A primeira caracterização dos resíduos sólidos urbanos de Francisco Badaró foi realizada em 13/07/2005 pela aluna bolsita do projeto com o auxílio dos funcionários da prefeito responsáveis pela coleta de RS. Os resultados obtidos nesta caracterização são questionáveis quanto à sua representatividade, por terem sido obtidos dias antes da festa anual da cidade. Nestes dias festivos, há uma alteração considerável na rotina municipal, desde o aumento do número de pessoas presentes até a tradição de reformas e faxinas realizadas nesta época, fator que pode ser responsável pela grande quantidade de roupas e sapatos encontrados na amostra, o que contribuiu para o aumento da porcentagem de “outros materiais” – 23% (BARROS & BARROS, 2005a). Estes “outros materiais” consistem de terra, restos de construção, papel higiênico, fraldas descartáveis, pilhas, roupas e outros materiais não recicláveis.
Embora com valores expressivos encontrados para “outros materiais”, a quantidade de entulho de construção civil não foi significativa. A maior parte do volume desse material é recolhida pela Prefeitura, separadamente da coleta dos resíduos domésticos e utilizado na recuperação das estradas da região, como material de preenchimento de buracos.
Outra questão é a quantidade de “matéria-orgânica” nos RSU (apenas 34%), visto que estudos falam de 60 a 70% de matéria-orgânica na composição dos resíduos domésticos. Os autores também destacaram a quantidade de caixas de “papelão” (13%) e “plástico” (21%) encontradas, o que foi justificado pela coincidência dos dias da caracterização dos resíduos sólidos e de entrega de frangos industrializados na cidade. Estes resultados reiteraram a necessidade de uma nova caracterização.
Com o intuito de superar as falhas e a super-estimativa de resultados ocorrida na primeira caracterização, procedeu-se a uma segunda caracterização dos resíduos sólidos coletados no município de Francisco Badaró, desta vez, no dia 09/01/2006, em condições normais de movimentação de pessoas da cidade(Figuras 24 e 25). Desta vez, além da participação dos funcionários da prefeitura, a aluna responsável pela caracterização em Francisco Badaró
Programa de Pós-Graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos 97 Fonte: BARROS & BARROS (2005a)
A Tabela 3 faz uma comparação entre os valores obtidos durante as duas caracterizações dos resíduos sólidos urbanos realizadas no município de Francisco Badaró.
Tabela 3 – Comparação entre as caracterizações dos RSU realizadas em Francisco Badaró 1ª Caracterização
2005* 2ª Caracterização 2006
MATERIAL
Peso (kg) Porcentagem (%) Peso (kg) Porcentagem (%)
Vidro 9,0 2 1,6 2 Plástico 82,8 21 7,1 8 Papel/Papelão 51,5 13 5,2 6 Metal 27,8 7 4,2 4,5 Matéria-orgânica 135,0 34 7,6 8,5 Outros materiais 93,9 23 63,2 71 Total 400 100 88,9 100
(*) Fonte: Adaptada de BARROS & BARROS (2005a)
Nota-se uma grande variação na porcentagem de alguns materiais, como plástico, papel/papelão e matéria-orgânica, o que confirma a suposição de BARROS & BARROS (2005a) sobre a questão da entrega de frangos industrializados na cidade.
Figura 24 – Momento da segunda caracterização de RSU no “lixão”
de Francisco Badaró.
Figura 25 – Técnica de quarteamento aplicada na caracterização de RSU por
O baixo valor percentual de “matéria-orgânica” (8,5%) em relação à média nacional, encontrado na segunda caracterização, demonstra que o município descarta pequena quantidade de restos orgânicos, havendo para estes outras formas de destinação, como reaproveitamento na alimentação de animais e/ou adubação de culturas de alimentos. Outra explicação seria a quantificação desta matéria-orgânica junto com “outros materiais”, o que, desta vez, justifica, o alto valor do mesmo (71%).
Como visto, os resultados das duas caracterizações tiveram algumas variações, possivelmente pelas épocas em que foram obtidos, com uma diferença significativa na rotina do município, sendo que o maior destaque é dado à “matéria orgânica” e aos “outros materiais”, que são, justamente, os principais pontos a serem melhor estudados, principalmente pela dificuldade na separação destes resíduos sólidos que não são previamente separados na fonte geradora. Outras alterações de valores podem ser justificadas pela preocupação da caracterização ter sido realizada em um dia normal da cidade, em que não ocorreram interferências bruscas na rotina da população, e maiores cuidados nos procedimentos práticos. Além disto, apenas uma amostragem, embora forneça a idéia da composição dos RSU de um município, não é suficiente para definir estes valores com precisão, sendo necessárias algumas repetições.
5.2.2 Padre Paraíso
Embora haja constante tentativa de se realizar a coleta seletiva dos resíduos recicláveis e conte com um volume maior de RSU para coleta, o que já era esperado para um município de maior porte, o gerenciamento de resíduos sólidos urbanos em Padre Paraíso também tem alguns pontos de destaque a serem trabalhados, com alguma semelhância ao relatado para o município de Francisco Badaró, sendo os mesmos dispostos a seguir.
5.2.2.1 Varrição de Logradouros
Conforme BARROS & SANTOS (2006), a varrição tem um encarregado geral e conta com 13 turmas, sendo 6 turmas de 3 pessoas e 7 turmas de 2, totalizando 32 funcionários. A varrição é feita manualmente nos passeios e ruas e atende a 100% das ruas, becos e vielas do município durante todas as épocas do ano. As equipes são compostas unicamente por
Programa de Pós-Graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos 99 mulheres e não recebem nenhum treinamento, somente orientações de qual região irão varrer (Figuras 26 e 27).
A varrição é feita em todos os bairros diariamente, em que se alternam as ruas todos os dias (parte das ruas em um dia, parte em outro), inclusive nas ruas sem calçamento. Não se têm informações a respeito do rendimento e do tamanho do percurso percorrido pelas funcionárias. Aos domingos, apenas uma equipe da varrição trabalha no Centro.
Os funcionários possuem no mínimo a 4ª série do ensino fundamental e não têm acesso a todos os tipos de EPI´s, como luvas e máscaras. Em dias chuvosos, utilizam capa de chuva. Os equipamentos utilizados na varrição são 13 carrinhos e 13 pás, divididos um por equipe, e 32 vassouras, uma por pessoa (BARROS & SANTOS, 2006).
A carga horária de trabalho é de 8horas/dia, com honorários, segundo dados de janeiro de 2007, de R$ 350,00/mês, incluindo abono, qüinqüênio e horas extras. Para os funcionários efetivos, existe ainda o acréscimo com planos de saúde. Para todos os garis, é exigida a contribuição ao INSS.
A cidade tem uma feira todos os dias, e uma gari, após a limpeza rotineira da manhã, fica responsável por todo e qualquer tipo de resíduo que vier a aparecer na praça no decorrer da feira. No sábado, dia de maior movimento, todas as garis se juntam para a limpeza da praça após o término da feira, por volta das 16 horas (BARROS & SANTOS, 2006).
Figura 26 – Vista geral da varrição manual dos logradouros. Detalhe para a falta de EPI´s e uniformes.
Figura 27 – Varrição do logradouro municipal. Ao fundo, o detalhe do
5.2.2.2 Coleta Urbana dos Resíduos Sólidos Urbanos
De acordo com BARROS & SANTOS (2006), a coleta de resíduos tem um encarregado geral e é realizada apenas na sede urbana do município. Todas as ruas da cidade são atendidas pela coleta, durante todo o ano, exceto em dias de muita precipitação, devido à inacessibilidade. Os resíduos sólidos deixados pelos moradores (Figura 28) e da varrição são coletados diariamente, inclusive nos domingos, quando esta é feita apenas no centro da cidade. Nas segundas, quartas e sextas-feiras, a coleta é realizada em todas as regiões do município; nas quintas, a coleta é realizada apenas nas regiões que produzem maior quantidade de RS.
A coleta é feita por meio de um caminhão com 5m3 (Figura 29), com um motorista permanente de segunda-feira a sábado, um motorista todos os domingos, três ajudantes permanentes e um ajudante que trabalha alternado (BARROS & SANTOS, 2006).
Fonte: BARROS & SANTOS (2006)
Nas comunidades da zona rural do município não há coleta de resíduos sólidos: os resíduos produzidos nestas áreas são queimados em buracos abertos no chão pelos próprios moradores. A sede do município de Padre Paraíso não possui lixeiras, nem latões de resíduos sólidos, já que estes foram retirados das ruas em dezembro de 2005, seguindo intenções do Projeto “O Lixo é Meu”. Todo o RS é colocado em sacolas que são postas nas ruas nos horários e dias
Figura 28 – Vista geral da coleta de RSU no município
de Padre Paraíso.
Figura 29 – Vista geral da descarga de RSU pelo caminhão de coleta na UTC de Padre Paraíso (até agosto de 2006).
Programa de Pós-Graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos 101 estipulados para a coleta do caminhão. Lixeiras para os pontos de maior circulação de pessoas, como o centro da cidade, foram instaladas a partir de março de 2006 (Figura 30).
Figura 30 – Modelo de lixeira implantada nos pontos de maior circulação de pessoas na sede do município de Padre Paraíso.