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Supor um terceiro setor pressupõe a existência de um primeiro setor – representado pelo Estado – e a de um segundo – representado pelo mercado. A expressão terceiro setor pode nos dar a idéia de homogeneidade ou, o que é um equívoco, de usá-la como sinônimo de Organização não Governamental – ONG. O uso da expressão Organização não governamental como sinônimo de terceiro setor teria sido observado por Boaventura de Souza Santos32 no que se refere aos países do chamado Terceiro Mundo, fato não observado por mim pelo menos no que se refere à literatura acadêmica brasileira consultada referente ao assunto33. Na verdade, por trás desta aparente expressão “guarda-chuva” encontra-se uma miríade de organizações sociais que incluem ONGs, entidades filantrópicas, associações de moradores, etc que são organizações sociais privadas sem fins lucrativos que, mesmo tendo objetivos sociais, públicos e/ou coletivos, não são estatais. Sobre a heterogeneidade inerente ao terceiro setor e sua especificidade Boaventura de Souza Santos coloca:
‘terceiro setor’ é uma designação residual e vaga com que se pretende dar conta de um vastíssimo conjunto de organizações sociais que não são nem estatais nem mercantis, ou seja, organizações sociais que, por um lado, sendo privadas, não visam fins lucrativos, e, por outro lado, sendo animadas por objetivos sociais, públicos ou coletivos, não são estatais. Entre tais organizações podem mencionar-se cooperativas, associações mutualistas, associações não lucrativas, organizações não governamentais, organizações quase-não-governamentais, organizações de voluntariado, organizações comunitárias ou de base, etc.34
Elisabete Ferrarezi vê com ressalvas a utilização de expressões como “sem fins lucrativos” ou o fato de que as organizações que compõem o terceiro setor teriam necessariamente objetivos coletivos e/ou sociais. Na verdade, a autora chama a atenção para o fato de que no terceiro
32 SANTOS, Boaventura de Souza. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006. p. 350.
33 Cf. COELHO, Simone de Castro. Terceiro setor: um estudo comparado entre Brasil e Estados Unidos. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2000; FERRAREZI, Elisabete. OSCIP: saiba o que são organizações da sociedade civil de interesse público. Brasília: Agência de Educação para o Desenvolvimento, 2002; FERNANDES, Rubem César. Privado porém público: o terceiro setor na América Latina. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994; WARREM-SCHERER, Ilse. Cidadania sem fronteiras: ações coletivas na era da globalização. São Paulo: Hucitec, 1999.
setor estão inclusos “... também organizações que perseguem interesses privados ou mesmo as que, embora tenham sua ação voltada para a promoção de políticas públicas, dirigem seus esforços a um círculo restrito de pessoas ou associados”35.
A importância de se considerar a heterogeneidade do Terceiro Setor está no fato, por exemplo, de que os movimentos reivindicativos que tiveram papel central para que as complexidades postas na cotidianidade da periferia emergissem para as ciências sociais em fins da década de 1970 no Brasil já se constituíam, pode-se dizer, como parte de um terceiro setor. Sendo assim, a idéia de uma sociedade civil brasileira atuando, num primeiro momento, paralelamente, para além ou contra o Estado e o mercado não deve ser considerada como sendo necessariamente uma novidade que emerge com a consolidação e expansão das organizações não governamentais a partir de meados da década 1980. Leilah Landim36 situa o surgimento deste fenômeno social no país no final da década de 1960, com muitas organizações não governamentais filiadas à ABONG – Associação Brasileira de Organizações não Governamentais –, estando atualmente consolidadas, tendo surgido na década de 1970. Estas organizações surgem, portanto, nos “anos de chumbo” da ditadura militar se concentrando na assessoria a movimentos populares, em trabalhos ligados à educação popular etc. Surgem como organizações avessas à sua institucionalização pelo Estado surgindo, na verdade, em contraposição a ele. Nos países centrais Boaventura de Souza Santos situa o surgimento do terceiro setor, principalmente no que se refere à Europa, no século XIX, surgindo, na verdade, contra o Estado visando a superação do capitalismo ou tendo um caráter mitigador no que se refere aos “custos humanos”, como conseqüência da Revolução Industrial, postos principalmente para a classe trabalhadora. Tratou-se de organizações sociais dos mais variados matizes, desde socialistas a cristãos sociais e liberais. Nos termos do autor:
Nos países centrais e em especial na Europa, o terceiro setor surgiu no século XIX como alternativa ao capitalismo, tendo raízes ideológicas heterogêneas que vão do socialismo nas suas múltiplas faces, ao cristianismo social e ao liberalismo, visando novas formas de organização da produção e de consumo que, ora desafiavam frontalmente os princípios da economia política burguesa em ascensão, ora buscavam tão só minimizar os custos humanos da Revolução Industrial, funcionando de modo compensatório e em contra-ciclo. 37
A presença do que seria um terceiro setor no Brasil remonta a meados da década de 1930 numa relação mais de aproximação com o Estado do que contra ou para além dele. Próximo,
35 FERRAREZI, Elisabete. OSCIP. Obra citada, p. 15.
36 LANDIM, Leilah. “Experiência militante”: histórias das assim chamadas ONGs. In:____ (org). Ações em
sociedade: militância, caridade, assistência etc. Rio de Janeiro: NAU, 1998.
na verdade, no que se refere ao histórico das qualificações a que uma organização social pode pleitear, como a de utilidade pública como pré-requisito, por parte do Estado, “para concessão de doações dedutíveis do imposto de renda, doações em bens da administração pública federal direta”, entre outros benefícios. Na verdade parte da história do terceiro setor no Brasil se confunde com a forma extremamente burocratizada de alguma organização social e/ou entidade receber titulações como prerrogativa para repasse de recursos estatais por meio de algum convênio ou de benefícios como os supracitados. Esta extrema burocratização se fez presente como forma de coibir práticas como o tráfico de influência e/ou práticas clientelistas ocorrendo, como não poderia deixar de ser, justamente o contrário. Com a constituição de 1946, por exemplo, foi possibilitada que organizações com fins lucrativos fossem consideradas como entidades filantrópicas entrando nesse “bolo” até empresas de táxi aéreo. A recente, de 1999, lei das OSCIPS veio com a proposta de simplificar o acesso aos recursos estatais instituindo-se o termo de parceria a partir da qualificação, num processo aparentemente simples e rápido, como veremos, determinada organização social como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público.38
Se as ONGs no Brasil nascem se contrapondo ao Estado com um sentido anti-burocrático muito comum, pensando o segundo setor na dimensão de uma lógica empresarial e o primeiro setor no que se refere à sua burocratização, hoje se observa uma tendência, no caso destas organizações, de aproximação, por vezes de parceria, com o Estado e mercado. Se, no que se refere às ONGs, houve apostas referentes a uma sociedade civil instituinte, esta radicalidade deve ser relativizada se pensarmos, por exemplo, no grau de dependência destas organizações em relação a financiadores públicos e/ou privados podendo se sobrepor aos seus princípios, objetivos etc. Para Francisco de Oliveira, que parece não considerar as ONGs como parte do terceiro setor, algumas destas organizações estariam se inserindo mesmo no que o autor observa como uma filantropização da pobreza como parte de uma gestão burocrática do social. Nos termos do autor:
Algumas das originais ONGs, que surgiram como vocalizações de grupos sem representação política, no crescimento exponencial da sociedade capitalista contemporânea, de certo modo estão entrando nesse terreno [na filantropização da pobreza], seja colaborando com o governo, ou com o terceiro setor, legitimando-os e transferindo-lhes a credibilidade que conquistaram a partir da crítica racionalidade burguesa instrumental.39
38 FERRAREZI, Elisabete. OSCIP. Obra citada, p. 16-19. 39
OLIVEIRA, Francisco de. Brasil: da pobreza da inflação à inflação da pobreza. In: Cadernos Abong. São Paulo: Editora Autores Associados, N.° 27- maio/2000.
No que se refere à lógica empresarial posta na dependência das ONGs dos financiadores por meio de projetos, Paulo Eduardo Arantes coloca:
Ocorre simplesmente que a cláusula sem-fins-lucrativos não é uma barreira à entrada no mundo dos negócios, podendo até representar uma senha privilegiada de ingresso. Segundo consta, a paulatina impregnação pelos usos e costumes da livre iniciativa começa pela inocente elaboração e execução de um ‘projeto’ em conformidade com as exigências de qualquer agência financiadora. Tais projetos lidam com fundos escassos sob severa vigilância, que por sua vez não tolera amadorismo, antes exigem, pelo contrário, um cálculo profissional de custo/benefício, na previsão do ‘retorno’ do investimento, o qual vem a ser a transformação do apoio recebido em serviço.40
Na verdade tem-se observado um nova transmutação, como (re)construção do marco semântico do capitalismo onde se consubstancia parcerias entre terceiro setor e um Estado cada vez mais distante de suas funções sociais e a constituição de um capitalismo esquizóide na figura das chamadas “empresas cidadãs” que recebem benefícios, como dedução dos “gastos filantrópicos”41 do imposto de renda, por sua “benevolência”. Nestes termos, penso que se o terceiro setor pouco passa de um reformismo em que não figura em seu horizonte, talvez, nem mesmo uma reforma do Estado no que se refere à sua desburocratização. Mike Davis42 pontua o reformismo de determinadas ONGs no Terceiro Mundo, já que algumas destas se vêem na dependência de poderosos financiadores como o Banco Mundial que, observa o autor, a partir principalmente da década de 1990, tem preterido, como “parceiro”, o Estado em detrimento de Organizações não governamentais enquadradas a seus termos. Na verdade, até que ponto pode-se falar de uma cidadania controlada, pois, ao mesmo tempo em que se “estimula” ou se trabalha com o popular como sujeito de direitos, ou como cidadão, os representantes destas ONGs, ou entidades, algo observado por mim no que se refere ao Fica Vivo, ao fim e ao cabo se mostram como tutores desta cidadania e destes direitos. Nos termos de Maria Célia Paoli, “... é possível que, no próprio ato em que se desenrola a discussão e deliberação, cassa-se o ato original da política”43 enquanto dissenso. Neste bojo, Francisco de Oliveira44 observa uma privatização da política onde, para sobreviver, as ONGs cada vez mais se confundem com o segundo setor, o mercado, se distanciando mesmo de seu caráter público não estatal o que, como já pontuado anteriormente, se consubstancia mais como um
40 ARANTES, Paulo Eduardo. Esquerda e direita no espelho das ONGs. Obra citada, p. 168. 41
Brasil: da pobreza da inflação à inflação da pobreza. Obra citada, p. 38.
42 DAVIS, Mike. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo Editorial, 2006. p. 79-101.
43 PAOLI, Maria Célia Paoli. O mundo do indistinto: sobre, gestão, violência e política. In: OLIVEIRA, Francisco de, RIZEK, Cibele Saliba. A era da indeterminação. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007. p. 225. 44
OLIVEIRA, Francisco. Capitalismo e política um paradoxo letal. In: NOVAES, Adauto (org). O esquecimento
reformismo reiterando os marcos constitutivos desta sociedade. Lívia de Tommasi observa as ONGs como entidades privilegiadas nas atuais parcerias e/ou convênios entre terceiro setor e Estado com a perda de espaço dos movimentos para essas organizações que surgiram, muitas, como parceiras prestando acessoria a movimentos reinvindicativos de meados da década de 1970. A autora coloca os termos da questão num processo que se consolida a partir da gestão Fernando Henrique Cardoso no Governo Federal. Nos termos da autora:
As orientações neoliberais do governo de Fernando Henrique Cardoso instauraram uma nova relação do estado (sic) com as entidades da sociedade civil, que se tornaram interlocutores importantes para a prestação de serviços, ou seja, executoras de programas e projetos definidos em âmbito governamental. Os argumentos que defendem essa ‘terceirização’ dos serviços sociais consideram que as ONGs têm mais agilidade e capacidade de resposta criativa aos problemas, mais contato direto com o público alvo e conhecimento das realidades locais e, por isso, são mais eficientes na execução dos programas sociais. De fato, contratando os serviços de alguma ONG o estado (sic) consegue evitar o complicado e difícil caminho burocrático da licitação.
Essa postura do estado (sic) tem provocado uma grande proliferação de ONGs, que hoje ocupam um lugar significativo na constituição da esfera pública brasileira; por outro lado, o fato de considerar as ONGs como interlocutores privilegiados tem enfraquecido a relação do estado (sic) com os movimentos sociais. O que tem acontecido, muitas vezes, é uma substituição dos atores em campo; as ONGs, que originalmente nasceram para apoiar a ação dos movimentos sociais e a construção de atores da sociedade civil, tem tomado o lugar desses (...) na relação com o estado (sic).45
A entidade responsável por parte da gestão do programa Fica Vivo é uma OSCIP, a ELO Inclusão e Cidadania que celebra termo de parceria com o Governo do Estado de Minas Gerais. No que se refere a um caráter empresarial com que tem se enredado as organizações do terceiro setor pode-se dizer que a lei das OSCIPs vem a reforçar este processocom uma OSCIPpodendo ser considerada quase como uma empresa disfarçada, por exemplo, de ONG, senão vejamos.
45
TOMMASI, Lívia de. Abordagens e práticas de trabalho com jovens das ONGs brasileiras. p. 6. Texto que
consta do endereço eletrônico
http://www.aracati.org.br/portal/pdfs/13_biblioteca/textos%20e%20artigos/texto_livia.pdf acesso em 20/03/2008 às 11:25 horas.
3.3. A chamada lei das OSCIPs e a instituição do termo de parceria entre Estado e