Segundo De Wolf e Holvoet (2005), é muito comum, na literatura especializada, a associação dos termos “auto-organização” e “emergência”, que muitas vezes são tomados “incorretamente como sinônimos”. No entanto, afirmam, “emergência e auto-organização enfatizam características bem diferentes do comportamento do sistema”. Após uma extensiva e criteriosa revisão de literatura sobre os dois conceitos, De Wolf e Holvoet (2005) identificaram que cada um desses dois fenômenos pode existir de forma isolada, assim como podem co-existir em um sistema dinâmico (p.1).
Ao sistematizar diferentes conceituações desses dois fenômenos, De Wolf e Holvoet (2005) identificaram, na maior parte da literatura, quatro características comuns atribuídas ã emergência: “novidade radical”, “efeito micro-macro”, “flexibilidade em relação aos agentes” e “controle descentralizado”. Ao sintetizá-las em duas tendências (o surgimento de um comportamento global a partir das interações entre as partes locais e a impossibilidade de esse comportamento ser traçado de volta pelas partes individuais), os autores propõem uma definição para emergência:
um sistema exibe emergência quando existem emergentes coerentesno nível macro que surgem dinamicamente a partir das interações entre as partes no nível micro. Estes comportamentos emergentes são novidade em relação ãs partes individuais do sistema (DE WOLF e HOLVOET, 2005, p. 3).
Essa definição aproxima-se da perspectiva de Larsen-Freeman e Cameron (2008), que associam a emergência ao “aparecimento, em um sistema complexo, de um novo estado em um nível de organização maior que o anterior” (p.59).
Segundo De Wolf e Holvoet (2005), diferentes termos são utilizados para caracterizar o resultado da emergência, entre eles “propriedades”, “comportamento”, “estrutura” e “padrão”. Independentemente do nome atribuído, o importante é que o novo estado, em função do dinamismo do sistema, passe a funcionar como um atrator, isto é, que direcione o comportamento do sistema para um equilíbrio dinâmico.
A existência de uma novidade aponta para uma mudança qualitativa no comportamento do sistema e, por consequência, ã impossibilidade do comportamento macro ser reduzido ãs partes que o originaram. Conforme indica Holland (1995), “a emergência de comportamentos complexos em larga escala” é possível “a partir de interações agregadas de agentes menos complexos” (p.11). Essa “agregação” resulta em um padrão formado a partir de interações estabilizadas e que não podem ser identificadas nas interações locais que as originaram. A diferença entre o estado macro e a interações no nível micro, no entanto, não impedem que estas sejam estudadas individualmente, desde que sejam consideradas no contexto em que aconteceram (cf. DE WOLF e HOLVOET, 2005).
Para que haja emergência, a correlação entre as partes tem que ser lógica e consistente, isto é, coerente, o que permite a manutenção de uma certa identidade ao longo do tempo. Nesse sentido, mais do que atuar de forma paralela, as partes precisam interagir entre si, mas sem que um controle centralizado direcione o comportamento do nível-macro. Essa
descentralização dá “robustez” e “flexibilidade” ao processo, e possibilita que a emergência
seja “relativamente insensível a perturbações e erros”, isto é, que não seja facilmente influenciada ou se torne dependente das atuações individuais dos agentes.
Johnson (2003, p.14) aponta que os sistemas emergentes “resolvem problemas com auxílio de massas de elementos relativamente simplórios, em vez de contar com um única ´divisão executiva` inteligente”. Por outro lado, como afirma Heylighten (2008, p.9), a
emergência resulta em uma obediência a regras. Ao deixarem de ser “individualistas egoístas” para se tornarem “cooperadores conscientes”, os agentes perdem (parcialmente, pelo menos) a autonomia de atuação ã margem dos atratores do sistema adaptativo complexo.
“Emergência” e “auto-organização”, conforme sistematização elaborada por De Wolf e Holvoet (2005), são fenômenos relacionados, que podem se complementar quando combinados, mas também podem existir em separado. Para entendermos as diferenças e aproximações, sistematizamos no quadro 01 as especificidades identificadas pelos autores.
Quadro 01 - Propriedades da “emergência” e da “auto-organização”
Propriedades específicas da emergência
(e não necessárias para auto-organização)
Propriedades específicas da auto- organização (e não necessárias
para emergência) - Novidade radical
- Efeito micro-macro
- Flexibilidade em relação aos agentes - Controle descentralizado
- Incremento da ordem
- Ausência de controle externo - Adaptabilidade
Extraído de De Wolf e Holvoet (2005)
Há auto-organização sem emergência quando, apesar da movimentação interna dos agentes, não há o “efeito micro-macro” que caracteriza o segundo fenômeno. No diagrama (a) da figura 15 elaborada pelos autores, podemos identificar um ciclo autorreferente, que não culmina em uma mudança de estado do sistema, ou em uma novidade radical.
Por outro lado, há emergência sem auto-organização quando pelo menos uma das características desse comportamento é identificada - ver diagrama (b). Por exemplo, pode haver emergência sem incremento da ordem, isto é, uma alteração no estado do sistema sem sua adequação a um comportamento “útil” (cf. DE WOLF e HOLVOET, 2005, p.11). Outra situação possível é a mudança no comportamento do sistema causada por uma excessiva intervenção externa, o que caracterizaria também a ausência de auto-organização.
Figura 15 - Diagramas sobre “emergência” e “auto-organização”
Extraída de De Wolf e Holvoet (2005)
Segundo De Wolf e Holvoet (2005), “na maioria dos sistemas considerados na literatura, a emergência e a auto-organização ocorrem juntas”, pois se complementam, conforme representado no diagrama (c). Isso acontece frequentemente nos sistemas adaptativos complexos, onde a auto-organização é uma necessidade (p. 13). Conforme os autores, isso acontece porque a “auto-organização requer um incremento na ordem que promove uma certa função ou propriedade. Indivíduos simples não podem direcionar um sistema tão complexo, portanto o comportamento coerente global deve emergir das interações entre os indivíduos” (p.11).
Esta probabilidade (mas não uma certeza) de associação entre auto-organização e emergência é apontada também por Debrun (1996a, p.13), para quem
Há auto-organização cada vez que, a partir de um encontro entre elementos realmente (e não analiticamente) distintos, desenvolve-se uma interação sem supervisor (ou sem supervisor onipotente) – interação essa que leva eventualmente ã constituição de uma “forma” ou ã reestruturação, por “complexificação”, de uma forma já existente (DEBRUN, 1996a, p.13)
Ao afirmar que a interação entre os agentes distintos leva eventualmente a uma forma mais complexa de organização, o autor parece afirmar que estado de emergência não é o destino natural e inevitável de um sistema auto-organizado, ainda que seja um de seus estados futuros mais comuns146. No mesmo sentido, Larsen-Freeman e Cameron (2008) afirmam que 146
Embora não utilize a palavra “emergência” em suas reflexões, Michel Debrun faz uma diferenciação entre Auto-Organização Primária e Secundária que, em última instância, parece diferenciar a auto-organização sem e com emergência, respectivamente. Há uma “Auto-Organização Primária” quando não existe um alinhamento a
“ãs vezes a auto-organização leva a um novo fenômeno em uma escala ou nível diferente, um processo chamado 'emergência'” (p.59).
Nosso intuito aqui ao caracterizar a auto-organização e diferenciá-la do conceito de “emergência” deve-se, além de um esforço teórico, a uma necessidade de compreensão mais aperfeiçoada do objeto de estudo deste trabalho, como discutiremos a seguir.