C. DOĞUM SONRASI
11. Olası Hastalıklara Karşı Başvurulan Uygulamalar
Apresento a solução proposta por Perini e colaboradores.
Em seus trabalhos de descrição do SN publicados em 1996, Perini observou que em português há uma enormidade de palavras que potencialmente podem ter função “de substantivo” ou “de adjetivo”. A essas funções foram dados os nomes referencial, <R>, e qualificativa, <Q>, respectivamente.
Celular, amigo, rico e gordo, por exemplo, são itens lexicais dotados da potencialidade
semântica <+R> e <+Q>. Ao ocorrerem em um dado SN, desempenharão uma e apenas uma de suas potencialidades semânticas. Ter a potencialidade <+R, +Q> significa que fora do sintagma a palavra é dotada das duas possibilidades de interpretação. Uma vez presente em um SN, exercerá ou a função <R> ou a função <Q>; nunca as duas ao mesmo tempo ou nenhuma delas.
Dado que um SN terá sempre um elemento em função <R>, os demais itens lexicais, mesmo que potencialmente <+ R>, exercerão função <Q>. A descrição de como ocorre a seleção do item lexical a desempenhar a função <R> foi minuciosamente analisada na publicação supracitada.
O SN é descrito da seguinte forma: trata-se de um conjunto de itens nominais dispostos em estrutura de forma:
onde, PDet é grupo restrito a apenas dois elementos: ambos e todo(a)(s). O conjunto dos Dets engloba os artigos, os pronomes demonstrativos e os numerais. Para esses grupos lexicais não se faz necessária uma análise mais profunda. São classes cuja definição morfológica é satisfatória:
Em primeiro lugar, o PDet e o Det continuarão sendo definidos morfologicamente, porque não se conhecem fatores semânticos para suas peculiaridades de ocorrência. Assim, o PDet será o primeiro termo de qualquer SN onde ocorra, e o Det será o primeiro caso não haja PDet; quando há o PDet, o Det é o segundo termo. Aqui, portanto, não há o que comentar. (Perini
et alii, 1996:57)
Podemos perceber que, dessa análise, resulta o abandono da subclassificação em substantivos e adjetivos. Tem-se um vasto conjunto nominal que ocupa, na estrutura sintagmática, a função termos livres, notados como TL. Assim, “ser TL” é uma potencialidade lexical que engloba as duas classes nominais abertas: substantivos e adjetivos. Observemos como isso ocorre em alguns exemplos12:
(15) S [SN [Ocarro velho SV [tem SN [seu charme]]]]
Carro é um TL de potencialidade <+R, -Q>, i.e., pode ocupar a função referencial, mas
não a função qualificativa. Velho, por sua vez, é potencialmente <+R, +Q>. Esquematicamente, podemos apresentar como:
carro <+R, -Q> velho <+R, +Q>
Como todo SN tem sempre um e apenas um TL em função <R>, pode-se concluir que, em (15), carro é “R” e velho é “Q”. O primeiro TL é a referência à qual o segundo termo atribuirá alguma qualificação. TL é uma palavra com potencialidades semânticas inerentes que terá a sua função determinada pelo SN no qual se encontra. Assim, um TL como carro, dado que é apenas <+R>, só poderá exercer no SN a função de núcleo do sintagma. É como se fosse uma palavra que “só pudesse ‘ser substantivo’”. Velho, por outro lado, é uma palavra que se caracteriza pelas potencialidades semânticas <+R, +Q>. Se traduzido para a nomenclatura tradicional, velho seria caracterizada como uma palavra que pode “ser substantivo”, relativo a <+R>, ou pode “ser adjetivo”, relativo a <+Q>. A função exercida no sintagma depende, portanto, da potencialidade
12
Lembro que são apenas considerados os SN em posição de sujeito da sentença. Por isso não mais destacarei os elementos sintagmáticos dos enunciados.
da palavra e da composição do SN. Consideremos agora o SN (16), cujos três TLs que compõem o sujeito da sentença têm potencialidade semântica <+R,+Q>:
(16) Um rico industrial australiano aplica seus investimentos em Jacobina.
que esquematicamente se apresenta como:
rico <+R, +Q>
industrial <+R, +Q> australiano <+R,+Q>
Sem entrar em detalhes sobre a posição relativa dos TL dentro do SN, o que se pode afirmar é que se rico desempenhar função <R>, industrial e australiano desempenharão função <Q>. É verdade que se poderia legar a função <R> ao TL industrial. Se industrial for interpretado em função <R>, nesse caso, rico passará à função <Q>, e assim por diante. É fato que ocorrem mudanças semânticas dentro do SN em função das mudanças na posição relativa dos itens, mas mantém-se a regra de se ter apenas um TL em função <R> e os demais em função <Q>. Novamente me permito apenas citar a pesquisa de Perini et alii como indicação de análise do tema. O limite da aceitabilidade do SN é, portanto, haver no sintagma nominal apenas um TL com potencialidade semântica <+R> realizada.
Para testar a hipótese de haver sempre um, e apenas um termo em função <R>, façamos cair sucessivamente os TLs. Observemos que sempre que o termo em função <R> cai, ou se tem a inaceitabilidade do SN, ou um dos TLs em função <Q>, de potencialidade semântica <+R, +Q>, passa a exercer a função <R>, como ocorre na sequência de frases a seguir.
Dado o SN inicial (15a), ao se excluir o TL carro, em função <R>, como ocorrem em (15b), velho, até então “Q”, passa a ocupar a função <R>, posto que ficou vaga a função <R> do SN:
(15a) O carro velho tem seu charme, “R” “Q”
(15b) O velho tem seu charme, “R”
Reconsiderando o SN inicial (15a), ao se excluir o TL velho, em função <Q>, carro mantém-se como “R”, uma vez que a regra da necessidade de pelo menos um TL em função <R> é obedecida, como ocorre em (15 c):
(15c) O carro tem seu charme, “R”
O mesmo procedimento pode ser observado nos exemplos testados abaixo:
(17a) Um rico industrial australiano aplica seus investimentos em Jacobina. “R” “Q” “Q”
(17b) Um industrial australiano aplica seus investimentos em Jacobina. “R” “Q”
(17c) Um industrial aplica seus investimentos em Jacobina. “R”
(17d) Um rico aplica seus investimentos em Jacobina. “R”
(17e) Um australiano aplica seus investimentos em Jacobina. “R”
Se o TL tiver traço semântico <+R, -Q> sempre que estiver em um SN desempenhará função <R>. Se houver um outro TL de igual potencialidade, no mesmo SN, incorre-se em inaceitabilidade do SN, como em (18),
(18) * A lâmpada xícara foi comprada para a nova casa da Martha. “R” “R “
dado que, esquematicamente,
lâmpada <+R, -Q> xícara <+R, -Q>
Há ainda uma outra ocorrência particular, na qual lega-se acepção <Q> a um termo que, fora desse sintagma, não tem aparentemente potencialidade <+Q>. Listo essas ocorrências que não aparecem nas publicações de Perini et alii, mas que me parecem lógica e semanticamente aceitáveis. Biblioteca e carro podem ser descritos com a seguinte caracterização de potencialidades semânticas:
biblioteca <+R, -Q> carro <+R, -Q>
No entanto, em (19):
(19) O carro biblioteca foi oferecido pelo prefeito de Santa Teresa. ---”R” ---
Mesmo que não tenha um comportamento mórfico13 de item em função <Q>, i.e., TL não-núcleo do SN, biblioteca, tem função semântica “Q”. Não vejo como não aceitar que
biblioteca, em (19) exerça função <Q>. O mesmo ocorre em (20), logo abaixo. Papo e cabeça
podem ser descritos semanticamente como:
papo <+R, -Q> cabeça <+R, -Q>
Tem-se um SN, onde cabeça, descrito como item <+R, -Q>, exerce função <Q>:
(20) Papo cabeça é um troço que irrita a Virgínia. ---”R” ---
Esse último tipo de ocorrência indica, aparentemente, a ampliação das potencialidades semânticas de algumas palavras. Cabeça e biblioteca passam, nesses exemplos específicos, a ter uma potencialidade semântica mais ampla do que tinham antes. De termos <+R, -Q> passam à potencialidade <+R, +Q>. Há necessidade de se investigar diacronicamente como ocorre tal processo, particularmente no que tange à “migração” da função <Q> específica ao exemplo para uma situação de ambientes linguisticos mais amplos. (cf. Conclusão).
Em suma, essa análise privilegia os traços sêmicos <+/-R> e <+/-Q> como forma de não mais se constituírem classes lexicais, mas de se descrever a função das palavras dentro do SN no qual ocorrem. A ênfase dada aos critérios semânticos em detrimento da análise morfológica, ao se estabelecer um nova descrição dos itens nominais, reorganiza a tradicional divisão em cinco classes e, até mesmo, põe em xeque a possibilidade de se estabelecerem tais classes.
13 Penso na variação de número governado pelo núcleo do SN, no caso, carro, dado que é inaceitável *os carros