5. ESERİN ÖZELLİKLERİ
5.3. Eserin Yazım Şekli
5.3.2. Maddelerin İzah Şekli
Quando se pensou em investigar uma das experiências assistenciais espíritas kardecistas, 309 cuja presença marcante no plano geral da assistência à pobreza em Belo
307
Como lembra Mariza Corrêa, op. cit., 1997, p. 79-85, a mulher/mãe/professora era para os idealizadores da prevenção ao crime, a peça mais importante na educação das crianças. Na falta da mãe, somente aquele pessoal especializado, detentor de saberes específicos poderia substituí-la.
308
Ver esta questão em PENA, Maria Valéria Junho. Mulheres e Trabalhadoras. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981 e o trabalho de GIROLETTI, Domingos, Fábrica, Convento, Disciplina. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1991.
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No Brasil, o espiritismo além de oscilar entre a ciência e a religião, desde o final do século XIX esteve dividido entre dois grupos religiosos: o dos rustanistas (Jean Baptiste Roustaing) e o dos kardecistas (Alan Kardec),. Somente em época mais recente, houve uma predominância dos kardecistas. Ver a este
Horizonte fosse conhecida não apenas pela comunidade espírita, a procura deu lugar a intensa consulta que pudesse indicar, entre os anos 30 e início dos anos 90, uma instituição que se salientasse, principalmente, por sua estabilidade. Chegou-se à conclusão ser melhor consultar a própria comunidade espírita, para encontrar-se a que poderia corresponder ao tipo de instituição assistencial desejado. Para tanto, foi realizado levantamento entre as instituições consideradas mais importantes aos olhos das lideranças mais antigas do espiritismo kardecista, em Belo Horizonte, através de contatos pessoais.
Para obtenção de informações suficientes que permitissem identificar uma instituição assistencial de projeção na educação dos pobres, foram entrevistados, informalmente, vários líderes espíritas em visitas às associações, mantendo contato com suas lideranças em uma das associações mais importantes: a União Espírita Mineira. 310
Com o intuito de se obter as indicações necessárias, as conversas não assumiram caráter investigativo ostensivo, para que essas pessoas, de longa experiência nas atividades espíritas, pudessem manifestar sua opinião com o mínimo de direcionamento.
respeito SANTOS, José Luiz dos. Espiritismo uma Religião Brasileira. São Paulo: Moderna, 1997; AUBRÉE, Marion e LAPLANTINE, François. La Table, le Livre et les Esprits. Paris: Éditions Jean- Claude Lattès, 1990 e ABREU, Canuto. Bezerra de Menezes. 4ª edição. São Paulo: FEESP, 1991. 310
Foi aplicada às entrevistas desse tipo, uma técnica etnográfica de conversar com as pessoas informalmente, não gravando, nem anotando dados no mesmo instante da conversa, não havendo por isso, a preocupação de direcionar os entrevistados; o que interessava saber e anotar fundamentalmente, era o cargo e a função que ocupavam, como Presidente da União Espírita Mineira, casais que dirigem importantes instituições espíritas na cidade, etc. Esse tipo de entrevista onde se anota, momentaneamente, um resumo do que se conversou, pode ser muito útil, também, para esclarecer pontos que se tornam obscuros na interpretação de informações contidas nas fontes escritas ou iconográficas. Um dos objetivos dessa técnica é deixar que o entrevistado fale mais livremente, obtendo, entretanto, informações de caráter pontual numa conversa onde as questões básicas são selecionadas de antemão e outras vão surgindo daquilo que intriga os entrevistadores; vão formulando novas perguntas em meio à conversa, entremeando-as aos assuntos que emergem dos diálogos. Essa técnica pode ser muito útil, talvez mais do que as entrevistas formais, a fim de se obter informações adcionais ou, como neste caso, para identificar alguns aspectos, como por exemplo, a importância que uma comunidade religiosa atribui às suas instituições e quais delas se destacam, etc. Ver a este respeito, FOOTE-WHYTE, William. Treinando a observação participante. In: ZALUAR, Alba (org.) Desvendando Máscaras Sociais .Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975 e SANCHIS, Pierre. Da Quantidade à Qualidade: como detectar as linhas de força antagônicas de mentalidades em diálogos. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. ANPOCS, n. 33, fevereiro de 1997, p. 104-126.
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De todas essas entrevistas, foram obtidas algumas indicações de obras assistenciais espíritas que levaram a uma lista em que se salientava o Abrigo Jesus, educandário voltado para o atendimento de meninas pobres desde os anos 40. Neste gênero, era, sem dúvida, o educandário mais lembrado, e que parecia ser o de maior expressão em Belo Horizonte. A decisão de investigar o Abrigo Jesus partiu, assim, das informações passadas por lideranças do kardecismo em diversos contatos, confirmadas posteriormente em publicações de revistas e jornais do meio espírita que afirmavam ser esta uma instituição das mais destacadas na educação da infância pobre em Belo Horizonte.
Todas as instituições espíritas, em termos de proposta assistencial, assinaladas nas consultas informais, ficavam muito próximas, no que diz respeito ao atendimento a problemas sociais e aos cuidados com as crianças e adolescentes, o que levou à necessidade de se usar outro critério de escolha: a temporalidade da instituição e sua contemporaneidade em relação às demais escolhidas. Assim, ao se perceber que a organização do Abrigo Jesus era contemporânea à implantação da Cidade Ozanam e à experiência do Lar dos Meninos, a opção foi definida.
Verificando-se que essa obra espírita incrementou, definitivamente, sua organização, em 1946, na mesma época do Lar dos Meninos e da Cidade Ozanam, foi vislumbrada a possibilidade de se acompanhar, mais de perto, a tendência diferente da pedagogia assistencial de cunho católico, neste caso, a instituição de seguidores das idéias organizadas pela doutrina elaborada por Allan Kardec. 311 A análise paralela da
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Hippólite León Denizard Rivail, que adotou o pseudônimo de Allan Kardec, nasceu em Lion, França, em 1804, morreu em 1869. De origem católica, estudou no Instituto de Educação na Suíça, cuja direção encontrava-se nas mãos do célebre educador Johann H. Pestalozzi. Como médico, professor e filósofo, desenvolveu sua obra, cuja base esta assentada em três livros: O Evangelho Segundo o Espiritismo; O Livro dos Espíritos e o Livro dos Médiuns. Ver ANTUNES, George Thompson e FERREIRA, Annelise Faber. Novo Dicionário Internacional de Biografias. São Paulo: Nobel, 1998.
atuação dessas instituições levanta uma série de questões que propiciam uma visão de conjunto do assistencialismo em Belo Horizonte.312
Esse enriquecimento deriva também da presença marcante das obras espíritas, no tocante à caridade, que passou a exercer grande influência sobre a população em geral, às vezes, confundindo-se com o próprio cristianismo na amálgama religiosa que constitui o sincretismo religioso em nosso país. Em função dessa presença do espiritismo kardecista na sociedade brasileira, é importante fazer alguns esclarecimentos de ordem histórica, para salientar pontos importantes a respeito das propostas de educação e de assistência que perpassam as instituições dessa natureza.
Desde que Luís Olímpio Teles de Menezes realizou a primeira experiência espírita brasileira, em 17 de setembro de 1865, em Salvador, esse controvertido fenômeno, de cunho científico para alguns, e religioso para outros, não parou de ganhar adeptos no país. O próprio Teles de Menezes se encarregaria de divulgar a novidade, publicando, a partir de 1869, o jornal O Eco D’Além Túmulo. Durante algumas décadas, até o início do século atual, para escapar da intolerância religiosa que, na maioria das vezes, partia do Estado e da Igreja, os grupos espíritas procuraram afirmar- se como defensores da descoberta científica, afastando-se da conotação religiosa que vinham assumindo algumas de suas experiências concretizadas pelo grupo dos místicos.313
312
Não se trata aqui de fazermos uma história comparada, entretanto, abre-se neste caso a oportunidade de análise balizada por alguns métodos comparativos, como nos sugere por exemplo, HAUPT, Heinz- Gerhard. O Lento Surgimento de uma História Comparada. In: BOUTIER, Jean e JULIA, Dominique. Passados Recompostos. Rio de Janeiro: UFRJ/FGV, 1998.
313
Pode-se considerar o kardecismo imbuído de um princípio deísta. Não negando a existência de Deus, os espíritas são, de algum modo, criacionistas, porém, apesar de não se tratar de uma religião revelada aos moldes cristãos, afirmam que ocorreram três grandes revelações com Moisés, Jesus e os Espíritos, a Terceira Revelação de Kardec. Trata-se, no máximo, de uma religião racional e natural, que nasceu sob forte influência iluminista. Ver a este respeito CASTRO, Maria Laura Viveiros de. O Mundo Invisível: cosmologia, sistema ritual e noção de pessoa no espiritismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
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A proclamação da República garantia a liberdade religiosa; por outro lado, a religião católica deixou de ser oficial, afastando-se do Estado que se laicizava. Dessa maneira, se por um lado a Igreja Católica ganhava autonomia, saindo da tutela do Estado, por outro, surgiram e cresceram novas religiões que a obrigaram a lançar mão de ataques contra essas crenças, empregando vários meios que incluíam campanhas
difamatórias na imprensa.314 Além disso, o apoio velado do Estado à Igreja,
propocionava, às lideranças católicas, uma primazia em relação às outras crenças.
Os espíritas, mesmo depois de votada a nova Constituição de 1891, - garantia a liberdade de crença -, continuavam com dificuldades. Em 1890, antecedendo à lei maior, o Código Penal da República condenava a prática do espiritismo e o que se denominava de curandeirismo, ou seja, a prática ilegal da cura.315
Ficava, portanto, evidente, o acirramento das tensões entre o Estado Republicano e o espiritismo, o que tornou complexa a situação dos seguidores de Kardec. Talvez o mesmo tenha ocorrido com o catolicismo, apesar da laicização e do conseqüente fim do regime do Padroado Real que, de algum modo fortaleceu a posição da Igreja; os seus altos dirigentes sentiam a necessidade de reforçar e legitimar, politicamente, sua autoridade.
Embora, na sociedade, as ações não funcionassem exatamente contra os espíritas, em função do longo processo de sincretismo religioso, propiciando campo fértil a uma nova crença que se aproximava do cristianismo e dos cultos africanos,
314
Além do espiritismo, incluindo os cultos africanos e o protestantismo, o comunismo foi considerado um dos grandes inimigos da Igreja e do catolicismo. Cf. ALVES, Márcio Moreira; op. cit. , 1979, p.41- 56.
315
concernente à sua crença animista, podia-se notar ameaça constante às pretensões das lideranças espíritas através de hostilidades partidas do clero católico e do Estado.316
Com o passar do tempo porém, venceu a idéia de nova religião, que, através de um determinado culto, denominado de sessão, cuja presença das lideranças mediúnicas, capazes de evocar os espíritos, podia assim entrar em contato com o mundo dos mortos, ou desencarnados, abria espaço para o contato com o público interessado em geral.317
Esse aliás, é o ponto de partida, para que se possa compreender a concepção de educação dos espíritas kardecistas. A idéia de reencarnação é crucial ao entendimento da evolução do espírito. A crença de que sucessivas transmigrações do espírito podem levá-lo a um aperfeiçoamento moral, através da possibilidade de estudar e aprofundar a própria doutrina espírita e da prática da caridade, resume-se numa máxima kardecista surgida nos primórdios dessa doutrina no Brasil: sem caridade não há salvação.318
Essa salvação deve ser entendida sob outra ótica, não sob a que é defendida na ascese dos cristãos, (uma salvação baseada no julgamento divino ou juízo final). De acordo com os atos praticados pelo homem e o cumprimento ou não das virtudes sua situação é definida com a possibilidade de restaurar a vida que passa a ser eterna ou não. No kardecismo, o sentido da salvação resulta no aprimoramento do espírito tornando-o
316
É interessante observar que houve, desde o final do século XIX, uma separação entre o que se convencionou chamar de baixo espiritismo e o espiritismo considerado de alto nível. Este último estava vinculado a círculos sociais que gozavam de certo prestígio político que amenizava a repressão policial, enquanto o primeiro era identificado com a Umbanda e o Candomblé, associados a fatores raciais, de cunho etnocêntrico, que hirarquizavam assim os grupos praticantes. Com o tempo, a partir do início do século XX, o termo baixo espiritismo acabou associado aos que praticavam o espiritismo fora de associações e grupos organizados. Cf. SANTOS, José Luiz dos; op. cit., 1997, p. 43.
317
Ver KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 59ª edição. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1992, p. 203. Da vasta obra de Alan Kardec, pontuar-se-á algumas questões como esta, para se explicar como os espíritas concebem por exemplo, a idéia de caridade e educação, do ponto de vista de sua ascese. 318
Esta máxima foi a divisa de um famoso grupo espírita organizado em 1873, no Rio de Janeiro, denominado Confucius, e foi a primeira associação espírita brasileira com estatutos publicados na Imprensa Nacional. Apoiando-se na homeopatia, o grupo não recebeu esse nome por causa do filósofo chinês, mas para homenagear um espírito com “elevados princípios de moral” que aparecia nos trabalhos do Dr. Sequeira Dias, seu primeiro presidente. Ver a este respeito, AUBRÉE, Marion e LAPLATINE, François; op. cit, 1990, p. 112-113 e ABREU, Canuto; op. cit, 1991, p. 29-33.
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bom, significando, em sentido amplo o desenvolvimento da humanidade a cada reencarnação. Aprofundando, mais um pouco, a discussão em torno do papel da assistência como elemento decisivo na consolidação das organizações espíritas, o que permitirá entender melhor a questão da educação do espírito nas práticas da pedagogia do assistencialismo kardecista, obrigará a que se continue, mais um pouco, com a discussão em torno da caridade.
Coube a Adolfo Bezerra de Menezes, médico e eminente político católico, que aderira publicamente ao espiritismo, proferindo discurso, em 16 de agosto de 1886, para duas mil pessoas, na sala de honra da Guarda Velha no Rio de Janeiro, propor mudanças nas organizações espíritas, visando novos rumos ao movimento.319 Um deles foi a idéia,
cada vez mais forte, de se adotar a assistência aos necessitados, assumindo a importância da caridade, a fim de consolidar a doutrina no país. Para os espíritas essa era também uma oportunidade de se redimirem, tornando-se bons, expiando-se as culpas de vidas passadas. Isso é fundamental no processo de evolução dos espíritos que é o ponto nevrálgico da doutrina kardecista. Trata-se de um processo biunívoco: à medida que educo, educo-me e vice-versa.
A assistência aos pobres, um dos pontos de discussão entre os espíritas, parece ter se inspirado nas experiências assistenciais vicentinas ainda no final do século XIX. Em alguns casos, os vicentinos se converteram ao espiritismo.320 Dessa forma, socorrer
319
Cf. ABREU, Canuto. Bezerra de Menezes. 4ª edição. São Paulo: FEESP, 1991. Bezerra de Menezes é considerado, por praticamente todos os autores, como o grande consolidador do espiritismo no Brasil. Cf. AUBRÉE, Marion e LAPLATINE, François, op. cit., 1990, capítulo intitulado Le Docteur Bezerra de Menezes, p. 118-125, “quando este líder fundou a Federação Espírita Brasileira – FEB, nasceu o primeiro núcleo espírita forte no país.”
320
Um desses convertidos de renome foi Canuto Abreu, outro, Eurípedes Barsanulfo, que antes de abraçarem o espiritismo foram destacados católicos. Ver ABREU, Canuto, op. cit., 1991, p. 11-12 e RIZZINI, Jorge. Eurípedes Barsanulfo o Apóstolo da Caridade. 4ª edição. São Bernardo do Campo-SP. 1987, p. 38.
os pobres “à moda vicentina” passou a ser um dos pilares da Federação Espírita Brasileira.321
Em 1884, surgia, no Rio de Janeiro, a Federação Espírita Brasileira – FEB, que, em 1890, criava o Serviço de Assistência aos Necessitados. Além das atividades de assistência espiritual mediúnica, já conhecidas, essa instituição desenvolvia a assistência dos médiuns receitistas. Nesse caso, a homeopatia, como conhecimento médico, adquiria uma forte expressão para os espíritas.
A estratégia da FEB passava a se valer do assistencialismo para divulgar o espiritismo no país, tal qual o faziam os vicentinos, como se pode depreender dessa opinião de um dos grandes líderes espíritas.
“ O trabalho fundamental da Federação era a propaganda do Espiritismo e o seu desideratum era o proselitismo. A aspiração dos seus diretores era aumentar quantitativamente o seu quadro social, o seu auditório, o número de seus leitores. Para estas finalidades usavam-se três instrumentos: o Reformador, que levava os resultados de experiências e elucubrações estrangeiras, com pouquíssima colaboração nacional; a reunião de sexta-feira, em que uma tese era posta em debate, usando a palavra quem quisesse externar seu ponto de vista, e a Assistência aos Necessitados, que socorria os pobres à moda vicentina. (os grifos são do autor)” 322
A partir dessas experiências assistenciais, ficava mais evidente, como reconheceram os espíritas, a função do atendimento aos pobres por prestar indiscutível serviço ao prestígio social da Federação Espírita Brasileira, divulgando sua doutrina. Enquanto minguavam as sessões de sexta-feira, reunindo cada vez menos ouvintes, cresciam, na mesma proporção, as consultas da homeopatia mediúnica. Entre discussões teóricas de textos publicados no jornal Reformador e as agruras do cotidiano da
321
ABREU, Canuto, op. cit., 1991, p. 55. 322
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pobreza, venciam estas últimas. A caridade espírita misturava-se, naquele final do século XIX, às experiências vicentinas, para promover o atendimento às necessidades de significativo contingente da população pobre que se encontrava em processo de transição do mundo escravista para o novo mundo do trabalho. Localizada, principalmente, no meio urbano, que acabaria refletindo quase todas as mazelas sociais herdadas pelas gerações vindouras de trabalhadores livres, essa massa de trabalhadores empobrecidos seria alvo também das estratégias de repressão desencadeadas pelo aparato policial.323
Vencido, portanto, esse desafio de aceitar a assistência dentro do princípio cristão de conversão pela caridade, ficava evidente aos espíritas que esse caminho podia fortalecê-los junto à sociedade, como assinalou um grande líder da época: “A
Federação pode estar errada na sua propaganda doutrinária, mas possui uma Assistência aos Necessitados, que basta por si, para atrair sobre ela as simpatias dos
servos do Senhor”324 Foi dessa maneira que a filantropia espírita proliferou-se,
ganhando espaço junto à parcela mais pobre da população.
Embora as publicações tivessem adquirido notoriedade no meio espírita, com abundante variedade de livros sobre os mais variados assuntos, escritos pelo viés doutrinário, desde as famosas obras psicografadas, até tratados de educação espírita, foi no atendimento aos doentes, no tratamento dado pelos médiuns, nas farmácias homeopáticas, com distribuição gratuita de remédios, e, enfim, no atendimento
323
Ver a este propósito, KOWARICK, Lúcio. Trabalho e Vadiagem, a origem do trabalho livre no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.
324
espiritual na chamada desobsessão, que vingou o espiritismo, enquanto religião e se popularizou com extrema rapidez.325
A terapia dos médiuns curadores sempre inclui recomendações morais que procuram convencer os doentes a praticarem o bem e a terem bons pensamentos, além do incentivo à pratica da caridade. A aproximação do espiritismo com a homeopatia, ampliou a capacidade de atendimento aos necessitados com a introdução de enorme variedade de remédios aproveitados de plantas e ervas encontradas, em geral, nos próprios quintais das residências, nas hortas comuns, prescrevendo-se, inclusive, a própria água fluidificada, etc.326
Retomando a questão da educação, vista pelos pensadores do espiritismo como elemento central de sua doutrina, e não apenas como complemento de suas atividades assistenciais que, nesse caso, ganha dimensão estratégica, ainda mais acentuada, torna- se oportuno traçar as linhas mestras dessa pedagogia do assistencialismo. Portanto, para que se possa entender os objetivos desse grupo de assistentes e de suas práticas educativas, nas instituições de assistência e obras sociais, torna-se necessário, apresentar, com antecedência, algumas das idéias norteadoras de várias instituições tais como o Abrigo Jesus.
Um aspecto que empresta considerável autoridade à pedagogia espírita e que, de algum modo a coloca ao lado das concepções da chamada pedagogia contemporânea, é sua filiação a Pestalozzi que, por sua vez, identifica-se com a moderna concepção rousseauniana de educação.327
325
Para os kardecistas, a saúde tem um componente moral ligado à evolução do espírito; assim, muitas doenças derivam da interferência de espíritos malévolos causando as obsessões, combatidas por médiuns em rituais especiais de desobsessão.
326
É interessante notar que os passes foram criados pelos homeopatas como processo auxiliar da homeopatia, e que depois foram adotados pelos espíritas. Ver e este respeito SANTOS, José Luiz dos, op.