A honra feminina, diferente da do homem, não era subjetiva, porque não pertencia à própria mulher. A sua honra pertencia à sua família, por isso era considerada objetiva. Segundo Caulfield, essa ideia se relaciona com a coexistência de duas noções sobre a honra: a noção patriarcal, entendida como recurso familiar e a noção burguesa, tida por virtude individual.195 É claro que a honra feminina e toda a repressão à mulher mantinham relação estreita com os conceitos pregados pelo patriarcalismo. Mais importante que a própria honra
192 MELO, D. Francisco Manuel de. Carta de guia de casados. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1651. Edição
Semidiplomática por Daniel Neto Rocha. Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada (Celga). Faculdade de Letras. Universidade de Coimbra, 2007. P. 11r-11v.
193 João Candido de Deos e Silva foi professor de Direito Civil da Academia de São Paulo por cerca de um ano,
Deputado pela Província do Pará, magistrado, desembargador e advogado. Embora não tenha se dedicado à Academia, possui uma produção bibliográfica extensa e peculiar, podendo-se dizer que publicar livros foi a principal atividade desse autor. Dedicou-se pouco a temas jurídicos, concentrando-se em traduções de textos em francês e livros próprios, que, em sua maioria, tinham por objetivo instruir e educar a mocidade. Cf. ROBERTO, Giordano Bruno Soares. O Direito Civil nas Academias Jurídicas do Império. 2008. Tese de Doutorado em Direito – Faculdade de Direito, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2008. P. 275-284.
194
SILVA, João Candido de Deos e. Maximas de conducta para as senhoras brasileiras. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1835. P. 4-6.
195 Cf. CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-
1940). Trad. Elizabeth de Avelar Solano Martins. Campinas, SP: Ed. da UNICAMP, Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, 2000. Título original: In defense of honor: sexual morality, modernity, and nation in early-twentieth-century Brazil. P. 85-86.
feminina estava a honra do pai e a do marido, que seria “manchada”, se as mulheres fossem protagonistas de costumes condenáveis socialmente. De acordo com Teixeira:
Tanto para o Estado quanto para a Igreja o controle sobre os impulsos sexuais, prioritariamente, das filhas deveriam ser exercidos pelos pais e irmãos. Uma vez que protegida a honra das mulheres também estava protegida a honra familiar. A mãe deveria ser o exemplo de honra e compreensão a ser seguido.196
Já a honra do homem dizia respeito àquilo que a sociedade dele pensava, englobando o comportamento de sua filha ou esposa. Por isso mesmo, não foi incomum, no Brasil, os assassinatos de filhas e esposas em legítima defesa da honra. Elas morriam não para limpar sua própria honra, mas a do pai ou do marido.
Por esse motivo, deveria a mulher manter sua honra, a fim de não arriscar a própria vida, literalmente, ou correr o risco de perder sua boa fama, irrecuperável, como dizia Diogo de Paiva de Andrada:
[...] nas mulheres é ainda mais importante andar sempre mui precatadas na conservação de suas virtudes, e como a honestidade lhes serve de pedra fundamental de todas elas, e nela consiste a sua reputação, e em algumas sua própria vida, importa-lhes muito que se guardem com todas suas forças, e vigilâncias de qualquer ocasião, que lha ponha em risco: advertindo que se uma vez chega a se perder, dificultosamente se restaura [...].197
Nesse sentido, havia o estabelecimento de diferentes comportamentos, que implicavam diferentes consequências. Aos homens “tudo era permitido”, às mulheres “tudo era proibido”. Enquanto determinadas condutas eram incentivadas para os homens, eram terminantemente proibidas para as mulheres. Em seu manual, D. Francisco Manuel de Melo deixa clara essa distinção de comportamentos:
Não se nega porém ao marido que se possa mostrar galante com as damas, e senhoras, quando a ocasião for de galantaria; porque esta obrigação é do bom sangue; e como não seja viciosa, antes virtude, pelo menos política, não obriga contra ela o matrimonio. As próprias mulheres, se são generosas, folgam que seus maridos se mostrem cortesãos donde o devem ser.
[...]
Estas galantarias do marido não podem ser recíprocas para a mulher, que tem muito menores licenças, sem ter alguma razão de queixa; como acontece que uma cidade
196 TEIXEIRA, Kelly Cristina. O que Deus uniu o homem não separe: modernização, divórcio, gênero e
romanização em Juiz de Fora (1890-1917). 2008. Dissertação de Mestrado em Ciência da Religião – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2008. P. 106.
197
ANDRADA, Diogo de Paiva de. Casamento perfeito. Lisboa: Livraria Sá da Costa/Editora Lisboa, 1944. P. 55.
tem muito menor comarca que a outra, e nem por isso terá justiça para a pretender igual.198
Isso quer dizer que os homens poderiam ser galantes com outras mulheres, sem que isso significasse ofensa ao matrimônio, ao passo que às mulheres isso era terminantemente proibido. Era honrado o homem galante, pois esta era uma obrigação do “bom sangue”. A honra da mulher era bem diferente. D. Francisco Manuel de Melo dizia que “[...] a honra da mulher comparo eu à conta do algarismo; tanto erra quem errou em um, como quem errou em mil. Façam as honradas boas contas, acharão esta conta certa”. A mulher era, portanto, bastante vigiada, pois bastava um pequeno deslize seu, para que toda sua honra fosse arruinada.
Segundo Maria Beatriz Nizza, a honra estava muito relacionada à fama, ou seja, à opinião pública. E, para a mulher solteira, a noção de honra, em termos concretos, era ser virgem. Isso porque a perda da virgindade reduzia, consideravelmente, as chances de matrimônio.199 Por esse motivo, a virgindade da mulher devia ser muito bem guardada pelo patriarca, já que a honra da família girava em torno do “bom comportamento” da mulher. Caulfield ainda acrescenta que essa honestidade se caracterizava como “[...] uma condição social e um atributo moral selados por um estado fisiológico”. Qualquer desonra em um desses pilares, levaria à queda dos outros dois, mas, sem sombra de dúvidas, a ruptura fisiológica era a mais perniciosa.200
João de Barros também mencionava o fato da boa fama ser quesito mais importante para se analisar a honestidade, em substituição aos antigos sintomas físicos da virgindade, nem sempre confiáveis:
[...] pela lei velha se havia de amostrar os sinais da virgindade, agora a boa fama da pessoa é sinal que bem se amostra, a qual muito se deve conservar. Alberto e os médicos põem alguns sinais de fora, assim como face vermelha, despeito e vergonha do homem, peito pequeno e duro, contudo às vezes se enganam os olhos das parteiras.201
198 MELO, D. Francisco Manuel de. Carta de guia de casados. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1651. Edição
Semidiplomática por Daniel Neto Rocha. Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada (Celga). Faculdade de Letras. Universidade de Coimbra, 2007. P. 111v-112r-112v-113r.
199 Cf. SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Sistema de casamento no Brasil colonial. São Paulo: T. A.
Queiroz/EDUSP, 1984. P. 70-71.
200
CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918- 1940). Trad. Elizabeth de Avelar Solano Martins. Campinas, SP: Ed. da UNICAMP, Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, 2000. Título original: In defense of honor: sexual morality, modernity, and nation in early-twentieth-century Brazil. P. 77-79.
201
BARROS, João. Espelho de casados. Porto: Vasco Diaz Tanco de Frexenal, 1540. Disponível em <http://purl.pt/15191>. Acesso em 7 de fevereiro de 2012. P. 148.
O Direito também se preocupava com a questão da virgindade, por meio da possibilidade de deserdação, como visto anteriormente. Depois de casada, a honra da mulher passava a significar fidelidade cega ao marido, ainda que este não fosse fiel e, segundo Caulfield, a liberdade sexual da esposa tornava-se ainda mais subordinada à honra da família202.
Como a honra era considerada a opinião pública sobre uma pessoa, uma vez manchada, não se recuperava mais a boa fama, por mais que se tentasse comportar bem novamente, como metaforizou D. Francisco Manuel de Melo:
Valho-me sempre das cousas naturais, e assombro-me certo neste caso, considerando que uma só gota de tinta que caia em uma redoma de água claríssima, basta, e sobeja para a tornar turba; e que para aclarar, e deixar limpa uma redoma de tinta não basta uma pipa de água clara. Assim costuma ser a má, e a boa fama, que a muito boa não pode acabar de purificar a ruim, e a ruim logo empece a muito boa.203
Para evitar isso, as mulheres eram bastante vigiadas e deveriam permanecer recolhidas. Elas também deveriam aparecer pouco e só quando fosse realmente preciso, pois, como dizia D. Francisco Manuel de Melo “[...] seja a mulher honrada, como dizem que é o Corpo Santo, que não aparece senão nas grandes tempestades, e sempre para remédio delas”.204 Ou seja, a mulher só deveria aparecer, quando necessitassem dela. Isso fazia com que a imagem da mulher, principalmente a casada, assumisse um status próximo ao da criança, ou seja, de pouca independência e sob tutela constante. Para Emília Viotti:
A imagem da mulher [...] na primeira metade do século XIX era de uma mulher quase criança, vivendo seus primeiros anos sob a tutela de um pai despótico e, mais tarde, sob o controle estrito do marido, ao qual, de acordo com o costume, a lei e a religião, ela devia total obediência; uma criatura sexualmente inibida, mas que poderia de repente romper as barreiras que a cerceavam e se entregar ao desvario de uma paixão, e por isso era estreitamente vigiada; uma mulher com pouca ou nenhuma educação e iniciativa, que aspirava apenas ao casamento e à maternidade, cuja honra era definida quando jovem pela sua virgindade e, mais tarde, pela lealdade ao marido: uma mulher cujos horizontes iam pouco além das paredes de
202
CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918- 1940). Trad. Elizabeth de Avelar Solano Martins. Campinas, SP: Ed. da UNICAMP, Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, 2000. Título original: In defense of honor: sexual morality, modernity, and nation in early-twentieth-century Brazil. P. 82-83.
203
MELO, D. Francisco Manuel de. Carta de guia de casados. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1651. Edição Semidiplomática por Daniel Neto Rocha. Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada (Celga). Faculdade de Letras. Universidade de Coimbra, 2007. P. 110r.
204 MELO, D. Francisco Manuel de. Carta de guia de casados. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1651. Edição
Semidiplomática por Daniel Neto Rocha. Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada (Celga). Faculdade de Letras. Universidade de Coimbra, 2007. P. 107v.
sua casa, onde vivia e morria prematuramente, matrona, rodeada por membros de sua família e por seus escravos. 205
Se as mulheres eram constantemente vigiadas, era porque, na realidade, havia casos de desvios, o que Emília Viotti chamou de “desvarios de uma paixão”. Isso se deve ao fato de que nem todas elas aceitavam o casamento escolhido pelos pais ou se portavam de forma submissa. Aliás, devido ao valor dado à honra da mulher, muitas delas combinavam raptos com o pretendente escolhido, a fim de ser forçado o casamento, já que a honra manchada deveria ser reparada. Dessa forma, elas se casavam com quem queriam e ainda burlavam a vontade paterna.206 Nos casos de rapto, quando o casamento não fosse possível, a honra era recompensada com um gordo dote ou, dependendo do temperamento paterno, lavada com a morte da desonrada.207
As Ordenações estabeleciam como penas aos crimes de desonra a mulheres virgens ou viúvas honestas a obrigação de casar ou de dar um dote de acordo com a condição da vítima e que recompensasse o dano causado. Se o réu não tivesse condições de pagar o dote, seria degredado, caso fosse homem de condições, ou açoitado, caso não fosse.208 O Código Criminal do Império, posteriormente, estabelecia além das penas de desterro ou prisão, a obrigação do réu dotar a vítima deflorada, por fraude, engano ou rapto. Mas extinguia a pena, se o réu se casasse com a vítima, exceto nos casos de estupro.209
O pagamento do dote, nesses casos, como era satisfação devida à deflorada (pelo ato sofrido), não admitia condição resolutiva, caso não nascessem filhos, ou seja, a obrigação não cessava e, se já tivesse sido cumprida, não gerava o dever de devolução da quantia recebida. Isso porque a obrigação era pura e simples e deveria ser satisfeita, independentemente do fato de a desonrada contrair ou não matrimônio com terceiro ou engravidar-se do deflorador. Nesse sentido, a deflorada, ainda que não tivesse nenhum prejuízo (gerar um filho do deflorador ou permanecer solteira por não ser mais virgem), tinha
205
COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia à república: momentos decisivos. 8 ed. rev. e aum. São Paulo: Fundação Editora UNESP, 2007. P. 493-494.
206 Cf. FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos. 13. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002. P. 160-161.
207 Cf. SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Sistema de casamento no Brasil colonial. São Paulo: T. A.
Queiroz/EDUSP, 1984. P. 70-71.
208 Cf. ALMEIDA, Candido Mendes de. Ordenações Filipinas. Livro V. Ed. fac-sím. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 1985. P. 1172-1174, Título XXIII.
209 IMPÉRIO BRASILEIRO. Código Criminal do Império. Lei de 16 de dezembro de 1830. Manda executar o
Código Criminal. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/LIM/LIM-16-12-1830.htm>. Acesso em 8 de fevereiro de 2012. Arts. 219-228.
direito de receber o pagamento do dote.210 Por esse motivo, o direito de receber era transferível a seus herdeiros. A obrigação subsistia para o desonrador, ainda que a deflorada se casasse com outro, já tivesse recebido um dote de algum familiar ou se desonrasse, depois, com outro, pois já havia adquirido o direito anteriormente. Mas cessava a obrigação, como visto, se o desonrador se casasse com a desonrada, desde que com a concordância de ambos. Também havia extinção da obrigação, se ele intentasse casar e o pai da desonrada não consentisse, sem ter para isto justa causa; se a desonrada provocasse o desonrador e lhe facilitasse os meios ou se o desonrador combinasse de pagar certa quantia para corromper a moça, porque, nesse caso, só essa quantia combinada era devida.211
Também a Igreja seguia a mesma vertente do Direito Criminal e considerava pertinente que o desonrador se casasse com quem desvirginou ou lhe pagasse um dote, além de sofrer penas corporais em alguns casos. As consequências eram decididas de acordo com a posição dos envolvidos, pois não era considerado certo casar um nobre com a filha de um lavrador, por exemplo. Para haver casamento, deveria haver igualdade de qualidades entre o homem e a mulher. Por isso, havia a pena alternativa de pagamento de dote, de acordo com o grau da desonra.212
Desejando apenas o recebimento do dote, a mulher desonrada poderia propor uma ação de receber dote e cobrar uma quantia de acordo com sua condição. O provocador da desonra poderia ser demandado, ainda que a vítima já estivesse casada com outro ou o pai dela já a houvesse dotado.213
Em termos de honra, dentro da sociedade patriarcal, era importante que os homens ressaltassem sempre as diferenças que possuíam em relação às mulheres, para destacar seu
210
Um negócio jurídico é puro e simples, quando a declaração de vontade das partes que o celebraram não sofre nenhuma interferência de circunstância modificativa, produzindo seus efeitos de forma natural. As circunstâncias modificativas de um negócio jurídico podem ser as condições, os prazos, o cumprimento de encargos. Uma condição resolutiva, por sua vez, é um evento futuro e incerto, capaz de desfazer o negócio jurídico, que já vinha produzindo seus efeitos. Cf. PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. Vol. 1. 21. ed. Rev. e atualizada por Maria Celina Bodin de Moraes. Rio de Janeiro: Forense, 2005. P. 553; 567. No caso do dote, a obrigação gerada no caso de defloramento era pura, ou seja, mesmo que a deflorada não ficasse grávida ou, então, se casasse com um terceiro (eventos futuros e incertos), a obrigação persistia, pois não estava subordinada a qualquer mudança circunstancial.
211 CARNEIRO, Manuel Borges. Direito civil de Portugal: contendo três livros: I. Das pessoas, II. Das cousas,
III. Das obrigações e ações. Tomo II. Lisboa: Typ. Maria da Madre de Deus, 1858. Disponível em: <http://purl.pt/705>. Acesso em 8 de março de 2012. P. 132-134.
212
Cf. NAVARRO, Martim de Azpilcueta. Manual de confessores e penitentes: que clara e brevemente contém a universal decisão de quase todas as dúvidas que em as confissões soem ocorrer dos pecados, absolvições, restituições, censuras, e irregularidades. Coimbra: João de Barreira Impressor da universidade, 1560. P. 159-160.
213 TELLES, José Homem Corrêa. Doutrina das Ações. Aumentada por Joaquim José Pereira da Silva Ramos.
Rio de Janeiro: E. & H. Laemmert, 1865. Disponível em: <http://bdjur.stj.gov.br/dspace/handle/2011/16818>. Acesso em 5 de março de 2012. P. 93.
poder e superioridade. O patriarcalismo foi responsável pela caracterização da honra do homem e da honra da mulher, por meio do estabelecimento de uma moral dupla: a mulher deveria ser recatada, proteger sua honra e só se deitar com o marido com o intuito de procriar e o homem poderia livremente dar vazão a seus instintos e era vangloriado socialmente por isso, como observado por Fréderic Mauro:
Era de fato muito característico do regime patriarcal que o homem fizesse da mulher uma criatura tão diferente dele quanto possível. [...] A mulher era explorada pelo homem. Isso estava perfeitamente de acordo com a diferenciação dos papéis segundo o sexo, e levava a uma moral dupla: a do homem que pode dar vazão a todos os seus caprichos físicos, e a da mulher, cuja única liberdade era de deitar-se com o marido todas as vezes em que este estivesse disposto a procriar. Esse sistema dava ao homem todas as iniciativas políticas, econômicas e sociais, e todos os contatos com o exterior, limitando a mulher às tarefas domésticas, ao contato com os filhos, os parentes, os escravos e o pessoal doméstico.214
Para evitar maiores problemas, os homens deveriam manter um pulso firme e manter a esposa e toda a sua família sob seu controle. Para Diogo de Paiva de Andrada, os maridos deveriam, após certa experiência, ser capaz de conhecer os comportamentos das mulheres e assim:
[...] conhecerão bem facilmente quais ocasiões lhes devem tolher, e quais permitir, para não ser necessário reformar demasias, nem atalhar desconcertos. Importa muito ser isto no princípio, porque ainda que pelo discurso dos procedimentos se pode com mais certeza ir alcançando o bem, ou mal, a que são inclinadas, poderá ir começando alguma por coisa tão grave, que primeiro chegue a culpa que a suspeita, e a desonra que a experiência, e por não ser já tempo de remédio, seja forçado usar do castigo [...]215.
A importância dada à honra poderia justificar facilmente o uso de violência, desde os simples castigos até ações mais severas. Diogo de Paiva de Andrada temia pela vida da mulher que não mantinha o recato, caso o marido fosse de índole mais impulsiva. Como visto anteriormente, a legítima defesa da honra era facilmente aceitável pela sociedade, que até mesmo a apoiava. Por isso, o autor alertava em seu manual:
Os que tem natureza de revoltosos, e turbulentos vêm tão cegos de raiva e desatino, que se nesta ocasião o demônio, que nunca as perde, lhes oferece alguma leve, ou
214 MAURO, Fréderic. O Brasil no tempo de Dom Pedro II: 1831-1889. Trad. Tomás Rosa Bueno. São Paulo:
Companhia das Letras, 1991. (A vida cotidiana). P. 161-162.
215
ANDRADA, Diogo de Paiva de. Casamento perfeito. Lisboa: Livraria Sá da Costa/Editora Lisboa, 1944. P. 58.
fingida causa de ciúmes, fica a inocente mulher mui arriscada a pagar com a vida as culpas da sua tafularia [...]216
Considerando a repressão feminina, pode-se dizer que os homens da sociedade patriarcal, principalmente os maridos, não estavam sozinhos na tarefa de controlar suas esposas. A exaltação de sua autoridade e superioridade, bem como da submissão e dependência da esposa ganhava realce também nos discursos eclesiásticos e nas normas de Direito. O controle do comportamento da mulher casada também era objeto de suas considerações.