“Eu faço uso da pintura para tornar o pensamento visível” René Magritte
Quando optamos por elaborar esse trabalho a partir do estudo que vinha sendo realizado pelo grupo que desenvolvia o projeto: “IMAGINÁRIO E REPRESENTAÇÃO SOCIAL DE JOVENS UNIVERSITÁRIOS SOBRE O BRASIL E A ESCOLA BRASILEIRA”, havia um interesse em conhecer o que pensavam os alunos que fizeram parte dessa pesquisa, mas uma outra indagação que contornava o foco do trabalho me mobilizou: Diante de desenhos tão infantilizados e de difícil compreensão, realizados pelos alunos dos cursos de Medicina e Pedagogia, sujeitos da pesquisa acima citada, seria possível considerar que a dificuldade em se expressar graficamente por meio do desenho, estaria interferindo na expressão também de seu pensamento? Por que seus desenhos se pareciam tanto com desenhos de crianças?
Mas qual não foi a surpresa ao se obter os resultados da pesquisa realizada com os alunos do curso de Artes que, supostamente, estariam habituados a este meio de expressão, já que o desenho é um recurso utilizado em seu dia-a-dia e não apenas uma forma de expressão da sua infância.
Porém apesar dessa suposição, em muitos casos, os desenhos dos alunos do curso de Artes Plásticas também eram infantilizados e com recursos estereotipados, como os apresentados pelos alunos dos cursos de Medicina e Pedagogia.
A maioria deles também desenhou a escola como crianças. Poucos demonstraram uma preocupação com a qualidade estética de seu trabalho ou utilizaram dos recursos desenvolvidos em sua trajetória como aluno de um curso de Artes Plásticas, como era a nossa expectativa.
Em alguns casos, os desenhos, apesar da aparente diferença na firmeza e apuração de traço, chegam a assemelhar-se com os apresentados por Pires (1996), em pesquisa que realizou com crianças de 8 a 10 anos sobre a escola que elas adoravam.
Fig. 34. Desenho de uma criança sobre a escola , apresentado na pesquisa de PIRES(1996)
Fig. 35. Desenho sobre a escola realizado por um aluno universitário do curso de Artes Plásticas
A intenção, desde o princípio, não era de analisar psicologicamente os desenhos, ou avaliar a qualidade estética das produções, mas sim buscar a imagem de escola que os participantes da pesquisa têm. Mas é inevitável a comparação com o desenho infantil, é como se para eles a escola ainda fosse
a da infância. Isso nos leva a pensar no que Sousa (2005), afirma, quando defende que a Teoria das Representações Sociais revela, ou, em suas palavras, “desvela como as pessoas compreendem e explicam o sentido de escola”, e que, diante disso:
[...]tais representações foram construídas na escola, que define na relação com aqueles que com ela convivem, como quer ser pensada, ser representada. Assim a escola constrói e faz construir a visão, sobre seu presente, o que foi seu passado e o que será seu futuro, e ainda o que seria “boa escola”, a partir do pensamento daqueles que convivem com ela. (SOUSA, 2005, p. 251)
É como se a própria escola determinasse como ela deve ser vista, já que aqueles que a percebem assim, fazem parte desta construção.
Tudo isso nos faz pensar na própria imagem que se tem desta escola que se busca revelar, e a associação das palavras traz à tona uma outra imagem, desta vez pictórica, em que a metáfora é inevitável: a escola aqui é algo que se revela, que mostra a sua forma e que se faz aparecer como é , desvendada e escondida ao mesmo tempo. Como tentamos ilustrar a seguir, fazendo uso da arte de Magritte:
Fig. 36. Renne Magritte – O modelo Vermelho – 1937
O problema dos sapatos demonstra quão facilmente as coisas mais assustadoras podem ser feitas para parecerem completamente inofensivas através do poder da negligência. Graças ao “modele rouge” ( o modelo vermelho), sente-se que a união do pé humano com um sapato se baseia afinal num monstruoso costume. (PAQUET, 2000, p.61)
Como nos pés e botas que Magritte criou, nas respostas dadas pelos sujeitos, a escola se mostra, muitas vezes, como uma imagem límpida e clara e, em outras, encoberta como se procurasse esconder, dentro de si mesma, o desejo de ser diferente do que ela realmente é.
Diante de tantos dados e de uma pesquisa tão extensa, o que se revela é que essa escola, como os quadros de Magritte não podem ser simplesmente vistos. Precisam ser pensados. E neste momento optamos por pensar esta escola por meio das metáforas que os próprios sujeitos escolheram em seus títulos sobre seu desenho, como forma de fazermos uma síntese dos dados revelados pela pesquisa.
A síntese será elaborada a partir das metáforas utilizadas pelos próprios sujeitos, tendo sido escolhido para isso um representante de cada uma das categorias elaboradas anteriormente para a análise do título. Para essa escolha o critério utilizado foi o de selecionar o título mais representativo de cada uma das categorias, com a preocupação de que o sujeito escolhido se utiliza-se de uma metáfora que pudesse representar o grupo.
A metáfora é o recurso da língua que apóia-se em conceder atributos ou predicados a algo que não se conhece, com base em algo já conhecido. Isso acontece a partir de uma concentração de qualidades atribuídas a algum objeto, produzida por meio de analogia ou mediante o processo de “acomodar algo novo em esquemas ou estruturas cognitivas anteriores” ( MAZZOTTI&OLIVEIRA, 2000, p.14).
Segundo Mazzotti(2002), essa acomodação se dá por meio de uma predicação que se estrutura a partir da aproximação do que se sabe com o que não se sabe, numa relação de onde o que é conhecido, é que oferece os predicados, ou até categorias, para que sejam associadas ao objeto.
A eficácia argumentativa das metáforas nos conduz a sustentar ser necessária a identificação deliberada das metáforas nas investigações sobre as representações sociais. Para mim está claro que no núcleo das representações operam figuras ou esquemas retóricos e, em particular, a metáfora. (MAZZOTTI, 2002, p. 109)
Ao longo da pesquisa, a cada dado revelado, foi possível observar que as imagens de escola que estes alunos tinham, em especial quando a associavam a alguma outra coisa , estavam muito atreladas a uma relação metafórica das respostas com o objeto.
Assim, pode-se considerar, a partir das afirmações de Mazzotti (2002), que “as metáforas condensam e coordenam significados, logo, operam os núcleos das representações sociais, uma vez que estabelecem e agenciam os predicados e lugares comum.” (MAZZOTTI, 2002, p112)
Os títulos se colocam como uma síntese do desenho, cumprindo bem este papel e, muitas vezes, assumiram uma identificação com metáforas de escola. Desta maneira, se optou aqui por selecionar um exemplo de cada uma das categorias elencadas na análise destes títulos, para estabelecer as relações da imagem de escola a partir destes sujeitos, tentando desvelar, de uma forma sucinta , o que foi revelado pela própria pesquisa. Assim foram escolhidos os seguintes títulos para representar cada uma das categorias:
1. Menina dos meus olhos , associado a idealização da escola;
2. Me dê motivos pra ir embora, associado as inquietações frente aos conflitos;
3. Dia de Prova na escola de pedra, associado ao cotidiano na sala de aula;
4. A semente da sociedade, associado as citações abrangentes.
Tendo como referencia estes títulos, revisitaremos todas as respostas desses sujeitos, inferindo assim, as imagens de escola reveladas neste estudo.