COSTA, Albertina de Oliveira (orgs.). Entre a virtude e o pecado. São Paulo: Fundação Carlos Chagas; Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1992. P. 20-21.

236

COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia à república: momentos decisivos. 8 ed. rev. e aum. São Paulo: Fundação Editora UNESP, 2007. P. 495.