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Montessori Eğitim Ortamının Oluşturulması

3. MATERYAL VE YÖNTEM

3.4 Montessori Eğitimi

3.4.1 Montessori Eğitim Ortamının Oluşturulması

Dissemos que para a constituição da AD, Pêcheux dialogou com filósofos e especialistas das Ciências Humanas. Desse diálogo, segundo Henry (1969, p. 14), abriu-se uma “fissura teórica e científica no campo da ciências sociais”, razão pela qual a AD é considerada uma disciplina de entremeio. Para Gregolin (2004, p.53), Michel Pêcheux voltou-se à formação da AD, de forma que ela envolvesse a língua, os sujeitos e a história

e “por estar fortemente centrado na construção desse campo, ele dialoga constantemente com a Linguística por meio de uma relação tensa com Saussure, Marx e Freud”.

A “fissura” aberta por Pêcheux corresponde tanto a um rompimento de paradigmas no que tange aos instrumentos de análise adotados pelas ciências sociais até aquele momento, quanto a intervenções epistemológicas significativas. Uma vez que o objeto de análise deixa de ser a frase e se torna o discurso, as análises não poderiam estar limitadas à apreciação palavra por palavra. Tornava-se cada vez mais evidente para o filósofo que a linguística imanente, circunscrita ao estudo interno da língua, não poderia “dar conta do seu objeto” (BRANDÃO, 2004, p. 09).

Assim sendo, Pêcheux mostrou que a abordagem sistêmica e sincrônica da língua, adotada nos estudos linguísticos até aquela época, desconsiderava elementos constitutivos da significação. E, por isso, fazia-se necessário rever os caminhos da(s) análise(s).

[...] a Linguística é solicitada constantemente para fora de seu domínio, acerca de um certo número de pontos sobre os quais, acreditamos, é impossível que ela não tenha ‘sua contribuição a dar’ (sobretudo a Semântica, a Lógica e a Retórica). Gostaríamos de mostrar que a linguística não pode evitar o problema com um simples ‘eu não sou o que vocês estão pensando!’, isto é, reforçando as defesas de suas fronteiras. [...] isso não se dá, absolutamente, por acaso: ‘a língua sempre vai onde o dente dói’, diz Lênin, para expressar que o retorno incessante a uma questão que incomoda indica que há ‘alguma coisa por trás’, confirmando a não-resolução da questão (PÊCHEUX, [1988] 2009, p. 77, grifo do autor).

À época, para os gramáticos e não gramáticos, “a semântica estava reduzida ao estudo da mudança de sentido das palavras” (PÊCHEUX et al, 2008, p. 02). Logo, para confrontar tais estudos, Pêcheux propunha que se considerasse o caráter ideológico da linguagem, vasculhando, por exemplo, as implicações ideológicas imanentes à comunicação, a posição de quem diz, ou mesmo que se focasse a articulação entre o linguístico e o social. A proposta era findar a ideia de que em uma língua há significados universais e, portanto, uma língua homogênea, estável, perfeitamente analisável em sua unidade e constância de sua estrutura. Por outro lado, ao se articularem o linguístico e o social, buscar-se-iam “as relações que vinculam a linguagem à ideologia” (BRANDÃO, 2004, p. 09).

[...] buscar uma compreensão do fenômeno da linguagem não mais centrado apenas na língua, sistema ideologicamente neutro, mas num nível situado fora desse polo da dicotomia saussuriana. E essa instância da linguagem é a do discurso. Ela possibilitará operar a ligação necessária entre o nível propriamente linguístico e o extralinguístico [...] A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de pensamento; a linguagem

enquanto discurso é interação, e um modo de produção social (...) (BRANDÃO, 2004, p. 11).

O reconhecimento do caráter discursivo da linguagem permitiu a compreensão de que ela não é equânime, não é inocente, tampouco natural, justamente por ser o campo no qual se manifestam as ideologias. Nesse sentido, linguagem é a arena de conflito e de embates ideológicos; é o sistema que se presta a suportar o jogo social, não podendo, jamais ser pensada nem fora da sociedade, nem deslocada da história.

Baseando-se no reconhecimento da não neutralidade da linguagem, em Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio, Pêcheux ([1975] 1999), nos mostra como o idealismo da linguagem seguia cerrando os olhos do analista às situações reais de uso da língua. Ao mesmo tempo em que limitava a significação ao valor, também anulava essas noções, pois a significação reduzia-se ao caráter relacional que delimita os próprios limites da significação dentro do sistema. É como se a língua atendesse a um princípio de unidade que a fizesse independente do todo a sua volta, como se a língua funcionasse por ela mesma, e todos os sentidos possíveis estivessem pré-estabelecidos por responderem à unidade.

Assim, com vistas a transpor essa concepção, na obra citada, Pêcheux propôs a oposição “base linguística” X “processo discursivo”,

[...] inicialmente estamos pretendendo destacar que, como foi apontado recentemente por P. Henry18, todo sistema linguístico, enquanto conjunto de

estruturas fonológicas, morfológicas e sintáticas, é dotado de uma autonomia relativa, que o submete a leis internas, as quais constituem, precisamente, o objeto da Linguística. É pois, sobre a base dessas leis internas que se desenvolvem os processos discursivos, e não enquanto expressão de um puro pensamento, de uma pura atividade cognitiva etc., que utilizaria ‘acidentalmente’ os sistemas linguísticos (PÊCHEUX [1975] 1999, p. 81-82). Para Pêcheux, as análises avançariam à medida que incluíssem a observação daquilo que se considerava como exterior à língua(gem), tornando-se não somente uma análise das estruturas linguísticas, mas do processo discursivo por meio do qual as estruturas são escolhidas e postas em uso, não acidentalmente, mas por direcionamentos ideológicos, por questões sociais e históricas. De acordo com sua proposta, a significação e as condições sócio históricas possuem laços entre si e, sendo assim, a maneira como o texto produz sentido está diretamente relacionada a esses laços.

18 Referência feita à obra Le Mauvais Outil. Langue, Sujet et Discours. No Brasil, a obra pode ser assim

encontrada: PAUL, Henry. A ferramenta imperfeita: língua, sujeito e discurso. Tradutor: Maria Fausta Pereira de Castro. 2 ed. Campinas: Editora Unicamp, 2013.

Desse modo, podemos pensar na língua como representante das muitas situações de interação social a partir das quais a história vai se fundando. Língua e história estão intimamente imbricadas e, por isso, as palavras e seus sentidos são carregados de memória constantemente afetadas, conforme Pêcheux, pelo histórico, pelo social, pelo ideológico, pelo inconsciente.

No espaço desse mito psicológico, a história não é outra coisa do que a resultante de uma série de situações de interações, reais ou simbólicas, a língua não é outra coisa que uma (fraca) porção dessas interações simbólicas, e o inconsciente não é outra coisa que a não-consciência afetando negativamente este ou aquele setor da atividade do sujeito, em função das determinações biológicas e/ou sociais mencionados nesse instante (PÊCHEUX, [1975] 1999, p. 12).

Essa perspectiva implicou uma gama de reflexões no âmbito do fazer linguístico. A análise de discurso pecheuxtiana constituiu-se como uma disciplina de convergência. Ao inscrever-se no entremeio do Materialismo histórico – teoria que responde pelas questões das formações sociais e da ideologia; e da Linguística – teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos de enunciação, a AD19 tornar-se-ia a teoria da determinação histórica dos processos semânticos; ou a disciplina cujas análises capturariam a condição movente e instável do sentido ao longo da história. Dito ainda de outro modo, tanto a constituição do sentido, quanto sua(s) mudança(s), não são bruscas, tampouco estanques, mas desenvolvessem em processos.

Na AD, os conceitos de história, língua, ideologia e inconsciente adquirem dimensões e formulações que vão ultrapassar a formulação de suas origens. Consequentemente, nela e para ela [a teoria da AD], o sentido não é algo claro, transparente, óbvio, mas inscrito em uma materialidade opaca; não está completo e restrito ao léxico escolhido, isso porque o sentido do todo inclui também o que não está materializado nele, um saber que foi sendo pré-construído ao longo do tempo. Dessa construção histórica de sentidos é que as proposições vão adquirindo o caráter da verdade, vão sendo aceitas em seu todo, ou seja, o sentido de um dito – escrito ou falado – completa-se pelo histórico que está nela, mesmo que isso não esteja lexicalmente visível.

Pêcheux ([1975] 1999) apresenta o exemplo proposto por Frege no artigo Sens et Dènotation, como podemos ver a seguir: “Aquele que descobriu a forma elíptica das

19 Em tempo, não nos esqueçamos que as teorias do Materialismo histórico, da Linguística e da própria AD estão permeadas por uma teoria não subjetiva do sujeito, de ordem psicanalítica, uma vez que o sujeito é afetado pelo inconsciente.

órbitas planetárias morreu na miséria.” A análise pecheuxtiana desse enunciado mostra que ele contém uma “separação ou discrepância” localizada entre o que é pensado alhures e anteriormente e o que o global contém.

Nessa perspectiva, a “ilusão” de que fala Frege não é o puro e simples efeito de um fenômeno sintático que constitui uma “imperfeição na linguagem”: o fenômeno sintático da relativa determinativa é, ao contrário, a condição formal de um efeito de sentido cuja causa material se assenta, de fato, na relação dissimétrica por discrepância entre dois “domínios de pensamento”, de modo que um elemento de um domínio irrompe num elemento de outro sob a forma do que chamamos “pré-construído”, isto é, como se esse elemento já se encontrasse aí (PÊCHEUX, [1975]1999, p. 89, grifo do autor.)

Ao apresentar o enunciado de Frege e analisá-lo, Pêcheux ratifica a noção de “pré- construído” proposta por Henry (1969). A partir dessa noção, compreendemos que na opacidade do que se enuncia, por meio da linguagem, estão imersas construções anteriores, exteriores e independentes, em oposição ao que se construiu, no momento. Trata-se, portanto, de uma relação, no interior do próprio enunciado, estabelecida historicamente, pelos “processos ideológicos de identificação e contraidentificação” (COURTINE, [1981]2009, p.71).

Conforme Henry (1969), enunciados do tipo “aquele que morreu na cruz para salvar o mundo nunca existiu”, trazem em si processos ideológicos de identificação e contraidentificação, já que, na tentativa da negação da existência daquele que morreu na cruz, inscreve-se a oposição, ou seja, a real existência, visto que, é preciso existir para morrer. Nesse sentido, marcam-se, no mesmo enunciado, duas ideologias, a saber: a do crente e a do ateu. E, assim, podemos observar que a língua, ao servir-se para a elaboração material de um enunciado, permite que escolhas lexicais sejam feitas, contudo, não pode impedir que, mesmo naquelas palavras criteriosamente escolhidas, o reverso apareça.

Dessa análise decorre que o enunciado construído traz em si algo além de sua materialidade: o que se pode considerar um pré-construído, uma vez que se constituiu em outro(s) lugar(es), em outro(s) tempo(s), possibilitando detectar os domínios contraditórios que emergem de um mesmo enunciado. Eis aqui a articulação, segundo Pêcheux (1999, p. 89), entre “a teoria dos discursos com a Linguística”, pois, ao considerarmos um domínio de pensamento, estamos considerando a instância discursiva. Isso porque, “na verdade, todo ‘conteúdo de pensamento’ existe na linguagem, sob a forma do discursivo” (PÊCHEUX, 1999, p. 89).

No processo semântico da produção de sentidos, os enunciados, ao materializarem- se na língua, preenchem-se do social, da história e da(s) ideologia(s), por isso mesmo, seu sentido não se limita ao léxico organizado, mas sim à sua esfera discursiva. Para além da língua, os enunciados comungam os sentidos estabilizados dentro de uma certa formação social, em um determinado momento da história, sem nos esquecermos, contudo, que o discurso é o campo do embate; e, assim sendo, as regularidades, bem como as irregularidades, somente podem ser apreendidas à medida que nos atemos ao processo de produção.

Na esfera discursiva dos enunciados podemos perceber a determinação histórica dos sentidos que vão se cristalizando, não de modo a responder a uma cronologia, porque a emergência de um sentido não significa, de modo algum, o encerramento de outro(s), mas de modo a perceber que para que o sentido se constituísse de tal modo – ou de outro, houve algo além de uma palavra, além de uma estrutura léxica, que estava lá, mesmo sem estar expresso, que é reconhecido, percebido, que fez com o sentido fosse estabelecido como foi e passasse a circular, a partir de então, daquele modo. O sentido não se faz sozinho, ou pela sua imanência linguística, mas está arraigado, ao seu processo se produção.

À luz desses apontamentos, cabe fazermos uma reflexão sobre o léxico usado para referenciar o corpo acima do peso. Na obra As metamorfoses do corpo gordo: história da obesidade no Ocidente: da Idade Média ao século XX20, Vigarello (2012), traça o processo

de produção de sentidos acerca da obesidade, na Europa Ocidental. Ao longo da obra, o autor vai revelando os processos que se estabeleceram para que, na materialidade linguística, o sujeito gordo pudesse ser nomeado como um glutão, como grande, depois como alguém de barriga avantajada, pançudo até, mais recentemente, como obeso.

Já a partir da introdução da obra, fica evidente que a nomenclatura atribuída ao sujeito gordo compreende um processo de construção de sentidos, no qual tiveram participação ativa as questões sociais de cada momento histórico, pois conforme o autor, “uma objetivação de si, um juízo projetado sobre a própria pessoa que só um lento trabalho de cultura pôde permitir” (VIGARELLO, 2012, p. 09).

E assim, compreendemos que o nomear e categorizar os sujeitos a partir do tamanho de seus corpos envolve uma produção de sentidos acerca deles; uma produção que circula socialmente e que está rastreada na história; logo, os termos não são

unicamente a materialidade linguística escolhida, mas são também discurso, porque compõem-se de escolhas estratégicas, de posições ocupadas na sociedade pelos sujeitos.

Desse modo, ao tratarmos da elaboração desta nossa história da silhueta no Brasil, do século XX até os anos do início do século XXI, também nos deparamos com os termos que nossa sociedade usou para nomear os sujeitos gordos. Da mesma forma que na Europa Ocidental, os termos aqui usados respondem semanticamente a processos que constituíram sentidos para esses sujeitos e seus corpos em nossa sociedade. Obviamente, ao pensarmos o processo de produção dos enunciados sobre o corpo feminino, seu peso e suas medidas, no interior dos quais se deu a objetivação da mulher gorda, chegamos aos termos que as nomearam/nomeiam. Nesses termos, e também nos enunciados nos quais eles aparecem, veremos um pouco da história feminina no nosso país: os papéis sociais destinados às mulheres, a cultura da beleza, o apelo à saúde, por exemplo; uma história feminina que tão pouco se desvencilha das questões sociais de cada momento: a modernidade, o consumismo, o controle dos pesos e das medidas. Como resultado de todo esse processo, olhamos para a mulher gorda hoje e a nomeamos de tal modo, justamente porque na alcunha que lhe atribuímos, há muitos outros sentidos movidos, porque a produção social que os efetivou, também os colocou em circulação.

Com tudo isso, queremos dizer que nosso olhar visa focar a produção de sentidos que vai sendo apreendida, ao mesmo tempo, na língua – porque essa permite a formulação de sintagmas que nomeiam, adjetivam e categorizam o corpo feminino; e na sociedade brasileira – porque essa é, ao mesmo tempo, loccus onde os enunciados são produzidos e onde circulam impregnados e impregnando-se de sentido(s).