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C. NC ÇAVU FIKRALARINDA AHISLAR KADROSU

1. nsanlar

Luiz Soares foi assistente de Diretoria de Furnas (1993-1995) e superintendente de Relações

Institucionais de Furnas (1995-1997) e da Eletronuclear (1997-2003). Atualmente é diretor-técnico da Eletronuclear e presidente do Centro de Avaliação Não Destrutiva (Cand).

Depoimento concedido a Marly Motta, Tatiana Coutto e Lucas Nascimento em sessão realizada no Rio de Janeiro no dia 16 de março de 2010.

Participação política e o ingresso em Furnas Por que a opção pela engenharia mecânica?

Estudei em instituições públicas toda a minha vida. A parte lógica e a matemática já se manifestavam de modo muito forte na minha maneira de constituir o raciocínio; foi aí que comecei a me interessar pela engenharia mecânica. Naquela época, quando entrei para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro em 1975, a economia brasileira era puxada por grandes projetos tecnológicos, o que atraía boa parte da juventude para essas carreiras.

Qual era a formação de seus pais?

Meu pai trabalhou na Companhia Telefônica Brasileira. Era técnico, mas tinha forte formação política. Foi uma pessoa de muita atuação e destaque nessa área, e isso de alguma forma marcou minha formação. Minha mãe foi professora, é aposentada.

Seu pai chegou a ser do Partido Comunista?

Essas coisas fazem parte do currículo de qualquer um dessa época. Isso também me marcou muito; de modo geral, a visão marxista sempre se fundamentou em questões de base tecnológica, buscava a explicação do mundo por base científica. Tenho esse componente na minha vida, tentar explicar o mundo a partir do entendimento de determinados fenômenos, sejam eles sociais ou tecnológicos. Com essa formação, ingressei na universidade.

Acabei passando para um estágio em Furnas, no Rio, e fui admitido. Nunca cheguei a morar na usina; optei por ficar na engenharia, em que trabalhei durante dez anos.

Chegou a ter participação política na época da engenharia?

Sim. Mas tive alguns problemas por causa da minha ligação política que me impediam de atuar diretamente no movimento estudantil. Eu havia saído do país em agosto de 1975, fiquei sete meses em Moscou – era o período Brejnev.145 Havia cursos de formação técnica na Universidade Patrice Lumumba. Era impressionante, havia muitos africanos e asiáticos. Fiz um curso, mas não era ligado à parte técnica.

Seu passado na União Soviética gerou algum embaraço para sua vida profissional?

Acontecia... Logo depois que entrei em Furnas, fazia pós-graduação na PUC em sistemas mecânicos e combustível. Como havia sido convidado para fazer o primeiro curso para Angra 2 em sistemas, optei pela especialização em carvão e combustíveis. Eu tinha uma ótima classificação nesse curso e temia que a viagem à URSS causasse algum transtorno; se aparecesse, seria preso na volta. Mas foi uma operação muito bem- cuidada; recentemente pedi o meu habeas data e boa parte disso não aparece.

A militância política nesse momento não impediu seu estágio e sua contratação em Furnas. Poderíamos dizer que a demanda do mercado de trabalho nesse momento já superava possíveis entraves ideológicos?

Não creio. Naquela época havia órgãos de segurança em todas as empresas. Se o responsável falava comigo, fazia questão que eu soubesse que ele era militar, se identificava plenamente, mas eu diria que no meu caso particular não sabiam, ou não manifestavam. Foi uma operação muito bem cercada; não deixei de fazer nada por causa dessa questão.

O início da carreira em Furnas

A época de sua formação em engenharia mecânica coincide com o Acordo Nuclear Brasil- Alemanha. Seus colegas falavam sobre isso?

Não. Naquele momento, havia grandes projetos e muitas opções. A época do acordo Brasil- Alemanha era também uma época de expansão da Embratel com a Intelsat, uma época de muitas

alternativas. Na verdade, quando me formei em 1980, já se começavam a sentir os primeiros reflexos do que viria a ser aquela década, com alguns projetos parando. Mas naquele momento cada um

optava pelo que achava interessante.

A engenharia nuclear não lhe parecia algo sedutor?

Não... Quer dizer, existia o Pronuclear, um programa de pós-graduação bastante atrativo; muita gente optava por fazer mestrado nessa área; mas, para quem está no ciclo básico de engenharia, é muito difícil ter uma ideia do que é a carreira. Na nossa geração não era comum mudar de curso depois de iniciar os estudos. Embora a energia nuclear estivesse associada fortemente a questões militares, eu via ali, sem saber exatamente o que era, uma opção tecnológica muito importante para a humanidade. Optei por trabalhar em Furnas porque me atraía participar de um projeto dessa ordem.

Em 1982, começaram as dificuldades na operação de Angra 1. Chegou a se envolver nisso, sendo recém-formado?

Sim. Naquela época, em Furnas, a estrutura organizacional tinha a [área de] operação, voltada para o dia a dia da usina, e a parte de engenharia, de suporte à operação. Se a operação tinha algum

problema na atividade, ou quando era necessária alguma modificação, requisitava um estudo ou avaliação à engenharia. No caso de Angra 1, isso foi muito sentido, porque foi uma família

problemática de usinas.

Naquele momento, a engenharia envolvia-se também na discussão dos sistemas e equipamentos de Angra 2. A construção de uma usina é sempre assim: há a fase de engenharia, a construção e depois o comissionamento, onde a usina é entregue para operação. É um momento de muitos testes, depois do qual a engenharia sai e fica só um grupo de suporte. Nosso envolvimento mais intenso é na fase de projeto e de construção.

Esses primeiros dois anos foram de muito aprendizado técnico e treinamento. Oitenta por cento do tempo era ligado a Angra 1; por outro lado, em alguns momentos não tinha atividade profissional. Foi assim durante o curso de especialização em sistemas nucleares da KWU, da Siemens, em 1983, no Rio de Janeiro. Era interessante, bastante intenso - um ano em tempo integral. Havia gente da operação e da engenharia de Furnas.

Havia dificuldades na operação de um programa nuclear em que Angra 1 resultava de um pacote fechado da norte-americana Westinghouse e Angra 2, de um acordo de transferência de tecnologia ligado à Alemanha?

Não, pois as usinas são do mesmo tipo, com reator PWR, a água leve pressurizada. Um reator é um pouco mais do que o dobro do outro, mas a lógica permanece: é preciso tirar o calor, produzir vapor e gerar energia elétrica.

Aprendemos muito com Angra 1, uma usina que foi vendida em um período complicado, em que o Brasil sofreu pressões por não ser signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, o TNP. No governo Carter houve uma pressão muito grande, não se entregava combustível. Todas

essas dificuldades fizeram com que a nossa equipe se aprofundasse mais do que um simples operador de utility americana. Tivemos que improvisar muito. Angra 1 representou um aprendizado

diferenciado de outros operadores de usina, pela circunstância política que o Brasil vivia. Isso, de alguma forma, influiu em Angra 2; todos os técnicos, todos os profissionais tinham forte ligação com o ambiente político institucional. Não digo político-partidário, mas havia um envolvimento muito grande. As decisões políticas atingiam diretamente a vida pessoal de cada um. A área nuclear era afetada porque tinha um viés militar e ficou muito associada à ditadura; mas quem estava na área preocupava-se com o que aconteceria, com quando o projeto seria retomado. Quando novos

funcionários pararam de ser admitidos, ficamos em um grupo meio fechado, meio diferente de outras empresas. Quase todos se conhecem.

A experiência na Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro (CERJ) Por que o senhor decidiu sair de Furnas?

Furnas, como outras empresas, tinha uma política de “invisibilidade”. Ali, a tecnocracia era exercida na plenitude; todo o jogo que envolvia relação com empresas de construção, com políticos, nunca deixou de existir, mas naquela altura era circunscrito à direção da empresa, como em outras estatais federais. Mas de uma hora para outra todo mundo passou a fazer política, e as empresas que não se

prepararam politicamente para isso viveram o caos. Uma corporação sofre muito quando começa a ter o comando dividido e a política não é feita de maneira transparente. Então eu fiz esta opção: em 1987, fui para uma empresa distribuidora de energia elétrica, a CERJ, como responsável por alguns programas de eletrificação rural. Não há tanta sofisticação tecnológica, mas tem um componente social muito grande. Estava convencido também de que as empresas federais viveriam um processo de democratização e que o modelo de carreira seria completamente diferente.

Por que a escolha pela CERJ?

O estado do Rio era dividido em duas áreas, uma da CERJ, uma da Light; esta última encontrava-se em situação muito vantajosa, porque a usina siderúrgica de Volta Redonda representava mais de 20 por cento do seu faturamento. Já a CERJ não tinha um grande consumidor com regularidade de pagamento, havia muitos problemas. Boa parte do que acontecia com a CERJ era consequência do modelo econômico do Rio de Janeiro, que nunca definiu um projeto claro, fosse ele industrial ou agrícola. Os municípios eram decadentes, não havia grandes projetos de desenvolvimento, o que se refletia na questão de energia elétrica.

Nosso modelo era feito para funcionar em Ipanema; em comunidades carentes, excluídas, é

impossível cobrar. Sem cobrança, instalavam-se ali atividades que usam energia intensivamente, como fábricas de gelo, por exemplo, que pegavam água e energia através de “gatos”, sem pagar à Prefeitura. Percebi que as empresas federais, que estavam somente na geração, não percebiam a ponta do consumidor. Minha ida para a CERJ serviu muito para minha formação pessoal, para ver esse outro lado, ver como a energia nuclear era absolutamente distante na percepção coletiva. Fiquei um ano na CERJ, mas retornei a Furnas. Na volta, fiquei dois anos como diretor da Federação dos Engenheiros. Durante a Constituinte, fizemos trabalhos sobre vários temas, inclusive sobre

previdência, um assunto com que ninguém da Federação lidava. Achei interessante e comecei a acompanhar os trabalhos da comissão. Em 1989, acabei me tornando diretor da fundação de previdência de Furnas, a Fundação Real Grandeza.146 Fui o primeiro diretor eleito pelos funcionários, em um colégio eleitoral de dez mil votantes.147

O retorno a Furnas: a Federação dos Engenheiros e a Fundação Real Grandeza

Como era a discussão, dentro da engenharia de Furnas, a respeito das dificuldades advindas da falta de recursos?

Havia muitas discussões. Fui diretor da Associação de Empregados de Furnas,148 e, na época, demos outro caráter também à Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben). Ao entrar como diretor, automaticamente passei a integrar o quadro gerencial. Havia o que se chamava fórum das empresas estatais: alguns tópicos eram específicos da engenharia nuclear, mas começou a se sentir a decadência do funcionamento das empresas públicas em geral. Nossa imagem estava muito

desgastada. Hoje tenho o maior orgulho de dizer que fui servidor público a vida inteira; é extremamente nobre ter trabalhado em uma atividade pública. Não fiquei milionário, mas fui extremamente feliz nas coisas que fiz, e acho que pude desenvolver uma atividade que me deu satisfação, criar meu filho honradamente.

Ao se tornar diretor da Fundação Real Grandeza, o senhor tinha consciência de que se afastaria da engenharia e, portanto, de uma atuação mais tecnológica? Como se deu essa escolha?

Volto àquela preocupação em mudar a gestão das empresas. Quando fui para lá, passei a ter um nível gerencial, de chefe de departamento. Não foi uma opção de carreira, mas passei a ter poder de

influência em discussões que eu não tinha como engenheiro, inclusive na área nuclear e de gestão. Paralelamente, fui nomeado também assistente da Diretoria Técnica de Furnas e fiquei em uma posição bastante privilegiada. Mudou tudo, e fui ficando. A essa altura, o país já caminhava para a primeira eleição para presidente da República e grande parte dos gerentes antigos deixou a empresa devido ao plano de incentivo à aposentadoria do governo Collor. Foi mais fácil assumir uma posição de liderança, porque já era outro ambiente.

A falência do modelo de Brasil Grande, ancorado no Estado, acabou sendo levada de roldão pela crise da ditadura militar. Houve uma associação.

É, as coisas se associaram muito. A participação do Estado é também algo antidemocrático, é uma casta de privilegiados, é ineficiente. Acho que foi um período muito curioso para se estudar; a energia solar, por exemplo, começou a ser pesquisada na Universidade de Brasília, UnB, na época da ditadura militar, e ninguém a associa ao regime militar. A ciência não depende de quem está no poder ou do regime que está em vigor. É claro que o acordo do presidente Geisel149 tinha alguns componentes militares e geopolíticos, muito influenciados pela Guerra Fria. Tudo isso existia, mas havia algo de que o Brasil, objetivamente, não podia abrir mão de estudar: o uso do urânio. Temos uma reserva fabulosa, que garantiria uma frota de usinas por um bom período.

A tecnologia de fissão nuclear tem um período histórico definido. No futuro, daqui a um século, talvez, não se construirão usinas nucleares à base de fissão. Os reatores serão de fusão, e, daí em diante, quem tinha urânio em abundância e não usou não vai mais usar. Temos urânio; ou usamos agora com segurança e com cuidados ambientais e tiramos vantagem disso ou não usamos mais.

A reestruturação política e institucional da área nuclear

Em 1988, a Nuclebrás é extinta e ocorre uma reformulação do setor nuclear. Até que ponto essa mudança pesou na sua decisão de voltar para Furnas?

O programa foi todo reformulado, senti muito na minha volta. A Nuclen e a Nuclep foram muito mais afetadas. Mas Furnas se manteve intacta; recebeu muita gente, mas não mudou a estrutura: diretoria, superintendências e departamento e divisão ou seção. Havia uma hierarquia.

Havia grupos segregados de ex-funcionários da Nuclen, da Nuclep?

Não muito. Eles se apropriavam de algumas questões, como direitos que não foram incorporados, mas não houve segregação, pois já conhecíamos as pessoas. Eles tinham uma formação de empresa bem diferente, copiada do modelo alemão. Empresarialmente, Furnas funcionava muito mais no estilo brasileiro. Houve algum choque de cultura. A diferença existia e era muito forte; não foi superada até hoje.

Nos anos 1980, o governo Sarney anunciava que o Brasil era capaz de enriquecer urânio; é a época da Comissão Vargas150 e da oficialização do programa nuclear paralelo em 1990. Isso era discutido em Furnas? Como tais acontecimentos repercutiam na rotina da empresa?

Era bastante discutido, não no dia a dia, mas nos fóruns que mencionei. Em 1988, eu acompanhava o trabalho da Constituinte pela Federação dos Engenheiros e acabei sendo convidado pelo senador Severo Gomes151 para acompanhar os trabalhos da CPI como assessor técnico, junto com dois professores da Coppe, [Luiz] Pinguelli Rosa152 e Aquilino Senra Martinez.153 Severo Gomes era o presidente da Comissão, e a relatora era Ana Maria Rattes,154 do Rio de Janeiro. Para mim foi até bom, pois meu nome continuou ligado à área nuclear, mesmo tendo ficado esse período afastado. A CPI terminou em 1990. O Collor chegou lá na Serra do Cachimbo e usou o evento de fechar o “buraco” de maneira pirotécnica. A parte administrativa do programa de enriquecimento, no entanto, foi discutida de outra maneira: o resultado tecnológico foi ressaltado e aprovado pela Comissão, e o programa foi legalizado. Aliás, o atual presidente da Eletronuclear, Othon Pinheiro,155 era

coordenador do programa de enriquecimento. Tinha algum contato com Furnas, porque precisava checar algumas coisas com a usina, mas na verdade não se envolvia diretamente. O programa era, de fato, bastante segregado.

O que representou o trabalho na CPI do Programa Nuclear Paralelo para alguém que em 1975 tinha vivido na União Soviética?

Trata-se de feridas que têm que ficar, no meu ponto de vista, fechadas. A Marinha desenvolvia o projeto do enriquecimento. A energia nuclear funciona como um funil: quarenta e poucos países geram energia; dez possuem submarino de propulsão nuclear, e oito detêm capacidade de

enriquecimento. Nós estamos em um grupo de três países que têm boa quantidade de urânio e capacidade de enriquecimento. Havia um projeto na Aeronáutica de enriquecimento a laser. Quer dizer, na verdade, o que o Brasil dizia de alguma forma era o seguinte: eu tenho capacidade tecnológica para ir adiante. Mas não dizia... até porque a nossa Constituição, que já tinha sido aprovada, vetava o uso de energia nuclear para fins não pacíficos. O projeto de autonomia tecnológica, de soberania e independência em relação aos EUA unia muita gente; a ideia de um projeto nacional ainda é forte aqui no Brasil.

De 1993 a 1995, o senhor foi assistente de diretoria de Furnas. Foi esse o convite feito por Ronaldo Fabrício?

Na verdade, eu já era assistente de diretoria. Quando fui para a Fundação, o antigo diretor técnico me nomeou, mas nunca exerci o cargo. Quando terminou meu mandato, eu teria que voltar para a

diretoria técnica, mas Fabrício decidiu estruturar de novo uma diretoria nuclear. Fui apresentado a ele pela superintendente de Meio Ambiente. Convidou-me para ficar lá, mas não estava muito claro o que eu faria como seu assistente.

No dia seguinte, fui incumbido de preparar uma apresentação para a visita do ministro de Minas Energia, Paulino Cícero,156 ao Rio de Janeiro, onde se anunciaria a retomada de Angra 2. Fui a

Brasília fazer a exposição. Naquele dia, o ministro receberia uma delegação que adiou o encontro, e ficou com a tarde livre. Ficamos a tarde toda conversando. Ele veio ao Rio, adorou a apresentação que fiz e me recomendou fortemente ao Fabrício, que me nomeou seu assistente. Fiquei um ano nesse posto, cuidando de questões de inserção regional, discutindo como a área nuclear deveria se

posicionar melhor. Quando ele se tornou presidente de Furnas, eu estava em Cuba, acompanhando uma missão do Ministério das Relações Exteriores sobre a usina. Quando cheguei, ele me convidou para ir com ele para a presidência e criou uma superintendência para cuidar de relações

institucionais. Isso foi em 1995. Além de Angra, havia também os projetos de Serra da Mesa e

Corumbá, duas usinas em que a questão ambiental ganhava visibilidade. Naquela época, cuidávamos também do relacionamento com os órgãos ambientais, foi uma experiência muito boa.

O governo FHC e a proposta de privatização de Furnas

Em 1995, Fernando Henrique Cardoso assume o governo com uma proposta de privatização. Como alguém com a sua formação ideológica lidava com esse desafio?

Na verdade, a área nuclear estava um pouco imune a isso. Não defendo que todo o setor elétrico deva ser estatal, o modelo de privatização pode ser discutido. Na verdade, poderia haver vários mecanismos de associação privado-estatal, que induziriam a novos investimentos. O objetivo era permitir que parte dos investidores viabilizasse setores dinâmicos que rompessem alguns gargalos. O setor elétrico estava com muitos problemas, certas coisas não andavam por falta de capital privado. A própria usina de Serra da Mesa conseguiu ser viabilizada porque parte das atividades foi

privatizada. A dificuldade está em como fazer isso, principalmente com a lei ambiental. A

privatização começou com Collor de maneira completamente destrambelhada. Em alguns setores, Fernando Henrique foi um pouco além, com a justificativa de que o mercado se regularia e garantiria o crescimento. O que sempre defendi é que o Estado não pode perder a capacidade de regular o modelo. Nesses últimos anos, o presidente Lula fez leilões de blocos de energia, mas garantiu a capacidade de regular. É isso que não pode ser perdido.

Pode-se dizer que a paralisação da construção de Angra 2 e 3 se deveu à derrota na disputa por investimentos com as hidrelétricas?

Não. Quando Angra 2 e 3 foram paralisadas, pararam também as grandes obras de hidrelétricas, como Serra da Mesa e Porto Primavera, no estado de São Paulo. Além disso, o crescimento do consumo não justificava esses empreendimentos.

Angra 2 foi retomada e a licitação realizada em 1995. É claro que envolve um investimento pesado e intensivo de capital, diferente de usinas térmicas e hidráulicas. Na usina térmica, o consumo ao longo da vida permanece alto, porque o combustível é uma commodity. No caso de nuclear, a maior parte do investimento se dá durante a construção.

Havia dificuldade em captar recursos no exterior devido à dívida externa. Pesou também uma

questão preconceituosa, pois Angra 2 foi concluída em plena crise energética e não foi oficialmente

Benzer Belgeler