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Podemos iniciar a caracterização da noção de auto-organização considerada neste trabalho com um sintético conceito formulado por De Wolf e Holvoet (2005) após extensa revisão bibliográfica sobre o tema. Segundo estes pesquisadores do campo da Ciência da Computação, “auto-organização é um processo dinâmico e adaptativo em que sistemas adquirem e mantêm uma estrutura por si só, sem controle externo” (p.7)

Na mesma perspectiva, o filósofo Michel Debrun144 propõe outra definição para o termo:

Há auto-organização cada vez que o advento ou a reestruturação de uma forma, ao longo de um processo, se deve principalmente ao próprio processo - ãs características nele intrínsecas -, e só em grau menor ãs suas condições de partida, ao intercâmbio com o ambiente ou ã presença eventual de uma instância supervisora (DEBRUN, 1996a, p.4).

Para os autores dos conceitos, uma das características principais dos processos auto- organizados é a capacidade dos agentes de conduzirem os rumos do sistema dinâmico, minimizando ou mesmo impedindo a influência de uma “instância supervisora” interna ou externa ou de um momento do processo que poderia direcionar decisivamente seu desenrolar. Cada movimento deve ser condicionado, mas não direcionado pelo anterior, o que enfatiza o caráter processual dos sistemas.

144 Francês radicado no Brasil nos anos 1950, o filósofo e professor titular da UNICAMP Michel Maurice

Debrun foi o responsável, nos 1990, pela fundação e condução do Centro de Estudos de Lógica, Epistemologia e História da Ciência daquela universidade. No CLE, Debrun liderou um grupo de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento com o objetivo de desenvolver e aplicar uma teoria interdisciplinar da auto-organização.

Neste sentido, o início do processo auto-organizado, também chamado de “condições iniciais”, ou condições de partida, não pode determinar sua dinâmica, mas sim deve fornecer “uma orientação ou um impulso numa certa direção” (DEBRUN, 1996a, p.6). Esta direção proposta pode ser seguida, desviada ou mesmo negada pelos agentes envolvidos. O que determina uma formação auto-organizada é a “maneira como a proposta foi absorvida, aplicada, redefinida, diluída etc., no decorrer das interações subsequentes” (1996a, p.9). Nesse aspecto, os sistemas adaptativos complexos parecem diferenciar-se significativamente dos sistemas caóticos, que têm como característica fundamental a grande sensibilidade ãs condições iniciais (cf. GLEICK, 1991; WILLIANS, 1997, entre outros).

O ponto de partida de um sistema auto-organizado não é necessariamente uma reunião “casual”, ou mesmo aleatória de agentes sem um objetivo comum. Para Debrun, é possível que a auto-organização aconteça a partir de “decisões de indivíduos, de grupos, de entidades”, que representam um “dispositivo organizacional”. Nessa circunstância, o planejamento é um princípio possível na constituição da auto-organização. A existência de um “projeto cooperativista (ou em torno da decisão de elaborar um tal projeto)”, no entanto, não seria suficiente para garantir a auto-organização.

Para De Wolf e Holvoet (2005), a auto-organização depende da inexistência de um

controle externo, ou a “ausência de direção, manipulação, interferência, pressões ou

envolvimento de fora do sistema”. Isso não quer dizer não haja estímulos advindos de outros sistemas, mas sim que esses estímulos não emitem instruções de controle. Em outras palavras, os autores afirmam que, para haver auto-organização, a “decisão sobre o que fazer em seguida deve ser tomada totalmente dentro do sistema, isto é, o sistema é autônomo” (p.8).

Para que um processo auto-organizado seja criativo, isto é, seja constantemente alimentado por novidades, é preciso que os agentes “não prolonguem exageradamente sua influência dentro do presente”. Essa “regra” revela uma das características mais importantes dos processos auto-organizados caracterizados por Michel Debrun: um desprendimento em relação ãs interações passadas. Para ele, “em particular no que tange ã auto-organização no nível humano, o sentido das origens, e do passado de modo geral, é constantemente redefinido em função do presente e dos projetos” (DEBRUN, 1996b, p.36), isto é, durante as interações, não deve pesar muito o histórico dos agentes e de suas relações, e sim as ações mais recentes,

que por sua vez devem ser “esquecidas” pouco depois para que o sistema se renove sempre. Para que a auto-organização se desenrole é preciso que os agentes, ou as partes envolvidas comportem-se dentro de alguns parâmetros básicos. Por exemplo, deve haver uma “independência” na atuação de cada agente, o que impede que qualquer um deles seja determinado pela ação dos outros. Esta autonomia, no entanto, não pode significar isolamento, uma vez que é no “‘carimbo’ da interação” (DEBRUN, 1996a, p.09) que o sistema se desenvolve, ou seja, a partir de negociações constantes travadas entre os agentes.

A independência de atuação descrita por Debrun dialoga com a característica da não- linearidade dos sistemas complexos, e também com uma das quatro características principais dos sistemas adaptativos complexos apontadas por Holland (2006): o “paralelismo” do sistema. Para este autor, é fundamental que os agentes interajam, “enviando e recebendo sinais”, de forma simultânea. Como consequência dessa dinâmica, nos sistemas não-lineares “a interação entre as variáveis leva a alterações no resultado que não podem ser relacionadas unicamente a alterações em cada variável tomada individualmente”, enquanto em um sistema linear “cada variável afeta o resultado de forma independente” (FLEISCHER, 2009. p.75).

Outro fator que influencia decisivamente é o “grau de distinção” entre os agentes. Para Debrun (1996a), quanto maior a diferença entre eles, e maior o número de agentes distintos, maior a liberdade para estes se associarem e, consequentemente, maior a probabilidade de gerarem um sistema efetivamente auto-organizado (p.15). Trata-se da “heterogeneidade” - característica apontada por Larsen-Freeman e Cameron (2008) - que propicia a diversidade necessária para garantir a riqueza de interações do sistema.

Por outro lado, os agentes não podem ser diferentes e independentes a ponto de o funcionamento do sistema depender da atuação isolada de cada um deles. Braga (2007, p.74), citando Davis e Sumara (2006), afirma que “da mesma forma que a diversidade interna dinamiza o sistema, a redundância é considerada vital [...] por exercer dois papéis: possibilitar a interação entre os agentes de um sistema e quando necessário possibilitar que uns agentes compensem os outros em um evento de desestabilização”.

A capacidade de equilibrar a especificidade e a redundância é reconhecida como fundamental para a adaptação do sistema auto-organizado. Nesse sentido, Debrun (1996a) fala da necessidade de constituição de “partes semi-distintas” (p.9), o que indica um

distanciamento entre os agentes sem culminar em uma ruptura. Não há necessidade, ou muitas vezes sequer a possibilidade de que todas as partes interajam entre si. Basta que uma parte “saiba” da existência das outras e esteja apta a substituí-la se for necessário. Referindo-se ãs ideias de Merleau-Ponty, Debrun chama de “interioridade”, ou “acavalamento” essa situação intermediária de interação, que está entre uma “exterioridade radical” e a “fusão” de elementos.

Além da ausência de “controle externo”, a outra característica fundamental da auto- organização segundo De Wolf e Holvoet (2005) é a necessidade de um “incremento da ordem” no sistema. Através de uma adaptação que visa o cumprimento de funções específicas, os agentes auto-organizados podem restringir o comportamento do sistema a um pequeno volume do espaço de fase, constituindo um atrator “útil”, isto é, adequado aos objetivos do sistema. O excesso de ordem, porém, pode impedir um comportamento mais flexível e efetivamente auto-organizado. Assim, De Wolf e Holvoet (2005) afirmam que “a auto- organização precisa encontrar um equilíbrio entre a ausência de ordem e a ordem excessiva”, isto é, “o limite entre a ordem e o caos” (p.7). De forma complementar, Richardson (2010) aponta que as duas forças mais dominantes em um sistema complexo rivalizam no trabalho de empurrar o sistema para um comportamento caótico, ou para estimular a auto-organização, que atua como “anti-caos” (p.15)145.

O “incremento na ordem” descrito por De Wolf e Holvoet (2005) pode levar a uma endogenização (DEBRUN, 1996b) do sistema, ou seja, a um aumento na distância entre o universo de “dentro” e o de “fora”, tornando o processo menos aberto ãs variáveis externas e “cada vez mais responsável pelo seu próprio desenrolar” (p.35). O atrator formado a partir dessa endogenização tende a imobilizar o processo de interações, o que pode ser freado ou mesmo anulado “pelas provocações externas, que reabrem o acesso ao mundo” (p.37).

Trata-se, portanto, de um jogo de tensões que variam entre o fechamento do sistema em si mesmo, guiado por um atrator, e a abertura ao “acaso” do ambiente externo, levando o sistema ao que denominamos anteriormente de “limite do caos” (WALDROP, 1992). Como afirmam De Wolf e Holvoet (2005), cabe aos agentes que conduzem a auto-organização o estabelecimento de um balanceamento dinâmico entre a ordem e o caos, pois “o sistema 145

Richardson (2010) argumenta ainda que, “apesar da aparente tensão, o caos é, na verdade, resultado da auto- organização, isto é, um sistema complexo pode se auto-organizar em uma estrutura que leva a um comportamento caótico. Se não, seguir esta auto-organização leva a algum tipo de ordem preferida”, ou atrator.

precisa estar longe do equilíbrio para manter a estrutura” (p.9).

Para Debrun (1996b), a auto-organização torna-se negativa quando a disputa entre os agentes em torno de um propósito comum diminui significativamente, o que esvazia o sentido original das interações entre eles. Nas palavras do autor, a auto-organização negativa baseia- se na “competição de múltiplos atores em torno de alvos idênticos (...) mas não comuns” e “na impotência em que se encontram esses atores de agir uns sobre os outros, de definir um vencedor e um vencido” (p.39). Essa tendência pode culminar na ausência de pressão das partes umas sobre as outras ou da pressão do eventual supervisor, ou ainda na adoção de comportamentos idênticos, culminando em um estado de relaxamento das interações que indica um esgotamento do processo de auto-organização. Debrun (1996b, p.46) explica assim esse estágio final da auto-organização: “é que o futuro projetado por certa expectativa se configurou de repente, para todos ou para a maioria, como inevitável e desejável, ou irresistível apesar de indesejável”.