3. ULUSLARARASI KURULUġLARIN GIDA GÜVENLĠĞĠNE ĠLĠġKĠN ROLÜ
3.6. Ekonomik Kalkınma ve ĠĢbirliği Örgütü (OECD)
3.6.10. OECD‟nin G20 Dönem BaĢkanlığımızda Gıda Güvenliği ile Ġlgil
Kayano (2007) fez um balanço da saúde dos dois primeiros anos da gestão Serra/Kassab, que correspondeu aos secretários da saúde Cláudio Luiz Lottemberg, o qual ficou somente cinco meses e foi substituído em maio de 2005 pela Dra. Maria
Cristina Cury, a qual também foi substituída por Maria Aparecida Orsini de Carvalho Fernandes em 2006.
Para a presente dissertação interessa, principalmente, a relação que esse governo vem assumindo com a iniciativa privada, e a aprovação da Lei das Organizações Sociais (OS), que ocorreu durante esta gestão.
Dentre as principais metas da gestão do secretário Lottemberg estavam a valorização dos profissionais da saúde, o fortalecimento da atenção básica, a integração da rede assistencial31, e a ampliação de parcerias com a iniciativa privada.
Quando a secretária Maria Cristina Cury assumiu o cargo, ela tomou como prioridade a implantação da Assistência Médica Ambulatorial (AMA)32 na cidade, apesar de reconhecer a necessidade de mais UBS e dos problemas de articulação entre UBS tradicionais e aquelas com equipes de PSF. No entanto, a relação do Conselho Municipal de Saúde (CMS) com a secretária foi permeado de conflitos, uma vez que o Projeto de Lei das OS havia sido encaminhado para a Câmara Municipal sem aprovação do CMS. Tais divergências resultaram na ausência da secretária às reuniões do Conselho e ela seria rapidamente substituída em seu cargo, conforme já mencionado (Kayano, 2007).
De acordo com a Lei nº 8.080, o Sistema Único de Saúde constitui de um “conjunto de ações e serviços de saúde, prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais, da administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo Poder Público”. O setor privado participaria em caráter complementar, quando a capacidade do SUS fosse insuficiente para garantir a cobertura assistencial da população de certa área. Além do mais, dar-se-ia prioridade a entidades filantrópicas e sem fins lucrativos (Brasil, 1990).
31 A criação de cinco Coordenadorias Regionais de Saúde no município, ao coincidir com as áreas de
abrangência das cinco autarquias hospitalares existentes, procurou ampliar a integração entre rede básica e hospitalar na melhoria do atendimento aos usuários.
32 O projeto da AMA foi aprovado em 2006 e implantado antes mesmo da lei das OS. Ela é instalada
em UBS, pronto-atendimento e pronto-socorro e tem como objetivos facilitar o acesso dos usuários não agendados, que não conseguem atendimento, e também atender pequenas urgências de baixa e média complexidade na clínica médica, pediatria, cirurgia geral e ginecologia. A gestão, contratação de recursos humanos, adequação dos espaços físicos, equipamentos e mobiliários são de responsabilidade das OS e os materiais de consumo de responsabilidade da SMS. Uma das críticas sobre a AMA está na baixa qualidade e resolutividade dos atendimentos oferecidos. A satisfação do usuário pelo “atendimento imediato” pode gerar a falsa sensação de que se está sendo atendido (Kayano, 2007).
Baseado no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial, em 1993 foi elaborado junto ao Ministério da Saúde (MS) e ao Ministério da Administração e Reforma do Estado (MARE) um documento intitulado Sistema de Atendimento de
Saúde do SUS, o qual propunha uma reforma administrativa de atendimento
hospitalar e ambulatorial de saúde do SUS, tendo como parâmetro recomendações do Banco Mundial de que países em desenvolvimento como o Brasil teriam um sistema de prestação de serviços ineficiente; até aqui não há novidades considerando a longa história de investimentos no setor privado de saúde no país tendo a mesma justificativa de sucateamento e ineficiência do setor público (Fier, 1996).
O anteprojeto de lei e o decreto de regulamentação da OS surgiu nessa época, em 1995, mas foi somente a Lei Federal nº 9.637 de 15 de maio de 1998 que iria dispor sobre a qualificação de entidades como organizações sociais. Em junho do mesmo ano, o Estado de São Paulo fez a Lei Complementar no 846, em que os deputados que se opuseram à parceria com as OS negociaram a não entrega de serviços de saúde já em funcionamento e a restrição dos atendimentos das OS aos usuários do SUS. Em janeiro de 2006 foi autorizada para o município de São Paulo a qualificação das entidades sem fins lucrativos como OS somente para a área da saúde (Kayano, 2007).
As OS são qualificadas como “...pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos”, e como “entidades de interesse social e utilidade pública”. Em outras palavras, as OS ou entidades parceiras, como também são chamadas, são geridas por instituições do Terceiro Setor (Organizações não-governamentais – ONG, cooperativas e entidades filantrópicas), que recebem financiamento estatal (Brasil, 1998; São Paulo, 1998; Junqueira, 2002; Kayano, 2007).
As críticas sobre OS são diversas, tendo sido caracterizadas como uma forma de justificar a privatização da saúde. Segundo Fier (1996) tal proposta faz parte do programa de flexibilização da política neoliberal, em que se reduzem os deveres do Estado e se privatiza parte de suas funções; estabelece um vínculo empregatício regido por leis de mercado; esvazia o papel social que os servidores públicos devem ter, além de abrir espaço a novas fontes de lucro ao setor empresarial.
Neste sentido, o caráter de direito privado das OS estabelece um paralelismo com os princípios democráticos do SUS. Um exemplo é a inexistência de Conselho Gestor e a recusa de muitas OS em abrirem o pronto-socorro para a população, desrespeitando os princípios de controle social e universalidade do atendimento (Junqueira, 2002).
Outra crítica recai sobre o caráter da OS em oferecer maior flexibilidade no contrato de recursos humanos e no estabelecimento de metas e cobranças na relação com o Estado. Esta seria apenas uma forma de justificar uma possível ineficiência do serviço público estatal e de não se prestar contas dos gastos com dinheiro público ao Estado e ao Conselho Estadual de Saúde (Junqueira, 2002).
Por fim, outro ponto crítico estaria na dificuldade da SMS em manter um quadro efetivo de funcionários. Segundo Kayano (2007, p. 24-25), do total de funcionários da SMS (49.288) em 2006, 5.197 eram servidores estaduais atuando na atenção básica, que foram colocados à disposição com a municipalização das UBS. Outros 8.932 funcionários estavam vinculados as OS para trabalhar no PSF e às AMA, reforçando a crítica de um conselheiro municipal de que a SMS estaria permitindo a escassez de servidores para legitimar perante a população a transferência das unidades de saúde para as OS. Atualmente, o contrato realizado para o NASF, que inclui os psicólogos, também é via OS.
O que se constata é que a questão das OS ainda é mobilizadora de tensão entre dirigentes e representantes de funcionários e usuários dos serviços de saúde, dificultando uma boa relação de diálogo e comunicação. O Pacto pela Saúde33, aprovado pelo Conselho Nacional de Saúde em fevereiro de 2006 e dividido em Pacto pela Vida, Pacto de Gestão e Pacto em Defesa do SUS, tem a função justamente de incentivar o diálogo entre gestores federal, estaduais e municipais, e representantes dos funcionários e usuários, na tentativa de construir acordos envolvendo todas as partes interessadas (Kayano, 2007).
A administração Serra/Kassab tem simbolizado a implantação das OS e a privatização da saúde. A troca de três secretários da saúde foi marcada por divergências e dificuldades de diálogo e acordos entre eles e os representantes dos
33 Para obter mais informação sobre o Pacto pela Saúde ver Kayano (2007) e o Portal da Saúde do
funcionários e dos usuários do SUS. A valorização dos profissionais da saúde, uma das principais metas do primeiro secretário, caiu no esquecimento e o fortalecimento da atenção básica se reverteu em um discurso de ineficiência, dando passagem à privatização do patrimônio público.
CAPÍTULO IV Metodologia
Este estudo trata de uma pesquisa qualitativa, cuja finalidade é entender “como o objeto de estudo acontece ou se manifesta” (Turato, 2005, p. 509).
Segundo Minayo e Sanches (1993), a abordagem qualitativa possibilita a aproximação entre sujeito e objeto, sendo muito proveitosa para explorar as subjetividades, que representam como os sujeitos expressam (descrevem, pensam, opinam e avaliam) suas realidades vividas.
Aceita-se também o conceito de Mendes-Gonçalves (1992), em que a subjetividade não é conceituada como um lugar inacessível ao pensamento e à ação, mas formada pelas relações estabelecidas por cada homem com suas partes e sua totalidade, mediadas por “desejos, afetos, paixões, repulsas, ódios, normatividade e trabalho” (p. 28).
Neste sentido, esse estudo busca analisar as percepções e representações dos psicólogos acerca de suas práticas, fazendo do principal material da pesquisa qualitativa, a saber, o depoimento e a palavra do participante, o conteúdo a ser analisado.
Outra característica importante neste tipo de metodologia é a interação entre pesquisador e objeto, não sendo possível se pensar em neutralidade nesta relação, ainda que não se extinga a capacidade de objetivar dados assim produzidos (Mendes- Gonçalves, 1992; Schraiber, 1993; 1995; 2008).
Como coloca Lourau (1993) e Altoé (2004), o pesquisador está sempre implicado na pesquisa. Quanto à problemática em estudo, ele está constantemente atento a novas informações que possam ajudá-lo a rever seu ponto de vista sobre o objeto. No campo, o simples fato de sua presença já o impede de ser neutro.
O mais importante neste estudo, além de descrever a atuação do psicólogo e construir um perfil deste profissional na UBS, é analisar como ele vivencia seu trabalho cotidiano através das transformações sofridas com a prática clínica institucional. Também é uma forma de analisar como ele representa essa vivência, isto é, percebe, compreende e explica seu lugar nas práticas que exerce,
possibilitando situá-lo como agente implicado em saberes e intervenções (Mendes- Gonçalves, 1992; Schraiber, 1995; Lourau, 1993).
Dentre as abordagens possíveis na pesquisa qualitativa se optou pelo uso de entrevistas semi-estruturadas para a produção de dados, uma vez que se trata de uma técnica flexível, que permite tanto adicionar questões quanto explorar novos pontos necessários conforme os objetivos propostos (Schraiber, 1995).
Entrevista é definida como uma conversa com finalidade feita entre duas ou mais pessoas. Como técnica de pesquisa, ela é realizada por iniciativa do entrevistador, o qual tem como objetivo abordar temas, por meio de um roteiro de questões, que permitam construir informações relacionadas ao seu objeto de estudo. Esta técnica favorece, na interação entre pesquisador e pesquisado, a produção de depoimentos e narrativas acerca do que o estudo pretende. Estas narrativas constituem o material empírico a ser trabalhado (Schraiber, 1995; Minayo, 2008).
Além da entrevista, documentos oficiais das políticas de saúde e textos que documentam a história da profissão em psicologia complementam em triangulação a metodologia, contribuindo na contextualização da atuação em UBS e do próprio espaço de trabalho institucional.