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Feitas as considerações acima, entende-se que é oportuno, neste momento, verificar alguns exemplos de seleção lexical realizados por Fernando Pessoa em cartas remetidas à Ofélia Queiroz:

(...) pois a angina que dá uma saliva, e acontece-,me esta cousa muito estúpida – eu ter que estar a cuspir de dois em dois minutos, o que não me deixa socegar. (Carta 2 – 18.3.1920) Silva (2009, p. 162) salienta que, em interações face a face, há predominância de temas próprios do cotidiano, “temas que estejam de acordo com conversações espontâneas e descompromissadas”. No trecho acima destacado, observa-se a presença de uma temática, simples, não especializada, a qual Silva denomina temática própria do cotidiano. Pessoa, em suas cartas, comporta-se, linguisticamente, como se estivesse em situação de conversação natural, mostrando grande espontaneidade e descompromisso com uma enunciação mais culta; tais conclusões podem ser obtidas por meio da averiguação das expressões lexicais empregadas no trecho: cousa muito estúpida, eu ter que estar a cuspir de dois em dois

minutos.

Aquele que tem em sua suas mãos uma correspondência de tema amoroso, escrita por um indivíduo culto, imagina que lerá um texto em que se preza, primordialmente, pela escolha de palavras formais e por uma escrita extremamente cuidada. A cousa muito estúpida refere- se a um dos sintomas que a angina lhe causa; é interessante ressaltar o modo rude e coloquial com o qual ele faz referência à doença, o que também evidencia a relação de grande familiaridade que tem com Ofélia, já que dispõem de liberdade para relatar assuntos que poderiam ser considerados desagradáveis e, talvez, não devessem constar em uma carta de amor.

Pessoa, ao relatar o ato de cuspir a todo o momento, chama-o de cousa estúpida. Ressalta-se que o substantivo feminino cousa/coisa indica grande imprecisão de significado, sendo utilizado, geralmente, quando não se acha uma palavra adequada para expressar-se. De acordo com o Dicionário Escolar de Língua Portuguesa (2008, p. 319) as acepções de coisa são:

Qualquer ser inanimado; objeto; aquilo que existe ou pode existir; qualquer acontecimento, realidade ou fato; bem material de valor ou não...

Sabe-se que a não concomitância de planejamento e execução do texto escrito é uma de suas principais características, o que proporciona, ao escritor, tempo para a reformulação de seu discurso se assim o desejar. O poeta português, mesmo dispondo de oportunidade para a elaboração de um texto com escrita apurada e, mais próxima da escrituralidade, parece optar por um discurso, aparentemente, descomprometido com certas regras da língua padrão, dando prioridade a um tipo de interlocução simples, coloquial e voltado à oralidade.

Ainda em relação ao fragmento em destaque, verifica-se que o escritor utiliza o termo

estupida, referindo-se ao fato de ter de estar a cuspir. Citou-se, no início desta seção, que

algumas palavras pertencem ao campo formal, outras ao informal e, muitas outras a uma zona híbrida que compreende os dois campos. Apesar de não se ter obtido nenhuma referência teórica que indique que o adjetivo estúpida deva fazer parte do primeiro ou do segundo grupo, acredita-se que, pelo caráter inculto e indelicado que seu próprio significado apresenta, tende a ser mais utilizado em situações de locução coloquial. Se a intenção do remetente fosse primar por escolhas lexicais características da norma culta da língua, poderia ter substituído a expressão cousa estúpida por cousa inconveniente, cousa desagradável, entre tantas outras opções disponíveis no repertório vocabular de um escritor.

O termo cuspir é bastante comum em interações orais, no entanto, verifica-se que seu emprego em um tipo de gênero textual, como a carta de amor, causa bastante estranheza aos leitores. Novamente, observa-se que a significação do termo é decisiva para seu enquadramento na esfera coloquial, além de o vocábulo também ser apontado, pelo dicionário Globo (1997) como lexia pertencente à linguagem popular. Refletindo-se a respeito do verbo escolhido pelo escritor, observa-se que cuspir dificilmente aparecerá em interações mais formais, salvo em certas conversações entre médico e paciente a respeito de algum assunto relacionado, mas, mesmo nestas ocasiões, crê-se que o primeiro optará por sinônimos que melhor se adéquem ao tipo de fala que sua posição exige, assim como: expelir, salivar, lançar fora, entre muitas outras.

Enquanto as palavras consideradas informais adéquam-se mais facilmente à temática cotidiana e à fala, as palavras tidas como formais parecem melhor combinar com o tratamento de assuntos específicos e temas especializados. Nas cartas de Fernando Pessoa, além do claro sentimento amoroso que se busca evidenciar, há diversos assuntos que poderiam ser avaliados como triviais. Verifica-se que, para se referir a assuntos de menor relevância, palavras pertencentes ao âmbito coloquial são utilizadas, talvez, por poderem compreender e explicar,

mais eficazmente, o discurso e as intenções enunciativas do escritor; é importante lembrar que nas cartas em que o remetente faz referência a assuntos mais sérios, não se encontram tantos termos informais.

A maneira como Fernando Pessoa seleciona e emprega o léxico demonstra a grande familiaridade que tem com Ofélia e o modo como compreende o gênero carta de amor. O remetente, ao escrever suas correspondências amorosas, parece compartilhar do mesmo posicionamento teórico de Sêneca, quanto ao entendimento deste gênero: “se nós nos sentássemos a conversar, se discutíssemos passeando de um lado para o outro, o meu estilo seria coloquial e pouco elaborado; pois é assim mesmo que eu pretendo que sejam minhas cartas, que nada tenham de artificial, de fingido!”31.

Em 19.3.1920, Fernando Pessoa escreve:

É que, sem ter febre, eu tinha delírio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em alta voz, de mil cousas disparatadas. E tudo isto não só por influência directa do mal estar que vem da doença, mas porque estive todo o dia de hontem, arreliado com cousas, que se estão atrazando, relativas á vinda da minha, e ainda por cima recebi, por intermédio de meu primo, que veio ás 7 ½, uma série de notícias desagradáveis, que não vale a pena contar aqui (...) (Carta nº 3 – 19.3.1920 ás [sic] 4 da manhã)

A debilidade física do escritor português é tema recorrente de suas conversas com Ofélia; sendo possível dizer que as cartas pessoanas, remetidas à moça, dividem-se em dois assuntos principais: na primeira fase do namoro, permeiam os temas relativos à saúde física, e na segunda, os referentes à saúde mental. Como se verifica no fragmento destacado, o escritor novamente menciona os males que o acometem, mas agora, para a realização de tal relato, conta com a ajuda de importantes construções linguísticas e seleções lexicais que cooperam no processo de intensificação e de comprovação de seu estado.

Em verdade, verifica-se no trecho acima, a presença de um tipo de gradação, utilizada com o intuito de apresentar à Ofélia, detalhadamente, e com mais veracidade, todos os sofrimentos que o namorado vivenciou: “sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em alta voz, de mil cousas disparatadas”. Sabe-se que, de acordo com estudiosos da estilística, a gradação ou clímax é uma figura de adição em que: “costuma-se reforçar a expressão de uma ideia ou sentimento mediante o emprego de palavras aparentadas

31 Epístola 75,1 de Sêneca, citado em A arte de escrever cartas de Justo Lípsio. In: Tin, E. (Org.) A arte de escrever cartas: Anônimo de Bolonha, Erasmo de Roterdã, Justo Lípsio. Campinas: Unicamp, 2005.

semanticamente, dispondo-as numa sequência gradativa, de tal modo que cada novo termo intensifique o anterior” (Monteiro, 1991, p. 159)

Entretanto, se o trecho for analisado sob a ótica da análise da conversação, poder-se-ia dizer que o emprego de tantos termos, quase equivalentes, ocorre em razão de um momento de imprecisão terminológica vivenciado pelo escritor, como se estivesse a falar, face a face, com Ofélia. Pessoa, ao descrever sua difícil noite, parece não planejar previamente a escrita, mas admitir que planejamento e produção ocorram simultaneamente, o que permite o aparecimento de pistas de indeterminação lexical e de busca por um termo que exprima, mais eficazmente, o que o locutor intenta enunciar. Silva (2009, p. 175), ao analisar os efeitos de oralidade produzidos nos contos de Luiz Vilela, salienta que tanto os titubeios de memória quanto as mostras de imprecisão terminológica são traços característicos da oralidade e decorrentes da concomitância entre plano e execução, “essa imprecisão da linguagem, tão característica da oralidade, impregna o conto de naturalidade e de expressividade”.

Ainda no mesmo trecho, retirado da correspondência remetida em 19 de março de 1920, algumas escolhas lexicais, realizadas pelo escritor, resultam em uma construção hiperbólica. Ele diz: “sentia-me endoidecer (...) de mil cousas disparatadas”. O verbo

endoidecer e a expressão coisas disparatadas parecem ser termos que se adéquam, mais

eficientemente, a interações menos formais; tais lexias, unidas ao exagero deliberado da construção, originam um trecho prototípico de situações em que se observa espontaneidade e informalidade. É importante lembrar a visão de Oesterreicher (1996) a respeito da presença da oralidade em textos escritos. Segundo o escritor, um dos motivos de se constatarem marcas orais, em discursos escritos, pode ocorrer em razão do enunciador querer adaptar seu texto ao nível línguístico e de compreensão do interlocutor.