3.5. AraĢtırma Verilerinin Analizi
3.5.2. Nitel Veri Analiz AĢaması
Os estudos sobre a obra teatral de Jorge Andrade ressaltam sua formação acadêmica na Escola de Arte Dramática de São Paulo, na década de 1950 (AZEVEDO, 2001b, p. 45-49). Tal formação teria inspirado em Jorge Andrade uma aproximação diferente à composição do texto teatral, em relação a outros dramaturgos
91 contemporâneos a ele. Jorge Andrade seria mais consciente das referências históricas do teatro, teria um repertório mais sistematizado, e tinha como parâmetro a opinião dos críticos teatrais que foram seus professores. Para um autor que escreveu tanto sobre os conflitos entre pai e filho, a relação de professor e aluno ganhava importância semelhante: ―A crítica é fundamental para que eu compreenda o sentido do trabalho. Não posso deixar de ouvir a opinião desses dois críticos [Sábato Magaldi e Antônio Cândido]. Às vezes, penso que durante todos estes anos eu tenho trabalhado realmente para três ou quatro pessoas‖ (STEEN, 2008, p. 139).
Na leitura das várias entrevistas publicadas ao longo da vida de Jorge Andrade, e considerando seu trabalho em linhas amplas, é possível destacar algumas características de sua postura como autor.
A primeira evidência, ao analisar sua trajetória, é que o retorno pragmático em dinheiro não era sua prioridade. Não fazia parte de sua estratégia ―escrever o que as pessoas querem‖. Muitas vezes ele fez o movimento oposto, escrevendo justamente o que os outros não queriam (por exemplo, as peças As confrarias e O sumidouro, que escreveu para publicação, consciente das dificuldades de montagem naquele momento). Algumas palavras suas resumem essa atitude: ―Não escrevo diariamente porque, para viver e sustentar minha família, sempre fui obrigado a ter um trabalho paralelo, o meu ganha-pão para não prostituir meu teatro‖ (STEEN, 2008, p. 139). Assim, para ele, o trabalho associado a remuneração era uma atividade alternativa, exercida por obrigação de sobrevivência. Diferentemente do trabalho de criação, ―não prostituído‖, considerado como arte.
Outra característica que se destaca é a tensão entre expressão e reconhecimento. Seu impulso de expressão era bem pessoal (sem projeto de facilitar ou agradar o público), mas o retorno negativo o angustiava. Em várias passagens de suas peças
92 metalinguísticas, ele registrou o sofrimento pela má aceitação de alguns de seus trabalhos. Também sofria de uma ansiedade pela revisão dos textos, reagindo e incorporando críticas recebidas, num processo extenuante que algumas vezes tentou interromper — ao consolidar as peças do ciclo Marta, a árvore e o relógio, por exemplo, queimou alguns originais, como relata Sant‘Anna (1997, p. 76). Seu trabalho manifesta a expressão de algo interno, sofrido e indefinido, que procura se esclarecer ao tomar forma artística. No romance Labirinto, Jorge Andrade escreveu que seus textos tinham para ele uma função psicanalítica: seriam sua forma de psicanálise (ANDRADE, 1978, p. 130). Entretanto, seu trabalho como artista muitas vezes registra a persistência de sua própria neurose, e não uma libertação.
Uma terceira característica é a extensa pesquisa em livros, registros históricos e material jornalístico, para aproveitamento em seus textos. Tratava-se de uma pesquisa sistemática e paciente, em que buscava material externo à sua vivência, possibilitando que seu trabalho criativo relacionasse questões pessoais com informações do mundo que o rodeou. O contato com o entorno também o levou a considerar a questão das classes sociais e sua representação artística, tônica do pensamento intelectual brasileiro nas décadas de 1950 e 1960. Como sugere Catarina Sant‘Anna:
[...] o questionamento do eu, que implica nesse movimento de autocrítica uma revisão de um passado familiar, leva, no caso específico do autor, automaticamente, à revisão do passado do país e, consequentemente, a um questionamento da própria História em suas bases, isto é, em sua competência para registrar os fatos históricos; trata-se de um movimento articulado de dessacralização, que também conta com o empréstimo de textos de outros autores, num fecundo processo de intertextualidade (SANT‘ANNA, 1997, p. 19).
Em linhas gerais, essas características se resumem num projeto artístico que o próprio autor declarou várias vezes: o ―registro do homem no tempo e no espaço‖ (STEEN, 2008, p. 141), com forte marca de introspecção e reflexão, e atenção aos aspectos formais da expressão artística. ―Creio que uma pessoa só se percebe quando
93 apaga a luz de seu quarto e fica só diante de si mesma [...]. Se vai até o fundo e mexe nas águas, ela se turva revelando coisas guardadas ou escondidas [...]. Isso revela a capacidade de voltar-se para dentro de si mesmo e a coragem de enfrentar-se. Para um escritor isso é essencial, porque só assim pode tentar a descida dentro dos outros, única maneira de encontrar-se‖ (STEEN, 2008, p. 145).
Para Jorge Andrade, a dramaturgia era uma expressão artística que envolvia observação, reflexão e síntese. Em sua concepção, ser autor era assumir uma posição de autonomia, sem ser ―prostituído por ideologias ou pelo dinheiro‖ (STEEN, 2008, p. 140). Havia certamente uma variação entre suas declarações e sua vida prática de escritor, pois ele escreveu como contratado, na imprensa e na TV, em muitos momentos ao longo de sua vida. Mas, por algum motivo, em O grito, houve uma ruptura em sua boa vontade de agradar o público, e ele declarou à revista Amiga TV, ao fim da novela: ―Não me propus renovar estilos nem escrever com ganchos, suspenses ou qualquer artifício para prender o público. Minha intenção foi mostrar o real, o sério, o verdadeiro‖. (ANDRADE, 1976c) Na mesma reportagem, há outra afirmação: ―Não recebi nenhuma censura ou pressão sobre a novela [da emissora ou do governo]; transmiti tudo o que desejei e se mais não disse foi porque não quis.‖
Tal declaração marca uma postura de combate, em que exagera o aspecto autoral de sua obra. O que ele diz não é totalmente verdadeiro: seus capítulos têm ganchos, suspense e outros artifícios que ele alega não ter utilizado. Por que esse exagero? Minha hipótese é que ele tenha perdido a paciência durante a exibição da novela, por uma série de reações negativas surgidas em São Paulo. Tal repercussão o irritou, como se percebe em entrevistas e reportagens, e pode tê-lo levado a uma atitude de defesa (ver mais detalhes no próximo capítulo).
94 momento da repercussão negativa — escrevendo os roteiros conforme a novela era exibida — Jorge Andrade tenha aumentado sua identificação com a personagem Marta, recuperando traços da Marta anterior, de As confrarias, que provocava os representantes das congregações que não aceitavam o corpo de seu filho.