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A palavra síntese tornou-se, nos últimos anos, uma palavra da moda entre os historiadores

(BERR, 2010: 425).

Henri Berr

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Buscou-se depreender, a partir deste trabalho, uma analítica investigativa cujo eixo diretor apresentou-se, como foi visto, tanto complexo quanto abrangente, quer dizer, a

ideia de síntese histórica. Noção essa, poder-se-ia argumentar, polissêmica e, por vezes,

ambígua, mas a qual, mesmo beirando a imprecisão conceitual, mostrou-se fundamental tendo em vista a ambientação intelectual contemplada por nossos estudos. Marcada, sobremaneira, pelo signo da permeabilidade e da instabilidade próprias às fronteiras dos espaços de conhecimento e dos campos discursivos disponíveis. O que foi pretendido passou, então, menos pelo estabelecimento de uma conceituação definitiva para dar conta do entendimento da categoria síntese no período aqui ensejado do que refletir, por meio da incontornável variedade dos seus significados, acerca das suas modulações epistemológicas em uma perspectiva francamente histórica. Dessa forma, a síntese apareceu no decorrer desta dissertação distanciada, certamente, de uma definição pré- estabelecida e a qual se encerrava em si própria, dado que ela foi operacionalizada como um suporte instrumental o qual possibilitou as condições mesmas da própria pesquisa.

Neste trabalho intentei examinar, portanto, certos aspectos epistemológicos caros à historiografia brasileira no período da passagem para o século XX. Realizando, por vezes, um recuo a alguns pontos já colocados desde a década de 1870, quanto avançando até o decênio de 20. A hipótese geral que permeou os nossos estudos foi a de que nesse momento específico, para além de todo o processo de (re)elaboração da memória nacional em face aos eventos da Abolição e da Proclamação da República, os nossos historiadores viam-se defrontados por uma dupla demanda de ordem epistêmica: por um lado, continuar e complementar os princípios da crítica erudita cogentes ao estabelecimento das provas documentárias empreendidos desde a geração romântica; e, por outro, que tais tarefas de fundo empírico e descritivo fossem elevadas ao plano explicativo, aproximando-se, assim, das ciências sociais. Esse era o desafio da síntese.

A nossa pesquisa teve como ponto de partida, em sua primeira parte e que correspondeu ao primeiro capítulo, depreender uma “contextualização” com feições

descritivas e cuja preocupação foi partir de pequenos estudos de caso intuindo criar uma rede plural de “textos-situações” que pudessem nos sinalizar as tentações da síntese colocadas à historiografia do período. Só anotando, concordando com Jacques Revel, que esse contexto alinhavado passou longe de ser “unificado, homogêneo, dentro do qual e em função do qual os autores [determinaram] suas escolhas”. O que se propôs aqui nesta reflexão foi, pelo contrário, “construir a pluralidade dos contextos que são necessários à compreensão dos comportamentos observados” (REVEL, 1998: 27-28; PEREIRA, 2011). No nosso caso: comportamentos referentes à teoria do conhecimento historiográfico. Nesse sentido, tendo em vista os dilemas vividos no período no que concernia à definição da forma mais adequada para a estruturação epistemológica da história, selecionamos algumas passagens que consideramos representativas de autores como Capistrano de Abreu, Sílvio Romero, João Ribeiro, José Oiticica, Oliveira Lima, Oliveira Vianna, além de certas enunciações saídas da pena de Henri Berr (que na França deparava-se com problemas parelhos aos aqui verificados), com o objetivo manifesto de descrevermos o conteúdo do significado da operação sintética a qual passava a ser requerida.

O que verificamos através desse quebra-cabeça de difícil organização foi que naquela conjuntura localizava-se uma preocupação cada vez mais adensada quanto aos aspectos conceituais necessários à fabricação do conhecimento histórico - que se queria

científico ou moderno - e em termos de aproximação com os pressupostos mobilizados

pelas ciências sociais circulantes. Essas, em seus respectivos espaços de atuação, eram capazes de encetar abordagens sobre o tecido histórico-social decorrido por intermédio de projeções de regularidades, de analogias comparativas, de similitudes ou de repetições, quer dizer, não apenas a partir de singularidades ou de particularidades. A história, dessa maneira, admitiria que o seu caráter tão somente descritivo devesse alcançar a esfera da explicação-interpretativa, abrindo vazão, assim, para a formulação de leis-hipotéticas, generalizações, teoremas, os quais pudessem clarificar de forma problematizadora o material empírico advindo das modulações eruditas. Em suma, seria necessário aos domínios de Clio passar da análise à síntese, dos fatos à teoria, do

particular ao geral. Porém, esse demonstrativo não era tão evidente como a princípio

pode parecer. A identidade adjudicada à tarefa historiadora enquanto uma instância dedicada ao escrutínio da verdade das coisas decorridas permaneceu bastante presente. Não foram poucos os que procuraram advogar que as teorizações generalistas poderiam levar a perigos eminentes. Tais quadrantes conceituais poderiam representar, desde que

despidos de carga empírica, uma possível obliteração junto à veracidade dos testemunhos colocados em exame. Além do mais, uma síntese histórica apresentava-se como uma modulação de saber que se posicionava no entremeio da análise e da

generalização. Era por meio dessa condicionante que se vislumbrariam os processos

lógicos de indução e de generalização-dedutiva próprios a um prática tida como científica. Uma análise precária colocaria, então, em xeque toda essa operação.

Findando a primeira parte desta dissertação, e colocando em relevo a hipótese geral a qual certa parcela da historiografia do contexto aludido movimentava-se através da sinuosa tensão colocada pelo desafio da síntese em coadunar empiria e reflexividade, passamos a abordar os dois capítulos subsequentes. Se em um primeiro ato levantou-se uma contextualização a partir de pequenos estudos de caso, no segundo a diferença recaiu em uma descrição mais densa - porém orientada a partir dos meus critérios - de “textos-situações” que foram selecionados em decorrência de acenarem-se como os enviesamentos que consideramos mais representativos no que tangia aos problemas anteriormente descritos. Nessa segunda parte do trabalho, cabe notificar o leitor, em alguns momentos a narrativa arquitetada pareceu um verdadeiro maquinário conceitual, todavia isso não se derivou tão somente em virtude da leitura cerrada dos casos escolhidos, mas estava presente na própria economia dos “textos-situações” focados.

Muito bem. O segundo capítulo almejou historicizar as questões teórico- metodológicas trazidas no prefácio confeccionado por José Francisco da Rocha Pombo para a sua História do Brasil, Ilustrada, publicada entre os anos de 1905 e 1917. Da análise desse texto, que é de 1905 e o qual se intitulara A concepção moderna da

historia, recolhemos uma amostra significativa relacionada a algumas das principais

demandas e expectativas projetadas aos estudos de caráter historiográfico no recorte temporal de fins do Oitocentos e início do século XX. O que se pôde descrever por intermédio das suas reflexões, as quais foram cruzadas com alguns debates efetivados no IHGB e em face de certos apontamentos evidenciados junto ao exercício intelectivo de Capistrano, não foi outra coisa senão que seria, sim, urgente aos historiadores transcenderem o mero enunciado factual sobre o passado. O seu métier, mesmo em “vias de formação”, se configuraria - sem a necessidade de recorrer às artimanhas conceituais próprias aos “saberes com viés sociológico” - em uma atividade científica capacitada a realizar, pois, a travessia do particular ao geral. No entanto, o que se constatava era que tal disposição, necessária à obra de síntese, só se efetivaria no futuro. Esperava-se pela figura do historiador-sintetizador do porvir e, para o momento,

caberia o aperfeiçoamento dos princípios reguladores de veracidade implicados em seus exames de ordem analítica e da acumulação de fatos tidos como essenciais. A síntese só mais adiante, ou, não chegando a ser um exagero, manifestava-se como algo impossível. Por fim, o último capítulo inventariou o conjunto de prescrições historiográficas presentes no opúsculo Reflexões sobre o conceito da História, escrito pelo jurista mineiro Pedro Lessa e saído na Revista do IHGB em 1906. Avisando, contudo, que o mesmo já circulava como o texto introdutório, publicado à parte, para a primeira tradução em português da História da civilização na Inglaterra de Buckle, vinda a lume em 1900. Essa peça formal, que se propunha a realizar um balanço de história da

historiografia geral (da antiguidade ao mundo contemporâneo), nos ofereceu mais

algumas chaves interpretativas acerca da tensão salientada entre análise e generalização verificada no contexto da passagem para o século XX brasileiro. A forma como Lessa avaliou o “progresso” dos estudos históricos ao longo do(s) tempo(s) o fez chegar a conclusão de que os mesmos não se constituíam enquanto uma prática científica devido as suas incapacidades teóricas em formular leis universais. A própria complexidade dos fenômenos histórico-sociais interditaria o soerguimento de uma razoável pautada em regularidades, determinante deprecada aos protocolos científicos. Assim, a história apareceria com a fisionomia de análise, e para se enredar aos horizontes da síntese se lhe impunha valer-se dos esquemas especulativos caros às ciências sociais, notadamente a sociologia. Mas isso não significava, como em Rocha Pombo, um acúmulo de materiais empíricos a ser sintetizado somente no futuro. A síntese possível, para Lessa, ocorreria através do esforço de cooperação mútua entre historiadores e cientistas sociais no próprio presente, pois a esfera de ação de um dependia explicitamente da do outro.