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Gıyapta ihtilatlı hakaret

Belgede Hakaret suçu (sayfa 44-47)

2.2. HAKARET SUÇUNUN MADDİ UNSURU

2.2.3. Hareket

2.2.3.1. Suçun Öğeleri

2.2.3.1.3. Gıyapta ihtilatlı hakaret

É difícil precisar a familiaridade com línguas escritas no seio da comunidade judaica do Recife neerlandês. A maioria dos judeus ali residentes eram ex- residentes de Amsterdam, de origem portuguesa, e utilizavam a língua portuguesa corriqueiramente, mesmo na Holanda, onde publicavam livros na língua de Camões, tal como na de Cervantes, posto que a comunidade amsterdammer contava também com judeus espanhóis (OFFENBERG, 1993, passim).

Segundo a sugestão de Chartier (2001, p. 74-75), o levantamento de assinaturas em documentação dá “uma idéia” da familiarização de uma sociedade com a cultura escrita. No livro manuscrito dos regulamentos da comunidade judaica, as Haskamot (artigos), a maior parte das assinaturas (169 das 172, ou 98,25%) estão em português, o que indicaria uma falta de familiaridade daqueles judeus com o hebraico, mas também a familiaridade dos mesmos com o português. Isto obriga a rever o papel do hebraico enquanto língua difusora de conhecimento concreto sobre o judaísmo, porque afasta a possibilidade de que a maioria dos membros da comunidade efetivamente tivessem acesso aos textos fundamentais do judaísmo, relegando este conhecimento efetivamente a um grupo seleto, em especial ao rabinato. Assim, o hebraico figuraria como elemento fundamental da manutenção coesa do sistema judaico, porquanto dificultador da dispersão e facilitador da apropriação monopolista do discurso, funcionando, talvez, como o latim nas Igrejas coloniais, como mostrado acima.

Sabemos, por outro lado, que a comunidade dispunha de escola para instrução religiosa, o que implica em alfabetização em hebraico. Em Amsterdam, havia grande ênfase no ensino da prática falada e escrita do hebraico, pois, segundo

judeus, além de tê-los pintado cotidianamente. “De fato, o artista cristão encontra no bairro judeu onde mora [sic] os descendentes dos hebreus, e vê como vivem esses homens como que saídos das Escrituras, pois foi a providência divina que os conduziu até as margens do Amstel.” (MECHOULAN, 1992, p. 119)

Heide (1989, p. 139), os judeus portugueses nutriam grande admiração pelo hebraico. A escola religiosa e de hebraico chama-se Talmud Torah e é de praxe gratuita aos membros da comunidade, embora o não cumprimento das exigências fiscais da congregação Zur Israel fosse proibitivo neste sentido. Estipulava o artigo 15 sobre a inadimplência com as fintas de fim de ano que “[...] sendo que alguém não queira pagar nem vir a Congregação em espaço de um mês, seus filhos não serão admitidos em Talmud torah nem na Congregação”283

A educação em hebraico é essencial para os membros da congregação porque, normalmente, nas sinagogas, todos os membros da congregação eram chamados para ler uma parte do ofício, e os textos eram lidos necessariamente em hebraico. Existem várias passagens dos regulamentos que atestam o acesso de todos os membros da comunidade à leitura da Torah284 na tevah (púlpito) da sinagoga. A leitura na sinagoga é feita somente em hebraico, e a leitura diante do público estava notadamente restrita a determinadas orações (Tephilot), enquanto que na maioria das ocasiões explicita-se vigorosamente que apenas pessoas autorizadas poderiam fazer a leitura pública. O artigo 36, por exemplo, determinava “Que em nenhum tempo poderá subir outra pessoa a tevah a dizer Tephilah Minkha e Arvit285 senão o Hazan e em sua ausência o Ruby – e em falta, quem os senhores do Mahamad ordenarem”.286

Observamos, assim, que nas ocasiões em que o leitor e cantor litúrgico (Hazan) ou o professor de religião e hebraico (Ruby) não estivessem presentes para as orações lidas três vezes semanalmente (Tephila Minha e Arbit), os diretores da congregação (o Mahamad) definiriam o leitor. Existia uma preocupação tácita, observável em várias outras passagens do mesmo documento, com a capacidade de pronunciamento em hebraico dos membros da congregação. Aliás, o artigo 41 restringia completamente o acesso ao púltpito (tevah) a membros não autorizados:

“Não poderá ninguém em ausência do Hazan ou Rubi dizer qualquer das Thephilot sem Licença dos senhores do Mahamad, e em falta poderá mandar dizer um dos mais velhos”287

283

HASKAMOT, 1953, p. 223.

284

Torah é a parte do Tanakh (Bíblia Hebraica) que corresponde ao “Pentateuco” da Bíblia Cristã.

285

Tephilah Minkha é a oração do serviço religioso vespertino, enquanto que Tephilah Arvit é a oração do serviço feito após o crepúsculo

286

HASKAMOT, 1953, p. 227

287

Dentro do rigoroso ritual litúrgico processava-se uma concentração de poder por parte dos mais esclarecidos no judaísmo e mais aptos na língua hebraica.

Os artigos referentes à eleição de cargos traziam esta preocupação quando ressalvavam que “o [judeu] que for circuncidado nestas partes [no Brasil] que deste

não se fará eleição salvo passar hum ano para que esteja mais apto no tocante ao judaísmo”. 288 Em outras palavras, só estaria apto a eleger-se membro da diretoria da congregação aquele que estivesse civilizado nos parâmetros judaicos.

É importante observar que os próprios regulamentos estavam escritos em português, enquanto que apenas os termos ligados à tradição judaica foram escritos transliterados do hebraico. Isso evidencia que a comunicação com os membros da comunidade era feita em vernáculo, enquanto que a compreensão do judaísmo era mérito de cada um. Assim, as descrições das fintas, multas e impostos que pesavam sobre os membros da comunidade estão em português, com preços fixos na moeda neerlandesa, o florim. Mas todos os termos concernentes à cultura judaica aparecem em hebraico como a demarcar uma fronteira, senão para a inserção no grupo, pelo menos para o estabelecimento de relações de poder dentro da congregação. O domínio da escrita e leitura implicava em maior possibilidade de inserção social: o domínio do hebraico no contexto comunitário; e o do português no contexto profissional (veja-se a presença de judeus na corretagem, tradução de cartas, comércio em grosso e outras atividades que demandam esta capacidade).

Podemos antever um recurso intra-comunitário para estabelecer a ordem do discurso, isto é, uma desejada univocidade da interpretação do aparato cultural judaico. Há o interessante registro do envio de uma caixa de livros de Amsterdam para Recife, contendo alguns exemplares do Conciliador, livro publicado por Menasseh Ben Israel em espanhol, em 1632, no qual “procura reconciliar as passagens bíblicas que apresentam certas discordâncias” (FALBEL, 1999, p. 161). Basicamente trata-se de um livro de comentários, próprio para utilização didática, explicitando uma chave de interpretação restrita para as Escrituras. Atentemos para o significado do comentário dentro da cultura escrita:

“Por um lado permite construir (e indefinidamente) novos discursos: o fato de o texto primeiro pairar acima, sua permanência, seu estatuto de discurso sempre reatualizável, o sentido múltiplo ou oculto de que passa por seu

288

detentor, a reticência e a riqueza essenciais que lhe atribuímos, tudo isso fundo uma possibilidade aberta de falar. Mas, por outro lado, o comentário não tem outro papel, sejam quais forem as técnicas empregadas, senão o de dizer enfim o que estava articulado silenciosamente no texto primeiro” (FOUCAULT, 1998, p. 25)

Os comentários do Conciliador, enquanto livro doutrinário, ofereciam as chaves de leitura que elucidariam “enfim” o que o texto primeiro (o Tanakh, a bíblia judaica) de fato dizia. Este direcionamento tem ingerências importantes sobre o cotidiano dos indivíduos, carregando um apelo identitário fortíssimo no contexto de um grupo cuja auto-referência apóia-se em um papel cosmológico definitivo. Entretanto não ficava excluída a possibilidade de a rigidez deste apelo identitário provocar confusão nos membros do grupo, e a confusão aliada à instrução pode rapidamente levar à heresia. Ainda no século XVII, um promissor estudante a rabino em Amsterdam tornou-se uma aberração no seio da comunidade ao forçar a teologia judaica aos limites de um universalismo panteísta289. Baruch Spinoza pagou com a excomunhão por tal ruptura.

A excomunhão era, aliás, prevista em vários artigos dos regulamentos da Kahal Zur Israel, articulando-se com várias penalidades que variavam das várias multas a interdições ao enterro no cemitério comunitário e ao acesso dos filhos à escola comunitária

Por quê tanta rigorosidade? Certamente esta era uma característica da comunidade de Amsterdam, formada inicialmente por cristãos-novos que precisavam consolidar sua posição no mundo judaico, e o fizeram através da ortodoxia religiosa apreendida com o rabinato de Veneza. No contexto colonial, os judeus gozavam de privilégios frente à Companhia das Índias Ocidentais e era fundamental que a congregação conseguisse manter a ordem entre seus membros. Analisemos melhor esta questão.

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