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2.7. Britanya’da Psikolojik Danışma ve Rehberlik Hizmetleri

2.7.5. Britanya’da mesleki rehberlik hizmetleri

2.7.5.3. mesleki rehberlik eğitimi

Para localizar juízes e advogados no interior do campo judicial, considero a existência de uma luta simbólica entre profissionais que possuem distintas trajetórias pessoais além de

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Freitas (2006) salienta que o Tribunal de Justiça de São Paulo instituiu o concurso para a carreira judicial desde 1922.

63 competências técnicas e sociais também desiguais. O resultado dessa luta e do apoderamento de capitais tão diversos reflete-se na capacidade de ―mobilizar, embora de modo desigual, os meios ou recursos jurídicos disponíveis [...] para fazerem triunfar a sua causa‖ (BOURDIEU, 1989, p. 224). No que tange aos advogados, penso especialmente escorregadia a pretensão de fixar sua posição no campo judicial, até porque uma das variáveis capazes de determinar tal posição é exatamente o lugar da sua clientela na hierarquia social.

Portanto, a relativa autonomia de que goza o advogado para aceitar ou recusar determinada causa dá a ele certo prestígio, juntamente com o capital específico que consiste em constituir litígios jurídicos a partir de problemas vulgares.

(um dos poderes mais significativos dos lawyers é constituído pelo trabalho de expansão, de amplificação das disputas: este trabalho propriamente político consiste em transformar as definições admitidas transformando as palavras ou os rótulos atribuídos às pessoas ou às coisas, quer dizer, frequentemente, recorrendo às categorias da linguagem legal, para fazer entrar a pessoa, a ação, a relação de que se trata numa classe mais larga). São também os profissionais quem produzem a necessidade dos seus próprios serviços ao constituírem em problemas jurídicos, traduzindo-os na linguagem do direito, problemas que se exprimem na linguagem vulgar e ao proporem uma avaliação antecipada das probabilidades de êxito e das conseqüências das diferentes estratégias; e não há duvida de que eles são guiados no seu trabalho de construção das disputas pelos seus interesses financeiros, e também pelas suas atitudes éticas ou políticas, princípio de afinidades socialmente fundamentadas com os seus clientes (BOURDIEU, 1989, p. 232).

É certo que essa transmutação do conflito só pode ser feita por profissionais habilitados a ingressar no campo judicial que, além da necessidade do instrumento de procuração, precisam também dominar as leis escritas e não escritas do campo. Ademais, não se pode olvidar que a judicialização do conflito culmina por privilegiar determinadas lutas individuais (ainda que coletivas) em detrimento de outras maneiras de lutar (BOURDIEU, 1989).

64 Sem nos determos propriamente à judicialização do conflito, pretendo, por ora, sublinhar a liquidez característica da figura do advogado. De fato, sua posição no campo judicial vai depender menos do domínio das leis escritas (o que não significa que não dependerá) do que daquilo que aparentemente não faria parte do campo. Variáveis relativas ao prestígio do representado à causa que representa e contra quem litigam são fundamentais na formatação e na determinação da posição dos advogados no campo judicial. Assim, considero hipoteticamente, que os advogados que representam os atingidos por barragens hidrelétricas frente aos grandes empreendimentos não se encontram numa posição favorável na hierarquia do campo jurídico ambiental22.

Como dito, quando um espaço judicial é instituído, mesmo aqueles que estão representados por advogados permanecem excluídos por não poderem transpor a letra da lei e ingressar no jogo jurídico autonomamente, o que significa que somente os agentes especializados estão autorizados a participar de forma direta. Essa situação de exclusão pode ser melhor verificada nas causas tuteladas pelo Ministério Público.

Após a Constituição de 1988, o Ministério Público – que até então tinha a função de atuar como advogado do Estado - passa a atuar na defesa dos chamados direitos individuais indisponíveis, difusos e metaindividuais. Entretanto, no que se refere à matéria ambiental, a Lei nº 6.938 havia, em 1981, estabelecido o Ministério Público da União e dos Estados como

22 Considerei como posição favorável na hierarquia aquela capaz de mobilizar mais facilmente os demais atores jurídicos, aquelas cujos argumentos teriam maior aceitabilidade em um contexto judicial. Os litígios que têm como objeto a instalação de usinas hidrelétricas são perpassados por discursos que sustentam a produção de energia limpa, o risco da escassez energética e o desenvolvimento sustentável, aceitos aprioristicamente como verdadeiros e irrefutáveis.

65 ente competente à propositura da ação de responsabilidade civil e criminal por danos causados ao meio ambiente (CAPANEMA, 2009).

Para colocar-se como instituição competente para a defesa dos chamados direitos metaindividuais, o Ministério Público precisou adotar o discurso da hipossuficiência da sociedade (CAPANEMA, 2009). Com isso, reforça o que Santos (2004) chamou de monocultura do saber: exclui e minimiza a experiência daqueles que não detém o conhecimento técnico para o ingresso no campo judicial. Revela-se, portanto, ―a arrogância de não querer ver e muito menos valorizar a experiência que nos cerca, apenas porque está fora da razão com que a podemos identificar e valorizar‖ (SANTOS, 2004, p.785). O discurso acerca da necessidade da existência de um tutor para uma sociedade frágil, incapaz de se mobilizar, tem sua origem, segundo Capanema (2009), no interesse do Ministério Público em ver valorizadas e reforçadas as funções conquistadas pela instituição ao longo de sua história.

Indiferente, mas não desinteressada, a atuação dos agentes jurídicos provoca certo distanciamento neutralizante que, no que diz respeito aos magistrados, constitui elemento nuclear de seu habitus (BOURDIEU, 1989). Todavia, é exatamente o papel de intérprete adstrito à aplicação legal que permite aos magistrados dissimularem a atividade de criação jurídica presente no ato decisório. O paradoxo reside no fato de que tal prática de gestão de conflitos termina por adaptar o sistema jurídico à realidade; os ―juízes estão sempre inclinados, pela sua posição e pelas suas atitudes‖ (BOURDIEU, 1989, p. 221).

Ainda que se possa considerar a história de vida uma variável presente na atividade de todos os operadores do direito, contribuindo inclusive para localizá-los na estrutura do campo, não

66 se pode olvidar que a autonomia inerente à própria atuação do juiz permite-lhe deixar de ser um simples executor da letra da lei, dando-lhe o que Bourdieu (1989) chamou de função de invenção. Segundo o autor, ainda que as regras positivadas reduzam as possibilidades de atuação, é inegável que os agentes jurídicos (em especial os juízes) possuem distintos graus de sujeição à lei. Nesse sentido, não há dúvidas que as decisões carregam algo de ―arbitrário, imputável a variáveis organizacionais como a composição do grupo de decisão ou a atributos dos que estão sujeitos a uma jurisdição nas decisões judiciais‖ (BOURDIEU, 1989, p.223).

Essas decisões estão inscritas numa lógica que pretende conciliar conflitos por meio de códigos racionais nos quais sujeitos com interesses antagônicos são colocados como iguais. Enfim, por meio da manifestação pública dos conflitos sociais, o Poder Judiciário oferece soluções reconhecidamente imparciais graças ao manto pré-definido de normas positivas inscritas no complexo lógico legal. A conversão do conflito num diálogo de experts, dentro de um procedimento ordenado para alcançar a verdade, culmina por colocar à margem outras formas de reivindicação ou de luta (BOURDIEU, 1989). O processo judicial está impregnado de um simbolismo legitimador que lhe permite operar sua racionalidade em distintos lugares, servindo aos mais diferentes interesses e grupos sociais.

O trabalho de racionalização, ao fazer aceder ao estatuto de veredicto uma decisão judicial que deve, sem dúvida, mais às atitudes éticas dos agentes do que às normas puras do direito, confere-lhe a eficácia simbólica exercida por toda a acção quando, ignorada no que têm de arbitrário, é reconhecida como legítima (BOURDIEU, 1989, p. 225).

Isso, porque a sentença exarada pelo juiz está revestida de roupagem totalmente diversa de qualquer palavra dita por um particular, o que significa que enquanto o magistrado proclama publicamente o que as coisas são, resta aos demais tão-somente suas convicções, sem

67 qualquer poder jurídico agregado, stricto sensu falando. Em resumo, os veredictos ―são atos mágicos que são bem sucedidos porque estão à altura de se fazerem reconhecer universalmente, [...] que ninguém possa recusar ou ignorar o ponto de vista, a visão que eles impõem‖ (BOURDIEU, 1989, p. 237).

A esta altura, algumas considerações acerca da posição dos atores no campo jurídico já podem ser feitas. De início, não se pode olvidar que esse campo está indissociavelmente ligado ao monopólio do serviço jurídico, ou seja, os profissionais do direito possuem o capital técnico que lhes garante o domínio do acesso ao campo, inclusive a eleição dos conflitos que nele entrarão. Aqueles que ingressam no campo renunciam ao direito de atuar em seus próprios conflitos, ficando reduzidos à condição de clientes.

Sobre a hierarquia, a despeito de a legislação sustentar sua inexistência, considera-se que a tentativa de proclamar uma paridade entre os agentes jurídicos caracteriza a própria forma de atuação do campo. Ou seja, a determinação, por meio de argumentos racionais, de uma igualdade entre os operadores do direito é construção jurídica que desvia a atenção do fato de a concentração de poder estar na figura do juiz. Além disso, como já foi dito, a história da formação dos primeiros juízes no Brasil mostra a posição privilegiada que gozavam (e ainda gozam) na hierarquia social; era mais interessante ser juiz do que ser advogado ou funcionário público.

E isso se deve exatamente ao que Bourdieu (1989) chamou de nomeação. Por praticarem os atos de nomeação - a sentença que proclama publicamente o que as coisas e ou pessoas são (culpadas ou inocentes, por exemplo) -, os juízes ocupam a posição mais poderosa no campo

68 jurídico. A eficácia simbólica desses atos lhes confere a autoridade de serem reconhecidos universalmente. Além disso, a parcela de autonomia (ligada ao poder de invenção) da qual dispõem os juízes constitui capital específico, responsável por fixar sua posição superior no espaço social. Já os advogados não possuem uma posição específica; sua mobilidade está intimamente adstrita a questões relativas aos clientes e às causas que representam. Conseqüentemente, seu capital político igualmente dependerá da força agregada dessas variáveis. A posição dos promotores no campo judicial dependerá mais da causa que representam do que do capital específico de sua carreira, posto que o argumento histórico de defesa dos direitos metaindividuais lhes confere exclusividade e prestígio na sua atuação profissional, resultando numa posição privilegiada no campo. A seguir, tento ilustrar o funcionamento do campo judicial.

Figura 1 - Campo Judicial

O veredicto proferido pelo juiz é a resultante de ―uma luta simbólica entre profissionais dotados de competências técnicas e sociais desiguais, capazes de mobilizar, embora de modo desigual, os meios ou recursos jurídicos disponíveis‖ (BOURDIEU, 1989, p. 224). Aliado a

69 isso, está a parcela de autonomia da qual gozam os magistrados, por meio da qual se percebe as interferências das experiências de vida, bem como do espaço social por eles ocupado no momento de sentenciar.

É preciso considerar que o procedimento jurídico processual ocorre em local institucionalizado de manifestação de discursos. Logo, uma das possíveis abordagens acerca dos autos do processo seria ver o procedimento como espaço de comunicação pública, no qual se acomodariam interesses com vistas à dissolução de conflitos. Todavia, o próprio processo judicial possui natureza de conflito, no qual as partes, além de ocuparem posições reconhecidamente antagônicas, gozam de poder assimétrico de persuasão ao colocarem em confronto seus respectivos projetos políticos (ZHOURI et al, 2005; DAGNINO, 2004).

A judicialização do conflito ambiental conforma o debate entre diferentes perspectivas, representações e discursos. Os autos do processo colocam em evidência o chamado campo ambiental (ZHOURI et al, 2005), no qual figuram o capital técnico, representado pelo conhecimento e pelo discurso técnico-científico; o capital político, expresso na facilidade de trânsito nas instâncias de decisão ou mesmo no potencial de conferir maior visibilidade aos interesses articulados; o capital econômico, que se traduz na capacidade de articular e mobilizar estratégias legítimas de convencimento a partir da posse de recursos financeiros (ZHOURI,1998; CARNEIRO, 2005). O curso e a decisão do processo judicial ambiental estão expressos na junção desses capitais, isto é, na capacidade que cada parte tem de articular esses poderes e transpô-los para dentro dos autos do processo.

70 legalmente legítimas suas diferentes perspectivas, representações e discursos para terem reconhecidas suas distintas formas de apropriação do território (ACSERALD, 2004a). Via de regra, os atores presentes no campo judicial ambiental são os advogados das partes que estão em conflito direto, o ministério público e o juiz. O campo jurídico ambiental está delimitado por duas vertentes: a primeira (hegemônica) é a da Modernização Ecológica e a segunda, que pretende desconstruir a chamada doxa desenvolvimentista (CARNEIRO, 2005), é a da Justiça Ambiental. Enquanto o paradigma da Modernização Ecológica postula a eficiência da técnica e a lógica de mercado como soluções para a degradação ambiental, a Justiça Ambiental se baseia em princípios capazes de assegurar ―que nenhum grupo de pessoas, sejam grupos éticos, raciais ou de classe, suporte uma parcela desproporcional das conseqüências ambientais negativas de operações econômicas, de políticas e programas federais, estaduais e locais‖ (HERCULANO, 2006, p. 2).

Embora até o momento não existam dados numéricos que indiquem a proporção de processos judiciais iniciados por atingidos face à quantidade de litígios iniciados por empreendedores contra os primeiros, as atividades de assessoria jurídica prestada através do GESTA-UFMG me faz crer que a primeira situação tende a ser mais recorrente. Com isso, ouso afirmar que o processo judicial é a materialização do terreno de disputas estabelecido pela doxa desenvolvimentista, através do qual a heterodoxia pode se revelar pública e institucionalmente. O reforço da doxa representa-se simbólica (CARNEIRO, 2005) e realisticamente no não provimento judicial das causas nas quais os atingidos figuram como parte autora. O próximo capítulo abordará aquele que entendo ser a figura central de um processo judicial, para o qual todas as partes estão voltadas e submetidas: o juiz.

71 CAPÍTULO 3 - OS JUÍZES E SEUS CASOS

72 De todos os temas jurídicos tratados pela literatura, o do Juiz – do julgamento, do processo, da condenação – é com certeza o mais recorrente. Sem dúvida, a intensidade dramática do processo, assim como sua unidade de tempo, de lugar e de ação, contribuem muito para isso, conferindo-lhe quase naturalmente uma forma teatral, que a indumentária, a distribuição cênica dos papéis dos protagonistas e a presença do público também confirmam, Mas há mais: o processo é o direito em ação, é a vida, sempre singular, que interroga a lei (ao menos tanto quanto o inverso), é a ficção judiciária (ainda muito próxima da “realidade”) que escava e subverte, que “ultrapassa” a ficção jurídica. Entre as duas – entre o “bom e o legal”, como diz P. Ricouer – está o juiz, homem da lei certamente, entrincheirado atrás de sua toga e de seu código, mas às vezes também homem sensível, exposto ao recurso que os personagens intentam diante dos leitores, juízes últimos da ficção literária (FRANÇOIS OST, 2004).