2.2. İlgili Araştırmalar
2.2.1. Müzik Eğitimi İle İlgili Yurt İçinde Yapılmış Çalışmalar
No início do século XXI, a exclusão urbana se apresenta como um dos maiores desafios às metrópoles, seja dos países da Europa Ocidental, da América do Norte ou da
América Latina, quer se trate de países desenvolvidos ou em deselvolvimento. Os ‘guetos’ nos Estados Unidos, os ‘banlieues’12 na França, ou as ‘favelas’ no Brasil são territórios urbanos destinados às populações desfiliadas ou nunca integradas. As desigualdades agravadas pela globalização e pela desregulamentação do mercado de trabalho tornam-se objeto de mecanismos de contenção e controle, especialmente das regiões identificadas
como “regiões-problema”.
“Favela no Brasil, poblacione no Chile, villa miseria na Argentina, cantegril no Uruguai, rancho na Venezuela, banlieue na França, gueto nos Estados Unidos: as sociedades da América Latina, da Europa e dos Estados Unidos dispõem todas de um termo específico para denominar essas comunidades estigmatizadas, situadas na base do sistema hierárquico de regiões que compõem uma metropóle, nas quais os párias urbanos residem e onde os problemas sociais se congregam e infeccionam, atraindo a atenção desigual e desmedidamente negativa da mídia, dos políticos e dos diregentes do estado. São locais conhecidos, tanto para forasteiros como para os mais íntimos, como “regiões-problema”, “áreas proibidas”, circuito “selvagem” da cidade, territórios de privação e abandono a serem evitados e temidos, porque têm ou se crê amplamente que tenham excesso de crime, de violência, de vício e de desintegração social. Devido à aura de perigo e pavor que envolve seus habitantes e ao descaso que sofrem, essa mistura variada de minorias insultadas, de famílias de trabalhadores de baixa renda e de imigrantes não-legalizados é tipicamente retratada à distância em tons monocromáticos, e sua vida social parece a mesma em todos os lugares: exótica, improdutiva e brutal” (Wacquant, 2001b, p. 7).
Segundo Wacquant (2006), o problema da marginalização dos territórios urbanos é de ordem simbólica. Estes espaços participam da estruturação socioespacial e da organização da ordem das cidades. Configuram-se como ambientes estigmatizados, sobre
12Encontramos no dicionário vários significados para a palavra ‘ban’ como; grito e desterro. Banlieue (periferia) significa
os quais são projetados os riscos, medos e inseguranças da cidade, sendo destinados aos párias urbanos.
Wacquant (2001a) mostra para o caso norte-americano como o sistema prisional cresceu de forma massiva nas décadas de 1980 e 1990, quando há vinte e cinco anos todos diziam que estava a ponto de desaparecer, e alerta que essa expansão não se relaciona aos crimes em si, uma vez que nos Estados Unidos a população carcerária quadriplicou-se enquanto o índice de crimes se mantinha estável e depois diminuía. Este fenômeno não se restringe aos EUA, ele se estende à Inglaterra e a outras democracias ocidentais, como analisado por Garland (2008) e ao Brasil13. Wacquant (2004) afirma que, embora os especialistas defendam que o encarceramento em série tenha reduzido a criminalidade, os dois fatores não têm qualquer relação. A política penal tornou-se autônoma, seu discurso desvinculou-se da questão do crime para funcionar como instrumento de regulação do mercado, da mão-de-obra desqualificada e excluída, e de cunho ideológico, simbólico, reforçando a discriminação contra as populações pobres, fazendo-os crer que estão em situação social inferior por conta de sua própria incapacidade (Wacquant, 2004).
A metamorfose da questão social ao longo do século XX, seu deslocamento da tradicional oposição dominantes-dominados para o binômio exclusão-inserção é analisada como estruturante da marginalidade social14. O público majoritário das instituições do campo sociojudiciário de gestão da delinquência juvenil é de menores "excluídos".
Recorremos a este termo, apesar de seus múltiplos sentidos e usos15 para apreender as experiências práticas desses menores, sua condição social, econômica, política e psicológica, como resultado do que se poderia chamar de processo de "desfiliação". Este processo os leva a se perceberem e serem percebidos como inadequados ao mundo social e usuários preferenciais dos serviços públicos assistenciais, policiais e penais. Os menores
classificados como “infratores” ou seja, aqueles que à passagem ao ato infracional
receberam uma resposta institucional, constituem um grupo submetido às instituições
13 A população carcerária nos EUA mateve-se estável durante 60 anos, ou seja, abaixo de 150 presos por 100 mil
habitantes entre 1925 e 1984. Entre 1985 e 1998 a taxa de presos por 100 mil habitantes passou de 160 para 450, ou seja, em 14 anos a população carcerária dos EUA aumentou quase 3 vezes. Na Inglaterra, a taxa de presos por 100 mil habitantes oscilou entre 30 e 60 entre 1926 e 1966, a partir da década 1980 até 1998, a taxa sobe para 130 presos, ou seja, em apenas 18 anos a população carcerária inglesa aumentou mais de 2 vezes. No Brasil o percurso trilhado não é diferente. Segundo dados do Ministério da Justiça (Infopen), a população prisional no país, entre 1994 e 2010, aumentou de 84 presos por 100 mil habitantes para 258, ou seja, em apenas 16 anos a população carcerária do Brasil aumentou mais de 3 vezes.
14 Castel (1995), Fayard Nascimento (2005), Carreteiro (2007).
responsáveis pela "reforma” e “tratamento" que visam regular e corrigir sua inserção no
mundo social.
Nas sociedades brasileira e francesa transitam diferentes representações sociais da violência e suas formas de expressão. A exclusão urbana não se exprime da mesma maneira no Brasil e na França (Peralva; Adorno, 2005). O imaginário sobre as favelas é o de que estas são habitadas, em sua maioria, por negros que, às vezes, encontram-se em condições de pobreza absoluta16. Já as banlieues francesas seriam habitadas por uma população oriunda da imigração, que vive em uma pobreza relativa. Por isso mesmo, questões como a cor da pele, as origens étnicas, a violência urbana, a importância do tráfico de drogas, a intervenção da polícia e o papel do Estado são vividos e percebidos de acordo com a especificidade de cada realidade. Ainda que o aparecimento destes territórios nas metrópoles destes países remeta a origens, desenvolvimentos e percepções diferentes, relacionadas à singularidade e à gravidade dos problemas sociais dos contextos nos quais elas se inserem, estes territórios são atravessados por questões que possuem aspectos semelhantes.
Tanto na França quanto no Brasil a estigmatização territorial exerce forte impacto sobre a construção da subjetividade dos indivíduos que vivem nestes espaços urbanos segregados. Jovens e territórios são assimilados em uma mesma representação negativa, que insinua a periculosidade do jovem e do lugar. Nas banlieus e nas favelas, o estigma é um fardo pesado e convida a estabelecer estratégias de valorização pessoal que nem a escola nem a sociedade em seu conjunto têm condições de oferecer. O pertencimento a gangues (bandes) ou a facções caracteriza em primeiro lugar o acesso a uma forma de
“poder urbano” que garante prestígio e proteção (Boucher, 2007; Dowdney, 2003). Aliás, a
gangue pode ser considerada um prolongamento do bairro ou do território, visto que seus membros buscam, através de uma forma exacerbada de pertencimento territorial, recursos identitários que não encontram em outros lugares.
Na França, a violência urbana está associada aos jovens dos banlieues. Os levantes urbanos de novembro de 2005 acabaram reforçando esta imagem, consolidando a estigmatização das periferias urbanas como os ambientes típicos dos menores infratores, cristalizando na mídia, na opinião pública e no senso prático dos profissionais das agências
de controle, especialmente da segurança pública, a associação direta entre menores de origem imigrante, periferia urbana e violência (Duprez, 2006). Na França, as gangues de adolescentes estruturam-se em torno de um processo de segregação recíproca (Mohammed, 2009). Ele se baseia em uma forma de etnicização do grupo, reforçado pelas lógicas de segregação existentes no bairro ou na localidade de origem que levam à construção de uma referência identitária partilhada acerca do estatuto do estrangeiro.
No Brasil, e em particular no Rio de Janeiro, facções permanecem sendo o
instrumento do "movimento” (Misse, 2008) já que sua atividade delinquente está voltada
para o tráfico de drogas (mas não exclusivamente) e precisa de competências técnicas e relacionais peculiares. O tráfico não se limita a uma atividade delinquente marginal, mas penetra o cotidiano das favelas e de seus habitantes que sofrem o peso da "reciprocidade forçada" como modo de organização social (Misse, 2008). Se a "favela" está protegida das outras formas de delinquência pelos traficantes, os moradores sujeitam-se cotidianamente ao poder do tráfico, enquanto o Estado não só se mostra incapaz de protegê-los, mas também continua sendo visto como um potencial agressor. Vale lembrar que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo17 e os processos de segregação econômica e social restringem severamente a mobilidade social. Por isso, o tráfico constitui, para alguns adolescentes e jovens tanto uma alternativa de vida quanto um meio de sobrevida. Portanto, seja na França ou no Brasil, parece então que estes grupos de jovens não caracterizam somente uma agregação de indivíduos potencialmente marginais ou delinquentes, mas sim o resultado de situações e de interações sociais que se organizam, ao mesmo tempo, no âmbito local e global. Trata-se de um fenômeno social para o qual existem bases de longo prazo, especialmente no Brasil.
Mas foi ao longo dos últimos vinte anos que a questão da gestão e do tratamento da delinquência juvenil ocupa, no Brasil e na França, um lugar crescente nos discursos públicos, midiáticos e acadêmicos. A questão das violências particularmente associadas aos jovens de bairros populares e o tratamento penal, político e midiático que lhes é dedicado está no cerne das preocupações em ambos os países (Ilanud, 2009; Mucchielli, 2009). A
delinquência “de exclusão”, que está mais ou menos ligada ao desemprego, ao agravamento
dos problemas sociais e à falta de perspectivas quanto ao futuro também se manifesta nos
bairros pobres de ambos os países.18 Neles, os adolescentes cumulam toda sorte de deficiência: fracasso escolar, precariedade habitacional, ausência ou escassez de serviços e bens públicos e privados (Carreteiro,1993).
Mas, nas grandes cidades brasileiras, junta-se a isso o tráfico de droga que se desenvolve especialmente nas periferias e nas favelas. Taxas extremamente elevadas de adolescentes e jovens assassinados ou gravemente feridos e a disputa de territórios controlados por grupos com base em armas de fogo, além do frequente enfrentamento com a polícia em operações que se assemelham às de combates de guerra urbana, transformaram-se num dos principais problemas públicos do país (Misse, 2006; Zilli, 2011). Assim, é junto aos menores inseridos na delinquência de exclusão que as instituições públicas encontram as maiores dificuldades de atuação e os poderes públicos ficam tentados a reagir recorrendo à repressão e a um controle social mais duro (Sicot, 2006, 2007). E é no âmbito das possibilidades legais de encarceramento dos menores na repressão policial, cumulando inclusive no seu extermínio, que estes agentes policiais acabam reagindo a ações violentas de maior severidade. Pode-se falar, assim, de uma tendência a reforçar a penalização através de medidas punitivas, tanto na França quanto no Brasil.
Ao longo das últimos duas décadas, a questão do tratamento da criminalidade juvenil19 ocupa no Brasil e na França um lugar crescente nos discursos políticos e midiáticos20. O fantasma de uma juventude pobre, da “classe perigosa” aterroriza as sociedades brasileira e francesa e nutrem o debate político sobre a insegurança pública. Termos e expressões usados por políticos nos meios de comunicação na França como: "selvagens", "bárbaros", "escória" ou, no Brasil, como: “pivetes”, “miniaturas de
fascínoras”, “vagabundos”, nomeiam e agrupam de uma forma estigmatizante (Lacombe;
Moulin, 2000) crianças, adolescentes e jovens adultos pobres produzindo um personagem social e o pânico social associado a ele. O público majoritário das instiuições do campo sociojudiciário da delinquência juvenil tanto na França quanto no Brasil é de menores "excluídos".
Estes termos desqualificantes, expressos em um contexto político-midiático exploram o sentimento de insegurança (Mucchielli, 2002) e medo, sugerindo que este grupo
18 Faz mais sentido falar de delinquência de exclusão na França, por ser este um país que vivenciou, por meio do Estado de bem-estar social, a experiência da integração.
19 Ver a este propósito Mucchielli (2002) e Misse (2007). 20 Ilanud (2007) e Mucchielli (2009).
de indivíduos é desprovido de moralidade, e são incapazes de se adequar às regras e normas sociais que regem a sociedade. Esse tipo de discurso também destaca a subjetividade destes indivíduos (Carreteiro, 1993), insinuando que o centro do problema da criminalidade não se situa nem nas regras sociais nem nos fatores sociais explicativos da passagem ao ato infracional, mas no indivíduo, em certos traços de personalidade que os levam a desprezar os valores fundamentais da sociedade.
Nesse contexto político-midiático são oferecidas à opinião pública, reformas legislativas como medidas rápidas e eficientes ao problema público da delinquência juvenil. A questão das violências associadas aos adolescentes pobres e ao tratamento penal, político e midiático que lhes é consagrada está no centro das reformas legislativas no Brasil e na França. Por essa razão, os governos abusam das reformas legislativas como se a abordagem estritamente jurídica resolve-se o problema público da delinquência juvenil. Além disso, nas mudanças legislativas aprovadas, os objetivos estabelecidos raramente são atingidos, uma vez que as reformas legais não são acompanhadas de reformas estruturais.