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5. ESERİN ÖZELLİKLERİ

5.2. Dört ve Beş Harfli Kelimeler

5.2.2. Mezîd Kelimeler

A Cidade Ozanam, obra da SSVP - Sociedade de São Vicente de Paulo284 pode

ser considerada a experiência beneficente, merecedora de uma atenção especial no conjunto das estratégias assistenciais de Belo Horizonte por uma série de razões. A principal delas se encontra na importância do papel que a SSVP deu à essa experiência, ocupando, na história da instituição, em Minas Gerais, lugar de grande destaque.285 A

obra, com o portentoso objetivo de construir uma cidade exclusiva para os pobres, começou a ser sugerida, desde a década de vinte, por algumas Conferências e o Conselho Central da SSVP de Belo Horizonte.

284

Poderá ser usada como medida prática a partir de agora a sigla SSVP ( Sociedade de São Vicente de Paulo) quando nos referirmos a esta instituição.

285

Na dissertação de Mestrado, SOUZA, Marco Antônio de. A Economia da Caridade: Estratégias Assistenciais e Filantropia em Belo Horizonte, 1897-1930, foram comentadas as idéais do projeto da Cidade Ozanam. Posteriormente, na ampliação das investigações, verificou-se que o porte dessa instituição ficava muito além daquilo que se anunciava na imprensa. Só recentemente, a SSVP parece ter criado a sucessora da Cidade Ozanam, com o lançamento da Cidade dos Meninos, em 1998; entretanto, apesar de ser evidente a perda de sua pujança, a Cidade Ozanam ainda se encontra em funcionamento.

Projetar uma cidade para abrigar os pobres, retirando-os da área urbana considerada central, isto é áreas que, por sua importância política e comercial, estavam relacionadas a espaços de convivência da chamada boa sociedade e que deviam ser preservadas da pobreza, além de ganhar força na imprensa, refletia a ousadia dos filantropos vicentinos, apoiados por importantes autoridades políticas de Belo

Horizonte.286 O isolamento das famílias pobres, geralmente encabeçadas por viúvas,

deveria gerar condições para o tratamento da questão social por meios educativos, encaminhando os membros dessas famílias ao trabalho e ao convívio disciplinado, nos moldes da boa conduta e da ordem.

Em 17 de julho de 1936, o prefeito Otacílio Negrão de Lima aprovou a proposta para a construção da Cidade Ozanam, doando terreno ao Conselho Metropolitano da SSVP de Belo Horizonte, na Vila Renascença. O grande mentor da idéia de construir a Cidade, Joaquim Furtado de Menezes, durante sua carreira de vicentino tornou-se um dos maiores líderes católicos do país. O planejamento e execução das obras de construção da Cidade Ozanam ficaria a cargo da Corporação de Engenheiros Católicos.287

A Cidade Ozanam organizava-se a partir de uma praça com treze ruas, onde foram construídas inicialmente 35 casinhas. Além das casas, havia um pavilhão central com dois andares e um porão, o santuário de São Vicente de Paulo, o grupo escolar, o

286

No Conselho Metropolitano de Belo Horizonte e nos Arquivos da Cidade Ozanam, foi realizada exaustiva coleta de dados em relatórios, atas e fichas dos assistidos. A existência de fontes iconográficas, principalmente fotos, foram analisadas e fazem parte da composição final do trabalho como uma complementação importante da análise das informações que foram cruzadas com as outras fontes. 287

Estas informações encontram-se em Frei Alano Porto de Menezes O. P., Furtado de Menezes, Servidor do Pobre, 1994: 54-56. Infelizmente não foi possível fazer um levantamento de informações mais detalhadas sobre essa Corporação de Engenheiros Católicos por falta de informações nas fontes pesquisadas. Só foi possível saber que seu grande fundador e incentivador, Joaquim Pedro de Menezes Furtado ( assim grafado em nome de batismo), grande líder vicentino, fundou também outras Corporações Católicas como a dos Engenheiros, dos Dentistas, dos Advogados, dos Viajantes e dos Contabilistas, nos anos 30. A questão parece estar ligada a um aspecto político, uma vez que Furtado de Menezes foi

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prédio da ação social, o armazém, um ambulatório médico, a farmácia e 34 pavilhões para solteiros, comportando cada um 20 pessoas, contendo oficinas. Há informações de que, numa fase posterior, a cidade chegou a alcançar até 106 casas para as famílias. Isso tudo passou a funcionar, efetivamente, em abril de 1937 com a chegada das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado.288

A grande envergadura da obra indica o quanto os vicentinos aguardavam aquele momento. Retirar os pobres das áreas consideradas mais importantes da cidade, colocando-os em lugar especial para ampará-los e acompanhar, pari-passu, a sua educação, numa situação que sugeria a revivescência da antiga catequese jesuítica, englobando uma comunidade inteira, significava não apenas alojá-los em espaço isolado, próximo à cidade, criando outra cidade exclusiva para atendê-los, mas, essencialmente, poder transformá-los em cidadãos-trabalhadores, submetidos de perto às regras da moral cristã-católica, em conformidade ao ethos da sociedade capitalista.

Diante da possibilidade de afastar os pobres da cidade, a Prefeitura empenhou-se em construir essa colônia de mendigos. Uma parte do projeto foi realizada através de concorrência pública, gastando-se 700 contos de réis, tendo a Prefeitura como fiadora e doadora de apólices no valor de 200 contos de réis. Os esforços para afastar aqueles que os jornais classificavam como indesejáveis mendigos das áreas da cidade, destinadas à boa sociedade, não pararam por aí: os bancos, rádios e jornais, colaboraram na

constituinte em 1933/34, tendo sido, as corporações, a marca registrada daquela fase de reestruturação do Estado.

288

Nos jornais arrolados é possível acompanhar os passos iniciais da Cidade Ozanam e ainda a sua evolução até a década de 90. O ESTADO DE MINAS, possui a coleção mais completa para o período 1930-1990. O HORIZONTE, jornal católico, possui no início dos anos trinta, grande quantidade de informações sobre a SSVP em Belo Horizonte. O DIÁRIO, é outro jornal que apresenta boas informações sobre a ação católica e a SSVP. Esses jornais noticiaram com muitos detalhes, o Congresso Eucarístico de 1936, que aconteceu em Belo Horizonte. Muitas iniciativas da Ação Social Católica encontram-se também anunciadas por esses jornais. Outro órgão da imprensa católica, O LUTADOR, também foi encontrado na Biblioteca Pública de Belo Horizonte, contendo importantes informações sobre a SSVP. O jornal FOLHA DE MINAS tem várias notícias da Cidade Ozanam, entre 1944-1955.

campanha para arrecadar donativos. Estudantes dos ginásio e grupos escolares cerraram fileiras, para obter auxílio.289 Esse verdadeiro mutirão de belorizontinos caridosos devia

ser o primeiro passo para a pretensiosa estratégia vicentina, cujos planos de higienizar a cidade e educar a pobreza, que incomodava os bons cidadãos, deviam realizar-se, em breve, na Cidade Ozanam.

A triagem para separar os mendigos dos pobres considerados honestos e trabalhadores, que não precisavam ser afastados e nem auxiliados, foi devidamente acionada pelo poder público, sendo criada a Delegacia de Mendicância do Estado que, no entender dos seus criadores, iria afastar os falsos mendigos da obra de

benemerência.290 Os vicentinos também possuíam uma triagem para selecionar os

assistidos, a que denominavam sindicância, mas essa era de outra natureza, só ocorrendo quando alguma Conferência ou confrade indicava uma determinada família.

Ainda por iniciativa do Chefe de Polícia, foi criado em 1936 o Albergue Noturno Policial. Com o apoio da Prefeitura, nesse local era realizada a triagem dos indigentes que eram encaminhados, conforme a situação, para o atendimento em cem dos duzentos leitos do Hospital São Vicente de Paulo, contratados pelo município, à razão de 3$000 por dia. Desse modo, procurava-se cuidar também dos pobres doentes, a fim de serem encaminhados à Cidade Ozanam, logo que recuperassem as forças físicas e a saúde.291

Como já foi salientado, as famílias pobres, em especial aquelas cujas mães eram

viúvas,292 e os inválidos que fossem pais de família, eram o alvo principal dos

289

RELATÓRIO DO PREFEITO. Belo Horizonte, 1937. 290

Idem, ibidem. 291

Idem, ibidem. 292

Pode-se observar esta estratégia nos Estatutos da SSVP, do Conselho Metropolitano de Belo Horizonte e de outros Conselhos, nos Relatórios da Cidade Ozanam, que estão completos, tendo sido coletados os dados do período de 1940 a 1992, nas Atas das Reuniões para Criação da Cidade Ozanam, começando pelo ano de 1937. Há ainda vários outros documentos avaliados quanto ao grau de relevância no contexto

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vicentinos, devido ao fato de esses segmentos tornarem-se, na concepção da Ação Católica, suscetíveis a problemas que poderiam desestruturar a família. A Quarta Semana de Ação Social de São Paulo, cujo tema foi A Família e a Questão Social, sugeria que naquele momento histórico, as preocupações com a situação da sociedade, em especial com os pobres e suas condições de miséria, levando qualquer ameaça à organização da família, deveriam ser consideradas da maior importância.293

Portanto, ao criarem a Cidade Ozanam, seus idealizadores tinham em mente atender, principalmente, a alguns segmentos específicos da pobreza. Confirmava-se dessa forma que, por trás de todas essas medidas assistenciais encontrava-se a questão crucial para o pensamento católico e sua ação social, parecendo naquele momento, ser o seu objetivo mais importante: evitar, a todo custo, que a situação de penúria ou de doença dos pais, e suas conseqüências morais, levassem à dissolução da família.294 Essa

preocupação, ligava-se aos propósitos da moral católica, atendendo também ao objetivo de manter, sob vigilância, uma instituição fundamental para a manutenção do processo de proletarização. Repisando, essa idéia de uma pobreza que devia posicionar-se em relação ao trabalho, considerado a verdadeira fonte do progresso material e social, confundia –se com ideários originados da economia moral, amalgamados a uma representação econômica do trabalhador que o projetava como homem ideal.

histórico da Cidade Ozanam, que revelam essa preocupação de amparar as viúvas. As fichas de sindicância consultadas, e outros documentos que se encontram bem conservados e guardados nos arquivos da Cidade Ozanam, confirmam, definitivamente, esse procedimento. Há ainda uma tabulação dos dados encontrados nessas fontes, transformados em quadros que serão analisados em um capítulo a parte, em conjunto com os dados das outras instituições.

293

Ver, principalmente, os textos de CESARINO JUNIOR, A. F. , A Família como Objeto do Direito Social, p. 31-58; KIEHL, Maria, O Trabalho da Mulher Fora do Lar, p.79-114; LIMA, Alceu Amoroso, A Família e o Estado, p. 121-135; SAWAYA, Sonia de Barros. Educação Familiar, p. 321-331 e REIS, Alice Meirelles, Assistência aos Menores, p. 339-348, publicados em A FAMÍLIA E A QUESTÃO SOCIAL. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional/Livraria José Olympio, 1942.

294

Em 1998, numa entrevista sem gravação com um dos líderes vicentinos, Antônio Fernandes Gomes do Nascimento, Presidente do Conselho Central da SSVP de Belo Horizonte, foi possível conhecer importantes detalhes da organização da Cidade Ozanam e das obras vicentinas e ainda, observar que dos

Além dessa preocupação com a família, havia outra questão que se tornou excepcional, a partir do início do século: não deixar que as crianças crescessem sem qualquer instrução. Não apenas a Cidade Ozanam, como também as outras instituições pesquisadas neste trabalho, confirmam essa idéia. Não há como negar que, até os dias, atuais e, principalmente, nos últimos anos, a apreensão da sociedade com relação à educação da juventude pobre aumentou consideravelmente. 295

A possibilidade de essas crianças crescerem abandonadas pelas famílias, nas ruas cheias de vícios,296 que mais tarde as transformariam em grandes problemas para a

sociedade, produziu, desde então, o nascimento de novos saberes endereçados à infância, de uma maneira geral, e à infância pobre, em especial.297

Esses saberes começaram por incentivar o aleitamento do recém-nascido pela própria mãe, combatendo as antigas idéias arraigadas na sociedade, de que até então consideravam as nutrizes e amas de leite mais indicadas para essa tarefa. O saber médico constituiu desde meados do século XIX a sua autoridade junto ao poder público e à sociedade, ampliando cada vez mais o poder da medicina social, cujo objetivo era

primórdios da instituição até hoje as idéias em relação às estratégias assistenciais não se modificaram substancialmente.

295

CIDADE DOS MENINOS – REVISTA ESPECIAL DE INAUGURAÇÃO. Belo Horizonte: SSVP, dezembro de 1998. A Cidade dos Meninos, obra inaugurada recentemente, no final dos anos 90, pelos vicentinos, continua confirmando a primazia do atendimento às crianças e adolescentes. Com um grande projeto, que inclui vários programas de assistência espalhados por 75 mil metros quadrados de área construída em um terreno de 510 mil metros quadrados, prevê a internação de 1.600 meninos, 360 semi- internos e 540 externos.

296

O antropólogo DAMATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis. 5ª edição. Editora Guanabara, 1990: 73-82, analisou o papel da categoria rua no mundo social brasileiro, concluindo que nela encontra- se o descontrole, “o mundo, com seus imprevistos acidentes e paixões,” ao contrário da casa onde existe controle e as coisas estão nos seus devidos lugares.

297

As preocupações com a infância pobre começaram com o aparecimento de uma nova concepção da infância, a partir do último quartel do século XIX. Entre as obras que tratam dessa questão, pode-se apontar: KUHLMANN JR., Moysés. Infância e Educação Infantil. Porto Alegre: Mediação, 1998; FREITAS, Marcos Cezar de (org.). História Social da Infância no Brasil. São Paulo: Cortez Editora, 1997; MARCÍLIO, Maria Luiza. História Social da Criança Abandonada. São Paulo: Hucitec, 1998; DEL PRIORE, Mary (org.). História das Crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999; REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA – Dossiê Infância e adolescência. São Paulo: Humanitas/ANPUH, vol. 19, n. 37, 1999; VEIGA, Cynthia G. e FARIA FILHO, Luciano M. Infância no Sótão. B. Horizonte: Autêntica, 1999.

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acompanhar a saúde, em âmbito coletivo, elaborando regras de higiene aliadas ao sanitarismo para o combate às epidemias.298

A necessidade de abarcar todo tipo de atendimento aos necessitados, em projetos de grande envergadura, era uma velha aspiração dos irmãos leigos vicentinos, que inspirando-se nas idéias difundidas por São Vicente de Paulo no século XVII, preconizavam reunir o mundo todo numa grande rede de caridade. Assim, as obras vicentinas procuravam, em geral, resolver os vários problemas causados pela pobreza, não se restringindo apenas a um tipo de situação.299

Desde que Frederico Ozanam e um grupo de colegas, fundaram a Conferência de Caridade, nos idos de 1833, em Paris, essa obra filantrópica passou a inspirar-se e abraçar a causa de São Vicente de Paulo.300 Os vicentinos organizaram-se em torno de

propostas que visavam ao atendimento maciço dos pobres, salientando-se a visita às famílias e às obras orfanológicas. Sob a inspiração de SãoVicente de Paulo,301 ídolo e

norteador das ações de Frederico Ozanam e seus companheiros, inclusive emprestando seu nome à instituição recém-criada, marcava-se, definitivamente, o modelo assistencial da organização, voltado, principalmente, para os segmentos da pobreza considerados essenciais: os órfãos e as famílias pobres. Esses segmentos eram importantes, não só por

298

Ver por exemplo, COSTA, Jurandir Freire. Ordem Médica e Norma Familiar. 3ª edição. Rio de Janeiro: Graal, 1989; ROSEN, George. Da Polícia Médica à Medicina Social. Rio de Janeiro: Graal, 1979 e GONDRA, José G. Medicina, Higiene, e Educação Escolar. In: LOPES, Eliane Marta T. et alii (orgs.). 500 Anos de Educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 519-550.

299

Ver SOUZA, Marco Antônio de. A Economia da Caridade: estratégias assistenciais e filantropia em Belo Horizonte, 1897-1930, dissertação de mestrado em História, FAFICH-UFMG, 1994, que descreve as obras vicentinas em toda a sua extensão, até o início dos anos 30, p. 57-89.

300

Além de Frederico Ozanam, outros seis estudantes da Sorbone, seus colegas, foram os fundadores da SSVP: Jules Devaux (1811-1880); Auguste Le Taillandier (1811-1886); Paul Lamache (1810-?); E. J. Bailly (1793-1861, 1º Presidente Geral da SSVP); François Lallier (1814-1886) e Félix Clavé (1811-?). Estas e outras informações sobre a origem da Sociedade de São Vicente de Paulo podem ser encontradas nas seguintes obras publicadas pelos próprios vicentinos: REGRA DA SOCIEDADE DE SÃO VICENTE DE PAULO NO BRASIL. Conselho Superior do Brasil da SSVP, Rio de Janeiro: 1993 e VIDA DE FREDERICO OZANAM. 4ª edição. Conselho Superior do Brasil da SSVP, Rio de Janeiro, 1990.

301

São Vicente de Paulo, figura histórica da caridade cristã, fundador das conferências eclesiásticas em São Lázaro, França, por volta de 1632, que redundou no aparecimento dos padres lazaristas.

suas características históricas específicas, no contexto de uma Europa transtornada pelo avanço da industrialização, mas também por constituírem, desde a economia moral, no imaginário cristão-católico, naqueles segmentos mais frágeis da sociedade, suscetíveis a crises que poriam sob ameaça a religião e a autoridade política.

Pelo que se acabou de explicar, pode-se dimensionar a pujança das obras de caridade organizadas pela Congregação da Missão, sob a liderança de Vicente de Paulo, naquele início do século XVII, inclusive, dando sinais claros de expansão com o surgimento de nova organização, paralela a essa, a Companhia das Filhas da Caridade, sob a direção de Luísa de Marilac. Formada pelas moças do interior que ajudavam na assistência aos pobres, essa nova instituição significava uma das mais competentes tentativas de resolver o problema dos pobres nas cidades, causando profunda impressão no meio católico e político europeu do seu tempo.302

Somente no século XX outro movimento de cunho social católico sugeriria nova estratégia tão arrojada e específica para a pobreza dos centros urbanos. A Ação Católica-A.C. que, juntamente com a difusão da Doutrina Social da Igreja, foram mobilizadoras do laicato e das instituições representativas, como a SSVP, que reorganizou e reforçou a assistência aos pobres.

Desde o início do século XX, os vicentinos desenvolveram a idéia de uma cidade para os pobres, cujo embrião foi a experiência adquirida com a obra casinhas de morar, muito comum nas discussões da atas das Conferências. Abrigando as familias pobres adotadas, os vicentinos cuidavam para que elas não sofressem a ameaça de

302

O regulamento original das Filhas da Caridade, criado por Vicente de Paulo, retirado de um pronunciamento do Papa João Paulo II, na REVISTA GRANDE SINAL – São Vicente de Paulo, 400 anos de vida e caridade, N. 7, 1981, mostra o caráter que a caridade assumia, naquele momento, para essas organizações religiosas: “Tereis por mosteiro o quarto dos doentes; por cela a casa de aluguel; por capela a igreja paroquial; por claustro as ruas da cidade; por clausura a obediência; grade o temor a Deus; por véu a santa modéstia; a máxima dessas mulheres seria: ‘Deveis realizar o mesmo que o filho de Deus fez, na terra. Deveis restituir a vida a estes pobres doentes, a vida do corpo e a vida da alma’.”

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desagregação. Eram feitos contratos com os moradores pobres, cobrando-se aluguéis irrisórios, mantendo-se a propriedade jurídica dessas moradias, que continuaria sendo da Sociedade de São Vicente de Paulo.303

Outra novidade nessa reorganização ficou por conta da filantropia científica. Com métodos de intervenção, provenientes dos saberes médico, sanitário e jurídico, incorporados por essas instituições assistenciais católicas, passaram a contar com um aporte de estratégias nunca vistas pela pedagogia do assistencialismo. 304

Toda essa filantropia científica propiciou grande credibilidade e autoridade aos projetos assistenciais, enfocando a questão da infância pobre como prioritária, dando- lhe um status de maior problema a ser resolvido pela sociedade urbano-industrial. O pensamento filantrópico, em geral, acreditava que a criança mal formada era o grande mal a ser combatido. Em Belo Horizonte, a situação perece confirmar, sem grandes alterações, essa preocupação. Na idéia da construção da Cidade Ozanam, em 1937, o chamado problema do menor era apontado como o verdadeiro motivo da nova obra assistencial:

“ Não havia orfanatos em quantidade suficiente e aos poucos os que existiam estavam superlotados. E a necessidade era premente. Uma solução única se apresentava aos Vicentinos, tendo à frente Furtado de Menezes: criar um bairro à parte, junto à Capital, para onde seriam transferidas essas famílias, criar ali uma creche que recebesse as crianças de menos de 7 anos de modo que, pela manhã, as mães entregassem seus filhos e os procurassem à noite, podendo trabalhar durante o dia.” 305

303

Ver por exemplo o Boletim do Conselho Central de Ouro Preto de 1906. 304

É interessante notar que a filantropia científica avançou, no século XX, a passos largos e de braços dados com o mundo acadêmico no Brasil, estreitando relações de cooperação e transferência de saberes com instituições importantes. Veja-se, por exemplo, o trabalho, MARINHO, Maria Gabriela S. M. C. A filantropia científica e a implantação da ciência profissional em São Paulo. São Paulo: Universidade de São Paulo , Departamento de História, tese de doutorado, 1999, mimeo.

305

Priorizando a criança como principal segmento social a ser assistido, jamais se

Benzer Belgeler