Em continuação à leitura de Gumbrecht quanto ao conceito de Ser que emerge junto à viravolta de A origem da obra de arte, poderíamos afirmar que a estratégia de Gumbrecht consiste em virar o Ser contra o sentido – isto é, partindo de sua leitura acerca da disparidade entre presença e sentido numa estrutura binária de tipos ideais, tudo o que Gumbrecht precisa é desenvolver critérios que possam estabelecer o Ser do lado do polo da presença (justamente porque o que Gumbrecht procura é uma fundamentação ontológica da noção de presença). Se o Ser é o que vem-à-frente no acontecimento da verdade como uma substância que ocupa um lugar no espaço, então este Ser pode ser dito possuidor de um movimento próprio. Em sua segunda tese, de modo geral, Gumbrecht apresenta uma hipótese de leitura que contribui para a compreensão do que seja este acontecimento da verdade no qual o Ser se revela – o Ser vem-à-frente como uma coisa dotada de um movimento tridimensional, a partir, portanto, de três direções. Na primeira delas, e Gumbrecht a lê a partir de um excerto de Introdução à Metafísica, o Ser assumiria uma dimensão vertical (o “balanço emergente”) – no sentido do movimento de sua emergência que o faz “estar ali” e assim ocupar um lugar no espaço, numa sustentação constante –; e outra dimensão horizontal (o seu “aspecto”), a partir da qual o Ser assume a condição de coisa percebida e nesse sentido de coisa que se dirige a alguém ou que
148 Cf.: GUMBRECHT, H. U. Atmosfera, ambiência, Stimmung: sobre um potencial oculto na literatura.
está contraposta àquele que o percebe e que, portanto, apresenta um aspecto, uma aparência149. Assim, o aparecer do Ser pode ser entendido a partir destas duas dimensões como um movimento duplo de emergir como o que se sustém em si mesmo e, ao mesmo tempo, oferecer-se à vista de alguém a partir de sua própria aparência.
O movimento do Ser na leitura gumbrechtiana, contudo, apresenta ainda outra importante dimensão: a dimensão de retirada do Ser. Acompanhando a estrutura ambivalente da concepção revista de verdade como não-encobrimento [Unverborgenheit] em A origem da obra de arte (que compreende aquela essencial denegação como uma não-verdade no interior mesmo da essência originária da verdade), a dimensão de retirada no movimento do Ser deve abarcar o necessário ocultamento e retraimento que faz parte da verdade como não- encobrimento. Segundo Gumbrecht, Heidegger parece ir ao encontro justamente de uma ideia de movimento do Ser a partir da noção de “retirada”:
Estou convencido de que essa retirada é parte do movimento duplo de “revelação” e “retirada” que [...] constitui o acontecimento da verdade, e que a parte da “revelação” contém tanto o movimento vertical de “balanço” (de emergência e do seu resultado: estar ali), quanto o movimento horizontal de “ideia” (como o que se
apresenta, a aparência)150.
De modo geral, o movimento do Ser no acontecimento da verdade compreende uma estruturação dupla, primeiramente, como um vir-à-frente que, por sua vez, apresenta duas dimensões: a vertical, que cuida da sustentação do Ser como coisa que ocupa um lugar no espaço, e a horizontal, que fornece o aspecto necessário a tudo o que aparece; a outra face dessa dupla estruturação é a dimensão de um retrair-se, daquele movimento de retirada do Ser. A articulação do movimento do Ser no espaço, portanto, é a de um movimento duplo de vetores que se deslocam em direções contrárias151.
Por fim, a última hipótese gumbrechtiana acerca do conceito de Ser apresenta ainda uma interessante tese: este movimento triplamente estruturado se deve ao lugar de revelação do Ser como uma aproximação e um afastamento de um espaço específico tomado como um limiar – o limiar da cultura. O que Gumbrecht tem em vista com a elaboração dessa tese, a nosso ver, reside na possibilidade de afastar o Ser e a compreensão de seu autodesvelamento do âmbito do sentido, de um modo em que se tornaria possível compreender o Ser como o que acontece antes da cultura, isto é, que o conceito de Ser se refere às coisas do mundo sem (ou antes de) que se atribua a elas algum sentido historicamente ou culturalmente determinado:
149 GUMBRECHT, Produção de presença, p. 94. 150 GUMBRECHT, Produção de presença, p. 95. 151 GUMBRECHT, Produção de presença, p. 95.
“Dito de outro modo, penso que o Ser se refere às coisas do mundo antes de elas se tornarem parte de uma cultura (ou, para usar a figura retórica do paradoxo, o conceito refere-se às coisas do mundo antes de elas fazerem parte de um mundo)”152. Com essa figura retórica, a nosso ver, Gumbrecht deseja trazer a palco a relação que travamos com as coisas sem que a dimensão da cultura se faça presente – o que é algo realmente difícil de conseguir, já que a atribuição de sentido se faz sempre de um modo culturalmente determinado, e mesmo a aparição das coisas se dá sempre a partir de redes semânticas já constituídas no interior de cada cultura. No intuito de recuperar essa “realidade” das coisas que permanece num nível ante-predicativo de nossa experiência, Gumbrecht adentra em profundidade a dimensão primeva de nosso relacionamento material com o mundo (tão difícil de fazer ver numa cultura do sujeito), lançando assim uma luz original na senda aberta por Heidegger quanto ao aspecto substancial de nossa existência.
Para Gumbrecht, o âmbito da cultura compreende sempre uma rede semântica na qual se articulam conceitos histórica e culturalmente específicos, a partir da qual todo objeto cultural é “lido”, é interpretado segundo estas determinações, e assim recebe a atribuição de algum sentido. Num ensaio posterior a Produção de presença153, Gumbrecht retoma
brevemente esta temática explicando que o Ser não pode se revelar na esfera semanticamente estruturada de uma cultura porque aí ele seria perspectivado, isto é, o Ser que adentra o âmbito de uma cultura específica passa a ser visto a partir de uma perspectiva também específica: “Por isso o Ser sempre só pode se manifestar como alusão, para então se retrair novamente, já que, ao entrar na região da cultura, ele já não é mais ‘Ser’ em um sentido não perspectivado”154. A alusão a que se refere Gumbrecht como modo de desvelamento do Ser
manifesta justamente a ideia de que o Ser não pode ultrapassar o limiar da cultura, devendo permanecer num movimento de aproximação seguida de um retraimento – o Ser não pode revestir-se de sentido, pois a interpretação é justamente o que dota as coisas de uma especificação cultural.
O problema consiste na condição de que, por um lado, o Ser não pode aparecer no interior de uma cultura porque aí todas as coisas do mundo seguem já sempre interpretadas, perspectivadas a partir do sentido que lhes é atribuído; por outro lado, como ele poderia
152 GUMBRECHT, Produção de presença, p. 95.
153GUMBRECHT, H. U. “Graciosidade e jogo: por que não é preciso entender a dança”. In: GUMBRECHT, H.
U. Graciosidade e estagnação: ensaios escolhidos. Org. Luciana Villas Bôas; Tradução de Luciana Villas Bôas e Markus Hediger. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. PUC-Rio, 2012, p. 121.
aparecer para nós e como então poderíamos experimentá-lo se ele não se tornar parte de uma cultura? A resposta de Gumbrecht compreende justamente a articulação do duplo movimento do Ser no acontecimento da verdade: o Ser deve vir-à-frente aproximando-se do limiar da cultura (sem cruzá-lo porque aí já o teríamos perdido), para então se afastar novamente: “...a revelação do Ser, no acontecimento da verdade, tem de se perceber a si mesma como um duplo movimento contínuo de vir para diante (em direção ao limiar) e de se retirar (afastando- se do limiar), de revelação e de ocultação”155. Com esta interpretação verdadeiramente original – pois transporta os conceitos heideggerianos para um outro nível de análise, aquele da constituição semântica de toda cultura e do essencial pertencimento da existência humana a este âmbito como condição de possibilidade de nossa experiência –, Gumbrecht fornece uma via de leitura que aclara em larga medida a própria articulação do conceito heideggeriano de verdade como a estrutura dupla de encobrimento e desvelamento: quando se aproxima do limiar da cultura, o Ser permite que o experimentemos, ainda que no curto espaço de tempo de um “aceno”, para que então logo depois possa cumprir com o seu necessário retraimento ao se afastar do mesmo limiar. Assim, pode-se alcançar uma compreensão mais completa do conceito heideggeriano, principalmente quanto ao porquê da atribuição de um comportamento tão ambíguo ao Ser no acontecimento da verdade – o Ser que emerge como uma súbita aparição que nos conforta imensamente, mas que deve tão logo nos abandonar –, se, junto à leitura de Gumbrecht, mantivermos em mente a real dificuldade e complexidade de sua manifestação. O Ser não se pode dar por inteiro.