3.4. Konusu ve Kapsamı
3.4.3. Tasarrufun Ġptali Davasının Kapsamı
3.4.3.1. Muvazaalı ĠĢlemler
O trabalho de Ferreira Penna sobre os sambaquis do Pará, publicado na Archivos no ano de 1877, também mencionou a exploração da cal oriunda das conchas dos sambaquis. Esta exploração arqueológica, que resultou na publicação da Breve notícia…, tinha a importante missão de estudar a composição das minas de sernamby do Pará, a partir da perspectiva antropológica que estava sendo elaborada pelos intelectuais do Museu Nacional. Todavia, a expedição já começou por uma surpresa. Depois de perder seis dias no mar, o pequeno grupo liderado por Ferreira Penna soube que “não existe Sambaqui algum nas visinhanças daquella povoaçao [Salinas]”.275
Ocorreu, na verdade, que as informações obtidas por relatos escritos e orais levaram à constatação que, já ao final da década de 1870, os sambaquis paraenses estavam reduzidos em quantidade e em tamanho, devido à exploração industrial. Ferreira Penna, em esforço para gerar registro e informações aos “homens scientificos”, “futuros exploradores” e “poupar-lhes muitos dos embaraços e decepções” assim os descreveu.
274 WIENER, 1876, p. 17.
275 PENNA, 1876, p. 84.
Figura 22 Fortaleza de Óbidos, citada por Penna e Hartt como um dos destinos da cal obtida a partir
dos sambaquis. Ao fundo, o rio Amazonas.
O sambaqui Mina de Apicuns, ao pé da boca de um pequeno igarapé, que entra na margem direita do Araripó e sobre terreno pedregoso, formava uma espécie de ilha. Apontado como “completamente exhausto e ha já muito tempo abandonado pelos exportadores de conchas; as que restam d'estas estão misturadas com terra preta, pedras e fortemente incrustradas. ”276
Mina de Tijolo, como era conhecido um sambaqui situado em “uma pequena ilha do
Furo que communica o rio Inajá com o Pirabas” estava já completamente extinto. Assim como o sambaqui Mina de S. João, em terra firme, “á margem direita do Igarapé Axindêua e quasi na juncção deste com o rio Pirabas”.277 A transformação do sítio também foi descrita por Ferreira
Penna: “Sobre elle e á custa délle se elevou, ha 2 annos, a pequena povoação de S. João, composta de uma capellinha e de 12 casas, em grande parte dispersas e algumas fóra da área do Sambaqui”.
Na outra margem do Axindêua, pertencente a um particular que possuía uma casa perto dali, o autor descreve um sambaqui sobre uma “collina pedregosa e muito arvorejada, que se eleva cerca de 15 metros acima do nivel do rio”. Era o sambaqui Mina do Vianna, “muito perturbado”, mas sem descrição de atividade caieira.278
O sambaqui Mina da Coroa-Nova, no centro da ilha que fica entre os rios Guapirica e Pirabas, classificado como de “dominio publico, e como tal tem sido e continua ainda a ser explorada [a mina] e arrasada pelos carregadores de Sernamby”.
Segundo o testemunho de pessoas conspicuas, este Sambaqui formava uma collina tão alta que dominava as mais altas arvores da ilha, e da sua summidade se avistava perfeitamente o mar e os dois rios vizinhos; agora seu horizonte circumscreve-se aos troncos de Mangue, e sua altura sobre o nivel do Igarapé que alli vae ter, não excede 6 metros.279
Outro sambaqui, a Mina do Capitão Clarindo, no meio da Ilha do Marinheiro, era explorado por seu proprietário, o Capitão Clarindo Pinheiro “que tem alli casa e um bom forno onde prepara a cal de que se suppre a Cidade de Bragança”.280
Segundo o autor, os sambaquis fluviais, do interior da província, estavam ainda mais arrasados que os da costa marítima: “apparecem tambem em muitos pontos do interior [...], principalmente á beira do Lago Grande das Campinas, perto da Costa meridional do Amazonas, 276 PENNA, 1876, p. 87-88. 277 PENNA, 1876, p. 86 278 PENNA, 1876, p. 89. 279 PENNA, 1876, p. 89. 280 PENNA, 1876, p. 90.
quasi em frente de Obidos, e nas vizinhanças da costa occidental do Tocantins, em differentes districtos da Cidade de Cametá.”. Destes, Ferreira Penna visitou dois, os sambaquis de Curuça, (perto da cidade) e o de Jassapetuba (ao norte de Cametá dez milhas distante) “Explorados ha muito mais de um seculo e arrasados pelos fabricantes de cal, os dous Sambaquis estão ainda mais destruidos do que os da costa maritima; nem um d'elles se eleva hoje sensivelmente acima do terreno circumvisinho”.281
Estes recortes destacados do Breve notícia… de Ferreira Penna permitem-nos afirmar
que apesar de encontrar os sambaquis em estado de exploração ou mesmo de extinção, o autor não tratou em momento algum esta constatação com pesar, tampouco, ao longo do texto, reclamou interseção de autoridades para impedir a exploração das conchas dos sambaquis. Ao contrário, o autor tratou com naturalidade a empresa industrial nas minas paraenses.
A exploração da cal das conchas oriundas dos sambaquis, aliás, é referida por um texto do século XVIII usado como referência por Penna: “Entre a Villa Viçosa (atual cidade de Cametá) e o canal do Limoeiro se acham dilatadas minas de Bribigões e as conchas marinhas a que dão o nome de Sernamby, de que a faz consideravel quantidade de cal, que é outro ramo do commercio d'aquella villa.”282
A referência do Arcipreste Dr Noronha levou Ferreira Penna à conclusão de que os sambaquis já estariam bastante reduzidos em relação ao que teriam sido dois séculos antes (Penna estimou a idade dos sítios em duzentos ou trezentos anos, concordando com a tese de Wiener sobre os concheiros de Santa Catarina), em consequência da exploração que supriu as demandas das fábricas de cal da capital. O negócio da cal mostrou-se rentável, de acordo com a aproximação calculada pelo autor:
Contei 8 barcos nos rios Pirabas e Juapirica, occupados em carregar Sernamby, e fui informado de que mais 4 tinham partido carregados para a capital. O maior desses barcos tem capacidade para 600 alqueires de Sernamby e o menor não carrega mais de 60.
O Sernamby posto na fabrica é pago a 500 rs por alqueire e cada barco, tiradas as despezas, deixa ao dono o lucro liquido de 10 a 30$000, em cada viagem, não entrando na conta os juros do capital empregado e a despeza de reparos e de conservação do navio.283
281 PENNA, 1876, p. 91.
282 NORONHA, Monteiro de, Arcypreste Dr. Roteiro de Viagem da cidade do Pará aos ultimos dominios portugueses no Amazonas. Colleção de Noticias para a Historia e Geographia das Nações ultramarinas. Vol 6. Lisboa, 1856. In: PENNA, 1877, p. 93. Nota de Ferreira Penna: “As conchas não são marinhas, mas sim fluviaes, havendo muitas terrestres”. Grifos originais.
João Batista de Lacerda, o antropólogo que elaborou o primeiro artigo antropológico específico sobre sambaquis, afirmou os distúrbios causados pela exploração econômica, que modificou as formas originais dos sítios e sua estratigrafia.
Infelizmente, essas explorações industriaes contribuiram não pouco para modificar a fórma primitiva d'essas collinas artificiaes, perturbando o natural arranjo das suas camadas componentes e d'esta sorte difficultaram as explorações scientificas que mais tarde se fizeram. D'ellas, um pequeno numero, porém, pôde escapar a essa brutal devastação, conservando intactos os seus moldes primitivos.284
Os sambaquis estavam em estado tão vulnerável que, quando o professor Charles Hartt visitou outros sítios paraenses, menos de uma década após a investida de Ferreira Penna, encontrou-os também devastados, como descreveu em sua publicação da Archivos em 1886. O forte de Óbidos, constatou, teve sua cal oriunda toda de um sambaqui “situado no logar chamado Mondongo, no lado occidental do rio Trombetas”.
Fragmentos de louça e uns poucos de ossos humanos foram encontrados em outros sambaquis. Pessoas fidedignas informaram que ha annos foram encontrados no sambaqui da Corôa Nova dous esqueletos humanos, de bruços, ao lado um do outro e muito juntos. N'um outro sambaqui foi encontrado em 1875 um esqueleto humano inteiro, dentro de um grosseiro vaso de barro que estava soterrado entre as conchas. No mesmo sambaqui foram encontrados ultimamente ossos que dizem ser de dimensões extraordinárias”.285