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3. SURİYE KİRİZİNDE TÜRK BASINI

3.1. Araştırmanın Problemi

Outro instituto jurídico que restringia a atuação da mulher era o pátrio poder. De acordo com a legislação civil, os filhos estavam submetidos a ele, enquanto morassem com seus pais ou até contraírem matrimônio. Ainda se estabelecia que:

Art. 225. O pátrio poder não compete aos avós, ou a outros ascendentes265 Art. 195. Os filhos não estão submetidos ao poder da mãe.266

Isso quer dizer que o pátrio poder era exercido exclusivamente pelo pai, ou seja, a mãe não exercia poder sobre seus próprios filhos. Trigo de Loureiro o definiu como “a autoridade, que as leis conferem ao pai sobre a pessoa, e ações de seus filhos menores, e sobre a administração dos bens que lhes pertencem”. Os fundamentos seriam a obrigação de criar e educar os filhos e a manutenção da regularidade do seio familiar. Logo em seguida, o autor deixa muito claro que o Direito português, ao qual o Direito brasileiro se filiava, diferente do Direito dos Visigodos, concedeu poder parental somente ao pai.267 Contrário a essa disposição, Trigo de Loureiro traçava as seguintes considerações:

Tendo o poder parental o seu único e essencial fundamento na necessidade da criação e educação dos filhos, à qual os pais não podem satisfazer, sem que tenham poder sobre eles [...]; é evidente que esse poder compete por direito natural a ambos os geradores: pois que ambos concorreram para a existência deles, e que a natureza os habilita igualmente para o exercício dele, enquanto infunde em um e outro o mesmo amor, e a mesma afeição para com essas caras porções de si mesmos. A isso acresce, que por direito natural a sociedade conjugal dá igualdade de direitos, e de deveres a ambos os cônjuges; e assim, como a família é um efeito dessa sociedade, é consequente que os direitos e deveres, enquanto aos filhos, hão de ser iguais no pai e na mãe. As leis pois dos Wisigodos [...] estavam mais em harmonia com a voz da natureza.268

Tendo sido o filho gerado pela afeição dos pais, da mesma forma, ambos deveriam ter autoridade sobre ele até que atingisse sua maioridade.

265 Cf. FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal,

Conselho Editorial, 2003. P. 191.

266

FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 166.

267 Cf. LOUREIRO, Lourenço Trigo de. Instituições de direito civil brasileiro. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília:

Senado Federal, Conselho Editorial, 2004. P. 59-60.

268

LOUREIRO, Lourenço Trigo de. Instituições de direito civil brasileiro. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2004. P. 60.

Lafayette também era contra esse instituto, existente desde o direito romano e já ultrapassado para sua época. Segundo ele, “[...] esta nobre missão a natureza confiou-a ao pai e à mãe, [entretanto] [...] dominado da tradição romana, segundo a qual a mulher ocupava no matrimônio uma posição semelhante à da filha famílias, o nosso Direito Civil denega às mães o pátrio poder”.269 Por essa passagem, percebe-se que Lafayette igualmente defendia a repartição do pátrio poder entre o pai e a mãe e a sua mitigação. Para ele, o pátrio poder, muitas vezes, era uma tirania exercida unicamente para manter usufruto do pai sobre os bens do filho, principalmente das filhas, mais facilmente subjugadas e que permaneciam sob esse poder por mais tempo. Nas suas próprias palavras:

A instituição do pátrio poder, tal como se acha constituída pelo nosso direito, é um invento absurdo, imaginado antes em utilidade e vantagem do pai do que em benefício do filho.

O jugo do pátrio poder, prolongando-se irracionalmente além da menoridade e dando ao pai o direito de usufruir os bens do filho [...] envolve em si uma tirania cruel, incompatível com as ideias do século e contra a qual bradam com toda a energia os mais sagrados direitos e as mais santas aspirações.

Quanto aos entes, fadados para a felicidade, e em maior numero os do sexo fraco, não vegetam aí, durante a mais formosa quadra da vida, encerrados em cárceres privados, ou comprimidos sob as falsas aparências da grandeza e elegância, com a alma a anelar venturas impossíveis, porque a avareza paterna, receosa de perder o usufruto do pecúlio, lhes embarga a emancipação!?

É mister acabar com esta tirania.270

O pátrio poder restringia muito a ação da mulher em relação à criação de seus filhos. Todavia, essa não era a única disposição normativa que acarretava semelhante restrição. Uma outra dizia respeito ao consentimento paterno para celebração de casamentos, conforme artigo 101 da Consolidação:

Art. 101. Os filhos-famílias, e os filhos menores, não podem casar sem consentimento de seus Pais, Tutores ou Curadores; e, casando sem este consentimento, incorrem na pena de deserdação, e na privação do direito de pedir alimentos.271

269

PEREIRA, Lafayette Rodrigues. Direitos de família. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2004. P. 233, 248.

270 PEREIRA, Lafayette Rodrigues. Direitos de família. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho

Editorial, 2004. P. 234-235.

271

FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 109, 111.

Segundo informações de Teixeira de Freitas272, a Lei de 29 de Novembro de 1775, incluía também a mãe na rubrica “Pais”. Entretanto, a Lei de 22 de Setembro de 1828, ao estabelecer as novas competências dos juízes de órfãos, dentro do artigo 2º, designou expressamente que o consentimento cabia, exclusivamente, ao pai ou ao tutor.

[...]

§ 4º Aos Juízes dos Órfãos ficam pertencendo: [...]

Suprir consentimento do pai ou tutor para casamento.273

Logo, era desnecessário o consentimento das mães para o casamento de seus filhos. Mais uma vez, há clara discriminação da mulher, já que o papel da mãe é simplesmente posto de lado no momento de decisão do casamento dos filhos, importando tão somente a opinião do pai.

Outras restrições diziam respeito à criação de filhos, cujo pai já se encontrava morto. Segundo os artigos 188 e 265, as mães tinham o direito de criar seus filhos órfãos, só enquanto não contraíssem novo matrimônio:

Art. 188. Pertence à mãe criar o filho de leite somente até a idade de três anos, ou este seja órfão enquanto ela não casar, ou o matrimônio tenha sido adotado por qualquer motivo.

Art. 265. Sendo os órfãos de tenra idade, dar-se-ão a criar a suas mães, se as tiverem; enquanto elas não casarem, nos termos do Art. 188.274

A liberdade de optar por se casar de novo trazia como consequência a perda do direito de criar o filho órfão, ou seja, mais uma expressa restrição concernente à criação dos filhos e estabelecida somente em relação à mulher.

Ainda a respeito do filho órfão, havia o artigo 107, segundo o qual os órfãos menores deveriam requerer licença do Juiz para se casarem, ainda que tivessem o consentimento de suas mães.

272 FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal,

Conselho Editorial, 2003. P. 109-110.

273

BRASIL. Lei de 22 de Setembro de 1828. Extingue os Tribunais das Mesas do Desembargador do Paço e da Consciência e Ordens e regula a expedição dos negócios que lhes pertenciam e ficam subsistindo. Disponível em <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=81716&tipoDocumento=LEI&tipoTexto=P UB>. Acesso em 7 de fevereiro de 2012.

274

FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 165, 203.

Art. 107. Os menores órfãos não podem casar sem licença do seu Juiz, sob a pena já declarada no Art. 19 [perda da posse e administração dos bens até atingir vinte e um anos], ainda que a tenham da mãe; quer esta se conserve viúva, quer passe a segundas núpcias, ou seja deles tutora.275

Nesta norma, percebe-se como a vontade da mãe era inócua em certos casos. Mesmo quando ela permitia o casamento de seus filhos menores e órfãos de pai, ainda assim, era necessária a licença do Juiz de órfãos.

Por todo o exposto, pode-se imaginar a dificuldade que tinham as mães de se fazer obedecer por seus próprios filhos, tendo em vista o vazio a que se reduzia o poder que elas tentavam exercer. Ao pesquisar relatos de viajantes no Brasil, Tânia Quintaneiro afirma que o poder concentrado nas mãos do pai ajudava a retirar toda a autoridade da mãe e, como aquele não desempenhava o papel de educador, o resultado era a formação de adultos arrogantes, que ocupavam o lugar da figura paterna, perpetuando o ciclo da dominação dos homens sobre as mulheres.276

Por fim, ainda relacionado a esse tópico, havia uma diferença quanto à nomeação de tutores ou curadores para os filhos em testamento, comportamento muito comum à época. O tratamento era completamente diferente, caso o ato fosse praticado por genitor do sexo masculino ou do sexo feminino, como se apreende dos artigos 243 e 244 da Consolidação das Leis Civis:

Art. 243. Se forem deixados pelo pai, ou avô, não serão obrigados a prestar fiança alguma.

Art. 244. Quando forem deixados pela mãe a seus filhos, ou pelo pai a seu filho natural, devem ser confirmados pelo Juiz; se entender, que são idôneos.277

Assim, o tutor indicado por pai ou avô não era obrigado a prestar fiança, já o tutor indicado pela mãe deveria, obrigatoriamente, obter confirmação do juiz. Essa é mais uma norma que ratifica o discurso da fraqueza do pensar da mulher, que, em tese, não possuía autonomia plena para estabelecer tutores adequados para seus próprios filhos.

275

FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 113.

276 Cf. QUINTANEIRO, Tânia. Retratos de mulher: o cotidiano feminino no Brasil sob o olhar de viageiros do

século XIX. Petrópolis: Vozes, 1995. P. 139.

277

FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das leis civis. Vol 1. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. P. 195.