A legislação brasileira na área trabalhista é regida pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) que entrou em vigor no dia 10 de novembro 1943 e que regula as relações individuais e coletivas de trabalho entre empregados e empregadores. Foi criada no dia 1º de maio de 1943, através do Decreto-lei nº 5.452, pelo então presidente da República, Getúlio Vargas. Nestes mais de 60 anos de vigência, passou por diversas alterações e atualizações.
A CLT define empregado como sendo “toda pessoa física que prestar serviço de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário”. Em seus capítulos, seções, artigos, parágrafos e incisos são detalhadas as relações de trabalho, englobando a caracterização do trabalho, co ntrato de trabalho e o registro em carteira, horário da jornada de trabalho, descanso, férias e férias coletivas, segurança e medicina do trabalho, proteção do trabalho do menor, organização sindical e outros temas pertinentes à relação trabalhista.
Conforme mencionado por Terribili Filho (2006a), os estudantes que trabalham com vínculo empregatício (regidos pela CLT), possuem os mesmos direitos e deveres garantidos em lei a trabalhadores em geral, não existindo concessão alguma pelo fato de também serem estudantes (independentemente do período de estudo), seja quanto ao período de férias, alteração
do horário de trabalho, abono de horas para realização de provas e exames, benefício para transporte ou alimentação. Eventualmente, para algumas classes trabalhadoras pode haver algumas condições especiais, em função de negociações coletivas bem sucedidas pela categoria.
Este mesmo olhar direcionado especificamente para o estudante do ensino superior noturno, faz com que a ausência de alguns benefícios fiquem ainda mais exposta: (1) o horário de trabalho poderia ser flexibilizado, sobretudo no final do expediente para que o estudante tivesse o tempo necessário para sua locomoção até a instituição de ensino, além de ter tempo para alimentar-se adequadamente; e (2) os benefícios de alimentação (por exemplo, concessão de vales e tickets) poderiam ser ampliados, mesmo que de forma parcial, contribuindo financeiramente para que o estudante pudesse fazer uma segunda refeição no dia antes do início das aulas. Ambas as concessões seriam aplicáveis exclusivamente em meses letivos e teriam baixo impacto financeiro para as organizações, sobretudo porque a primeira concessão seria somente uma flexibilização no horário de trabalho e não de redução de jornada, e a segunda, as empresas poderiam receber incentivos do governo federal quanto à redução de tributos. Embora inexistam estatísticas oficiais acerca do percentual de estudantes de graduação que atuam como empregados regidos pela CLT, a observação mostra que não é um índice ba ixo.
No mercado de trabalho no país, há também, o menor aprendiz e o estagiário. O menor aprendiz, que tem idade compreendida entre 14 e 18 anos, tem sua relação trabalhista regida por contrato de aprendizagem específico e com prazo determinado, através do qual o empregador se compromete a assegurar a formação técnico-profissional metódica ao menor inscrito em programa de aprendizagem. O aprendiz é muito pouco presente nas instituições de ensino superior, em função da faixa etária.
A relação trabalhista com estagiários é regida por contrato específico de estágio que é assinado entre as três partes envolvidas no processo: empresa, estudante e instituição de ensino. O contrato de estágio não cria vínculo empregatício e não é regido pela CLT. Os estagiários devem ser estudantes do ensino médio ou superior e ter idade acima de 16 anos. Não há piso salarial para o estagiário.
Os benefícios concedidos aos estagiários são deliberações da organização, embora seja uma obrigatoriedade da empresa efetuar um seguro de cobertura ao estagiário contra acidentes pessoais. Não há nenhuma restrição quanto à jornada de trabalho, existindo como condição única
que o horário pactuado não cause prejuízo à sua freqüência às aulas. Há estagiários com carga de trabalho de 40 horas semanais ou até mais.
No país, há empresas que têm programas de estágio organizado e estruturado, com plano de trabalho que envolve desde a integração do estagiário na empresa, passando por extensivo plano de capacitação profissional, culminando com designa ção de responsabilidades. Há empresas que oferecem bolsas de estudo para seus estagiários, oferecendo apoio financeiro total ou parcial para pagamento das mensalidades dos cursos de graduação de seus estagiários. Nestes programas há mentores que acompanham continuamente o estagiário, orientando-os e dando feedback quanto ao seu desenvolvimento e desempenho. Por outro lado, há também os processos diametralmente opostos, ou seja, empresas que visam contratar estagiários como “mão-de-obra barata”, uma vez que há estudantes bem qualificados, com desenvoltura, experientes e com potencial para um bom desempenho profissional a um custo atraente, pois em geral, estagiários recebem uma ajuda de custo relativamente baixa, além de não existir nenhum custo adicional para e empresa em termos de encargos tributários como os existentes para os empregados que têm vínculo empregatício regido pela CLT.
Quanto às concessões para a categoria de estagiários, seria viável a aplicação de um condicionante legal de que o estudante deveria ter como horário de encerramento de sua jornada, uma quantidade mínima de horas (por exemplo, três horas) antes do início de suas aulas. Desta forma, esta determinação seria condizente com as empresas que respeitam seus estagiários e preocupam-se com seu desenvolvimento pessoal e profissional; e para as empresas que “exploram” estagiários como mão-de-obra de baixo custo, a determinação minimizaria a exploração injusta e imoral.
Quanto à análise dos dados relativos à pesquisa de campo realizada na Capital e interior nota-se pela Tabela 32 que o índice de atrasos na chegada à instituição de ensino em função de trabalho após o expediente normal de trabalho é de: 16% (quase todos os dias), 18% (pelo menos uma vez por semana) e 15% (pelo menos uma vez por mês). Na Capital, 19% dos pesquisados declararam atrasar quase todos os dias, ou seja, dois em cada cinco estudantes chegam atrasados diariamente à sala de aula em função de trabalho realizado após o expediente normal de trabalho.
Tabela 32 – Freqüência de atrasos em função de trabalho após o expediente
Periodicidade freqüência % freqüência % freqüência % freqüência % freqüência %
quase todos os dias 21 19% 19 20% 7 8% 26 14% 47 16%
pelo menos uma vez por semana 33 31% 11 11% 10 12% 21 11% 54 18% pelo menos uma vez por mês 19 18% 12 12% 13 14% 25 13% 44 15% nunca ou quase nunca 34 32% 53 54% 59 66% 112 60% 146 50%
não responderam 0 0% 3 3% 0 0% 3 2% 3 1%
Total 107 100% 98 100% 89 100% 187 100% 294 100%
Total Geral Amostra Capital Amostra Interior Amostra Piloto Total Interior
Fonte: Respondentes.
Na Amostra Interior, conforme informações obtidas na entrevista com a coordenação de cursos, a grande maioria dos estudantes-trabalhadores daquela cidade (cerca de 90%) atua em dois segmentos de mercado: Indústria e Comércio. Os trabalhadores da Indústria têm o encerramento do expediente por volta das 17h00 às 17h 30 min, enquanto que os trabalhadores do Comércio, das 18h 30 min às 19h00, comprometendo portanto, a pontualidade na che gada à instituição de ensino, uma vez que as aulas se iniciam às 19h 10 min, com término às 22h 40 min. Conforme declarado na entrevista, os estudantes que trabalham na Indústria conseguem ir para casa com o objetivo de jantar antes da aula, enquanto que os que trabalham no Comércio, comem um lanche antes da aula na própria lanchonete da instituição de ensino ou jantam em casa, após o encerramento das aulas. Outro aspecto relevante é que como o expediente da biblioteca se encerra às 22h 30 min, o estudante não pode retirar/devolver livros após às aulas, ou seja deve fazê-lo antes do início das aulas ou no intervalo. Aos sábados, o horário da biblioteca é das 8h00 às 12h00.
O coordenador de cursos da Amostra Capital durante a entrevista realizada, afirmou que 80% dos estudantes do período noturno são trabalhadores, enquanto que este índice não ultrapassa os 20% quando é analisado o período diurno. O horário das aulas é das 19h 30 min às 23h00. Além das dificuldades de transportes e segurança, o coordenador afirmou que a instituição tem muitos problemas por não utilizar a sistemática de boletos bancários para receber os pagamentos dos estudantes. Desta forma, eles têm de pagar pessoalmente na Tesouraria da faculdade, o que causa dificuldades operacionais, com maior concentração nas datas de pagamento, gerando filas e causando significativa perda de tempo. Uma solução de contorno para amenizar a situação foi solicitar aos estudantes que efetuem o pagamento do semestre através de seis cheques pré-datados. Alegou o coordenador entrevistado que a instituição trabalhava com
boleto através de um grande banco, mas este perdeu o controle e a instituição teve de solicitar os comprovantes de pagamentos a todos os estudantes, para provar de que o pagamento havia sido realizado. Foi um período difícil em termos de desorganização e queixas, por isso, optou-se por não ter vínculos com instituições bancárias. Outro aspecto de queixa, segundo o coordenador, é o calor, pois há salas com até 60 alunos, sem ar condicionado e com ventiladores que fazem muito barulho. A ventilação em alguns prédios é ruim. Alguns professores utilizam microfone para dar aulas (cerca de 30%). Há também, queixas de iluminação na sala de aula.
Um depoimento de um respondente desta amostra foi selecionado, pois além de registrar o aspecto de horário de trabalho, apresenta outras dificuldades do estudante do ensino noturno, que em geral é também trabalhador, afirmando que
As empresas deveriam respeitar os horários acadêmicos; melhoria nos transportes públicos e na iluminação das vias públicas; os professores deveriam respeitar horários de intervalo, já que muitos alunos utilizam esse horário para se alimentar. (Respondente 049 da Amostra Capital – 1º semestre de Direito).
Outro depoimento de um estudante que não trabalha, relaciona a dificuldade em associar estudo com trabalho em função do horário de saída e necessidade de utilizar transporte coletivo
No meu caso, compaixão de pessoas que não entendem que precisaria sair mais cedo do trabalho para poder pegar ônibus para estudar. Por este motivo, não consigo trabalhar, pois ninguém libera funcionário às 17h00 ou 17h 30 min todos os dias, mesmo fazendo uma hora de almoço. (Respondente 019 da Amostra Interior – 3º semestre de Desenho Industrial).
As concessões, sobretudo de flexibilização no horário de saída de trabalho dos estudantes em meses letivos evitariam a ocorrência de atrasos na chegada à instituição de ensino e permitiriam que os mesmos tivessem uma alimentação mais adequada antes do início das aulas. Estas medidas propiciariam relevantes melhorias na qualidade de vida do estudante, além de permitir que os estudantes usufruíssem da infra-estrutura disponível nas instituições de ensino como biblioteca e laboratórios antes do início das aulas.