Gumbrecht lança mão de uma última noção estética, a noção de epifania. A partir desta, no encalço da filosofia da arte heideggeriana, pode-se compreender a vivência estética como um acontecimento que requer a participação de uma dimensão espacial por conta de
175 Gumbrecht fornece o caso do tango como um exemplo perfeito para a questão da tensão entre os dois
componentes: na cultura argentina, há uma prescrição de que não se deve dançar tangos com letra, justamente porque a atenção dividida do bailarino prejudicaria sua performance – ou deixa-se prazerosamente ir o corpo no ritmo da música para seguir os complexos passos do tango, ou se presta atenção na complexidade semântica das letras tão melancólicas.
uma coisa que deve aparecer como que “do nada”: em linhas gerais, como todo efeito de presença requer uma relação física com o mundo, e como em nossa cultura sempre vivenciamos o componente de presença de modo efêmero, o argumento de Gumbrecht conclui que a sensação de intensidade provocada pela obra de arte – ao menos no interior das condições específicas da vivência estética contemporânea – surge como uma epifania, isto é, como uma coisa que repentinamente se apresenta para nós, para logo em seguida desaparecer por completo176. Essa caracterização da vivência estética a partir da noção de epifania é pensada exclusivamente diante da situação de nossa atual cultura, segundo as suas condições historicamente específicas: a necessária dimensão espacial da vivência estética tomada como epifania se deve ao componente de presença que é tornado o próprio objeto de desejo de nossa cultura (num processo de caráter compensatório em relação à dimensão de sentido, em que nos encontramos especialmente fascinados pela realidade física das coisas), de modo que a epifania deve se dar como o irromper de uma substância que é tangível para nós e que parece vir do nada por conta de sua emergência repentina. Ao mesmo tempo, como já vimos, a condição cultural contemporânea estabelece um cenário realmente austero para a vivência dos efeitos de presença – apesar de nosso flagrante desejo pela materialidade das coisas –, reforçando o caráter de evento da epifania: a nossa dificuldade em “agarrar” os efeitos de presença, em livrá-los de sua efemeridade e fazê-los durar do modo como gostaríamos, e talvez mesmo do modo que necessitamos no interior de uma lógica compensatória. O principal diagnóstico de Gumbrecht quanto à condição geral da vivência estética em nossos dias reside assim no incontornável caráter efêmero com que ela se dá: “...a temporalidade na qual um quadro nos pode ‘atingir’, a temporalidade em que sentimos, por exemplo, que esse quadro vem até nós, será sempre a temporalidade de um momento”177. Essa estrutura se deve ao fato de que em nossa cultura a manifestação do Ser se refere antes de mais nada ao componente de presença, à substancialidade de nosso ser e das coisas ao redor – a configuração de nossas experiências cotidianas, no entanto, lança um grande desafio à duração e mesmo à possibilidade da vivência estética: o ambiente estabelecido não favorece a emergência do Ser, aqui pensado como uma coisa com substância, porque a sua disposição geral é a da consciência que lê o mundo e abstrai nessa relação o seu próprio corpo.
176 O traço de epifania da vivência estética acompanha a interpretação de Gumbrecht já mencionada quanto à
estrutura dupla de encobrimento e desvelamento do Ser: este se aproxima do limiar da cultura e aí permite que seja experimentado, para logo em seguida se afastar deste mesmo limiar e retrair-se por completo. Essa mesma estrutura reaparece agora na análise das condições específicas da experiência contemporânea da obra de arte: o
caráter de “aceno” do Ser se mantém e, poder-se-ia mesmo dizer, exacerba-se na figura de uma coisa que vem à
frente e é experimentada na condição efêmera que a nossa cultura delega aos efeitos de presença, para então desfazer-se em meio à prevalência do sentido.
Por fim, se desejamos pensar o modo com que a experiência da arte pode contribuir à tarefa da apropriação da essência humana, o que já sabemos é que o caminho para a transformação que buscamos se encontra na abertura do espectador ao caráter substancial do Ser que só pode emergir junto da condição efêmera dos efeitos de presença em nossa cultura. Nesse sentido, a efemeridade da vivência estética lida por Gumbrecht a partir de nossa dificuldade crescente em fazer durar os efeitos de presença (por conta não somente do nosso pertencimento a uma cultura do sentido, mas a uma cultura que rejeita o polo oposto como insignificante e desnecessário), pode se apresentar como um dos modos de se compreender o diagnóstico heideggeriano acerca do abandono do Ser e da nossa condição desapropriada: o distanciamento de nossa cultura em relação à realidade física das coisas e de nosso próprio corpo parece levar o necessário retraimento do Ser a um estágio mais profundo, a um ponto em que não somente a duração de seu aparecer é afetada, mas as próprias condições de sua manifestação são postas em xeque. O abandono do Ser também aparece assim no diagnóstico gumbrechtiano acerca da perda do equilíbrio na estrutura oscilante da vivência estética: se os efeitos de presença não alcançam uma duração significativa frente ao componente de sentido, torna-se cada vez mais difícil o estabelecimento daquela tensão instável que percorre em plenitude a estrutura dupla de nossa experiência das coisas do mundo. O Ser não encontraria assim o espaço necessário à sua manifestação em meio às nossas vivências ordinárias, o que faz ao mesmo tempo com que a vivência estética só possa ser experimentada como epifania, como um momento extremamente breve de intensidade. No entanto, se em traços gerais a retomada de um equilíbrio consiste na própria rememoração da presença, então é a própria vivência estética que pode nos conduzir à restituição de uma vivência plena do Ser (dentro do que nos é permitido, já que a sua estrutura sempre comporta aquele essencial retraimento).