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2.2. Yaratıcı Materyallerin Seçimi ve Uygulanması

2.2.2. Materyaller ve Uygulanması

Ainda que acreditemos que não é possível determinar a posição ontológica da fenomenologia husserliana apenas a partir da redução – pois é necessário analisar as estruturas da consciência, a noção de subjetividade, objetividade, mundo, etc. –, é fundamental questionar se, ainda assim, os métodos de redução não têm um aspecto solipsista que influencia todo o desenvolvimento da fenomenologia enquanto análise e descrição do campo transcendental. De fato, como vimos, com a redução nos abstemos de julgar sobre a existência do mundo e dirigimos a atenção dos objetos para o modo como temos consciência dos objetos, focando, portanto, na consciência e não naquilo que é transcendente a ela. Dessa maneira, uma interpretação possível é que Husserl acabou por formular um método no qual somente a própria consciência é tomada como fonte segura de conhecimento e no qual qualquer saber de algo exterior à própria consciência seria inseguro e questionável, o que configuraria um modo de solipsismo.

Um aspecto importante da redução que ajuda a esclarecer essa problemática é a análise das diferentes maneiras pelas quais ela é desenvolvida e justificada. Drummond identifica dois diferentes modos: o cartesiano e o ontológico110. A maneira cartesiana de se desenvolver a redução está baseada na descoberta da consciência como um campo essencialmente distinto daquele das coisas exteriores: enquanto os objetos do mundo são conhecidos de maneira parcial e com uma série de características particulares que

110 Drummond, nesse artigo, parte das análises de Kern, mas reconhece apenas dois dos três modos

listados, negando o modo “psicológico”, presente na avaliação do estudioso (KERN, I. Die drei Wege zur transzendentalphänomenologischen Reduktion in der Philosophie Edmund Husserls). Drummond critica

ainda outros aspectos da interpretação de Kern sobre a redução fenomenológica. Ver DRUMMOND, John J. Husserl on the Ways to the Performance of the Reduction, p. 47-8.

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daí advêm, a própria consciência é uma esfera da qual temos acesso privilegiado. Não podemos compreender a consciência, que é um campo imanente e interno, de maneira naturalista ou semelhante a como descrevemos o que nos aparece como transcendente. O modo cartesiano de desenvolver a redução, do qual a exposição anterior é um exemplo, ganha esse apelido por ser um experimento de pensamento inspirado no procedimento de dúvida de Descartes: assim como o filósofo francês, Husserl reconhece a consciência como um campo que serve de base para a fundação do conhecimento, pois, ao contrário do mundo exterior, não pode ser negado. Ainda assim, conforme esclarecemos anteriormente, a epoché não consiste no mesmo procedimento da dúvida cartesiana, pois seu objetivo é apenas abster-se de julgamento acerca da existência dos objetos transcendentes.

Conforme analisa Zahavi, bastante acertadamente, a vantagem da maneira

cartesiana de formular a redução é que ela é muito clara e se torna fácil compreender as

descrições fenomenológicas, mas seu problema é que pode gerar confusão quanto ao objetivo do método, pois ao focar na auto-apresentação imediata da subjetividade e ao salientar a diferença entre essa apresentação e o modo de apresentação de objetos,

“alguém pode facilmente ser levado a crer que a tarefa da fenomenologia é investigar a

subjetividade pura isolada e separadamente do mundo e da intersubjetividade”111. A outra maneira de formular a redução, conhecida como ontológica, seria em parte responsável por afastar tais leituras solipsistas. Nesse caso, a reflexão parte de determinada região ontológica (como a região dos objetos físicos) e esta é analisada em relação ao modo como aparece para a consciência e às condições de possibilidade de seu aparecimento. Ao analisar as regiões a partir de tal viés, o foco passa a ser a maneira pela qual o aparecimento se dá: se o objeto é percebido, julgado, lembrado, etc., e, com isso, efetua-se ao mesmo tempo uma reflexão sobre a maneira como a consciência apreende seus objetos, tornando explícito o papel da subjetividade. Progressivamente, a partir do desenvolvimento da análise, evidenciam-se as estruturas da intencionalidade que estão implicadas na experiência. Nas palavras de Husserl:

No discurso cartesiano temos (...) três rubricas: ego, cogitatio, cogitata. O polo eu (e o que da sua identidade lhe é próprio), o subjetivo, como aparição em ligação sintética, e o polo objeto são, para as análises, diferentes direções do olhar, e a elas correspondem maneiras diferentes da rubrica geral da

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intencionalidade: direção a algo, aparição de algo a algo, objetivamente como isso que, nas suas aparições, é unidade, e a que, através destas, se dirige a intenção do polo eu. Embora estas rubricas sejam inseparáveis entre si, é preciso a cada vez perseguir momentaneamente uma delas, e, na verdade, mantendo a ordem na direção oposta à que era natural na abordagem cartesiana. O primeiro é o mundo da vida simplesmente dado e, na verdade,

antes do mais tal como se dá, existente segundo a percepção como ‘normal’,

simples e ininterrupto na pura certeza do ser (ou seja, isento de dúvida). Com o estabelecimento do novo direcionamento do interesse e, assim, na sua rigorosa epoché, o mundo da vida torna-se uma primeira rubrica, índice, fio condutor intencional para o questionamento retrospectivo das multiplicidades das maneiras de aparição e das suas estruturas intencionais. Uma nova direção do olhar, no segundo estágio da reflexão, conduz ao polo eu e ao que é próprio da sua identidade112.

Fica claro, portanto, o procedimento da redução em seu viés ontológico: não há a intenção de partir imediatamente de uma abstenção de julgamento sobre a tese acerca da existência do mundo e tampouco da diferença entre os modos de ser da consciência e da transcendência. A maneira de adentrar o campo transcendental da subjetividade e afastar-se da atitude natural se dá desde outro ponto de partida, no qual, a partir do próprio munda da vida113 tal como é dado, realizamos uma reflexão sobre seus modos de aparição e estruturas intencionais que ficam obscurecidos e apenas subentendidos na atitude natural. Ao explicitar esse campo, reconhecemos claramente a esfera da subjetividade e suas estruturas como necessárias para qualquer objetividade e transcendência114.

Um ponto interessante a respeito dessa maneira de realizar a redução é que fica evidente que não é absolutamente necessário partir de uma análise sobre a diferença essencial da consciência e do mundo para adentrar a esfera transcendental. Ao simplesmente mudar o foco de interesse e direcionar o olhar desde o mundo da vida concreto para as estruturas intencionais entrelaçados com seu modo de aparecimento, já podemos perceber claramente o polo eu. Esse procedimento evidencia, ao contrário da redução à maneira cartesiana, não as diferenças das duas esferas e a dependência

112 HUSSERL, Edmund. Krisis, §50, p. 174-5, p. 140.

113 Em poucas palavras, mundo da vida (Lebenswelt) diz respeito ao mundo da experiência cotidiana e

pré-científica, que serve de base para uma reflexão propriamente teórica e científica da realidade. Tratamos em detalhes do conceito de mundo da vida no capítulo 4.2.

114 Que se note claramente a diferença entre os sentidos dos termos “transcendência” ou “transcendente” e

“transcendental”: enquanto o último diz respeito à esfera pura da consciência, os primeiros tratam do que

está justamente além da consciência, que a transcende e, portanto, não está encerrado no campo do transcendental.

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unilateral, mas justamente a mútua relação entre elas115.

A partir disso, determinar se há e quais são as implicações epistemológicas e ontológicas da redução, é uma tarefa complexa, que exige a investigação de diversos elementos da filosofia husserliana. Dentre os estudiosos que se aprofundaram no tema, destacamos a posição de Zahavi, que defende que o objetivo de Husserl com a redução

não seria “nem efetuar uma aniquilação do mundo para formular uma subjetividade

isolada pura e separada do mundo, nem (...) uma abstenção de posições ontológicas, como se a fenomenologia apenas dissesse respeito à clarificação da esfera do sentido e do significado”116.

Assim, a fenomenologia estaria de fato comprometida com uma posição ontológica e o próprio método da redução seria um caminho para encontrar uma resposta adequada para a questão. Ver na fenomenologia, portanto, uma “neutralidade” ontológica, como alegam alguns estudiosos117, seria perder de vista o objetivo principal

de tal pensamento. Nesse sentido, também, as críticas de Ingarden acerca da deslealdade de Husserl em relação ao seu próprio método pelo fato de fazer considerações ontológicas a respeito dos fenômenos, tampouco procede.

Acreditamos, porém, que ainda que a redução seja um passo metodológico fundamental para compreender o projeto da fenomenologia, ela não é, por si só, suficiente para determinar qual a sua posição ontológica e epistemológica. É preciso explicitar de maneira adequada como Husserl desenvolve o conceito de verdade, assim como a intencionalidade e as estruturas da consciência. Quanto a esse último tópico, destaca-se o conceito de noema, o qual é uma noção chave para delimitar o sentido da

“objetividade” na filosofia husserliana. Desse modo, o que pode ser tirado como

115 É interessante perceber que seria equivocado querer ver na redução ao modo ontológico um

desenvolvimento apenas posterior na filosofia de Husserl: “o leitor atento deve ter notado que há uma interessante similaridade entre o modo ontológico da redução de Husserl e a maneira na qual a fenomenologia é introduzida em Logische Untersuchungen. Embora haja uma tendência a ver o modo cartesiano como o procedimento inicial de Husserl e o modo ontológico como o tardio, isso é uma simplificação. Em última instância, estamos lidando com dois diferentes procedimentos que se cruzam mutuamente em diferentes escritos de Husserl” (ZAHAVI, Dan. Husserl's Phenomenology, p. 151). No entanto, ainda que o procedimento seja semelhante, é importante lembrar que nas Investigações Lógicas Husserl parte de uma visão ainda bastante cartesiana, na qual separa os fenômenos, tal como Brentano, em físicos e psíquicos, o que não ocorre a partir das Idéias.

116 ZAHAVI, Dan. Beyond Realism and idealism. Husserl’s late concept of constitution, p. 45.

117 Ver, por exemplo, HALL, Harrison. Was Husserl a Realist or an Idealist? e HUTCHESON, P.

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conclusão prévia a partir das análises da redução é que não há, necessariamente, uma implicação direta de solipsismo nesta metodologia.