Numa interpretação tradicional de supervisão, poderemos referi-la como a ação de ver por cima, de ter uma visão sobre determinado assunto e que em termos práticos poderemos traduzir por um ato de exercer controlo sobre um qualquer processo.
No âmbito educativo aparece ligada à institucionalização da educação, surgindo como uma forma de orientar os futuros professores e os professores no sentido do aperfeiçoamento profissional e na melhoria das suas práticas de ensino.
Assim, poderemos referir que este conceito, a nível educativo, se apresenta tendo em conta duas perspetivas complementares.
Na FP surge como um processo, uma estratégia de apoio, aconselhamento e orientação tendo em conta uma melhor prestação e intervenção pedagógica por parte dos futuros professores.
No âmbito educativo global, surge como processo de regulação dos processos de ensino/aprendizagem e gestão escolar.
Consideradas estas premissas inicias, abordaremos de uma forma sumária estas duas perspetivas, tendo em conta que cada uma delas significou para nós a apropriação de conhecimentos e perceções muito importantes para o nosso futuro desempenho profissional.
A primeira percecionámo-la a partir da importância que atribuímos, como aluno estagiário, à prática pedagógica supervisionada (estágio) e a importância e contributo da função dos professores supervisores/cooperantes na nossa formação.
A segunda, pelo fato de este período de estágio nos ter possibilitado um primeiro contato com um contexto real de ensino e aí observar e refletir a complexidade da vida da Escola, a complexidade da Escola como organização, as funções do professor, as situações
de ensino, a importância dum “bom ensino” e as interações que se estabelecem entre os
elementos que constituem a comunidade escolar.
Considera-se, assim, a SP como fator fundamental para a melhoria, não apenas do desempenho profissional do professor, mas também do desenvolvimento qualitativo da Escola.
No âmbito da FP, o contato com a prática profissional significa um tempo de
“conflito” com a complexa realidade de ensino, com as expectativas pessoais e
verdadeiro e singulares e na presença de alguém mais experiente que nos confrontará e nos
ensinará a “viver” essa realidade.
Nesta perspetiva ressalta a importância que significará essa confrontação com alguém mais experiente, com crenças, valores e preconceções diferentes, com quem teremos que gerar um entendimento partilhado e que possibilitará que o estágio se configure com uma prática em que teremos que confrontar as nossas teorias de ensino- aprendizagem adquiridas durante a formação académica, com outras formuladas a partir de uma experiência prática e de outras formas e fontes de saber. Estaremos, assim, perante uma situação em que um professor mais experiente e mais esclarecido, orienta/supervisiona um candidato a professor na sua integração nas práticas reais de ensino, contribuindo no seu desenvolvimento pessoal e profissional (Alarcão & Tavares, 1987). Estaremos, então, perante uma dimensão importante da FP, usualmente designada de SP.
Assim, ao abordarmos o tema da SP, num contexto educativo, e centrando-nos no processo de formação inicial no designado período de estágio pedagógico ou de PES, torna-se pertinente afirmar que a ideia chave deste conceito deve ser olhada como um trabalho cooperativo e de ajuda entre o professor mais experiente mais informado e o candidato a professor (Alarcão & Tavares, 2003).
Este processo deve objetivar a procura das melhores soluções para as dificuldades e problemas que aparecem no ato de ensinar.
Para Piéron (1996), o exercício da supervisão deve ser percebida á semelhança de qualquer outro exercício, de qualquer outra função em que aconteça ensino e aprendizagem, mas em que o feedback entre a prática e a informação deve ser permanente e concreto na circunstância, contribuindo para uma melhor prestação e intervenção pedagógica por parte do futuro professor.
Para Onofre (1996), a SP configura-se como uma estratégia de formação em que um professor experiente identifique e observe as perceções e dificuldades do futuro professor, possibilitando-lhe através de uma relação sistemática, compreensiva e apoiada, a ajuda, aconselhamento e orientação indispensável ao entendimento e solução dessas mesmas dificuldades.
A SP, ou melhor, a sua interpretação concetual e a forma como deve ser operacionalizada, originaram estudos e investigações, concluindo conceitos e formas de
operacionalização diversas, divergências concetuais e práticas e diferentes formas de praticar e orientar a supervisão.
Glickman (1985) preconiza que a tenha em conta o desenvolvimento do futuro professor como pessoa, e não somente o seu desenvolvimento profissional; Brunelle, Coulibaly, et al.(1991), apresentam e preconizam quatro modelos de SP, que denominam de domínios de SP; Alarcão e Tavares (1987) baseados nesses estudos, elaboraram uma síntese sobre as principais práticas de SP, que em função das suas características foram agrupados em seis modelos designados de cenários, e a partir dos quais propõem um modelo de síntese, integrador, orientado no sentido da supervisão de professores.
Não será intenção deste nosso relatório enunciar e aprofundar estes modelos, domínios ou cenários. Procurámos, só, referenciar, algumas linhas de pensamento que orientaram os estudos de alguns autores relativamente ao conceito de prática da SP e a partir da quais poderemos observar algumas dimensões comuns e que devem constituir referenciais na orientação dessa mesma SP.
A supervisão na formação inicial deve constituir-se como uma relação de ajuda entre o professor supervisor e o futuro professor/estagiário, com o objetivo de resolver os problemas que se lhe deparam na prática de ensino, melhorar e valorizar as competências, habilidades, atitudes e favorecer e aperfeiçoar o processo de ensino-aprendizagem.
Configuram-se assim, globalmente, três premissas fundamentais a serem consideradas na SP que são: a implicação de uma adequada análise do ensino que se faz ou se pretende fazer; uma relação sistemática entre supervisor e futuro professor, que se deve desenvolver num clima relacional positivo e favorável; a efetiva competência do supervisor na dimensão das habilidades de comunicação, avaliação, incentivação, intervenção e reflexão.
No âmbito educativo global o significado e objetivos da SP apresentam-se como mais abrangentes, abarcando dimensões de ordem administrativa, pedagógica, curricular, de acompanhamento e orientação profissional, perspetivando dessa forma uma supervisão fora da sala de aula (Alarcão, 1996). Passa então, a SP, a assumir uma interpretação diferente e a significar uma preocupação e um instrumento de trabalho habitual nas Escolas, nas suas diversas dimensões, como defendem vários autores, como Alarcão e Roldão (2008), e outros autores.
Inicialmente focada na formação inicial e no contexto de sala de aula, a supervisão passa, também, a considerar um âmbito de intervenção mais vasto, significando não só
uma preocupação para o que se passa na sala de aula, mas em toda a Escola, com todos os professores no quadro das suas diversas funções e interações entre si com todos os elementos que integram as várias estruturas da organização Escola, procurando contribuir no sentido da melhoria da qualidade da Escola.
Deverá, então, a supervisão ser entendida como teoria e prática da monitorização e regulação dos processos de ensino-aprendizagem, desenvolvida no quadro de uma visão de educação mais global e transversal, assumindo-se como um processo de transformação pessoal, profissional e social, assente na reflexividade profissional individual e coletiva.
As políticas educativas atuais orientadas para a necessidade de se incrementar mais a autonomia das Escolas, pressupõe uma intervenção adequada dos seus “atores”, a suficiência dos recursos disponíveis e fundamentalmente das dinâmicas que se estabeleçam entre todos os elementos da organização Escola, de modo a conceber e executar medidas eficazes de resolução dos problemas educativos concretos, de fomentar a coesão da comunidade escolar, recrutar o esforço de todos para a melhoria da qualidade da oferta educativa de cada Escola e assim da qualidade da aprendizagem de todos os alunos. Considerando as permanentes mudanças sociais, legitima-se a necessidade de mudança na organização do sistema de ensino e das Escolas, mudanças que não pode surgir apenas em argumentos teóricos e prescritivos, mas que têm surgir a partir da implementação de dinâmicas de envolvimento dentro do sistema e da organização escolar.
Dentro desta perspetiva integrada de melhoria, a figura do professor como profissional reflexivo afigura-se como uma parcela fundamental da Escola que procura aprender para se transformar, fomentando a cultura docente colaborativa e a reflexão-ação- reflexão fator fundamental para a mudança. A construção e execução deste projeto específico pressupõem, da parte da Escola e dos seus membros, uma postura crítica, reflexiva, dialogante e participada.
A configuração organizacional da Escola, consideradas as diferentes partes da organização, pressupõe conhecer como elas se articulam e funcionam entre si. Interessa saber como elas se articulam entre si. Mintzberg (1995) afirma que estas são ligadas entre si por diferentes fluxos – de autoridade, de material de trabalho, de informação e de processos de decisão.
No caso das Escolas portuguesas, a legislação vigente introduziu a designação de estruturas de coordenação educativa e SP, atribuindo às estruturas de gestão intermédia, um papel de supervisão das atividades escolares e, nomeadamente, no âmbito das práticas
pedagógicas que ocorrem dentro das Escolas.
Assim, considerando que esta poderá significar uma determinada forma de exercício da liderança partilhada dento da Escola, implícito se considera que aos coordenadores dessas estruturas intermédias, competirá desempenhar um papel de supervisão e de liderança. Supervisão e liderança no sentido de um posicionamento reflexivo dos seus membros (professores, gestores e funcionários), em que estes desempenhem um papel ativo, crítico e construtivo, assumam a supervisão como processo de partilha de opiniões e de saberes, no sentido da valorização da Escola como organização educativa.
Um outro aspeto que poderemos referir no âmbito desta perspetiva mais global de supervisão é a emergência do conceito de SP associado de forma primordial à avaliação de professores, considerando-a o foco para a definição do conceito de supervisão no campo da educação. A supervisão é assim pensada como um processo onde o objetivo é melhorar a eficácia do ensino, com orientações e aconselhamentos que determinados profissionais exercem ao observar professores, em sala de aula, estimulando-os a desenvolver competências, a melhorar o desempenho pedagógico, estratégico e didático.
Neste sentido, a supervisão é um processo formativo que pretende promover a autoavaliação como ajuda num trabalho de análise reflexiva individual ou em grupo, assumindo-se não como meramente uma atividade técnica especializada, mas tendo por finalidade a monitorização racional dos fatores que intervêm, neste caso, no processo de ensino/aprendizagem (Alarcão, 2002).
Se por um lado se pretende uma maior autonomia profissional dos professores, por outro lado, a avaliação de professores, Escolas e aferição de alunos, reflete um reforço do controlo sobre a educação.
Nas suas finalidades, a supervisão e a avaliação de professores deverá considerar a melhoria dos resultados escolares, o entendimento e melhoria da realidade e valorização profissional.
3.3. As perceções profissionais do professor de Educação Física na Escola