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Feride Çiçekoğlu’nun Kronolojik Özgeçmiş

Dentre as características do desenvolvimento do Processo Civilizador ressalta-se aqui duas que influenciaram diretamente o aparecimento e desenvolvimento da atividade turística na atualidade, quais sejam: o condicionamento ou adestramento histórico de emoções e impulsos para a obtenção de ganhos individuais e grupais nas interações sociais, e as atividades substitutas criadas para a liberação dessas emoções. As emoções, agora “civilizadas”, precisaram encontrar uma forma racionalizada para se manifestarem, transformando-se de manifestações ativas e freqüentemente agressivas, a manifestações passivas e mais controladas, em que principalmente a visão torna-se o maior mediador do prazer. Elias assinala este aspecto

A vida torna-se menos perigosa, mas também menos emocional ou agradável, pelo menos no que diz respeito à satisfação direta do prazer.

Para tudo o que faltava na vida diária um substituto foi criado nos sonhos, nos livros, na pintura. De modo que, assistem em filmes à violência e à paixão erótica (ELIAS, 1993, p. 203).

Se, por um lado, o lazer e o turismo pareçam ter-se favorecido, numa primeira análise, da ampliação do tempo livre, favoreceu-se, também, da necessidade social de criação de atividades substitutas para expressão de sentimentos, emoções e impulsos. Se o lazer é, como afirma Proni (2001), um meio de produzir emoções nos marcos socialmente aceitáveis, pela necessidade de alívio de tensões resultantes do esforço contínuo de autocontrole, a mobilidade que o turismo proporciona associa-se imediatamente a esse desejo, provocando a condição alocativa do sujeito no território, o que permite alargar os padrões rotineiros de normalidade de conduta. Escapar das pressões, das instituições que a controlam e da força do autocontrole de impulsos e emoções, com a crença ilusória na livre escolha, pode explicar a grande busca pelo lazer na atualidade e, neste caso, o Turismo no momento em que se elegem destinos para tal finalidade.

Transposto para os dias atuais e para a discussão sobre o tempo livre, Gebara (2002, p. 84-86) fundamenta-se em Elias para sua análise do lazer moderno como sendo “um efeito histórico específico” da época vivida e “uma construção social em si”, apresentando- se hoje mais “privatizado, individualizado, comercializado e menos violento” – conseqüência de “condutas mais normatizadas por restrições sociais e psicológicas”.

O padrão anterior ao Processo Civilizador era de simplicidade, com menores nuances psicológicas e menor complexidade na figuração dos sujeitos e mesmo individualmente, em que os sentimentos e comportamentos eram mais polares e menos controlados. Com o desenvolvimento desse processo, tal simplicidade passou a ser considerada como característica de inferioridade, de menor valor, por não se encontrar em sintonia com os novos valores ocidentais, como a complexidade e controle social de comportamentos, o autocontrole, o desenvolvimento da tecnologia que permeiam tanto processos sociais de interação, quanto de produção econômica, e a maior interdependência entre os indivíduos.

O processo que produziu a fragmentação das atividades e funções sociais, alterando de maneira decisiva a interdependência dos indivíduos, como também aquele que provocou uma fragmentação das relações entre os homens e seu meio ambiente deve ser visto como contexto macroenvolvente decisivo para a fermentação de um imaginário no qual o

sentimento de domesticação da natureza pareça razoável, tanto quanto o da superioridade humana em relação à mesma.

Com isso, verifica-se que essa domesticação passou a implicar na artificialização dos meios materiais de suporte à vida social do qual, por um lado, a cidade com suas ruas, prédios, transportes é sua maior expressão; de outro, a chamada natureza, com suas praias, montanhas, plantas passa a ser o “refúgio” da agitação citadina. Mas, curiosamente, será refúgio, desde que guardadas as qualidades de fixos e fluxos essenciais da modernidade urbana.

Assim como só a vida na corte dava aos nobres a existência de classe superior, os indivíduos podem estar procurando situações, ambientes ou grupos que também os façam sentirem-se superiores, visto a dificuldade em conseguirem tal sentimento no seu cotidiano. O turismo oferece a oportunidade de manifestação deste sentimento, com a justificativa racional da necessidade de lazer, viagem, belas paisagens, descanso, assim como de desenvolvimento econômico e social da região.

O desenvolvimento do processo turístico costuma desencadear um maior oferecimento de serviços e oportunidades de trabalho, com maior circulação de moeda e conseqüente aumento de população local. Encontra-se também acompanhado, desde uma mudança na expectativa dos sujeitos locais, até uma conformação espacial para um novo modo de produção com uma maior divisão de funções e aumento na cadeia de produção. Estas alterações podem ser sentidas pela população, inicialmente, como uma melhoria na qualidade de vida ou uma ascensão social, porém tal fato torna-se questionável, já que aumentam também o número de necessidades que os sujeitos passam a sentir e a buscar. Parece ocorrer o mesmo padrão de desenvolvimento do Processo Civilizador nos locais: aumento do tamanho das cadeias de ação e interdependência, aumento da circulação da moeda, maior divisão de funções, necessidade de maior capacidade de síntese, aumento da criação de fixos e fluxos, maior controle social e autocontrole, dentre outras mudanças.

A estrutura social e física relacionada no processo turístico é bem conhecida pelos turistas, mas quando da implantação do processo é, normalmente, desconhecida pela população local, principalmente se esta for mais simples, causando insegurança e abertura para influências de interesses externos, muitas vezes distantes da realidade local. Os sujeitos locais do processo turístico, caso não consigam ter pleno conhecimento e ação

dentro deste, podem vir a se curvar às limitações impostas pela estrutura de interdependência social e ambiental, originária destas interações.

Por outro lado, o Turismo oferece aos turistas, quando da interação, a oportunidade da comparação, do julgamento de uma realidade diferente da sua, a partir de suas próprias concepções e de seu grupo. É um julgamento “protegido” pela conformação da situação, pois o turista, no processo, é o ator principal da interação, com um poder delegado, tanto pelos seus pares, quanto pela mídia e pelo Estado que constroem as representações do processo. E tal poder produz sentenças e julgamentos que se tornarão valorativos, por estarem penetrados pelas representações originadas pelo próprio grupo.

Este processo pode estar fornecendo a possibilidade de concretização do sentimento de superioridade, de colonização sobre comunidades mais simples, pois, assim como a etiqueta francesa proporcionou aos governantes e cortesãos o instrumento para manifestarem sua distinção e superioridade, o turismo proporciona também a instrumentalização para os indivíduos, através de atividades substitutas, liberarem suas emoções e sentimentos, alargando ou mesmo expandindo os limites e fronteiras dos controles sociais externos e internos, junto à possibilidade de manifestação do sentimento de distinção e superioridade perante grupos diferentes. O Turismo possibilita uma estrutura específica que fornece a ocasião para a liberação de emoções, sentimentos e impulsos tão bem controlados em outras situações, visto que uma de suas promessas é propiciar ao visitante uma estada de rei, ou seja, uma vivência no paraíso (AOUN, 2001) em que a gratificação mínima será a felicidade, advinda de um meio ambiente natural, cujas paisagens sejam deslumbrantes e/ou exóticas, ou de um meio ambiente construído historicamente cuja percepção do status do lugar esteja acima dos padrões do visitante, o que o levaria a sentir-se em igualdade de prestígio e poder com os que ali vivem ou mesmo com quem construiu tais histórias e edificações.

O tempo, para o turismo, é também um dado importante, pois a experiência está ligada, inicialmente, ao presente, à sua fruição real na vivência despreocupada e sem pressões, com poucas regras e cadeias de interação e ação menos rígidas. O tempo no processo turístico inicia-se, porém, quando da preparação da viagem, fazendo com que a experiência futura seja construída no presente, através do imaginário e da idealização, e continua ligada ao futuro quando seus sujeitos vivenciam suas interações e as materializam

através das fotografias para revivê-las e contá-las no seu retorno, numa relação que envolve desde a posse do referencial, como a natureza, paisagens, fatos e situações ocorridas, como também o sentimento de poder e prestígio por ter usufruído tal interação.

O sentido de coerção que o tempo, simbolicamente, pratica na sociedade, em princípio, seria amenizado no processo turístico, visto as menores cadeias de ação e interdependência das redes tangenciais de interação dos seus sujeitos. Contudo, o ritmo parece pouco diminuir na interação, numa extensa seqüência de passeios em um mesmo dia, por exemplo. No processo turístico, faz-se o que Elias chama de “síntese de tempos”, transformando o presente em função do passado e do futuro, e refazendo este presente numa nova interpretação da vivência e dos fatos, ao relatá-la ou revivê-la no seu retorno, em outro espaço, contexto e grupo.

Um outro aspecto de análise é a população local, dentro do processo turístico, que, além de fazer parte da paisagem, pode agir como o “Outro”, como o contraponto da relação, em que diferentes mecanismos ou dinâmicas são usados na figuração de interdependência entre os grupos, como a estigmatização, a rotulagem, a apartação social e física e também a relação Estabelecidos-Outsiders. Esta apartação pode representar, espacialmente, a apartação social embutida na relação dos dois grupos. Separam-se os grupos, tanto para definição clara dos papéis de cada um no processo, quanto para dar segurança aos turistas do “seu” papel no processo, facilitando a interação, percepção e interpretação destes como estando em um lugar de segurança, poder e prestígio.

É numa relação fantasiosa e imaginária, de apartação social e espacial com as realidades locais, semelhantes às “bolhas” de Urry (1996), localizados em espaços conformados aos visitantes e não inseridos nas próprias comunidades, onde se dão as interações turísticas que tendem a serem superficiais, fictícias e reveladoras dos papéis sociais representados pelos seus sujeitos na interação. A pouca interação com a população local faz também que exista pouca pressão por parte desta para a mudança de comportamentos e controles dos turistas, pois são sentidas pelos turistas como inferiores – outsiders.

No turismo, a procura do belo, do exótico, do histórico traz em seu núcleo a imagem ou a representação do seu oposto – o feio, o comum, o sem história, pois um não existe sem o outro. Assim como existe nas relações sociais a necessidade do Outro para figurar como

contraponto – o superior quando existe o inferior, o poder quando existe os sem-poder, o prestígio quando existe os sem-prestígio – no turismo, tanto o meio ambiente, quanto o grupo local podem ser, para os turistas, o seu contraponto, sua base para a dinâmica de interação e percepção. Seu ponto de partida e muitas vezes de chegada.

Hoje, no turismo, a retórica e o objetivo econômico faz abrirem-se as portas das comunidades e instituições locais para o processo. Contudo, trazem subjacentes um modelo ou padrão de relacionamento social e ambiental cujas estruturas são bastante diversas das tradições locais, o que desorganiza as relações anteriores, alterando os papéis sociais originais de seus sujeitos e não lhes dando oportunidade de ação e mesmo compreensão.