2.2. HAKARET SUÇUNUN MADDİ UNSURU
2.2.2. Mağdur
A historiografia especializada dá um destacado enfoque na produção de cultura escrita do judaísmo, uma vez que, em diversos casos de organizações comunitárias judaicas, há um acentuado incentivo à instrução e à cultura letrada, transitando a produção literária judaica sempre entre o hebraico e o idioma da sociedade em que a comunidade judaica está inserida. Esta cultura foi, evidentemente, responsável em grande medida pela espantosa sobrevivência da identidade judaica através dos tempos, espaços e civilizações e também pela cristalização de suas diferenças. Mas foi através da reprodução unívoca dos textos sagrados fundamentais – o Tanakh correspondente ao “Antigo Testamento” da Bíblia cristã – e de seus comentários mais consagrados – a Mishnah e o Talmud –, que um corpus judaico tornou-se possível. Processou-se assim a perpetuação da identidade judaica no âmbito local das comunidades dispersas e ao mesmo tempo uma dinâmica atualização internacional do judaísmo, especialmente no que diz respeito ao contexto europeu, mediterrâneo e médio-oriental, contexto no qual as comunidades judaicas dispuseram de redes de comunicação com centros que variaram ao passar do tempo, desde Babilônia, passando por Alexandria, al- Andaluz, Itália (especialmente Roma e Veneza), Constantinopla e Amsterdam, para pararmos em exemplos do século XVII – embora alguns destes centros tenham continuado importantes por muito mais tempo.
Assim, para que homens inseridos em contextos culturais tão diversos pudessem reconhecer-se como iguais, não se cristalizou um modo de vestir, de especialidades econômicas, ou de usos de barbas e cabelos. Muito pelo contrário, nestes quesitos, os judeus normalmente assimilaram as expressões da cultura do local onde se estabeleceram, seguindo modas e costumes que os “camuflaram”
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Hoje a Sinagoga Kahal Zur Israel possui um memorial e o visitante ao Centro Cultural Judaico de Pernambuco pode ver os vestígios materiais da primeira sinagoga construída no continente americano. Um salão de cerimônias foi construído, segundo projeto do arquiteto José Luiz Mota Menezes, inspirado em sinagogas sefaradim da mesma tradição e período, como as de Amsterdam e Curaçao.
dentre as civilizações281. O que estruturou a identidade judaica foi o rígido suporte textual, revitalizador da melancolia do destino vagante – não implicando em impossibilidade de adesão a uma coletividade outra que não a judaica, tal qual uma nação ou região, mas freqüentemente exigindo a negociação com este arcabouço étnico herdado.
“‘Raça saída do livro’ porque filhos da Terra que está para vir.” A dramática metáfora de Jacques Derrida revela-nos o dilema no qual se prende o indivíduo que assume esta identidade. No limite, o judaísmo consiste em um fenômeno tão antigo que a sua memória desdobra-se entre o percurso histórico específico e idiossincrático, que cada comunidade percorreu, e a inserção desta mesma comunidade na memória mítica dos textos sagrados, que fornecem a unidade enfim, a “origem” única compartilhada pelos grupos engajados naquela identidade. “O judeu, que elege a escritura, que elege o Judeu, numa troca pela qual a verdade de parte a parte se enche de historicidade e a história se consigna na sua empiricidade” (DERRIDA, 2002, p. 54) O texto torna-se espaço em si e para si mesmo “um espaço
no qual a identidade coletiva pode ser formada sem território e consequentemente pode ser uma metáfora para exílio e ‘desenraizamento’” (FONROBERT, 2005, p.
03).
Este aporte textual é portanto a base para um processo que arriscaríamos chamar de “civilizar-se enquanto judeu”. Não estou pensando estritamente como Nobert Elias (1994), pois a sua análise trata da emergência da idéia de civilidade na formação do mundo ocidental desde a Idade Média, uma idéia que fez a Europa enxergar-se como “a civilização”, superior ao resto do mundo “bárbaro”. Nos atemos, na análise de Elias, à idéia de processo, ou seja, a análise de como hábitos, idéias, costumes e estéticas são introjetados no comportamento humano. Pensamos aqui o “civilizar-se” de maneira mais ampla, ou seja, o introjetar de uma civilização qualquer. Trata-se de, portanto, de unir o pensamento de Elias – sobre um processo civilizador, a saber, o da formação da cultura ocidental – ao da análise de longa duração de Braudel – sobre as civilizações na história da humanidade. Ou seja,
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A imagem fácil do judeu barbudo com cachos caindo das têmporas, roupas e chapéus pretos tem um grande apelo, nos dias de hoje, devido à predominância deste estereótipo entre os ortodoxos de origem leste-européia. Os ashkenazim (judeus de origem leste-européia), por sua vez tornaram-se predominantes no mundo judaico no Ocidente – notadamente nos EUA – e em Israel. Entretanto, a estética ortodoxa ashkenazi pertence ao contexto polonês, ucraniano, bielorusso etc, sendo antes uma expressão daquela região, mesclada com a observância radical e literal de alguns preceitos bíblicos sobre a barba e cabelo.
trata-se de problematizar como as diversas civilizações criam mencanismos para
civilizar, cooptar os indivíduos. Portanto, reconhecendo o judaísmo como uma
civilização da diáspora (BRAUDEL, 1984, p. 166), intentamos reconhecer o processo civilizador judaico, intensamente ligado ao aporte cultural escrito.
Roger Chartier, por sua parte, nos oferece uma excelente perspectiva do funcionamento do processo civilizador através do aporte escrito:
“Existe também uma segunda trajetória que me parece fundamental. Se a primeira trajetória – a das novas formas de sociabilidade – identifica-se com a noção de vida privada, se a segunda – a da circulação do escrito – identifica-se com a perspectiva do espaço público e crítico; uma terceira identifica-se com o processo de civilização como o descreve Nobert Elias. É um processo compartilhado em ambos os lados do Atlântico e que incorpora nos indivíduos controles sobre seus comportamentos e condutas, que reforçam o umbral do pudor, que oprime os afetos e que, também neste caso, se produz apoiando-se na cultura escrita, pois por meio dos textos se definem as novas formas, desde Erasmo até os tratados de boas maneiras dos séculos XVII, XVIII e XIX se há uma incorporação, uma internalização das normas por meio da experiência imediata, é porque se utilizam os livros impressos; por uma lado os tratados de boas maneiras, e por outro os manuais escolares, a fim de impor “ditas” regras de comportamento. Temos também uma trajetória de longa duração que cruza o Atlântico e se apóia no escrito. Desta maneira, acredito que há uma possibilidade de vincular o que até agora está desvinculado.” (CHARTIER, 2001, p. 65). (grifos meus)
Podemos compreender que o judaísmo constitui, através do seu aporte textual, um severo modo de incorporação nos indivíduos de “controles sobre seus
comportamentos e condutas”. Não estamos argumentando que o judaísmo ou os
judeus puseram-se na posição de “Os” civilizados, tal como os europeus a partir do século XVIII, segundo Elias. Estamos sublinhando que o Judaísmo e, ainda mais, a vida comunitária judaica, implica em ingerências sobre o corpo e o comportamento, ingerências herdadas de formas relativamente fixas nos textos escritos, sejam os textos primeiros ou os comentários.
Robert Darnton (1992, p. 202) sugere que “(...) a leitura e a vida, a elaboração de textos e a compreensão da vida, estavam muito mais intimamente relacionadas no início do período moderno do que estão hoje”. Levando em conta esta prerrogativa, reforça-se a compreensão de que a literatura judaica, e seu código de conduta, foram cruciais na composição desta civilização, não à toa referida como o povo do livro. 282
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Muçulmanos e também os cristãos também faziam referência ao judeus como o “povo do Livro”. O grande pintor Rembrandt viveu no bairro judaico de Amsterdam e pintou cenas bíblicas com modelos
Não objetivamos descrever este arcabouço cultural judaico – isto pode ser confirmado em qualquer dos muitos manuais sobre judaísmo existentes – mas perceber quais as apropriações enunciadas na cultura escrita, que buscaram estruturar a comunidade no sentido de estabelecer uma coesão dentro do grupo. Para isto precisamos traçar um panorama da situação da língua e da instrução no contexto da comunidade Zur Israel.