ÜÇÜNCÜ BÖLÜM 3 ESERLERİ
10. Meçhul Asker
Os estudos históricos de um município realizados através da aproximação entre o tempo e a sua espacialidade; de suas redes de caminhos; de seus registros arquitetônicos mais louváveis ou vernaculares; de seus aspectos sociais, entendidos como bens imateriais, tais como tradições, festas e ritos; tendem a mostrar uma identidade registrada por Fernand
Braudel (2005) como de “longa duração”.4 Isto assegura uma memória que é passada para
cada nova geração pelo mecanismo de renovação e reconhecimento das suas práticas e valores na certeza da sobrevivência da própria comunidade.
A continuidade no tempo e no espaço, ou seja, o sentido de “durée” (longa duração) é dado
por Braudel (2005) na visãode extensos territórios associados a um tempo histórico que se
alonga sem grandes transformações. Os estudos de Michel Vovelle (1988, p.83) complementam o conceito e apontam que, nestes territórios, permanecem quase imóveis os indicadores do “domínio do solo, habitat, produção, demografia, aparelhagem material e mental” ou os traços das mentalidades, das técnicas, do saber-fazer, das festas, etc. Para Braudel (2005, p.50), o homem é prisioneiro de climas, vegetações, populações animais e culturas das quais não pode se desviar, como por exemplo: o lugar da vida montanhesa; a permanência de setores da vida marítima, enraizados em certos pontos do litoral; a durável implantação das cidades; a persistência das rotas e a fixidez do quadro geográfico das civilizações.
Seguindo a mesma linha de pesquisa, para o historiador Jacques Le Goff (2003, p.13-15), a noção de duração inclui, além do “tempo vivido, de tempos múltiplos e relativos, de tempos subjetivos ou simbólicos”, o “tempo da memória que atravessa a história e a alimenta”. Contraposto ao estrato superficial e ao tempo rápido dos eventos, a longa duração consiste no nível mais profundo das realidades (da geografia, da cultura material, das mentalidades, enfim: das estruturas) que se transformam devagar e é reconhecida pelo historiador como um dos ritmos diferenciados dado pela história. As tradições locais (a memória), no caso de pequenos núcleos urbanos, são transmitidas de geração a geração pelos processos de vivência de festas, costumes, fazeres e repetições de comemorações anuais como é o caso
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O conceito de durée – grosso modo: duração, extensão temporal, longa duração – foi desenvolvido por Fernand Braudel, fundador da École des Annales, em vários artigos e, sobretudo, em: La Mediterranee et le monde mediterraneen a l'epoque de Philippe II. 3. ed. Paris: Armand Colin, 1949. 1160p. (MORAES, 2005, 54).
dos Jubileus do Santuário do Senhor Bom Jesus do Matozinhos que acontecem todo mês de agosto em Bacalhau para onde são atraídos milhares de fiéis.
Da mesma maneira, é fundamental o detalhamento do conceito de “estruturas” elaborado por Pomian (1988, p.113), que “são fenômenos geográficos, ecológicos, técnicos, econômicos, sociais, políticos, culturais, psicológicos, que permanecem constantes durante um longo período ou que só evoluem de maneira quase imperceptível”. Estas estruturas são elementos essenciais de longa duração que permanecem ainda hoje no vale do rio Piranga e nos seus principais núcleos urbanos, sejam eles, sedes de municípios, distritos ou povoados que guardam valores relacionados com o meio agrícola e um modo de vida simples passado de geração em geração.
O estudo do município de Piranga e de alguns de seus distritos indica a intenção de se conhecer melhor uma região de Minas Gerais e de identificá-la enquanto local de uma cultura com características próprias construída através de um tempo que se prolonga desde o final do século XVII. O que se busca nesta pesquisa é a descoberta de traços de extensão espacial e temporal de longa duração, de “estruturas” que identifiquem a “área cultural” do município de Piranga distinguindo-a ou aproximando-a de outras existentes no território mineiro. Esta reflexão apóia-se no conceito de “durée”, assim como no sentido de civilização vista como um espaço ou uma área cultural que para Fernand Braudel:
É o agrupamento regular, a freqüência de certos traços, a ubiqüidade desses traços numa área precisa, que são os primeiros signos de uma coerência cultural. Se a essa coerência no espaço se acrescenta uma certa permanência no tempo, eu chamo civilização ou cultura o conjunto, o “total” do repertório. Esse “total” é a “forma” da civilização assim reconhecida. (BRAUDEL, 1978, p. 269)5
Descoberta esta “coerência cultural”, que pode ser encontrada na rede de povoados e distritos, na arquitetura vernacular e, principalmente, na arquitetura religiosa da região da antiga Guarapiranga, procura-se ampliar seus valores simbólicos para o entendimento de uma parte do território de Minas enquanto espaço de tradições múltiplas e diversificadas, de “estruturas” de longa duração. Local que carrega a impressão espacial de um legado histórico luso-brasileiro marcado pelos que aqui o percorreram desde o final do século XVII e que, por outro lado, se integra às características da nação brasileira.
O percurso cultural do Vale do Rio Piranga, segundo relatos do Códice Costa Matoso (1999,
p.257), é inicialmente habitado pelo gentio6, e depois marcado pela presença dos
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Sempre que possível, mantivemos as citações dos documentos coevos consultados sem atualização ortográfica, para evitar interpretações dúbias e expressar as formas de escrita da época. Aplicamos tal procedimento à grafia dos topônimos encontrados nos mapas.
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bandeirantes paulistas que desbravaram o sertão7 à procura de riquezas minerais. O entrelaçamento das culturas dos indígenas e dos escravos negros, mesclado à permanência da herança cultural portuguesa, gera a identidade do território mineiro e, ao alcançar os nossos dias, esta produção transforma-se em um patrimônio histórico de grande importância para Minas Gerais. A história destas conquistas e o legado arquitetônico resultante permanecem ligados ao modo de viver e de fazer da comunidade local que, extremamente religiosa, preservou seus ritos e tradições.