A compreensão dos fenômenos (sejam eles naturais, sociais ou linguísticos) considerando todas as variáveis interligadas que os compõem e/ou influenciam é um objetivo comum dos diferentes campos do conhecimento científico na atualidade. O paradigma clássico da ciência, caracterizado por uma abordagem mecanicista dos fenômenos, tem sido questionado nas últimas décadas pela incapacidade de captar e compreender todas as múltiplas relações que influenciam os sistemas. A esta abordagem tradicional da ciência opõe- se o paradigma da complexidade, cuja concepção se concentra no estudo das intensas interligações entre os agentes envolvidos no processo.
Nesta perspectiva, a noção de complexidade, frequentemente associada pelo senso comum a algo complicado, diz respeito ã interdependência entre as variáveis que atuam ou
influenciam um dado sistema e que não podem ser compreendidas de forma isolada. Conforme Oliveira (2009), complexo é “aquilo que é composto de partes que se relacionam de maneira intricada” (p.15). Nesse sentido, esse modelo de abordagem e compreensão dos fenômenos também é chamado de sistêmico, uma vez que se pauta pela indissociabilidade das partes que compõem o todo - trata-se, portanto, de um sistema integrado composto por partes interdependentes.
Uma das características-chave do pensamento sistêmico citada por Capra (2001, p.36) propõe que “os sistemas vivos são totalidades integradas cujas propriedades não podem ser reduzidas ãs de partes menores”, isto é, as propriedades não estão nas partes isoladas, e sim surgem das relações estabelecidas entre elas. De forma complementar, Larsen-Freeman e Cameron (2008, p.01) apontam que a “teoria da complexidade objetiva explicar como as partes em interação do sistema complexo dão origem a um comportamento coletivo do sistema e como o sistema simultaneamente interage com seus ambientes”.
A Linguística Aplicada é uma das áreas do conhecimento que vem adotando a perspectiva da complexidade como base conceitual e metodológica. Entender a linguagem como um fenômeno complexo e fruto das relações integradas de diversos fatores internos e externos aos sistemas parece ser uma postura cada vez mais comum entre pesquisadores desse campo. Para Larsen-Freeman e Cameron (2008, p.11), a teoria da complexidade aplicada ã Linguística Aplicada é “pelo menos uma nova metáfora que traz novas maneiras de pensar sobre termos no campo de pesquisa e, no máximo, pode empurrar o campo para uma mudança teórica radical”. Ainda segundo as autoras,
a questão mais importante oferecida pela teoria da complexidade ã linguística aplicada é a visão de que o mundo não é composto por 'coisas', ou entidades estáveis. Ao invés, mudança e adaptação são um contínuo entre mundo e o fenômeno que o contém, e qualquer estabilidade percebida emerge da dinâmica do sistema (p.09).
A relação da Linguística Aplicada com os sistemas complexos data, segundo Martins e Braga (2007), da década de 1980, quando alguns trabalhos pioneiros em inglês relacionaram as teorias do caos e da complexidade com o ensino e aprendizagem de línguas. Ainda segundo os autores, um “marco da entrada dessas teorias no campo da LA” é a publicação do artigo “Chaos/Complexity Science and Second Language Acquisition”, de Diane Larsen-Freeman, em 1997. Em 2008, causou significativo impacto a publicação de outro trabalho dessa
pesquisadora estadunidense, o livro “Complex Systems and Applied Linguistics”, escrito em co-autoria com Lynne Cameron. No Brasil, destaca-se a produção do Programa de Pós- Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de Minas Gerais, no qual teses e dissertações (orientadas principalmente pela professora Vera Lucia Menezes de Oliveira e Paiva) têm explorado diferentes aspectos das teorias do caos e da complexidade (cf. MARTINS e BRAGA, 2007).
Em 2009, alguns dos principais pesquisadores internacionais141 alinhados ã perspectiva da complexidade produziram um texto conjunto que serviu de referência para um encontro com o tema “Linguagem é um sistema adaptativo complexo”, sediado pela Universidade de Michigan. Em Ellis et al (2009, p.2), os pesquisadores elencam alguns fatores-chave para definir a abordagem:
a) O sistema é constituído de múltiplos agentes (os falantes de uma comunidade discursiva) interagindo uns com os outros;
b) O sistema é adaptativo, isto é, o comportamento dos falantes é baseado nas suas interações passadas, e suas interações atuais e anteriores alimentam o comportamento futuro;
c) O comportamento do falante é consequência de fatores em competição, da mecânica da percepção ãs motivações sociais.
d) As estruturas da linguagem emergem de padrões inter-relacionados de experiência, interação social e processos cognitivos.
Para os autores do documento coletivo, as características da “linguagem como sistema adaptativo complexo” são as mesmas que caracterizam os sistemas em outros campos do conhecimento. A lista elaborada inclui “controle distribuído e emergência distribuída”, “diversidade intrínseca”, “dinâmica perpétua”, “adaptação através da amplificação e competição de fatores”, “não-linearidade e transições de fases” e “sensibilidade e dependência da estrutura de redes” (p.14). Estes itens podem ser sintetizados em uma afirmação de 141
Na ordem em que são citados: Clay Beckner, University of New Mexico; Richard Blythe, University of Edinburgh; Joan Bybee, University of New Mexico; Morten H. Christiansen, Cornell University; William Croft, University of New Mexico; Nick C. Ellis, University of Michigan; John Holland, Santa Fe Institute; Jinyun Ke, University of Michigan; Diane Larsen-Freeman, University of Michigan; Tom Schoenemann, James Madison University.
Nascimento (2009), para quem “entender a linguagem como um sistema complexo é, essencialmente, entender a linguagem como um sistema aberto, não-linear, auto-organizante, em constante troca de energia com seu exterior, exibindo espaço de fase, entendido como graus de estabilidade e variabilidade” (p.72).
Segundo Larsen-Freeman e Cameron (2008, p.03), a “teoria da complexidade lida com o estudo de sistemas complexos, dinâmicos, não-lineares, auto-organizados, abertos, emergentes, ãs vezes caóticos e adaptativos”. Esta definição explicita, além das características comuns dos sistemas complexos, algumas especificidades: o caos142 e a adaptação. Essa diferenciação é explicada por Martins (2008, p.41), que baseado na posição de Stacentiy (2003, p.44), afirma que “não há ainda uma única ciência da complexidade, mas um número de diferentes linhas, dentre as quais, as mais proeminentes são a teoria do caos, a teoria das estruturas dissipativas e a teoria dos sistemas adaptativos complexos”. Esta última perspectiva, desenvolvida marcadamente por pesquisadores do Santa Fé Institute, nos EUA (cf. HOLLAND, 1996), nos parece especialmente adequada para o presente trabalho, conforme discutimos a seguir.