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4.2.4.4 Yanık Fotoğraflar

4.2.4.5.1. Mesaadet Hanımefend

tipo cinco ou seis anos antes, não tinha toda aquela infra-estrutura que eles tinham quando a gente foi. Então, em termos de infra-estrutura, não deixou nada a desejar (entrevistado “H”).

Dando-se essa nova organização sócio-espacial sobre uma outra preexistente (o que Santos chama de sobreposições), não se pode crer não aparecerem embates e conflitos decorrentes deste encontro de forças e ações, muitas vezes exteriores aos habitantes produtores e mantenedores desses espaços. O Projeto Parque das Dunas-Via Costeira é um exemplo da atuação governamental na implantação, modificação e intencionalidade de uso de espaços que, com tal implantação, aceleraram a segregação e a especialização de seu novo uso, revelando, como esclarece Santos, uma nova teoria de valor tanto dos novos ou antigos usuários, quanto dos diferentes aspectos do ambiente, agora valorizados numa verticalização da produção com novos fluxos que podem estar distantes das horizontalidades organizacionais das relações sociais pré-existentes nos espaços, agora destinados para tal finalidade.

Como afirma Santos, as horizontalidades possuem diferentes mecanismos que buscam sobreviver às investidas de novas verticalidades, numa dialética que constrói, muitas vezes, novas formas de organização espacial e temporal. Tais fatos podem ser, por exemplo, relacionados aos barraqueiros e ambulantes nas praias e dunas que trabalham distantes do processo hegemônico desejado pelos agentes institucionais, mantendo ainda uma organização social, espacial e temporal calcada nas relações mais antigas

a gente chegava nas dunas e tinha barraquinha assim para turista e tal não sei o que, e que, ao mesmo tempo, tinha evoluído mas eu achei muito fraco. Eu fiquei surpreendida como eles não estão ainda preparados, muito devagar. Sabe, você vê aquele povo estrangeiro tentando comunicar, não sei como que sai a comunicação dali, entendeu? Mas, cara com dinheiro para gastar, eles tem muito dinheiro para gastar, pô, eles trabalham com euro, entendeu? E chega ali, então falta muito ainda. Não sei como o prefeito não faz nada. Eu não sei quem é responsável por isto, mas eu sei que tinha que ser mais evoluído, sabe. Isto foi o que mais me marcou (entrevistada “E”).

Natal, no seu processo turístico, parece conviver com horizontalidades e verticalidades em suas práticas sociais, numa permanente luta de diferentes agentes pelo espaço e desenvolvimento social e econômico. A grande convivência de prestadores de serviços informais com os formais faz a dinâmica de tais práticas revelarem, também, outras disputas de poder e de espaços entre grupos e indivíduos.

A racionalidade com que são planejados tais projetos e megaempreendimentos relaciona, diretamente, o pensamento de Elias ao de Milton Santos, quanto a fatores não econômicos, relacionados à população destes lugares, serem pouco considerados em tais implantações, numa vitória de um Processo Civilizador apartador e segregador, mas economicamente viável, porém, para poucos.

Nesse sentido, o trabalho de Fonseca (2002) desmistifica o processo turístico como grande agente de desenvolvimento econômico e social através da criação de empregos, no momento em que ressalta que, apesar do turismo passar a ser a segunda atividade que mais emprega em Natal, ficando atrás apenas do setor público, caracteriza-se por uma grande precariedade. A autora afirma ainda a contradição existente no processo entre a importância do trabalhador na composição do produto turístico e a precariedade de tal trabalho e busca elencar alguns motivos que estariam por trás desta precariedade. O primeiro é a sazonalidade da atividade, que provoca uma grande rotatividade de mão-de-obra e uma dificuldade de retenção dos trabalhadores; o segundo são os baixos salários praticados e o terceiro é o limitado prestígio dos trabalhadores que atuam neste segmento, relatando ainda a baixa formação escolar, inclusive maior do que em outros segmentos de atividade da cidade. Ocorre assim, segundo a autora, um problema estrutural no trabalho relacionado à atividade turística

Por um lado, os empresários reclamam da qualidade da mão-de-obra empregada, por outro, os trabalhadores mais qualificados se recusam a permanecerem no segmento dada a precariedade das relações de trabalho e o pouco prestígio que tais cargos lhes proporcionam (FONSECA, 2002, p. 4).

Eles não são tão preparados para o turismo. No hotel, por exemplo, tinha muito turista estrangeiro, italiano, e eles não falavam inglês, falavam muito mal. Os garçons não falavam, para eles entenderem... Isso eu achei muito, assim, que eu esperava que Natal já estava mega, assim, turístico, sabe (entrevistada “E”).

Mas sempre falta alguma coisa, como toda cidade do Nordeste, o pessoal acaba pegando mão-de-obra barata para não pagar caro. Pega aquela mão

de obra não especializada. Apesar deles tentarem te ajudar em tudo, acaba vendo que não é um serviço especializado (entrevistada “B”).

Contudo, apesar desta precariedade, relacionada diretamente à sua invisibilidade, o discurso institucional do Estado e demais agentes do processo destacam sempre o potencial de geração de empregos como sendo um dos fatores positivos para a implantação do processo, enfatizando mais a sua quantidade do que a sua qualidade. Isso vem ao encontro do discurso institucional do Turismo como promovedor da diminuição de desigualdades sociais, ponto bastante questionado pelo pouco progresso social de aumento de qualidade de vida verificado em localidades nas quais tal processo foi implantado11

Outra questão relevante de análise é o que Cruz relata sobre a apropriação do espaço turístico

a apropriação do espaço pelo turismo é restrita ao trade turístico, aos atores hegemônicos que controlam a atividade, e a forma como se dá essa apropriação, principalmente no turismo de hotelaria, acaba por se configurar como um impeditivo à apropriação desses territórios pelos turistas (CRUZ, 2000, p. 24).

eles já têm os lugares para te levar, lugares que te levam é onde vai turistas, é o show folclórico, jantares, tudo turístico. Então se você vai por pacote, já vai virado tudo para o turístico (entrevistada “B”).

Então, aonde vai turista: feirinha, Forte, restaurante, a gente procurava este tipo de coisa, sorveteria, porque lá é muito quente, nós fomos em outubro. Lugar onde a população freqüenta, não (entrevistado “F”).

Tais afirmações enquadram-se no turismo desenvolvido na região de Natal, principalmente quando se observou nas entrevistas e fotografias, praticamente, os mesmos passeios, lugares e relatos, verificando-se a interação de tais espaços através de roteiros institucionalizados, já definidos pelos agentes do processo, inibindo qualquer distanciamento destes. Todavia, tais roteiros ou apropriações espaciais refletem, também, por sua vez, adaptações aos desejos, representações, valores e necessidades de seus “clientes”, os turistas.

Neste mesmo sentido, precisam ser observadas as mudanças das funções relacionadas às formas como é, por exemplo, o caso das dunas, cujo processo é dinâmico e recebe influência do contexto que o envolve, pois, como afirma Santos, os elementos do espaço dependem do seu papel no contexto analisado e sua alteração depende e influencia os demais. As dunas já não são mais o signo de um espaço deserto, produzido pela

natureza, em que pouco ou nada se produz. Tais espaços passaram a ser os mais valorizados para a visitação e, como menciona uma entrevistada, motivo principal da viagem. Nestes espaços juntou-se desde as representações sociais de paraíso, de beleza estética, de emoção e aventura dos turistas, até a prestação de serviço e comércio. A forma física das dunas continua “quase” a mesma, mas seu conteúdo, ou seu valor, o qual reflete suas práticas e representações sociais, foi substancialmente alterado.