Assim, retornamos à noção central quanto a uma disposição serena capaz de conduzir o espectador àquele momento de intensidade como uma preparação em que o espectador se encontra como capaz de pôr-se numa espera sossegada, mas ainda assim atenta e bem desperta, numa postura essencialmente receptiva. O que é aqui central para nosso caminho de investigação é o fato de que essa ideia de uma postura serena em relação à vivência estética guarda consigo ainda um traço fundamental para se pensar a possibilidade da apropriação de si pela via da experiência da arte: a disposição serena pode ser pensada não apenas como uma
postura de preparação para a vivência estética – e, deste modo, como ponto de partida –, mas também como uma postura atingida ao fim de seu percurso, como um possível ponto de chegada; no sentido de que a experiência da arte, enquanto produz um radical distanciamento de nosso cotidiano e nos lança para dentro da verdade que aí se põe em obra, teria a força necessária para transformar tanto a nossa autocompreensão como a nossa relação com o mundo das coisas. A noção estética gumbrechtiana de disposição serena traria consigo assim uma relevante implicação para o plano existencial: “Gelassenheit figura, tanto como parte da disposição com que nos devemos dispor à experiência estética, quanto como o estado existencial a que a experiência estética pode nos conduzir”178. Ao lado de Gumbrecht,
podemos então concluir que a vivência estética é capaz de produzir essa transformação existencial do espectador resoluto179 que se dispõe ao exercício da abertura e da entrega de si ao choque da entrada da obra de arte em nosso cotidiano; de modo que a vivência estética conduziria ao fim este mesmo espectador a uma postura de serenidade para com o mundo que o acolhe – podemos concluir, finalmente, que a arte pode ser considerada um caminho para a apropriação da essência humana enquanto agente de uma transformação a nível existencial daquele que ousa experimentar a sua verdade.
A chave conceitual que pode iluminar a relação entre a nossa essência (ou a nossa autocompreensão e o nosso modo de relacionamento com o mundo das coisas) e a obra de arte está assente no acontecimento da verdade que aí entra em curso: perdurar junto à autorrevelação do Ser que se dá no acontecimento da arte, resguardando a obra, é levar o nosso próprio ser à revelação. Uma passagem em especial articula essa ideia no próprio texto heideggeriano: “...uma obra só é efetiva como obra se nós mesmos nos deslocarmos de nossa habitualidade e nos inserirmos no que é aberto pela obra, para assim trazer nossa própria essência a perdurar na verdade do ente”180. O engajamento com a verdade do ente aberta pela obra leva o nosso próprio ser a uma mesma abertura: a essência humana encontra na arte um espaço de realização – e então a arte, enquanto caminho para a apropriação da essência humana, revela-se a si mesma como parte da tarefa do habitar, como um dos sentidos do habitar como tarefa: enquanto iniciativa de dispor-se à abertura da obra de arte, num exercício de demorar-se nessa espera concentrada, de desfazer-se das preocupações cotidianas e das
178 GUMBRECHT, Produção de presença, p. 147.
179 Nessa reflexão acompanhamos o conceito heideggeriano já mencionado de resolução [Entschlossenheit], pois
essa transformação existencial é somente permitida a partir de um engajamento prévio do espectador com a abertura do ente que está posta na obra, segundo a decisão de preservar a verdade que aí vige. É este engajamento existencial que permite que a verdade da obra de arte possa transformar aquele que a acolhe.
vontades imediatas para abrir-se ao evento de transformação que chega com a obra. A tarefa do habitar junto à arte é também o esforço por conquistar aquela postura serena que não obstante deve nos conduzir a um radical estranhamento e, ao mesmo tempo, a uma perturbação tamanha que, ao menos por alguns segundos, deve nos separar de tudo o que é por nós conhecido e desafiar nossas medidas todas de uma vez. A disposição serena compõe assim o centro do sentido do habitar como tarefa junto à arte: ela é a postura que exercitamos para adentrar a vivência estética, e é também a nossa conquista junto à verdade transformadora da arte; ela é aquilo que nos põe a caminho da apropriação de nossa essência, e é ao mesmo tempo ela mesma a nossa condição apropriada181. A experiência da arte é assim a experiência de uma radical abertura que requer coragem, persistência e engajamento – requer a assunção da tarefa de uma constante busca da apropriação da essência humana que não alcança um estágio último e completo, mas que reconhece na experiência da arte um caminho para a realização do habitar: enquanto tentativa renovadamente assumida em seu risco, enquanto exercício individual a ser retomado a cada novo dia.
A partir daqui, nosso intuito é o de esclarecer o sentido dessa disposição serena como o estado existencial para o qual somos conduzidos ao fim do percurso da experiência da arte: a serenidade, como uma nova postura diante das coisas capaz de romper com a objetificação, e na outra via, uma autocompreensão transformada que reconhece junto à revelação do Ser como substância o seu próprio caráter substancial – afinal, o relacionamento com o Ser é também o relacionamento com o nosso próprio ser. Atingimos assim o estágio em que a essência humana se revela em sua pertença a um corpo, cujo reconhecimento essencial deve dirigi-la a uma outra postura na relação com o mundo das coisas: o habitar poético pode ser esclarecido em sua acepção material e espacial.
181 A noção de serenidade [Gelassenheit] deve compor assim um dos sentidos do habitar poético como a
condição apropriada da essência humana em nosso próximo capítulo: enquanto postura transformada diante das coisas, e enquanto essência do pensamento capaz de corresponder [entsprechen] ao apelo do Ser.